Circulo Fechado

Danielle Steel

Romance.
Editora Temas E Debates, 2000.
Edio Original: 1984, By Penitreto Productions, Ltd.
Ttulo Original Ingls: Full Circle



Para Alex Haley, 
meu irmo, meu amigo, 
com muito, muito amor.
Para Isabella Grant, 
com amor e admirao e uma gratido imensurvel.
E com especial amor e gratido
para Lou Blau.
E sempre, sempre, para John, 
de todo o meu corao e alma.
D. S.


Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!


PARTE I
OS PRIMEIRO ANOS

CAPTULO 1
Na tarde de quinta-feira, 11 de Dezembro de 1941, o pas ainda estava  aturdido. A listagem das vtimas estava completa, os nomes das  pessoas mortas j tinham sido 
divulgados e, muito lentamente, nos  ltimos dias, o monstro da vingana comeava a levantar a  cabea. Em quase todos os coraes americanos havia uma  pulsao 
antes desconhecida. Acabou finalmente por bater   porta das casas e no era simplesmente uma questo de o Congresso  declarar a guerra. Era muito mais do que isso, 
muito, muito mais. Era  uma nao de pessoas cheias de pavor, raiva e medo sbito do  que pudesse acontecer.
Os avies de combate japoneses podiam surgir a qualquer momento do  dia ou da noite e, subitamente, destruir por completo cidades como  Chicago e Los Angeles, Omaha. 
Boston. Nova Iorque. Era um pensamento  aterrador. A guerra j no acontecia a uns distantes e remotos  eles; acontecia-nos a ns.
Enquanto Andrew Roberts caminhava apressado sob um vento gelado, com a  gola do casaco levantada, pensava no queJean iria dizer. H dois dias  quej sabia. Quando 
se alistara, no tinha qualquer dvida na  sua mente. Contudo, quando chegou a casa, olhou para ela, e as palavras  ficaram-lhe presas na garganta. Agora, porm, 
no havia outra  opo. Tinha de contar-lhe naquela noite. Ia partir para So  Diego da a trs dias.
A Terceira Avenida corria em frente quando os seus ps subiram os  degraus dianteiros do pequeno prdio de arenito pardo. Viviam ali  h menos de um ano e j quase 
no sentiam o comboio a passar.  No princpio fora terrvel e,  noite, deitavam-se agarrados um  ao outro e riam-se. At mesmo os candeeiros abanavam quando o comboio 
passava, mas agora j estavam habituados. E Andy acabara por gostar  do pequeno apartamento. Jean conservava-o impecavelmente limpo,  levantando-se por vezes s 
cinco da manh para lhe fazer bolinhos  de amora caseiros e deixar tudo imaculado antes de sair para o trabalho.  Ela tinha demonstrado ser ainda mais maravilhosa 
do que ele alguma vez  pensara e, sorrindo para consigo, rodou a chave na fechadura. O vento  gelado assobiava atravs da entrada, onde dois dos candeeiros estavam 
fundidos. Assim que entrou, tudo ficou mais alegre e iluminado. Havia  cortinados em organdi brancos feitos por Jean, um pequeno e bonito  tapete azul e capas de 
sof que ela aprendera a fazer num curso  nocturno. O mobilirio que compraram em segunda mo brilhava como  novo, sob as suas mos trabalhadoras. Olhou em redor 
e, subitamente,  sentiu a primeira pontada de pesar desde que se alistara. Era quase uma  dor visceral enquanto pensava em dizer-lhe que ia deixar Nova Iorque  dentro 
de trs dias. Subitamente os seus olhos encheram-se de  lgrimas ao compreender que no sabia quando ia regressar. quando.  ou mesmo se. mas raios, no era essa 
a questo, disse para  consigo. Se no fosse combater os Japoneses, quem iria ento? E se  no os combatessem, ento qualquer dia os malditos estariam a  sobrevoar 
e a bombardear Nova Iorque. e a sua casa. e Jean.
Sentou-se na poltrona por ela forrada num acolhedor tecido verde-escuro  e perdeu-se nos seus prprios pensamentos. San Diego. Japo.  Natal. Jean. No sabia h 
quanto tempo ali estava sentado quando,  de repente, ergueu a cabea, deslumbrado. Tinha ouvido a chave a  rodar. Ela abriu a porta, os braos cheios de sacos castanhos, 
e  no o viu logo. Deu um salto quando acendeu a luz e o viu a sorrir, o  cabelo louro a tapar-lhe um olho, como habitualmente, os olhos verdes  dirigidos para ela. 
Ainda era to bonito como quando se tinham  conhecido pela primeira vez. Nessa altura, ele tinha dezassete anos e  ela quinze. Seis anos. ele agora tinha apenas 
vinte e trs.
- Ol, querido. O que fazes aqui?
- Vim a casa para falar contigo.
Aproximou-se dela e, facilmente, pegou nos sacos com os seus poderosos  braos. Ela ergueu para ele os enormes olhos castanhos, com a  habitual expresso de admirao. 
Estava muito impressionada com  o marido, sempre estivera. Quando o conhecera, ele j andava no liceu  h dois anos, 
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que frequentara  noite, fizera parte da equipa desportiva da escola,  da equipa de futebol durante alguns meses, at se magoar no joelho, e  era uma estrela do 
basquetebol. E no lhe parecia menos herico  naquele momento. Na verdade, ainda lhe parecia mais e ela sentia-se  muito orgulhosa dele. Tinha arranjado um bom emprego. 
Vendia Buicks no  maior concessionrio de Nova Iorque e sabia que ele seria  eventualmente o gerente. um dia. ou talvez voltasse a estudar. J  tinham conversado 
sobre isso. Mas, de momento, trazia para casa um bom  salrio e, juntamente com o dela, viviam razoavelmente bem. Ela sabia  como esticar um dlar mais de um quilmetro. 
J o fazia h  muito. Os pais tinham falecido num acidente de viao, quando  acabara de fazer dezoito anos e, desde ento, sustentava-se a si  prpria. Felizmente, 
tinha acabado o curso de secretariado aquando da  morte deles, e fora uma aluna brilhante. J trabalhava no mesmo  escritrio de advocacia h quase trs anos. E 
Andy tambm  sentia orgulho nela. Ficava to engraada quando saa para o  emprego naqueles fatos bem talhados que ela prpria fazia, e com os  chapus e luvas que 
comprava sempre com tanto cuidado, verificando a  moda nas revistas e consultando depois Andy para se certificar de que  lhe ficavam mesmo bem. Voltou a sorrir-lhe 
enquanto ela descalava as  luvas e colocava o chapu de feltro preto sobre a cadeira verde.
- Como correu o teu dia, querida?
Gostava de brincar com ela, de belisc-la, de abra-la com  fora, de lhe cheirar o pescoo e de ameaar rapt-la,  sempre que regressava do trabalho. Era certamente 
muito diferente do  comportamento dela, sempre impecvel, quando saa para o emprego.  Voltava a entrar s para a ver mais uma vez e ela olhava para ele  to sria 
e calma que quase o assustava. Mas fora sempre assim. Na  verdade, tornara-se muito mais divertida desde que se casara com ele.  Comeava finalmente a descontrair-se. 
Beijou-a na nuca e ela sentiu  um formigueiro a percorr- la.
- Espera at eu acabar de arrumar as compras da mercearia. - Sorriu-  lhe misteriosamente e tentou tirar-lhe um dos sacos, mas ele afastou-se  e beijou-a nos lbios.
- Esperar porqu?
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- Andy. vamos. - As mos dele comearam a acarici-la  apaixonadamente, retirando-lhe o sobretudo e desabotoando o casaco do  fato que vestia por baixo. Os sacos 
das compras h muito que estavam  postos de lado quando se levantaram de repente, os lbios e corpos  muito unidos um contra o outro, at que Jean se afastou para 
respirar. Ela ria-se quando pararam, mas ele continuou a  acarici-la.
- Andy. O que  que se passa contigo?
Sorriu maliciosamente para ela, receando fazer algum comentrio que a  chocasse demasiado.
- No me perguntes. - Silenciou-a com outro beijo e retirou-lhe o  sobretudo, o casaco e a blusa, tudo com uma mo; um segundo depois, a  saia tambm caiu ao cho, 
revelando as ligas de renda branca com  cuecas a condizer, meias de seda com costura e um par de pernas  absolutamente sensacionais. Passou-lhe as mos pelas ndegas 
e  voltou a abra-la com fora; ela no se ops quando foi  conduzida para o sof. Pelo contrrio, despiu o marido rapidamente  ao mesmo tempo que se ouvia o comboio, 
e ambos desataram a rir.
- Maldita coisa. - murmurou ele, enquanto lhe desapertava o soutien e  ela sorria.
- Sabes, eu quase j gosto do som. - Desta vez foi Jean quem o beijou  e, um segundo depois, os seus corpos colaram-se tal como as suas bocas,  e pareceram ter passado 
horas quando ambos comearam a falar no  silncio da sala. A luz da cozinha ainda estava acesa, perto da porta  de entrada, mas no havia luz na sala de estar onde 
se deitaram, ou  no pequeno quarto ao fundo. Porm, at na escurido da sala,  sentia que Jean olhava para ele.
- Passa-se alguma coisa estranha, no ? - Ela sentira um pequeno  n no estmago durante toda a semana. Co nhecia o marido demasiado  bem. - Andy. - Ele ainda no 
sabia o que dizer. No era mais  fcil agora do que teria sido dois dias antes. E seria ainda pior  mais prximo do fim-de-semana. Mas tinha de lhe dizer nalgum 
momento.  S desejava que no tivesse de ser naquele. Pela primeira vez em  trs dias, perguntou-se se teria tomado a deciso certa.
- No sei bem o que dizer.
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Instintivamente, ela soube. Sentiu o corao a bater com fora  quando olhou para ele na escurido, com os olhos muito abertos, o  rosto j triste como sempre fora. 
Era muito diferente dele. Havia  riso nos olhos de Andrew, tinha sempre uma resposta na ponta da  lngua, uma anedota, um pensamento divertido. Possua olhos  alegres 
e sorria facilmente. A vida sempre fora fcil para ele. Mas  no para Jean. Possua a tenso nervosa tpica dos que  passaram por dificuldades desde que nasceram. 
Nascida de pais  alcolicos, com uma irm epilptica que morrera na cama ao lado  de Jean quando tinha treze anos e ela nove, rf aos dezoito, a  lutar pela vida 
quase desde o dia em que nascera possua, apesar de  tudo, um certo estilo inato, uma joie de viver que nunca pudera  florescer e que Andy sabia que daria flor a 
seu tempo, se  suficientemente nutrida. E nutria- a, de todas as formas possveis.  Mas no conseguia tornar as coisas mais fceis agora, e a velha  mgoa que vira, 
quando se conheceram, voltou subitamente a ver-se-lhe  nos olhos.
- Vais-te embora, no ?
Andrew assentiu, enquanto as lgrimas enchiam os olhos profundos e  negros de Jean. Encostou a cabea ao sof onde tinham acabado de  fazer amor.
- No fiques assim, amor, por favor. 
Ela f-lo sentir-se um patife; subitamente incapaz de encarar a sua  dor, levantou-se e atravessou a sala para retirar do casaco um mao  de Camel. Nervosamente, 
tirou um cigarro, acendeu-o e sentou-se na  cadeira verde,  frente do sof. Ela chorava copiosamente mas,  quando olhou para ele, no parecia surpreendida.
- Sabia que irias.
- Tenho de ir, amor: 
Ela anuiu. Mostrava compreender, mas isso no aliviava a dor. Parecia  que iriam ser precisas muitas horas para lhe despertar a coragem para  perguntar a nica coisa 
que queria saber, mas f-lo por fim.
- Quando?
Andy Roberts suspirou profundamente. Era a coisa mais dificil que alguma  vez dissera.
- Daqui a trs dias.
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Ela estremeceu visivelmente e voltou a fechar os olhos, abanando a  cabea enquanto as lgrimas corriam pelas faces.
Nos trs dias seguintes, nada voltou a ser normal. Ela ficava em casa  depois do trabalho e parecia muito atarefada, a fazer tudo o que pudesse  por ele, lavando-lhe 
a roupa interior, enrolando-lhe as meias,  fazendo-lhe biscoitos para o comboio. As mos dela parecia voarem  durante todo o dia, como se as quisesse manter ocupadas 
o mais  possvel, para se manter segura ou talvez at a ele. Contudo, de  nada serviu, pois no sbado  noite ele obrigou-a a largar tudo, a  parar de encher as 
malas com roupas de que no iria necessitar, de  fazer os biscoitos que ele nunca iria comer e de enrolar as meias que  podia dispensar. Tomou-a nos braos e ela 
finalmente sucumbiu.
- Meu Deus, Andy. Eu no. Como irei viver sem ti. - Quando olhou para  ela e viu a dor que provocara, ficou desfeito. Mas no tinha outra  escolha. nenhuma escolha. 
Era homem. Tinha de combater. O seu pas  estava em guerra. E o pior era que, quando no se sentia mal com o  que lhe fizera, sentia um estranho e desconhecido arrepio 
de  excitao pela ida para a guerra, como se esta fosse uma  oportunidade que talvez no voltasse a ter, algo que tinha de fazer  quase como um ritual mstico, 
para se tornar um verdadeiro homem. Mas  tambm se sentia culpado por isso. No sbado  noite, tambm  ele sucumbiu. Estava to dividido entre as pequenas mos  
acariciadoras de Jean e o que sabia que tinha de fazer que desejou que  tudo j tivesse terminado e estivesse no comboio, a caminho do Oeste;  mas j no faltava 
muito tempo. Tinha de apresentar-se na Grand  Central Station s cinco da manh. Quando, no pequeno quarto, se  levantou por fim para se vestir, voltou-se e olhou 
para ela; estava mais  calma, as lgrimas esgotadas, os olhos inchados e vermelhos, mas  parecia um pouco mais resignada do que antes. Para Jean, numa forma um  
tanto terrvel, desesperada e assustadora, era como perder de novo a  irm ou os pais. Andy era tudo o que tinha. E preferia morrer a  perd- lo. De repente, ele 
tambm a deixava.
- Ficas bem, no ficas, amor? - Sentou-se na borda da cama, a olhar  para ela, ansioso por ouvi-la agora a dar-lhe coragem. Ela sorriu com  tristeza e estendeu-lhe 
uma mo.
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- Creio que tenho de ficar, no ? - E voltou a sorrir, quase  misteriosamente. - Sabes o que desejo? - Ambos o sabiam: que ele no  fosse para a guerra. Ela leu-lhe 
os pensamentos e beijou-lhe os dedos. -  Alm disso... espero que me tenhas engravidado esta semana. - Sob as  emoes dos ltimos dias, tinham esquecido as precaues. 
Ele percebera isso, mas havia tantas outras coisas em que pensar.  Esperava apenas que ela no estivesse no perodo crtico. E se  estivesse? No ano que passara, 
haviam tido tanto cuidado com isso.  Concordaram desde o incio que no queriam bebs durante algum  tempo, pelo menos no nos primeiros anos, at ambos terem o 
seu  emprego; talvez Andy voltasse a estudar por mais dois anos. No havia  pressa; ambos eram jovens, mas agora. na semana que decorrera, toda a  vida deles se 
tinha virado do avesso.
- J tinha pensado nisso. Achas que. - Olhou-a preocupado. No era  isso que ele queria, de modo algum. No queria que ela passasse uma  gravidez sozinha, com ele 
s Deus sabe onde, na guerra.
- Talvez. - murmurou ela. E depois sorriu de novo e endiritou-se. -  Informar-te-ei.
- ptimo.  disso que precisamos. - Subitamente pareceu  preocupado, olhando nervoso para o relgio da mesinha-de-cabeceira.  Passavam dez minutos das quatro. Tinha 
de partir.
- Talvez sim. - E acrescentou, impetuosa: - Quero o que acabei de dizer,  Andy. Gostava muito.
- Agora? - perguntou, estupefacto.
- Sim - anuiu ela, num sussurro.

CAPTULO 2
O comboio passou junto  casa de Jean Roberts, fornecendo a nica  brisa que ela sentira desde h dias, ali sentada diante das janelas.  Parecia que todo o prdio 
se tinha transformado num inferno, visto  que o calor abrasador de Agosto se libertava dos passeios e penetrava  directamente nas paredes da construo de arenito 
pardo. s  vezes,  noite, tinha de sair da cama e sentar-se no alpendre s  para apanhar um pouco de ar, enquanto o comboio passava. Noutras,  sentava-se na casa 
de banho, enrolada numa toalha molhada. Parecia  no haver maneira de se refrescar e o beb tornava tudo pior. O  seu corpo estava prstes a explodir e, quanto mais 
quente ficava,  mais pontaps o beb dava, como se soubesse, como se se sentisse  tambm abafado. Jean sorriu com o pensamento. J mal conseguia  esperar para ver 
o beb. S faltavam mais quatro semanas. Quatro  semanas para ter o filho deles nos braos. Esperava que fosse  parecido com Andy. Ele agora estava no Pacfico a 
fazer o que tanto  quisera, a combater os Japoneses como dizia nas cartas, embora as  palavras a fizessem sofrer sempre. Uma das raparigas do escritrio de  advogados 
onde trabalhara era japonesa e fora muito simptica com  ela, ao saber que estava grvida. At a ajudara no trabalho  quando, no incio, Jean se sentia demasiado 
indisposta para se mover.  Arrastava-se para ir trabalhar e ficava a olhar para a mquina de  escrever, rezando para que no vomitasse at chegar  casa de  banho. 
Tinham-na mantido ali durante seis meses, o que fora um gesto  decente da parte deles. Sabia que tinha sido mais tempo do que a maioria  dos escritrios de advogados 
a teria mantido, mas acharam que era a  atitude patritica a tomar por causa de Andy, tal como este lhe  dissera numa das cartas. Escrevia-lhe quase todos os dias, 
embora s  raramente recebesse notcias dele mais de uma vez ao ms. A maior  parte das vezes, sentia-se demasiado cansado para escrever, e as cartas  levavam uma 
eternidade a chegar. Estava muito distante da venda de  Buicks em Nova Iorque, como dissera
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numa das cartas, fazendo-a rir ao falar da m alimentao e dos  colegas. De certa maneira, ele parecia faz-la rir sempre com as suas  cartas. Fazia com que tudo 
parecesse melhor do que era, e ela deixava de  se sentir to assustada quando recebia notcias dele. No  princpio andara aterrorizada, em particular quando se sentira 
to  mal. Tinha passado por um grande dilema quando soubera que estava  grvida. Primeiro, parecera- lhe uma ptima ideia naqueles  ltimos dias anteriores  ida 
dele; porm, quando soubera,  entrara em pnico. Significava ter de abandonar o emprego e ficar  sozinha. Como  que iria sustentar-se a ela e ao beb? Tambm  temera 
desesperadamente a reaco dele. S quando por fim Andy  lhe escrevera, parecendo ter ficado to animado,  que tudo para  ela surgira bem de novo. Nessa altura, 
j tinha quase cinco meses de  gravidez e j no andava to nervosa.
Nos ltimos meses, Jean tivera bastante tempo para transformar o  quarto de casal num berrio para o beb. Ela prpria fez  tudo em tecido branco com fitas amarelas, 
cosendo e tricotando, fazendo  gorrinhos, botinhas e casacos. At pintou pequenos e engraados  murais nas paredes do quarto e nuvens no tecto, embora uma das vizinhas 
se tivesse zangado quando soube que ela pintara tudo sozinha e se  empoleirara em escadotes. Mas nada mais havia para fazer, agora que  j no trabalhava. Tinha 
poupado todos os cntimos que pudera;  j nem sequer ia ao cinema com medo de gastar as poupanas e  recebia do exrcito uma parte do salrio de Andy. Iria precisar 
de  tudo o que possua para o beb e, se pudesse, iria ficar em casa  durante os primeiros meses; depois, teria de arranjar uma ama e voltar a  trabalhar. Esperava 
que a velha Mrs. tleissman do quarto andar cuidasse  do beb. Era uma mulher carinhosa, do tipo av, que j vivia no  prdio h muitos anos e ficara feliz quando 
soubera do beb de  Jean. Vinha saber dela todos os dias e, por vezes, at descia   noitinha, incapaz de adormecer com o calor, e batia-Lhe  porta  quando via 
luz por baixo desta.
Nessa noite, contudo, Jean no acendeu a luz. Sentou-se apenas no  escuro, sentindo falta de ar devido ao calor abrasador, escutando  comboios atrs de comboios 
at pararem e comearem de novo,  pouco antes de amanhecer. Jean at viu
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o Sol nascer. Perguntou a si prpria se voltaria alguma vez a  respirar normalmente, ou a deitar-se sem sentir que estava a ficar  asfixiada. Havia dias em que o 
esforo era enorme e o calor e o  comboio no ajudavam. Eram quase oito horas da manh quando ouviu  baterem  porta e pensou ser Mrs. Weissman. Vestiu o roupo 
cor-de-rosa e, com um suspiro de cansao, caminhou descala em  direco  porta de entrada. Graas a Deus s faltavam  quatro semanas. Comeava a pensar que no 
seria capaz de aguentar  muito mais.
- Ol. 
Abriu totalmente a porta com um sorriso cansado, esperando ver a amiga,  e corou quando viu que olhava para o rosto de um desconhecido, um  desconhecido de uniforme 
castanho, com boina e gales cor de  mostarda, que lhe entregava um sobrescrito amarelo. Olhou para ele sem  compreender, sem querer compreender, pois sabia demasiado 
bem o que  aquilo significava, e o homem parecia olhar para ela pelo canto do olho.  Era como se o rosto dele estivesse distorcido enquanto ela cambaleava  devido 
ao choque e ao calor, pegando no sobrescrito e rasgando-o sem  dizer uma palavra. Ali estava o que tanto temera. Voltou a olhar para o  mensageiro da morte, focando 
os olhos nas palavras do seu uniforme,  enquanto a boca formava um grito, e caiu redonda aos ps dele. Ele  baixou-se aterrorizado e, subitamente, gritou a pedir 
ajuda. Tinha  dezasseis anos e nunca estivera assim to perto de uma mulher  grvida. Abriram-se duas portas do outro lado da entrada e, pouco  depois, ouviu-se 
o som de ps a correr pelas escadas acima. Mrs.  OCleissman colocou panos hmidos na cabea de Jean, enqunto o  rapaz se aastava lentamente e depois corria pelas 
escadas. Tudo o  que queria fazer era sair daquele pequeno prdio asfixiante. Nessa  altura, Jean j chorava e Mrs. Weissman e duas outras senhoras  conduziram-na 
para o sof, onde agora dormia. Era o mesmo sof  onde o beb fora concebido, onde se deitara e fizera amor com Andy.  Andy. Andy. Lamentamos inform-la. o seu marido 
morreu ao servio  deste pas. morto em combate em Guadalcanal. em combate. em combate.  Sentiu a cabea a andar s voltas e no conseguiu ver as  caras.
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- jean. Jean. - Chamaram-na vrias vezes; sentindo algo gelado no seu  rosto, enquanto olhavam para ela e entre si. Helen Weissman leu o  telegrama e, rapidamente, 
mostrou-o s outras. - Jean. 
Lentamente, Jean foi recuperando os sentidos, mal conseguindo respirar,  e elas ajudaram-na a sentar-se, obrigando-a a beber um pouco de gua.  Olhou directamente 
para Mrs. Weissman e, de sbito, lembrou-se e os  soluos comearam a sufoc-la mais d que o calor. J  no conseguia respirar. Tudo o que podia fazer era chorar 
e apoiar-se  na velha senhora, que a abraou. Ele morrera. tal como os outros.  como a me e o pai e Ruthie. Desaparecera. Tinha desaparecido. Nunca  mais voltaria 
a v-lo. Soluou quase como uma criana pequena,  sentindo um peso no corao que nunca antes sentira, mesmo pelos  outros.
- Est tudo bem, querida, est tudo bem. - Mas todos sabiam que  no estava, nem nunca mais estaria, no para o pobre Andy.
Pouco depois, as outras regressaram aos seus apartamentos, mas Helen  Weissman ficou. No gostou do olhar vtreo da rapariga, da forma  como se sentava e olhava 
em volta e subitamente comeava a  soluar, nem do choro interminvel que ouviu nessa noite quando,  por fim, deixou Jean por uns momentos, regressando depois para 
abrir a  porta destrancada e ver como ela se encontrava, tal como fizera todo o  dia. At ligou para o mdico de Jean, antes de ele sair do  consultrio; este pediu 
a Mrs. Weissman que dissesse a Jean o quanto  lamentava. O mdico alertou-a para o facto de Jean poder entrar em  trabalho de parto devido ao choque sofrido, o que 
era exactamente o que  ela mais temia e de que at sus peitava, por ter visto Jean a apoiar  as mos nas costas vrias vezes nessa noite e caminhar sem parar  pelo 
apartamento, como se este tivesse encolhido de mais nas ltimas  horas. Todo o seu mundo desabara e no tinha para onde ir. Nem sequer  havia um corpo para mandar 
para casa. Apenas a memria de um rapaz  louro, bonito e alto. e o beb no seu ventre.
- Sente-se bem?
O sotaque de Helen Weissman fez Jean sorrir. J estava
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no pas h quarenta anos, mas ainda falava com um acentuado  sotaque alemo. Era uma mulher simptica e sensata, e gostava de  Jean. Perdera o marido trinta anos 
antes e nunca mais voltara a  casar-se. Tinha trs filhos em Nova Iorque, que a visitavam de tempos  em tempos, em geral para deixarem os seus respectivos filhos 
para ela  cuidar, e um filho que possua um bom emprego em Chicago. 
- Tem dores? - Os olhos dela procuravam os de Jean e esta abanou a  cabea. Todo o seu corpo doa depois de um dia de choro e,  contudo, sentia-se entorpecida por 
dentro. No sabia o que sentia:  apenas dor, calor e inquietao. Arqueou as costas como para as  esticar.
- Estou bem. Porque no vai dormir um pouco, Mistress Weissman? - A  voz soou rouca, aps um dia de choro. Olhou para o relgio da  cozinha e verificou que tinham 
passado quinze horas desde que recebera o  telegrama, com a notcia sobre Andy. Quinze horas que mais pareciam  quinze anos. mil anos. Caminhou de novo pelo quarto, 
sob o olhar de Mrs.  leissman.
- Quer ir dar um passeio l fora? - O comboio apitou perto e Jean  abanou a cabea. Estava muito calor para caminhar, mesmo s onze  horas da noite. De repente, 
Jean sentiu ainda mais calor do que durante  todo o dia.
- Acho que vou beber qualquer coisa gelada: - Ela prpria se serviu  de um copo de limonada que guardava no frigorfico. Soube-lhe bem  senti-la descer, mas o lquido 
voltou para cima quase de imediato.  Correu para a casa de banho, onde vomitou e de onde saiu plida, um  pouco depois. 
- Devia deitar-se. - Humildemente, concordou. Sentiu-se ainda mais  desconfortvel quando se deitou: Era mais fcil estar sentada do  que deitada e, por isso, tentou 
de novo a velha e confortvel cadeira  verde mas, passados alguns minutos, descobriu que nem isso podia fazer.  Tinha dores persistentes na parte inferior das costas 
e uma  sensao estranha no estmago.  meia-noite, Helen Weissman  deixou-a de novo sozinha, mas s depois de insistir com Jean para que  a chamasse durante a noite 
se tivesse algum problema. Jean tinha a  certeza de que tal no iria ser
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necessrio. Apagou as luzes e sentou-se sozinha no silncio do  apartamento, a pensar no marido. Andy. nos seus enormes olhos verdes e  cabelo louro liso. estrela 
do desporto. heri do futebol. o seu  primeiro e nico amor. o rapaz por quem se apaixonara perdidamente  assim que o vira. Enquanto pensava nele, sentiu uma dor 
aguda a  atravess-la desde a barriga at s costas e depois mais outra,  e outra, e outra, de tal forma que j no conseguia respirar.  levantou-se a cambalear, 
cada vez com mais nuseas, mas determinada a  chegar  casa de banho, onde se manteve debruada sobre a sanita  durante quase uma hora, as dores a martelarem-lhe 
o corpo, as nsias  de vmito a rasgarem-lhe a alma, at que por fim e em voz muito  fraca, quase inconsciente, comeou a chamar por Andy. Foi ali que  Helen Weissman 
a encontrou  uma e meia da manh. Tinha decidido  v-la mais uma vez, antes de se deitar. O calor era demasiado para  algum dormir nessa noite e por isso ainda 
estava acordada, ao  contrrio do que era habitual. E agradeceu a Deus por isso, quando a  encontrou. Regressou ao seu prprio apartamento s para telefonar  ao 
mdico e  Polcia, que prometeu mandar uma ambulncia de  imediato. Vestiu uma bata de algodo, pegou na carteira, manteve  caladas as mesmas sandlias e regressou 
a correr para junto de  Jean para colocar-lhe um roupo  volta dos ombros. Dez minutos  mais tarde, ouviram as sirenas. Hlen ouviu, mas Jean parecia no  ouvir 
nada; apenas vomitava e chorava. Helen tentou acalm-la.  Torcia-se de dores e chamava pelo nome de Andy quando chegaram ao  Hospital de Nova Iorque. O beb no 
levou muito tempo a nascer. As  enfermeiras levaram Jean numa maca e no tiveram tempo para lhe dar o  que quer que fosse antes de a magra mas resistente menininha 
de dois  quilos e oitocentos gramas ter emergido, com cabelos negros e punhos bem  cerrados, a gritar a plenos pulmes. Helen Weissman viu-as cerca de  uma hora 
depois. Jean encontrava-se, por fim, sob sedativos e o beb  dormia confortavelmente.
Mrs. Weissman regressou ao seu apartamento nessa noite, pensando nos  anos de solido que Jean Roberts tinha pela frente, criando sozinha a  sua filha; uma viva 
aos vinte e
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dois anos. Helen limpou a lgrima que lhe corria pela face, enquanto  passava o comboio das quatro e meia da manh. A velha senhora  conhecia o tipo de devoo que 
era preciso ter para se criar uma  criana sozinha, uma espcie de zelo religioso, uma paixo  solitria para se fazer tudo por aquele beb que nunca iria  conhecer 
o pai. 
Na manh seguinte, Jean olhou para a filha, quando a trouxeram para  amamentar pela primeira vez; observou o pequeno rosto, o sedoso cabelo  negro que segundo as 
enfermeiras acabaria por cair, e soube  instintivamente o que teria de fazer por ela. No se sentiu  minimamente assustada. Era o que ela queria. Um beb de Andy. 
Era  aquele o seu ltimo presente para ela. Iria cuidar da filha com a  prpria vida, faria tudo o que pudesse, dar- lhe-ia apenas o melhor.  Iria viver, respirar, 
trabalhar, fazer e dar a sua prpria alma  quele beb.
A pequena boca em forma de boto de rosa trabalhava 
enquanto ela amamentava, e Jean sorriu perante a sensao  desconhecida. No acreditou que tivessem passado vinte e quatro horas  desde que recebera a notcia da 
morte de Andy, quando entrou uma  enfermeira para as ver a ambas. Parecia estarem bem, e o beb tinha  um bom tamanho, tendo em conta que nascera quatro semanas 
mais cedo.
- Parece que tem um bom apetite - disse a mulher de 
bata e touca branca engomada, olhando para me e filha. -O pai j  a viu? - No podia saber. ningum sabia. excepto Jean e Helen  Weissman. Os olhos de Jean encheram-se 
de lgrimas e abanou a  cabea, enquanto a enfermeira lhe afagava um brao, sem  compreender. No, o pap dela ainda no a viu, e nunca a  ver. - Que nome lhe vai 
dar? 
Tinham falado nisso vrias vezes nas cartas que trocaram e chegado,  por fim, a um acordo em relao ao nome para uma rapariga, embora  ambos pensassem que seria 
um rapaz. Era engraado como, depois do  primeiro momento de surpresa e quase desapontamento, uma rapariga  parecia muito melhor agora, como se essa tivesse sido 
desde sempre a  escolha deles. De certa forma, a natureza tratava as coisas. Se tivesse  sido um rapaz, dar-lhe-ia o nome do pai. Mas Jean tinha encontrado um  nome 
feminino de que gostava e disse-o 
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 enfermeira, com os olhos a brilhar de orgulho enquanto abraava  a filha.
- O nome dela  Tana Andrea Roberts. Tana. - Gostava do som, e  parecia servi-la na perfeio.
A enfermeira sorriu, enquanto retirava o pequeno fardo dos braos de  Jean, depois de terminada a mamada. Alisou os cobertores experientemente  com uma mo e olhou 
para
Jean.
- Agora descanse, Mistress Roberts. Trarei a Tana de novo, quando ela  estiver pronta.
A porta fechou-se e Jean encostou a cabea  almofada, cerrando os  olhos e evitando pensar em Andy, mas somente na filha de ambos. No  quis imaginar a forma como 
ele morrera, no que lhe teriam feito. se ele  teria gritado o seu nome. Ouviu-se um pequeno soluo e ela virou-se  na cama, deitando-se de barriga para baixo pela 
primeira vez em meses, o  rosto enterrado na almofada. Assim se manteve e
chorou durante o que lhe pareceu um nmero infindo de horas, at  adormecer por fim, e sonhou com o rapaz louro por quem se apaixonara. e  com a filha que ele lhe 
deixara. Tana. Tana.

CAPTULO 3
O telefone na secretria de Jean Roberts tocou apenas uma vez at  ela atender. Tinha uma forma de agir enrgica e eficaz, fruto dos  longos anos de trabalho intenso. 
Estava agora com vinte e oito anos,  Tana tinha seis, e Jean julgou que daria um grito se tivesse de  trabalhar mais um dia num escritrio de advogados. Em seis 
anos,  tivera trs empregos em escritrios de advogados, uns mais  aborrecidos do que outros. Mas o salrio era bom e agora tinha de  pensar em Tana. Tana estava 
sempre em primeiro lugar. Tana, o centro da  existncia de Jean.
- Por amor de Deus, deixa a criana respirar. - dissera-lhe uma vez  uma colega, e Jean passara a ser mais compreensiva depois disso.
Sabia exactamente o que fazia, levando-a ao teatro e ao ballet, a  museus, livrarias, galerias de arte e concertos que podia pagar,  ajudando-a a beber todas as 
gotas de cultura. Quase tudo o que ganhava  era investido na educao, sustento e diverso de Tana. E tinha  poupado todos os cntimos da penso de Andy. No que 
a  criana fosse mimada em excesso, pois no era. Jean, porm,  queria que ela tivesse tudo de bom na vida, as coisas que ela prpria  raramente tivera e que julgava 
serem muito importantes. Era difcil  saber se poderiam ter tido esse tipo de vida com Andy. Era mais  provvel que ele tivesse alugado um barco e as houvesse levado 
a dar  um passeio em Long Island Sound, ensnado Tana a nadar muito cedo,  ido apanhar conchas ou correr no parque, andar de bicicleta. Teria  adorado a criana 
pequena e bonita, to parecida com ele. Alta, de  cabelos louros lisos, olhos verdes, com o mesmo sorriso encantador do  pai. As enfermeiras do hospital haviam tido 
razo quando ela nascera.  Os sedosos cabelos negros tinham cado e sido substitu dos por  uma penugem dourada, quase branca, que  medida que fora crescendo se 
transformara em autnticos fios de cabelo dourado. Era uma menina  muito bonita e Jean sentia-sa sempre muito orgulhosa dela. At  conseguiu tir-la de escolas
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pblicas quando tinha nove anos e mand-la para o Colgio  particular de Miss Lawson. Isso significara muito para Jean e era uma  oportunidade maravilhosa para Tana. 
Arthur Drning tinha-a ajudado  nisso, insistindo tratar-se de um pequeno favor. Ele sabia bem como as  boas escolas eram importantes para as crianas. Tinha dois 
filhos,  embora frequentassem as requintadas escolas de Cathedral  Williams,  em Greenwich, e eram respectivamente dois e quatro anos mais velhos do  que Tana.
O emprego surgiu quase por acidente, quando Arthur veio ao escritrio  de advogados onde Jean trabalhava para uma srie de longas  reunies com Martin Pope, o scio 
principal. Trabalhava com Pope,  Madison e DVatson h j dois anos e era um trabalho bastante  aborrecido, mas o salrio era mais do que alguma vez se atrevera a 
esperar. No dispunha de tempo para procurar um emprego divertido,  pois tinha sempre de pensar em Tana. Pensava nela noite e dia. Toda a  sua vida girava em volta 
da filha, como explicou a Arthur quando este a  convidou para uma bebida, depois de a ver durante quase dois meses de  reunies com Martin Pope. 
Nessa altura, Arthur e Marie estavam separados. Na verdade, ela  encontrava-se em Nova Inglaterra, numa instituio privada. Ele  parecia no gostar de falar nisso 
e ela nunca insistiu. Tinha os seus  prprios problemas e responsabilidades. Nunca se apoiou nos ombros de  outras pessoas para chorar o marido que perdera, a criana 
que  sustentava sozinha, as responsabilidades, os encargos, os medos. Sabia o  que queria. para Tana, o tipo de vida, a educao, os amigos. Iria  dar- lhe segurana, 
custasse o que custasse, o tipo de vida que ela  prpria nunca tivera. Sem Jean ter de falar de mais, Arthur Durning  pareceu ter compreendido. Era o director de 
uma das maiores empresas do  pas relacionada com plsticos, vidro e embalagens alimentares, e  possuam at grandes aces de petrleo no Mdio  Oriente. Era um 
homem mito rico. Mas tinha a forma de estar calma e  sem presunes de que ela gostava.
Na verdade, havia muita coisa em Arthur Durning que a atraa o  suficiente para aceitar o convite para jantar, feito
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pouco depois da primeira bebida. Voltaram a sair e no espao de um  ms criaram uma relao. Ele era o homem mais animado que Jean  Roberts alguma vez conhecera. 
Havia uma aurola de poder em seu redor  que quase se podia tocar; era muito forte e, contudo, vulnervel;  sabia que ele tinha sofrido muito com a mulher. Acabou, 
finalmente, por  falar no assunto. Marie tinha-se tornado uma alcolica, quase logo a  seguir ao nascimento do segundo filho. Jean sabia perfeitamente a dor  que 
isso causava, pois tinha visto os pais beberem at morrer e, no  fim, matarem-se num acidente de viao, bbedos, numa rua  coberta de gelo, na vspera do Ano Novo. 
Marie tambm tivera um  acidente de viao, quando, numa noite, dava boleia a vrias  rapariguinhas. Ann e as amigas tinham dez anos e uma das crianas  quase falecera. 
Marie Durning concordou em ser internada depois disso,  mas Arthur no teve grandes esperanas. Ela tinha trinta e cinco  anos e fora uma bbeda inveterada durante 
dez; Arthur estava  completamente farto disso. O suficiente para se sentir atrado por  Jean. Aos vinte e oito anos, havia nela algo invulgarmente dignificante  
de que ele gostava e, ao mesmo tempo, havia suavidade e meiguice nos  seus olhos. Parecia que se preocupava bastante com tudo e, em  particular, com a filha. O seu 
calor veio  tona e era disso que ele  mais precisava nessa altura. No princpio, no sabia que fazer com  ela, ou que dizer dos seus sentimentos. Ele e Marie j 
eram casados  h dezasseis anos, e ele tinha agora quarenta e dois. No sabia  que fazer quanto s crianas,  sua casa.  sua vi da. a  Marie. Nesse ano, tudo parecia 
andar s voltas, e isso no lhe  agradava. No incio, no levou Jean a casa com medo de aborrecer  os filhos mas, por fim, acabou por v-la quase diariamente, e 
ela  comeou a cuidar de certas coisas dele. Contratou duas criadas novas,  um jardineiro que el no teve tempo de atender, organizou alguns dos  pequenos jantares 
de negcios que gostava de dar, uma festa para as  crianas no Natal e ajudou-o a escolher um carro novo. Tirou uns dias  de frias para fazer duas viagens curtas 
com ele. Subitamente,  parecia que ela cuidava de toda a sua vida e que ele no sabia fazer  nada sem ela. Jean comeou a perguntar cada vez mais a si mesma o que 
isso significava, embora
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no seu ntimo soubesse a resposta. Estava apaixonada por ele, e ele  por ela. Assim que Marie estivesse suficientemente bem para saber da  notcia, divorciar-se-iam 
e ele casaria com Jean...
Em vez disso, aps seis meses, ele ofereceu-lhe um emprego. Ela  no sabia bem o que fazer. Na verdade, no queria trabalhar para  ele. Estava apaixonada por Arthur 
e ele era maravilhoso; porm, da  forma como lhe descrevera o trabalho, era como se abrisse uma janela  para uma paisagem h muito, muito ansiada por ela. Podia 
fazer  exactamente tudo o que fizera nos ltimos seis meses, mas apenas como  amiga. Organizar festas, contratar pessoal, certificar-se de que as  crianas tinham 
a roupa adequada, os amigos certos, as amas certas.  Ele achava que ela tinha um gosto fabuloso e no fazia ideia de que  tanto Jean como Tana vestiam as roupas 
que ela prpria fazia. At  tinha forrado a moblia do seu pequeno apartamento. Ainda viviam no  estreito prdio de arenito, perto da Terceira Avenida e Helen  leissman 
ainda olhava por Tana quando Jean estava a trabalhar. No  entanto, com o emprego que Arthur lhe oferecera, podia mandar Tana para  uma escola decente e ele at a 
ajudaria nisso. Teria possibilidade de  mudar-se para uma casa maior, pois Arthur era at dono de um  prdio na Upper East Side. No era na Park Avenue, dissera-lhe 
ele  com o seu meio sorriso, mas era muito melhor do que aquele onde viviam.  Quando lhe disse o salrio que tinha em mente, ela quase teve um  colapso. E o trabalho 
iria ser to fcil! 
Se no fosse por Tana, talvez tivesse recusado. Teria sido mais  fcil no ficar a dever-lhe nada e, no entanto, era uma  oportunidade maravilhosa de estarem sempre 
lado a lado. quando Marie,  estivesse bem. J existia uma secretria de administrao na  Durning International, mas havia um pequeno gabinete isolado por trs  
da sala de conferncias, junto do bonito gabinete de painis de  madeira que ele utilizava. V-lo-ia todos os dias, estaria mesmo ao  lado e acabaria por ser virtualmente 
essencial para ele, tal como agora  estava rapidamente a tornar-se. Seria quase o mesmo, explicou-lhe ele,  implorando para que aceitasse o emprego, oferecendo-lhe 
cada vez mais  beneficios e at um salrio cada vez
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mais alto. J estava dependente dela, precisava dela e,  indirectamente, as crianas tambm, embora ainda no a  conhecessem. Mas era a primeira pessoa em quem ele 
podia apoiar-se desde  h muitos anos. Durante quase duas dcadas, todos se tinham  apoiado nele e, subitamente, ali estava algum com quem ele podia  contar, algum 
que parecia nunca voltar-lhe as costas. Tinha pensado  bastante no assunto e queria que ela estivesse sempre perto de si, disse  nessa noite na cama, enquanto lhe 
implorava de novo que aceitasse o  emprego.
Afinal, embora parecesse lutar arduamente, era uma deciso fcil  de tomar, e toda a sua vida lhe parecia agora um sonho. Ia diariamente  para o emprego, muitas 
vezes depois de ele ter passado a noite consigo.  Os filhos estavam habituados a que o pai passasse algumas noites na  cidade, e a casa de Greenwich tinha agora 
pessoal muito eficiente.  Arthur j no se preocupava tanto com eles; embora, no  princpio, Ann e Billy tivessem passado um mau bocado quando Marie  partira; agora 
pareciam menos nervosos com isso. Assim que conheceram  Jean, foi como se tivessem sido amigos desde sempre. Ela levava-os  constantemente ao cinema com Tana, comprava-lhes 
os brinquedos e as  roupas, dava-lhes bo leia, ia s suas escolas e peas de teatro  escolares quando Arthur estava fora da cidade e cuidava dele ainda  melhor: 
Era como um gato bem alimentado, a polir as unhas junto   lareira; uma noite ele sorriu-lhe no apartamento que lhe arranjou.  No era sumptuoso mas, para Tana e 
Jean, era mais do que suficiente:  dois quartos, uma sala de estar, uma sala dejantar e uma bonita cozinha.  O prdio era moderno, bem construdo e limpo e, das 
janelas da  sala de estar, via-se East River. No era nada como ter o comboio a  passar ao p da janela.
- Sabes - olhou para ele, a sorrir -, nunca fui to feliz na minha  vida. 
- Nem eu. No entanto, isso acontecera poucos dias antes de Mari Durning  ter tentado acabar com a vida. Algum lhe contara que Arthur tinha  uma relao amorosa, 
embora no lhe ti vessem dito com quem, e  tudo passou a ser rpido a partir
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da. Seis meses mais tarde, os mdicos comearam a falar na  hiptese de ela poder voltar para casa. Nessa altura, Jean j  trabalhava para Arthur Durning h mais 
de um ano. Tana estava feliz  com a escola nova, a casa nova e a vida nova, tal como Jean.  Subitamente, foi como se tudo parasse. Arthur foi ver Marie e regressou 
com um ar pesaroso.
- O que  que ela disse? - perguntou Jean, olhando para ele com os  olhos muito abertos e assustados.
Tinha agora trinta anos. Queria segurana e estabilidade e no uma  relao clandestina para o resto da vida. Mas nunca se opusera   vida deles, por saber o quo 
doente estava Marie Durning, e como  isso o preocupava. Ainda na semana anterior, ele tinha conversado sobre  o casamento com Jean. Olhou para ela com uma expresso 
triste nunca  antes vista, como se j no tivesse esperana, nem sonhos.
- Disse que se no pudesse voltar para casa para junto de ns,  tentaria de novo o suicdio.
- Mas ela no pode fazer-te isso. No pode continuar a  ameaar-te durante o resto da vida.
Jean queria gritar, e o pior de tudo  que Marie podia fazer  ameaas, e fazia. Regressou a casa trs meses depois, com apenas  um tnue vestgio de sanidade. Voltou 
para o hospital no Natal  desse ano e para casa na Primavera; dessa vez, ficou at ao Outono e  comeou a beber em excesso, devido aos almoos de brdege com  as 
amigas. Assim se passaram mais de sete anos.
Quando ela saiu do hospital pela primeira vez, Arthur ficou to  preocupado que at pediu a Jean para o ajudar.
- Ela no tem jeito para nada, tu no compreendes. No   nada como tu, querida. Ela no consegue. mal consegue pensar.
Por amor a Arthur, Jean viu-se na posio nada invejvel de  amante a cuidar da esposa. Passava com ela dois ou trs dias por  semana, em Greenwich, durante o dia, 
tentando ajud-la a cuidar da  casa. Marie receava desesperadamente ser apanhada em flagrante: todos  sabiam que ela bebia, incluindo os filhos. No incio, parecia 
que a  encaravam com desespero e, por fim, encaravam-na com desprezo. Ann era  quem mais a odiava; Billy desesperava-se sempre que ela se embriagava.  Era um espectculo
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de pesadelo e, tal como Arthur, passados poucos meses, Jean estava  envolvida. No a podia abandonar, deix-la ir. seria como  abandonar os seus pais. Era como se, 
desta vez, ela pudesse fazer com  que as coisas acontecessem correctamente. Mesmo assim, Marie acabou por  encontrar um fim quase idntico ao dos pais de Jean. Ia 
encontrar-se  com Arthur na cidade para assistirem a um ballet e Jean tinha a certeza  que ela estava sbria quando saiu, pelo menos assim o julgara; mas  Marie 
devia ter uma garrafa com ela. Perdeu o control do carro numa zona  com gelo da Merritt Parkway, a meio caminho de Nova Iorque, e teve morte  imediata.
Ambos se sentiam gratos por Marie nunca ter sabido da sua relao  mas o pior de tudo foi que Jean aprendera a gostar dela. Chorou no  funeral mais do que os prprios 
filhos; s aps vrias  semanas conseguiu aceitar de novo passar uma noite com Arthur. A  relao j durava h oito anos agora e ele receava o que os  filhos pudessem 
dizer.
- Seja como for, tenho de esperar um ano. Jean no discordou e, de  qualquer modo, ele passava bastante tempo com ela. Era atencioso e  galante. Ela nunca pde queixar- 
se. Contudo, era importante para ela  que Tana no suspeitasse da sua prolongada relao mas, um ano  aps a morte de Marie, ela finalmente revoltou-se e acusou 
Jean.
- Sabe, me, eu no sou estpida. Sei o que se passa. Era alta,  esbelta e bela, como Andy Fora, e possua o mesno brilho  inconfundvel nos olhos, como se estivesse 
sempre prestes a dar uma  gargalhada, mas no dessa vez. Sentia-se magoada, e os olhos quase  faiscavam quando olhou para Jean: - Ele trata-a como lixo e h anos 
que  assim. Porque  que no se casa consigo, em vez de  escapar-se para dentro e para fora daqui a meio da noite? -Jean deu-lhe  uma bofetada por isso, mas Tana 
no se incomodou. J tinham  passado demasiados dias festivos sozinhas, com caixas caras de lojas  fabulosas, mas mais ningum seno elas as duas ali, enquanto ele 
ia para o clube com os amigos. At mesmo no ano em que Ann e Billy  tinham ido para casa dos avs. - Nunca est aqui quando   preciso! No v isso, me? - Lgrimas 
enormes rolavam pelo  seu rosto, enquanto soluava, e Jean teve de virar-lhe as costas e  afastar-se. A voz soou rouca quando tentou responder por ele.
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- Isso no  verdade.
- , sim. Ele deixa-a sempre sozinha. E trata-a como
uma criada. Cuida da casa dele, leva os filhos a passear e ele
oferece-lhe relgios de diamantes e pulseiras de ouro, malas, 
      carteiras e perfumes. E depois? Onde est  ele? Isso  o que interessa, no ?
Que podia ela dizer? Negar a verdade  sua  prpria filha?
Sentiu-se destroada por se aperceber de tudo aquilo que Tana tinha  visto.
      - Ele faz o que tem a fazer.
- No, no faz. Ele faz o que quer fazer. - Era  muito
perspicaz para uma rapariga de quinze anos. - Ele quer estar em  Greenwich com todos os seus amigos, ir a Bal Har-        bour no Vero e  a Palm Beach no Inverno 
e, quando vai a
Dllas em negcios, leva-a. Mas alguma vez a leva a Palm
Beach? Alguma vez nos convida? Deixa alguma vez que a
Ann e o Billy vejam o que a me significa para ele? No. Escapa-se  daqui para que eu no saiba o que se passa. Pois
      bem, eu sei... Raios... eu sei...
-        Todo o seu corpo tremia de fria. Tinha visto  a dor nos
olhos de Jean vezes de mais ao longo dos anos e estava assustadoramente  perto da verdade, como Jean sabia. A verdade era que a relao  deles era confortvel para 
Arthur e ele
no era suficientemente forte para fazer frente aos filhos. Estava  aterrorizado com o que pudessem pensar da sua relao
com Jan. Era um dnamo em negcios, mas no conseguia
lutar da mesma maneira em casa. Nunca tivera a coragem de
      enfrentar o bluff de Marie e afastar-se  simplesmente; at ao fim, sentira-se intimidado com os caprichos  alcolicos dela.
      Agora, ia fazer o mesmo com os filhos. Mas Jean tambm
tinha as suas prprias preocupaes. No  gostou do que Tana lhe dissera e, nessa noite, tentou falar sobre isso  com
      Arthur, mas este desencorajou-a com um sorriso  cansado.
Tivera um dia difcil e Ann estava a causar-lhe  alguns problemas.
      - Naquela idade, todos tm. ideias  prprias. Diabo, olha
      para os meus.
      Billy tinha dezassete anos e fora apanhado duas vezes a
conduzir sob o efeito do lcool nesse ano e Ann  acabara de
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ser expulsa do segundo ano da Universidade de lellesley, aos dezanove.  Queria ir para a Europa com os amigos, enquanto Arthur queria que ela  passasse algum tempo 
em casa. Jean at tentu lev-la a  almoar para ter uma conversa com ela, mas esta recusou dizendo-lhe  que, at ao fim do ano, havia de conseguir o que queria 
do pai.
E, tal como dissera, conseguiu. Passou o Vero seguinte no Sul de  Frana, onde conheceu um piayboy francs de trinta  sete anos  e com quem se casou em Roma. Ficou 
grvida, perdeu a criana e  regressou a Nova Iorque com crculos escuros por baixo dos olhos e  uma predileco por comprimidos. O seu casamento tinha-a tornado 
famosa na imprensa internacional, e Arthur sentiu-se farto daquilo,  quando conheceu o jovem. Teve de pagar uma fortuna para o afastar, mas  pagou, e ele deixou 
Ann em Palm Beach para recuperar, como lhe disse.  Todavia, ela parecia criar muitos problemas ali, bebendo toda a noite  com rapazes da sua idade ou, sempre que 
possvel, com os pais destes.  Era uma pessoa de caractersticas dificeis, algumas das quais Jean  no aprovava, mas j tinha vinte e um anos e Arthur pouco ou nada 
podia fazer. Tinha herdado uma grande parte dos bens da me e  possua os fundos de que precisava para fazer o que lhe apetecesse.  Antes dos vinte e dois anos, 
voltou para a Europa, onde viveu, agitada.  A nica coisa que alegrou um pouco Arthur foi o facto de Billy ter  conseguido permanecer em Princeton nesse ano, apesar 
dos inmeros e  quase fatais acidentes que teve.
- Tenho de confessar que eles no do muita paz de esprito,  no , amor? - Agora passavam seres juntos em Greenwich, mas a  maior parte das noites ela insistia 
em ir para casa; mesmo que fosse  muito tarde. Os filhos dele j l no viviam, mas ela ainda  tinha Tana em casa. Jean nunca sonharia passar uma noite fora, a no 
ser que Tana ficasse em casa de uma amiga, ou passasse um fim-de-semana  a esquiar em qualquer lado. Havia algumas formas de estar que ela  esperava manter, e isso 
comovia-o. - Sabes, de qualquer modo, eles fazem  o que querem, Jean, por melhor que seja o exemplo que deres. - De certo  modo era verdade, mas no tentou contrari-la 
muito. Estava  habituado a passar as noites
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sozinho, pelo que quando acordavam lado a lado sabia
ainda melhor. Havia muito pouca paixo naquilo que compartilhavam.  Mas era reconfortante para ambos, em particular para ele. Ela no lhe  pedia mais do que ele 
quisesse dar; e ele sabia o quanto ela estava  grata por tudo o que lhe fizera ao longo dos anos. Dera-lhe uma  segurana que talvez no tivesse conseguido sem ele, 
um emprego  maravilhoso, uma boa escola para a filha e, sempre que pudera; alguns  extras: 
viagens, jias, peles. Para ele, eram extravagncias menores
e, embora Jean Roberts ainda fosse uma maga em trabalhos
com agulha e linha, j no tinha de forrar a moblia ou  fazer
      as suas prprias roupas, graas a ele.  Havia uma mulher        -a-dias que vinha duas vezes por semana, um telhado  confortvel sobre as suas cabeas e Arthur 
sabia que ela o  amava.
Ele tambm a amava, mas  sua maneira, e nenhum  deles
      voltou a falar de casamento durante anos. J  no havia moti        vo para isso. Os filhos estavam praticamente  criados, ele
tinha cinquenta e quatro anos, o seu imprio ia  bem, e Jean
inda era uma mulher atraente e razoavelmente jovem, embora nos  ltimos anos se notasse nela um ar antiquado.
Contudo, ele gostava dela assim e parecia quase inacreditvel
que tivessem passado doze anos. Ela fizera quarenta anos
nessa Primavera e ele levara-a a passar uma semana a Paris.
Foi quase um sonho. Trouxe dzias de pequenos tesouros
para Tana e encantou-a com histrias interminveis, incluindo a do  jantar de anos no Maxim's. Era sempre triste voltar
para casa depois de viagens como aquela, acordar de novo
sozinha, procurando por ele  noite e no encontrando ningum  a, mas ela vivera assim tanto tempo que j no a incomodava,  ou assim fingia para consigo mesma. 
Depois do
desabafo de trs anos antes, Tana nunca mais voltara a acus-la.  Depois disso, ficara muito envergonhada. A me fora
sempre to boa para ela...
- S quero o melhor para si... s isso... Quero que seja
feliz... e que no fique sempre sozinha...
-No estou, querida. - As lgrimas encheram os
olhos de Jean. - Tenho-te a ti.
- No  a mesma coisa. - Abraou-se ento  me e  o
tema proibido no voltou a ser tocado. Mas no houvera
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qualquer afecto entre Arthur e Tana quando se conheceram, o que sempre  preocupou Jean. Na verdade, teria sido mais difcil para ela se ele,  apesar de tudo, tivesse 
insistido no casamento, devido ao que Tana  sentia por ele: Esta achava que ele tinha usado a me durante os  ltimos doze anos, sem dar
nada em troca.
- Como podes dizer isso? Devemos-lhe tanto! - Lembrou-se do apartamento  por baixo da linha frrea, do qual Tana no se lembrava, das faces  magras, das noites em 
que no conseguia comprar a carne para  alimentar a filha, ou de quando lhe comprava costeletas de borrego ou um  pouco de bife, comendo ela prpria macarro durante 
trs ou  quatro dias.
- O que  que lhe devemos? Uma grande parte deste apartamento? E  depois? A me trabalha, podia, muito bem ter arranjado um apartamento  como este. Podia ter feito 
um monto de coisas sem ele.
No entanto, Jean no tinha assim tanta certeza. Ficaria assustada se  o deixasse agora, assustada por no trabalhar para a Durning  International, por no estar 
ao lado dele, por no ter o  apartamento, o emprego, a segurana que sabia existir sempre ali. o  carro que ele substitua de dois em dois anos, para que pudesse 
deslocar- se facilmente a Greenwich. Primeiro, dera-lhe uma carrinha,  para que pudesse dar boleia aos filhos dele. Contudo, os ltimos dois  foram mais pequenos; 
uns bonitos Mercedes. No era que desse muita  importncia a presentes caros, masisso representava mais, muito,  muito mais. Era algo relacionado com o facto de 
sa ber que Arthur estava  ali, se precisasse dele. Ter-se-ia aterrorizado, se assim no fosse,  e j estavam juntos havia tanto tempo. Independentemente do que Tana 
pensasse, ela no teria sido capaz de desistir de tudo.
- E o que ir acontecer quando ele morrer? - Tana es tava de novo a  ser dura. - Ficar sozinha e sem emprego! Nada! Se ele a ama, porque   que no se casa consigo, 
me?
- Penso que estamos bem assim.
Os olhos de Tana eram grandes, verdes e duros, tais como os de Andy,  quando discordara com ela. 
- Isso no basta. Ele deve-lhemais do que isso, me.  tudo  to fcil para ele. 
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-  fcil para mim tambm, Tan. - No conseguiu discutir com  ela nessa noite. - No tenho de me habituar s queixas dos outros.  Vivo como bem me apetece. Crio 
as minhas prprias regras. E quando me  apetece, ele leva-me a Paris ou Londres, ou a Los Angeles. No   uma vida assim to m.
No era totalmente verdade, mas agora era impossvel mudar. Cada  uma tinha o seu modo de pensar. Assim que arrumou os papis da  secretria, sentiu-o subitamente 
na sala. De certo modo, ela sabia  sempre quando ele se encontrava ali, como se algum, anos antes,  tivesse plantado um radar no seu corao, destinado a  localiz-lo 
s a ele. Tinha entrado silenciosamente no gabinete,  no longe do seu prprio, e olhava para Jean quando esta ergueu os  olhos e o viu ali em p.
- Ol. - Sorriu, com aquele sorriso que s eles partilhavam h  mais de doze anos; sentia um raio de sol no corao dele de cada  vez que olhava para ela. - Como 
foi o teu dia?
- Est melhor agora.
No a tinha visto desde o meio-dia, o que era pouco habitual. Parecia  marcarem encontro meia dzia de vezes durante a tarde, tomavam  caf todas as manhs e muitas 
vezes convidava-a para almoarem  juntos. Houvera sempre muitos rumores ao longo dos anos, em particular  logo aps a morte de Marie Durning, mas acabaram por desaparecer 
e  todos presumiram que eram amigos ou, se eram amantes, eram to  discretos que ningum se apercebia; por isso j ningum se  incomodava a falar deles. Ele sentou-se 
na sua
confortvel cadeira favorita do outro lado da secretria e acendeu  o cachimbo. Era um aroma que ela acabara por amar como fazendo parte  dele, h mais de uma dcada, 
e estava impregnado em todas as salas  onde vivia, incluindo o seu prprio quarto com vista para o East  River.
- Que tal passares o dia comigo em Greenwich, amanh, Jean? Porque   que no fazemos ambos gazeta para va riar? - Era raro ele fazer  isso, mas tinha trabalhado 
arduamente nas ltimas sete semanas. Ela  achou que um dia de folga iria ser bom para ele e desejou que Arthur  fizesse mais
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vezes coisas desse gnero. Mas, desta vez, sorriu-lhe com ar  triste.
- Gostava de poder ir. Amanh  o nosso grande dia. Em geral ele  esquecia-se de coisas como aquela. Mas na realidade ela nunca esperou  que ele se lembrasse do 
dia da formatura de Tana. Olhou intrigado para  ela e Jean sorriu, enquanto dizia uma nica palavra: - A Tana.
- Oh, claro. - Arthur sacudiu o cachimbo e franziu a
testa enquanto se ria para ela. - Que estpido sou. Ainda
bem que no dependes de mim como eu de ti, ou estarias
quase sempre em sarilhos.
- Duvido. - Sorriu adoravelmente para ele e algo de
muito reconfortante passou de novo entre os dois. Era quase
como se no precisassem de palavras. E, apesar de tudo o
que Tana dissera ao longo dos anos, Jean Roberts no precisava de  mais nada do que aquilo que tinha. Quando se sentou ali com o homem que  amava h tantos anos, 
sentiu-se
totalmente realizada.
- Ela est animada com a cerimnia da entrega de diplomas? -  perguntou ele a Jean.
A sua maneira, ela era uma mulher muito atraente. O cabelo estava  salpicado de cinza e tinha uns olhos escuros
enormes e belos; havia nela algo de delicado e gracioso. Tana era maior,  mais alta, quase uma esttua, com uma beleza
que certamente faria parar os homens na rua, nos prximos
anos. Ia para Green Hill College, no corao do Sul, e fora
admitida por mrito prprio. Arthur achou que era uma estranha  escolha para uma rapariga do Norte, visto que andariam l  principalmente belezas do Sul, mas tinham 
um dos
melhores cursos de lnguas dos Estados Unidos, laboratrios
excelentes e um ptimo curso de arte. A deciso fora de Tana, que  recebera a bolsa de estudos com base nas suas notas
e estava pronta para partir. Tinha um emprego em Nova Inglaterra, num  acampamento de Vero, e iria para Green Hillj
no Outono. O dia seguinte, iria ser o seu grande dia: o dia
da entrega de diplomas.
- Se o volume da aparelhagem dela  indicao do que
sente -Jean sorriu -, ento, passou eufrica o ltimo  ms.
      - Oh, nem me recordes isso... por favor... O  Billy e
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quatro amigos vm a casa na prxima semana. Esqueci-me de te dizer  isso. Querem ficar na casa da piscina e, provavelmente, iro  deit-la abaixo. Telefonou-me ontem 
 noite. Graas a Deus,  s ficaro c duas semanas, antes de prosseguirem a viagem. -  Billy Durning j tinha vinte e dois anos e estava mais selvagem do  que nunca, 
segundo os relatrios que vinham da escola. Mas sabia que  ele ainda estava, provavelmente, a reagir  morte da me. Fora  duro para todos. Principalmente para Billy; 
pois tinha somente dezasseis  anos quando ela morrera, uma idade dificil. Todavia, as coisas estavam  um pouco melhor agora. - A propsito, ele d uma festa na  
prxima semana. Sbado  noite, parece-me.
Fui informado e ele pediu-me para te dizer.
Ela sorriu.
-Vou tomar a devida nota. Algum pedido especial? Arthur sorriu. Jean  conhecia-os a todos muito bem.
- Uma banda, e pediu-me para estar preparado para duzentos ou trezentos  convidados. E, a propsito, diz  Tana. Talvez ela queira ir. Ele  poder mandar um dos 
amigos busc-la.
- Dir-lhe-ei. Tenho a certeza de que ir. - Mas s Jean sabia como  aquela mentira era grande. Tana odiara Billy Durning durante toda a sua  vida, mas Jean tinha-a 
obrigado a ser corts, sempre que se  encontravam, e chamar-lhe-ia denovo a ateno. Teria de agradecer  a Billy com educao e ir
 sua festa, se ele a convidara, em especial depois de tudo o que o  pai fizera por elas. Jean nunca a deixava esquecer-se disso.
No vou! - Tana olhou com teimosia para Jean enquanto a aparelhagem  soava ensurdecedora do seu quarto. Paul Anka cantava Put Your Head on My  Shoulder e ela j 
a tocara no mnimo sete vezes, para espanto de  Jean.
- Se ele foi suficientemente simptico para te convidar, podias ao  menos ir um bocado. - Era uma discusso que j tinham tido antes,  mas Jean estava determinada 
a vencer desta vez. No queria que Tana  fosse malcriada.
- Como  que posso ir um bocado? Levo, pelo menos, uma hora a l  chegar e outra para regressar. Ento, o que fao? Fico dez  minutos? - Empurrou uma longa madeixa
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de cabelo cor de trigo para trs do ombro com uma expresso  desesperada. Sabia como a me era sempre insistente com tudo o que  dissesse respeito aos Durning. - 
Vamos l me, j no somos  crianas. Porque  que tenho de ir, se no quero? Porque   m criao dizer que no? No podia ter
outros planos? De qualquer modo, vou- me embora daqui a duas semanas e  quero estar com os meus amigos. Nunca mais nos veremos. - Parecia  desesperada, e a me sorriu.
- Falaremos sobre isso noutra altura, Tana. No entanto, Tana sabia como  acabavam aquelas discusses. Quase resmungou. Sabia como a me  iria teimar sobre a festa 
de Billy Durning e, aos seus olhos, ele era um  vagabundo. Ann era ainda pior aos olhos de Tana. Era snob, empertigada e  parecia uma mulher fcil, por mais educada 
que pretendesse ser com  Jean. Tana sabia que ela era provavelmente uma prostituta, pois tinha  visto o seu comportamento nalgumas das outras festas de Billy, alm 
de tratar Jean de uma forma condescendente, que causava em Tana a  vontade de lhe dar uma bofetada. Contudo, Tana tambm sabia que toda  e qualquer demonstrao 
dos seus sentimentos para com a me  dariam de novo origem a uma grande discusso. J tinha acontecido  vezes sem conta, mas nessa noite no lhe apetecia.
- S quero que compreenda o que sinto agora, me. Eu no  vou.
- Ainda falta uma semana. Porque  que tens de decidir hoje?
- Estou apenas a dizer-lhe. - Os olhos verdes pareciam tempestuosos e  ameaadores, e Jean sabia que era prefervel no a contrariar  quando olhava assim.
- O que  que descongelaste para o jantar de hoje? Tana sabia que a  me tentava mudar de assunto, mas decidiu continuar o jogo e seguia-a  at  cozinha.
- Tirei um bife para si: Vou jantar com uns amigos. - Sentiu-se ento  muito envergonhada. Odiava deixar Jean sozinha. Tinha a perfeita  noo do quanto a me fizera 
por ela, do quanto se sacrificara.  Era tudo isso que Tana compreendia demasiado bem. Devia tudo   me, no a Arthur Durnin ou aos seus filhos egostas, mimados 
e  mal-educados. 
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- Importa-se, me? No sou obrigada a sair - perguntou com voz  meiga, parecendo ter mais do que dezoito anos.
Jean virou-se e olhou para ela. Havia algo muito especial entre as duas.  Estavam sozinhas h muito tempo e tinham partilhado os bons e os maus  momentos. A me 
nunca a desapontara e Tana era uma criana meiga e  compreensiva. Sorriu-lhe.
- Quero que saias com os teus amigos, querida. Amanh  um dia  muito especial para ti. - Iam jantar ao 21, na noite seguinte. Jean  nunca l ia, excepto com Arthur, 
mas a concluso do liceu era  motivo suficiente para garantir a extravagncia, e Jean j no  necessitava de ter tanto cuidado. Recebia um salrio enorme na  Durning 
International, pelo menos comparado com o que ganhara como  secretria h doze anos atrs, mas era cautelosa por natureza e  sempre discreta. Tinha-se preocupado 
bastante ao longo dos ltimos  dezoito anos, desde a morte de Andy e, por vezes, dizia a Tana que era  por isso que as coisas tinham corrido to bem. Tinha-se preocupado 
toda a vida, completamente ao contrrio do estilo fcil de Andy  Roberts, e Tana parecia ser bastante parecida com ele. Havia nela mais  alegria do que na me, mais 
traquinices, mais risos, mais gosto pela  vida; mas a; de novo, a vida tinha sido fcil para ela, com Jean  para a amar e proteger. Tana sorriu, enquanto Jean retirava 
uma  frigideira para fritar o bife.
- Estou ansiosa pela noite de amanh. - Ficara comovida ao saber que  Jean ia lev-la ao 21.
- Tambm eu. Onde vo vocs esta noite?
- Ao Village, para uma pizza.
- Tem cuidado. - Jean franziu a testa. Estava sempre preocupada com ela  e com os lugares que frequentava.
- Tenho sempre.
-Estaro rapazes para te protegerem? - Sorriu. Por vezes era  difcil saber se eles eram uma proteco ou uma ameaa,  outras eram ambas. Lendo-lhe o pensamento, 
Tana deu uma gargalhada e  anuiu.
 - Sim. Vai ficar agora ainda mais preocupada?
- Sim. Claro.
-  uma tonta, mas adoro-a de qualquer modo. - Atirou
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os braos ao pescoo da me, deu-lhe um beijo e meteu- se no  quarto para pr a msica ainda mais alto, e Jean fez uma careta,  acabando por dar consigo a cantarolar 
tambm. Tinha certamente ouvido  o suficiente mas, quando Tana desligou e reapareceu usando um vestido  branco com grandes bolas pretas, um cinto largo de cabedal 
preto e  sapatos pretos e brancos, Jean percebeu subitamente como era  agradvel sentir o silncio. Ao mesmo tempo, compreendeu o quo  silencioso o apartamento 
iria ficar depois de Tana sair, demasiado  silencioso. Parecia um tmulo quando Tana no estava.
- Diverte-te.
- Sim. Voltarei para casa cedo.
- No vou contar com isso - disse a me com um sorriso. Aos  dezoito anos, a filha j no tinha recolher obriga trio. Jean  sabia bem que no devia ser demasiado 
rgida, e a filha era quase  sempre sensata. Jean ouviu-a entrar nessa noite, cerca das onze e meia.  Bateu suavemente  porta de Jean, sussurrou j cheguei, e seguiu 
para o seu quarto. Jean virou-se e adormeceu.
Jean Roberts iria recordar eternamente o dia seguinte; com a longa fila  de jovens raparigas de olhar inocente, unidas por grinaldas de  margaridas, e os rapazes 
surgindo solenemente por trs delas. Todas  cantavam em coro, as vozes erguiam-se, to jovens, to fortes,  to poderosas; todos eram to novos e imaturos, como 
se estivessem  prestes a nascer para o mundo, um mundo cheio de politiquices, es  tratagemas, mentiras e desapontamentos. E tudo isso ali  espera para  os magoar. 
Jean sabia que a vida nunca mais seria to simples para  eles. As pessoas enchiam lentamente o auditrio, onde se ouviam as  suas vozes pela ltima vez. Fi cou atrapalhada 
quando deixou escapar  um soluo, mas no estava sozinha, e os pais choravam tanto quanto  as respecti vas esposas. Subitamente, tudo parecia um pandemnio, os  
finalistas do liceu gritavam e cumprimentavam-se no vestbulo;  beijavam-se, abraavam-se e faziam promessas que no podiam  cumprir, tais como regressarem, viajarem 
juntos, nunca se esquecerem uns  dos outros. Para sempre. para sempre. no prximo ano. um dia. Do seu  canto, Jean
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olhava para eles e muito especialmente para Tana, cujo rosto  resplandecia e os olhos estavam quase verde-esmeralda; todos estavam  to entusiasmados, to felizes 
e to puros.
Nessa noite, Tana ainda estava bastante animada quando foram ao 21, onde  comeram um delicioso jantar, e Jean surpreendeu-a ao mandar vir uma  garrafa de champanhe. 
Em geral, no gostava muito que Tana bebesse. A  experincia que tivera com os seus pais e Marie Durning ainda a  assustava, mas o dia de entrega dos diplomas era 
uma excepo.  Depois do champanhe, entregou a Tana a pequena caixa de Arthur. Tinha  pedido a Jean para escolher por ele, tal como todos os presentes que  dava, 
incluindo os dos prprios filhos. No interior encontrava-se uma  bracelete de ouro, que Tana colocou no pulso com um prazer  cauteloso.
- Foi simptico da parte dele, me. - Mas no pareceu muito  animada. As razes eram evidentes e Tana no discutiu o assunto.  No quis aborrecer a me. E no fim 
da semana, Tana perdeu uma  grande batalha a favor da me. J no conseguia ouvi-la e  acabou por concordar em ir  festa de Billy Durning. - Mas esta   a ltima 
vez que vou a uma das festas deles. Est combinado?
- Porque  que tens de ser to rgida, Tana? Eles foram  simpticos em convidar-te.
- Porqu? - Os olhos de Tana faiscaram e a lngua estava demasiado  solta para se controlar. - Porque sou a filha de uma empregada? Isso  transforma o convite num 
favor especial dos poderosos Durning? Como se  convidassem uma criada? - As lgrimas encheram rapidamente os olhos  de jean, e Tana retirou-se para o quarto, furiosa 
consigo mesma por ter  perdido o controlo. Mas no conseguia suportar o modo como a me  se sentia em relao aos Durning, no s Arthur, mas  tambm Ann e Billy. 
Era repugnante, como se a mais pequena palavra uu  gesto fosse algun favor to gigamtesco a que deviam ficar eternamente  gratas. Alm disso, Tana sabia demasiado 
bem como eram as festas de  Billy. j tinha sofrido com algumas, com excesso de bebidas, excesso  de apalpadelas, todos os rapazes a armarem-se em espertos e a  
embebedarem-se. Detestava ir s festas dele. E nessa noite no foi  diferente.
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Um amigo dele que morava ali perto foi busc-la n Corvette  vermelho que o pai lhe oferecera e levou-a a Greenwich, conduzindo a  cento e quarenta quilmetros hora 
para a impressionar, o que no  conseguiu, e ela chegou to aborrecida como quando sara do  apartamento. Levava um vestido de seda branco, com sapatos rasos da 
mesna cor; as suas longas e esbeltas pernas pareciam particularmente  graciosas quando saiu do carro. Afastou o cabelo para trs dos ombros  e olhou em redor, embora 
soubesse que no conhecia ningum.  Detestara aquelas festas quando era mais nova e as crianas tinham-na  ignorado por completo, mas agora era mais fcil. Trs 
rapazes em  casaco de madrasta caminharam em fila at ela e ofereceram-se para  lhe trazere um gim com gua tnica, ou qualquer outra coisa que  lhe apetecesse. 
Deu uma resposta vaga e conseguiu misturar-se com a  multido, ansiosa por se livrar do rapaz que a trouxera at ali.  Passeou pelo jardim durante meia hora, desejando 
no ter vindo, e  vendo grupos de raparigas barulhentas a b ber cerveja ou gim com gua  tnica, sob o olhar dos rapazes. Uns minutos mais tarde, comeou a  msica, 
os pares foram-se formando e, cerca de meia hora depois, as  luzes tornaram-se foscas, os corpos movendo-se alegremente, Tana at  notou que vrios pares se afastavam. 
S nesse momento  que  reparou, por fim, em Billy Durning. No estava em lado algum quando  chegara. Aproximou-se ela e pareceu examin-la de alto a baixo.  Tinham-se 
encontrado vrias vezes, mas ele examinava-a sempre, como  se a fosse comprar. Isso deixava-a furiosa e nessa noite no foi  excepo.
- Ol, Billy.
- Ol. Bolas, ests muito alta! - Como elogio, aquilo no a  animou e, de qualquer modo, ele era consideravelmente mais alto. Assim,  porqu a afirmao? Mas reparou 
que ele olhava para o volume  dos seus seios e, por um ninuto, apeteceu-lhe dar-lhe um pontap;  rangendo os dentes, decidiu ser bem-educada, pela me e no por 
outro motivo qualquer.
- Obrigada pelo convite desta noite. - Mas os olhos afirmaram o  contrrio.
- Precisamos sempre de mais raparigas. - Como tu. Tantas cabeas.  tantas mamas. pernas. virilhas.
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- Obrigada.
Sorriu-lhe e encolheu os ombros.
- Queres ir l para fora?
Esteve prestes a recusar, mas depois pensou: Porque no?, Billy era  dois anos mais velho do que Tana mas, normalmente, agia como se tivesse  dez. Mas dez anos a 
beber. Agarrou-a por um brao e conduziu-a  atravs dos corpos desconhecidos at ao bem cuidado jardim dos  Durning, que terminava na casa da piscina, onde Billy 
acampara com os  amigos. J tinham queimado uma mesa e duas cadeiras na noite anterior  e Billy mandara-os acalmar-se, ou o seu velho mat-los-ia. Incapaz de  suportar 
a tortura de viver perto de Billy, Arthur tinha-se mudado para  o clube, para passar a semana seguinte.
 - Devias ver a desordem que estamos a fazer. - Sorriu, 
- acenando  distncia para a casa da piscina. Tana sentiu-se  aborrecida por saber que seria a me quem iria substituir tudo o que  eles estragassem, que iria arrumar 
tudo de novo e tambm acalmar  Arthur, quando ele visse a desordem deixada.
- Porque no evitam comportar-se como animais? perguntou, olhando  docemente para Billy e, por um momento, ele ficou admirado. Subitamente,  a maldade e a fria 
brilharam nos seus olhos.
- Que sugesto mais estpida! Mas acho que foste sempre  estpida, no foste? Se o meu velho no tivesse pago 
para frequentares uma boa escola em Nova Iorque, terias 
provavelmente acabado numa escola pblica para prostitutas, no West  Side, causando muitos sarilhos  ta professora. Ela ficou to  chocada que, por um momento, 
lhe faltou u o ar, enquanto olhava para  ele. Depois, sem dizer uma palalvra, deu meia volta e afastou-se,  ouvindo atrs de si as gargalhadas do rapaz. Que grande 
imbecil ele  era, pensou para consigo, enquanto abria caminho para o interior da  casa, notando que a multido tinha crescido consideravelmente na  passada meia 
hora e que a maioria dos convidados era vrios
anos mais velha do que ela, em especial as raparigas. Um pouco depois,  viu o rapaz que a trouxera da cidade. Tinha a braguilha aberta, os olhos  vermelhos, a camisa 
de
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fora; e havia uma rapariga que lhe passava freneticamente as  mos  pelo corpo, enquanto ambos partilhavam uma garrafa
de usque. Tana olhou para ele desesperada e percebeu que acabara de  perder a boleia para a cidade. De modo algum iria para qualquer lado com  algum que tivesse 
bebido. S tinha como opo o comboio, ou  encontrar algum sbrio, 
o que parecia impossvel, pelo menos de momento.
- Queres danar? - Virou-se, surpreendida por ver Billy de novo, com  os olhos mais vermelhos, a boca num esgar, continuando a fitar-lhe os  seios. Por fim, conseguiu
desviar o olhar a tempo de a ver abanar a cabea.
- No, obrigada.
- H uns tipos a foder na casa da piscina. Queres ir ver? - O  estmago revirou-se com a perspectiva e, se ele no tivesse sido  to revoltante, ela teria dado uma 
gargalhada. Era incrvel como a  me podia ser to cega com os sagrados Durning.
- No, obrigada.
 - Qual  o problema? Ainda s virgem? - O olhar dele enojou-a,  mas no quis que percebesse que tinha razo. Era prefervel que  ele pensasse que lhe causava repulsa, 
o que tambm era correcto.
- No sou mirgeme.
- Merda, porque no?  o melhor desporto que existe. Ela voltou-se  e tentou despist-lo na multido, mas ele seguiu-a para todo o  lado e comeou a incomod-la. 
Ela voltou a olhar em redor, notou  que ele tinha desaparecido, provavelmente para a casa da piscina para se  juntar aos amigos, e calculou que j ali se encontrava 
h tempo  suficiente. Tudo o que tinha a fazer era chamar um txi, chegar   estao de comboio e ir para casa. No era agradvel, mas  pelo menos no era dificil 
e, olhando por cima do ombro para se  certificar de que ningum a seguia, foi em bicos dos ps at  uma pequena escada traseira que conhecia, para poder telefonar. 
Foi  muito simples. Ligou para as informaes, pediu o nmero e  chamou um txi. Foi-lhe prometido que estaria l dentro de quinze  minutos e sabia que chegaria 
muito a tempo de apanhar o ltimo  comboio. Pela primeira vez durante toda a noite, sentiu-se aliviada por  se afastar dos bbedos e
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da escumalha que estava no andar inferior. Atravessou lentamente o  vestbulo de alcatifa espessa, olhando para as fotografias de Arthur  e Marie, de Ann e Billy 
quando crianas e, de certa forma, teve a  sensao de que as fotografias deveriam incluir Jean. Fazia parte  da vida deles e uma grande
 parte do seu bem-estar a ela o deviam; no era justo que a
 deixassem de fora. Ento, subitamente e sem pensar, Tana
abriu uma porta. Sabia que era a da sala de estar que a me
muitas vezes utilizava como uma espcie de escritrio quando l  estava. As paredes tambm se encontravam cobertas de
      fotografias, mas no olhou para elas nessa  noite. Quando
abriu lentamente a porta, ouviu um grito nervoso,  um
Merda!.. Eh!.. Viu um rabo e murmrios de embarao.
Tornou a fech-la rapidamente. Ento, saltou de susto quando  algum, mesmo atrs de si, deu uma gargalhada.
- Ah! - Voltou-se e viu Billy a olhar para ela. - Por
amor de Deus... - Pensou que ele estava em baixo.
-Julguei que no gostasses de ver, Miss Lirio Puro.
- Estava apenas a dar uma volta, quando reparei... Corou at   raiz dos cabelos, enquanto ele se ria.
- Pois... O que  que vieste aqui fazer, Tan? - Tinha
ouvido a sua me cham-la assim ao longo dos anos, mas ela
      no gostava de ouvir o seu nome na boca dele.  Era um nome ntimo e ele nunca fora seu amigo. Nunca.
- A minha me trabalha normalmente nessa sala.
- N. - Abanou a cabea, como se tivesse ficado surpreendido com o  engano dela. - No  aqui.
-  sim. Tana tinha a certeza disso e olhou para o
      relgio. No queria perder o txi. Mas  ainda no o tinha ouvido buzinar.
- Eu mostro-te onde ela trabalha, se quiseres. -  Comeou a atravessar o vestbulo e Tana ficou indecisa se  devia
segui-lo ou no. No queria discutir com ele, mas sabia que
a me utilizava aquela sala de estar. Afinal de contas, era a
      casa dele e sentiu-se incomodada por ali estar,  em particular quando lhe chegaram aos ouvidos os gemidos do casal que  estava l dentro. Ainda tinha de esperar 
alguns minutos at   chegada do txi e, como no tinha mais nada para fazer, seguiu  Billy atravs do vestbulo. No foi dificil. Ele abriu 45
a porta que dava para outro aposento. - Aqui est.  - Tana aproximou-se da porta, entrou e olhou em redor, compreendendo de  imediato que no era ali que a me trabalhava. 
O objecto que  predominava em todo o quarto era uma enorme cama, coberta com veludo  cinzento rematado a seda. Havia tambm um cobertor de veludo cinzento  e outro 
de chinchila colocado sobre uma espreguiadeira a condizer. A  carpete tambm era cinzenta e viam-se quadros magnficos por todo  o lado. Tana virou-se para ele, 
aborrecida.
- Muito engraado. Este  o quarto do teu pai, no ?
- Sim. E  ali onde a tua velha trabalha. A velha Jean faz aqui todo  o raio do seu trabalho. - Subitamente, Tana teve vontade de puxar-lhe os  cabelos e esbofete-lo 
mas, obrigando-se a nada responder, comeou  a dirigir-se para a porta. Ele agarrou-a por um brao e empurrou-a  para dentro, fechando a porta com um p.
- Larga-me, seu pedao de merda! - Tana tentou tirar o brao, mas  ficou admirada com a fora que ele possua. Billy agarrou-a  brutalmente pelos dois braos e encostou-a 
 parede, cortando-lhe  a respirao.
- Queres mostrar-me que tipo de trabalho a tua me faz, sua  cadela?
Gritou sufocada, pois ele estava a mago-la. Subitamente; os seus  olhos encheram-se de lgrimas, mais de fria do que de medo.
- Vou sair daqui, imediatamente. - Tentou afastar-se dele, mas Billy  voltou a empurr-la com fora contra a parede, fazendo-a bater com  a cabea. De repente, quando 
olhou para os olhos dele, sentiu um medo  genuno. Viu o olhar enlouquecido de um homem que se ria dela. -  No sejas idiota. - A voz tremeu-lhe quando pressentiu 
a loucura d le  e a sua prpria indignao.
Nesse momento, os olhos de Billy brilharam de maldade, enquanto lhe  aprisionava os pulsos numa das poderosas mos. Tana nunca se  apercebera antes da fora dele. 
Com outra mo, abriu a braguilha e  baixou as calas, expondo-se. A seguir, agarrou- lhe numa das mos  e puxou-a para baixo em direco a si.
- Agarra-o, sua cadela.
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Tana estava aterrorizada, com o rosto mortalmente branco e a tentar  afastar-se dele, enquanto Billy a encurralava
mais, encostando-a  parede. Ela empurrou-o com toda a
fora possvel, sem qualquer xito, e ele deu uma gargalhada.  Subitamente, horrorizada, ela compreendeu o que estava
a acontecer. Enquanto lutava contra ele, o pnis erecto que
ele expusera estava cada vez mais duro e a ro-la cada vez
mais. Parecia um coto feio e demonaco. Ele empurrou-a
contra a parede uma e outra vez, puxando pelo vestido, rasgando-o de  lado e deixando  vista a carne que queria ver.
De repente, as mos dele estavam por todo o lado: na barriga, nos  seios, nas coxas. Encostava-se cada vez mais, esmagando-a,  lambuzando-lhe o rosto com a lngua, 
enchendo-lhe a cara de vapores  de lcool, tocando-a, segurando-a, 
prendendo-a; Tana teve a sensao que ele estava a rasg-la
       quando, subitamente, Billy lhe introduziu os  dedos na vagina, enquanto ela gritava e lhe mordia o pescoo, mas  sem
       resultado. Billy levantou os olhos, prendeu uma madeixa do longo cabelo  louro, enrolou-o  volta da mo at ela sentir
que podia ser arrancado pela raiz e mordeu-lhe com  fora a
 cara. Ela reagiu e tentou afast-lo com as pernas. Faltava-lhe o ar,  pois lutava mais pela vida do que pela sua virgindade; de sbito, a  chorar e a soluar, tentando 
respirar, sentiu-o atir-la para cima  da espessa alcatifa cinzenta, rasgando-lhe o vestido desde o decote  at  bainha, revelando tudo dela, rasgando-lhe tambm 
as  cuecas de renda branca e deixando-a nua e bela. De sbito,  implorando, chorando e apertando os dentes quase histericamente, viu-o  tirar as calas e atir-las 
para um stio qualquer da alcatifa,  colocando todo o seu
peso sobre ela, rasgando-a quase de membro a membro, os
dedos introduzidos nela, abrindo-lhe a carne ao meio, chupando-a com a  boca, enquanto ela chorava e gemia. Cada
vez que ela tentava afastar-se, Billy apertava-a de novo. Tana mal  estava consciente quando ele a penetrou, montando-a
com toda a fora que possua, mergulhando nela, enquanto
rios d sangue escorriam para cima da alcatifa espessa. Por
fim, numa glria orgaca final, explodiu sobre a rapariga que
mal conseguia respirar, com os olhos vidrados, um fio de
sangue a escorrer-lhe da boca e outro do nariz. Billy 
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Durning levantou-se, deu uma gargalhada e apanhou as calas  do  cho, enquanto ela nem se mexeu. Parecia quase morta.
Billy olhou para ela.
- Obrigado.
Em seguida, a porta abriu-se e um dos amigos de Billy entrou.
- Credo, o que  que lhe fizeste? - Tana ainda no se mexera,  embora pudesse ouvir as suas vozes l longe, muito longe.
- Nada de especial - respondeu Billy. - A velha dela  a cadela  contratada pelo meu pai.
O outro rapaz riu-se.
- Tudo indica que pelo menos um de vocs passou um bom bocado. - Era  impossvel no se ver o mar de sangue por baixo dela e sobre a  carpete. - Est com o perodo?
- Acho que sim - respondeu Billy com um ar despreocupado, enquanto  fechava a braguilha. Ela ainda se encontrava com as pernas abertas, como  uma boneca de trapo, 
enquanto o amigo olhava para ela. Billy dobrou-se e  bateu-lhe na cara: - Vamos, Tan, levanta-te. - Ela no se moveu e
ele dirigiu-se  casa de banho, molhou uma toalha e deixou-a cair  sobre Tana, como se ela soubesse o que fazer com esta. Passaram-se  outros dez minutos at que 
ela comeou, lentamente, a virar- se  com dificuldade e vomitou. Ele pegou-lhe de novo pelos cabelos, sob o  olhar do outro rapaz, gritou: - Merda, no faas isso 
aqui, sua  porca! - Obrigou-a a levantar-se e arrastou-a para a casa de banho, ond  ela se debruou sobre a sanita. Por fim, saiu e fechou a porta.  Parecia terem 
passado horas quando ela voltou a si. Os soluos  estavam presos na garganta. H muito que o seu txi se tinha ido  embora e perdera o ltimo comboio mas, mais do 
que isso, tinha-lhe  acontecido algo horrvel, algo do que sabia que nunca iria recuperar.  Fora violada. Tremia violen tamente da cabea aos ps, os dentes  batiam, 
a boca estava seca, a cabea doa e no conseguia saber  como sair daquela casa. O vestido fora rasgado, os sapatos  encontravam-se su jos de sangue e, enquanto 
estava sentada encolhida no  cho da casa de banho, a porta abriu- se e Billy entrou, atirando-lhe  algumas coisas. Um momento mais tarde, viu que era
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um vestido e um par de sapatos que fazim parte das coisas de Ann.  Desta vez, olhou para Tana e esta pde ver como ele estava  bbedo.
- Veste-te. Eu levo-te a casa.
- E depois? - gritou ela. - Como irs explicar isto ao teu pai? -  Estava histrica e ele olhou para o quarto atrs de si.
- Referes-te ao tapete? - Pareceu nervoso e ela ficou completamente  descontrolada.
- A mim! 
- No tenho culpa, tu  que me provocaste. - O horror daquelas  palavras f-la sentir-se ainda pior do que antes; subitamente, tudo o  que queria fazer era sair 
dali, e no se importava que tivesse de ir  a p at Nova Iorque. De repente, passou por ele, apertando as  roupas, e correu para o quarto onde a violao tivera 
lugar. Os  olhos estavam ameaadores, o cabelo emaranhado, o rosto lavado em  lgrimas.         Nua, virou-se no quarto e dirigiu-se friamente para o  amigo, que 
riu, nervoso.
- Tu e o Billy passaram um bom bocado, hein? Ele deu uma gargalhada. Ela  passou por ele a correr e entrou na casa de banho que sabia existir ali.  Vestiu-se e correu 
escadas abaixo. J era muito tarde para apanhar o  comboio e no valia a pena chamar um txi. Verificou que os  msicos j se tinham ido embora e correu para a estrada, 
deixando  para trs o seu vestido rasgado e a carteira, mas no se importou.  Tudo o que queria era afastar-se dali. Podia pedir boleia se fosse  preciso, mandar 
parar um carro-patrulha. qualquer coisa. As lgrimas  corriam-lhe sobre o rosto e ela mal respirava quando comeou a  correr. Ento, de repente, surgiram luzes brilhantes 
 sua frente  e ela correu ainda mais, pois sentiu instintivamente que ele vinha  atrs de si. Conseguiu ouvir os pneus sobre o cascalho da estrada.  Escondeu-se 
entre as rvores, chorando baixinho, enquanto as  lgrimas rolavam para o cabelo. Ele buzinou.
- Anda, eu levo-te a casa! - gritou Billy.
No lhe respondeu. Continuou a correr o mais depressa possvel,  mas ele no se afastou. Mantinha-se atrs dela, aos
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ziguezagues, seguindo-a na estrada deserta, at que por fim
ela lhe gritou, histrica: 
- Deixa-me em paz! - Dobrou-se na estrada, chorando, soluando,  abraando os joelhos e, lentamente, ele saiu
do carro e aproximou-se dela. O ar da noite comeava a deix-lo  sbrio e parecia uma pessoa diferente. J no estava
enlouquecido, mas srio e soturno. Trouxera o amigo, que
os observava em silncio do banco dos passageiros do comprido e  lustroso XKE verde-escuro de Billy.
- Eu levo-te a casa. - Ficou de p na estrada, as pernas
      afastadas, e os faris atrs dele a  iluminarem-nos com uma luz sinistra. - Vamos, Tan.
- No me chames assim.
Parecia uma garota assustada. Ele nunca fora sequer seu
      amigo, e agora... agora... queria gritar sempre  que pensava naquilo. Mas j no conseguia gritar mais e nem tinha  mais foras para fugir dele. Todo o seu 
corpo doa, a cabea  latejava e havia sangue seco no rosto e nas coxas. Olhou friamente para  ele, cambaleando pela estrada, quando ele se
aproximou e tentou agarr-la por um brao. Ela  gritou e fugiu de novo. Ele ficou a olhar para ela por um momento e
depois entrou no carro e desapareceu. Tinha-se oferecido para lev-la  a casa; se no queria ir, azar o dela. Tana cambaleou pela estrada,  com o corpo a doer da 
cabea aos ps: 
Ainda no tinham passado vinte minutos e ele j estava
de volta. Parou ao seu lado, saiu e agarrou-a por um brao. Tana  reparou que o outro rapaz j no estava dentro do carro
e, subitamente, perguntou a si prpria se ele iria viol-la
de novo. Uma onda de terror percorreu-a enquanto ele a empurrava para o  carro. Ela afastou-se, mas desta vez ele puxou-a bruscamente e gritou,  fazendo que ela 
sentisse de
novo o hlito a usque.
- Raios te partam! J disse que te levava a casa. Agora
entra na merda do carro! - Quase a atirou para o assento, 
ela compreendeu que mais valia no discutir com ele. Estavam sozinhos  e ele podia fazer o que quisesse. Isso j ela 
tinha aprendido. Sentou-se imvel ao seu lado no XKE, partiram na  noite e, enquanto esperava que ele a levasse para
qualquer lado para a voltar a violar, tudo lhe parecia intil.
Mas ele entrou na estrada principal, carregou no acelerador
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e a brisa que atravessava o carro pareceu deix-los  sbrios a
ambos. Billy olhou para ela vrias vezes e indicou uma caixa
de lenos de papel no cho.
-  melhor limpares-te, antes de entrares em casa.
- Porqu? - Olhou em frente, para a estrada vazia. J
passava das duas horas, e at os olhos estavam entorpecidos.        
Apenas circulavam na estrada alguns camies, que seguiam
o seu rumo na noite.
- No podes ir para casa assim. 
Ela no lhe respondeu e no quis olhar para ele: Esperava
ainda que ele parasse e tentasse viol-la de novo, mas desta
vez estava preparada. Correria o mais que pudesse, ao longo
da estrada principal se necessrio, e talvez um dos camionistas  parasse. Ainda no conseguia acreditar no que ele lhe tinha feito e  pensava agora se, de algum 
modo, tinha sido por culpa sua, se tinha  lutado o suficiente, se o tinha encorajado de algum modo... Eram  pensamentos hediondos. Reparou ento que o poderoso carro 
desportivo  tinha comeado a
serpentear. Virou-se e olhou para ele, notando que Billy estava quase a  dormir ao volante. Puxou-lhe pela manga, ele        
despertou e olhou para ela.         
- Por que raio fizeste isso? Podias ter causado um acidente. - Nunca lhe  desejaria coisa melhor. Teria gostado de
o ver morto, estendido junto  estrada. - Estavas quase a        
dormir ao volante. Ests bbedo. 
- Ai, ? E depois? - Soou mis cansado do que agressivo e  pareceu-lhe bem, de momento, at que ela viu o carro
serpentear de novo; desta vez, antes de poder sequer pux-lo
por um brao ou aban-lo at acordar, passou um camio         ;
enorme e o carro desportivo guinou. Ouviu-se um tremendo chiar de  traves, quando o camio se dobrou ao meio e virou;  miraculosamente, o XKE ultrapassou a cabina, 
embatendo de frente contra  uma rvore. Tana bateu fortemente        
com a cabea quando pararam e ficou a olhar para o vazio        
durante muito tempo. S depois se apercebeu de um ligeiro        
gemido ao seu lado. O rosto dele estava coberto de sangue e        
Tana no se mexeu. Apenas ficou sentada a olhar. Subitamente, a porta  abriu-se e ali estava um par de mos fortes sobre        
o seu brao; ento, ela comeou a gritar. Numa fraco  de        
segundos, os acontecimentos da interminvel noite tinham
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atingido o auge e ela perdeu totalmente o controlo, soluando e  tentando nervosamente fugir do carro; dois camies pararam e os  condutores tentaram acalm-la, 
at  chegada da
Polcia, mas o olhar dela era incompreensvel e feroz. Tentaram  parar a hemorragia da cabea de Billy, devida a um golpe profundo  sobre um olho. A Polcia chegou 
pouco depois,
seguida de uma ambulncia, e as trs vtimas foram  transportadas para o New Rochelle Hospital Center, ali perto.
O camionista teve alta quase imediatamente. Por milagre,
o veculo sofrera mais danos do que ele prprio. Billy estava
a ser cosido. Tambm notaram que ele estava a conduzir sob
a influncia de lcool e, como era a terceira vez que tal  acontecia, ficaria sem carta durante um ano, o que parecia  preocup-lo mais do que o olho ferido. Todo 
o corpo de Tana
parecia estar coberto de sangue mas as enfermeiras notaram
que a maior parte estava seca. No conseguiam que ela explicasse o  que lhe tinha sucedido, e ela sentia-se sufocar cada vez que tentava.  Umajovem e simptica enfermeira 
limpou-a, enquanto Tana estava  deitada na marquesa e chorava.
Deram-lhe um calmante e, quando a me chegou s quatro
horas, estava meio adormecida.
- O que aconteceu... Meu Deus! - Olhou para a ligadura sobre o olho de  Billy. - Billy, vais ficar bem?
- Penso que sim. - Sorriu envergonhado e ela voltou
a notar como ele era bonito, embora tivesse sido sempre
menos parecido com o pai e mais com Marie. Subitamente, 
      o sorriso desapareceu e ele pareceu  aterrorizado. - Ligaste para o pai?
Jean Roberts abanou a cabea.
- No quis assust-lo. Disseram-me que estavas bem
quando me telefonaram, e eu quis ver-vos com os meus
prprios olhos.
- Obrigado. - Olhou para a figura adormecida de
Tana e, depois, encolheu os ombros quase nervosamente.
Lamento o que... o que eu... Demos cabo do carro...
-O importante  que nenhum de vocs se magoou
muito. - Franziu a testa quando viu o cabelo louro dela
embaraado, mas j no se via qualquer vestgio de  sangue.
A enfermeira tentou explicar o estado de histeria de Tana.
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- Demos-lhe um calmante. Deve ficar a dormir algum tempo.
Jean Roberts franziu a testa.
- Ela estava embriagada? - J sabia que Billy estava e Tana pagaria  caro, se tambm estivesse, mas a enfermeira abanou a cabea.
- Penso que no. Principalmente assustada, julgo. Tem um feio alto na  cabea, mas pouco mais do que isso. No encontrmos qualquer  vestgio de contusso ou pancada 
forte, mas tenho estado atenta ao  seu estado.
Ouvindo-as conversar ali perto, Tana acordou e olhou para a me, como  se nunca a tivesse visto antes. Ento, co meou a chorar  silenciosamente. Jean abraou-a 
e acarinhou-a docemente.
- J passou, querida. J passou. 
Ela abanou violentamente a cabea, engolindo grandes golfadas de  ar.
- No, no passou. no passou. Ele. - Mas Billy levantou-se e  olhou para ela, com uma expresso demonaca. No conseguiu  dizer as palavras. Parecia que ele ia 
bater-lhe de novo. Tana virou-se e  engasgou-se com os seus prprios soluos, sentindo ainda o olhar  dele sobre si. No conseguiu olhar de novo para ele. No conseguia 
v-lo. nem queria voltar a v-lo.

Sentou-se no banco de trs do Mercedes que a me con duzia, e  levaram Billy para casa. Jean ficou muito tempo l dentro com ele.  Mandaram os ltimos convidados 
embora, fizeram uma meia dzia de  outros sarem da piscina, expul saram dois casais da cama de Ann e  ordenaram que o grupo
da casa da piscina se acalmasse. Quando Jean regressou ao arro onde  Tana a aguardava, j sabia que no iria trabalhar durante uma  semana. Eles tinham destrudo 
metade da moblia, pegado fogo a  algumas plantas, danificado os almofadados, deixado manchas nos tapetes  e havia de tudo, desde copos plsticos e ananases inteiros, 
na  piscina. No queria que Arthur visse sequer a casa, at ela  arrumar tudo de novo. Entrou no carro com um profundo suspiro de  cansao e olhou para a figura 
imvel de Tana. A filha parecia  estranhamente calma. O sedativo fizera efeito.
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- Ainda bem que no entraram no quarto do Arthur. Ps o carro a  trabalhar, e Tana abanou a cabea com um no
silencioso, mas no foi capaz de dizer uma palavra. - Ests bem? -  Era s o que importava. Podiam ter morrido. S por milagre isso  no acontecera. Era s nisso 
que conseguia pensar, quando o  telefone tocara s trs horas. J estava preocupada h  muitas horas e, instintivamente, quando ou viu o telefone, j sabia.  E atendera-o 
ao primeiro toque: 
- Como te sentes?
Tudo o que Tana conseguia fazer era olhar para a me e abanar a  cabea.
- Quero ir para casa. - As lgrimas rolaram de novo pelas suas faces  e Jean voltou a perguntar a si prpria se a fi lha estaria  embriagada. Tinha sido obviamente 
uma noite terrvel e Tana fizera  parte dela. Tambm reparou que ela
no trazia o mesmo vestido que usara quando sara.
- Foste  piscina? - Ela endireitou-se, sentindo-se muito adulta, e  abanou a cabea, quando a me a olhou atravs do
retrovisor e notou algo de estranho nos olhos de Tana. O que aconteceu  ao teu vestido?
Respondeu numa voz to fria e dura que nem parecia a filha aos  ouvidos de Jean.
- O Billy rasgou-o.
- Ele fez o qu? - Olhou surpreendida e depois so riu. - Atirou-te  para a piscina? - Era a nica imagem que tinha dele e mesmo que  estivesse ligeiramente bbedo, 
e inofensivo. Tivra muita sorte em  no bater no camio. Tinha sido uma boa lio para ambos. -  Espero que tenhas aprendido uma lio esta noite, Tan. - Ela  comeou 
de novo a soluar ao ouvir o nome familiar que Billy  usara, at que, por fim, Jean encostou o carro  berma e olhou  para ela. - O que  que te aconteceu? Bebeste? 
Tomaste drogas? -  Havia uma nota de acusao na voz, nos olhos, e nada daquilo  estivera presente quando levara Billy para casa. Como a vida era  injusta, pensou 
Tana para consigo. Mas a me no conseguia  compreender o que o querido e precioso Billy Durning tinha feito. Olhou  directamente para os olhos da me.
- O Billy violou-me no quarto do pai.
- Tana! - exclamou Jean Roberts, horrorizada. - Como
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podes afirmar uma coisa dessas? Ele nunca faria tal coisa! Estava  furiosa com a filha, mas no com o filho do amante.
No conseguia acreditar numa coisa daquelas vinda de Billy, 
e isso era visvel no seu rosto quando olhou para a filha. O que  disseste  uma coisa terrvel. - Fora uma coisa terrvel. Mas  Jean limitou-se a olhar para a filha.
Duas lgrimas rolaram implacavelmente pelas faces de
Tana.
- Foi o que ele fez. - O rosto contraiu-se com a lembrana. - Eu...  juro... - Comeava de novo a ficar descontrolada, quando Jean se  virou e ligou o motor. Desta        
vez, no voltou a olhar para o banco de trs.
- Nunca mais quero ouvir-te dizer uma coisa dessas de        
algum. - Certamente, de ningum que conhecessem...
de um inofensivo rapaz quej conheciam h muitos anos...         
Nem sequer se incomodara a pensar no que teria feito Tna        
dizer uma coisa daquelas; talvez cimes de Billy, ou de Ann, 
ou de Arthur... - Nunca mais quero ouvir-te falar nisso.
No houve resposta do banco de trs. Tana apenas olhava para o  vazio. Nunca mais diria aquilo. De ningum. Algo no seu interior  tinha acabado de morrer.

CAPTULO 4
Depois do sucedido, o Vero passou a correr para Tan. Ficou duas  semanas em Nova Iorque a recuperar, enquanto a me ia trabalhar todos  os dias. Jean estava preocupada 
com ela, mas de uma forma estranha e  incmoda. Parecia no haver nada de mal com a filha, mas esta  sentava-se e ficava a olhar para o vazio, a escutar o silncio 
e nem  via os amigos.
No atendia o telefone, quando Jean ou mais algum lhe ligava.  Jean chegou mesmo a falar do assunto com Arthur, no final da primeira  semana. Tinha quase tudo em 
ordem na casa de Greenwich, e Billy e os  amigos j tinham partido para Malibu, para visitarem outros amigos.  Haviam destrudo tudo na casa da piscina, mas o pior 
estrago fora um  pedao da alcatifa do quarto de Arthur, que parecia ter sido cortado  com uma faca. Arthur tivera muito que conversar com o filho sobre  aquilo.
- Que tipo de selvagens so vocs? Raios te partam, devia  mandar-te para lest Pointl em vez de Princeton, para que te ensinassem a  portares-te bem. Meu Deus, no 
meu tempo ningum se comportava assim.  J viste a alcatifa? Rasgaram- na toda.
Billy olhou para o cho com um ar envergonhado.
- Desculpa, pai. As coisas descontrolaram-se um pouco.
- Um pouco? Admira-me que tu e a Tana no tenham morrido.
No geral, ele ficara bem. O olho ainda o incomodava um pouco quando  partira, mas os pontos na sobrancelha tinham sido tirados. Mesmo assim,  conseguiu sair todas 
as noites at partir para Malibu.
- Malditos selvagens. - resmungara Arthur para Jean. - Como est a  Tana agora?
Jean contara a Arthur o estranho comportamento de
Academia militar a sudoeste de Nova Iorque, junto ao rio (        N. da T.  )
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Tana; perguntava a si prpria se ela no teria dado uma pancada na  cabea mais forte do que tinham pensado no incio.
- Sabes que ela estava quase delirante naquela primeira noite. Na  verdade. - Ainda se lembrava da histria ridcula sobre Billy que  Tana tentara contar. A rapariga 
realmente no estava bem e Arthur  tambm ficou preocupado. 
- Leva-a ao mdico outra vez.
Quando Jean tentou insistir, Tana recusou. Jean interrogou-se sobre se  ela estaria suficientemente bem para ir para Nova Inglaterra por causa  do emprego de Vero. 
Na noite anterior  partida, Tana fez  calmamente o saco e, na manh
seguinte, sentou-se  mesa do pequeno-almoo com um, rosto          plido, abatido e cansado. Contudo, pela primeira vez em semanas,  quando Jean lhe estendeu um 
copo de sumo de laranja, ela sorriu e a  me quase desato a chorar. Desde o acidente que a casa se  transformara num tmulo. No se
ouviam rudos, nem msica, nem gargalhadas ou risinhos ao  telefone, nem sequer vozes, mas apenas um silncio fnebre em todo  o lado. E os olhos amortecidos de 
Tana. 
- Tenho sentido a tua falta, Tan. - Ao ouvir o nome familiar, os olhos  de Tana encheram-se de lgrimas. Abanou a cabea, incapaz de dizer  uma palavra. J no tinha 
mais nada para dizer. A ningum.  Parecia-lhe que a vida tinha chegado ao fim. Nunca mais queria ser  tocada por um homem e sabia que nunca mais o seria. Nunca mais 
ningum lhe faria o que Billy Durning lhe fizera, e a tragdia era  que Jean no aceitava ouvir aquilo, nem pensar no assunto. Na sua  teoria era impossvel; por 
isso, no existira, no acontecera.  o pior era que acontecera. 
- Achas que ests em condies de acampar?
Tana j tinha pensado nisso; sabia que a deciso era importante.  Podia passar o resto da vida escondida ali, como
uma aleijada, uma vtima, uma pessoa atrofiada, ferida. ou podia  comear a mexer-se de novo. Foi isso que decidiu.
- Estou bem.
- Tens a certeza? - Parecia to calma, to submissa e subitamente,  to adulta. Era como se a pancada na cabea, 
provocada pelo acidente de automvel, lhe tivesse roubado a
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juventude. Talvez fosse obra do prprio medo. Jean nunca
vira antes uma mudana to drstica num perodo de tempo  to curto. Arthur continuara a insistir que Billy estava bem, cheio  de remorsos, mas que j tinha voltado 
ao normal quando partira para  as frias de Vero. - Olha, Querida, se no te sentires em  condies, volta para casa. No Outono, vais querer comear as  aulas sentindo-te 
forte. 
- Eu estou bem. - Foi quase tudo o que disse antes de
partir, segurando o seu nico saco. Apanhou o autocarro pa ra  Vermont, tal como j tinha feito duas vezes.
Era um emprego de Vero de que gostava, mas naquele ano era  diferente. Os outros tambm o notaram. Ela estava mais calada,  reservada e parecia j no se rir. A 
nica altura
em que falava com algum era com os prprios campistas. Isso  entristecia os outros que j a conheciam. Algo no vai bem em  casa. Estar doente. Parece outra rapariga. 
Todos notaram e  ningum sabia de nada. No fim do Vero, apanhou o autocarro e  voltou para casa. Nesse ano no fez amigos, a no ser entre as  crianas mas, at 
com elas, no foi to popular como antes.  Estava at ainda mais bonita do que nos anos anteriores, mas todas as  crianas estavam de acordo: A Tana Roberts est 
esquisita. E ela  prpria sabia-o. 
Passou dois dias em casa com Jean, evitou todos os seus velhos amigos,  fez as malas para a faculdade e embarcou no comboio, com uma  sensao de alvio. Subitamente, 
teve vontade de ir para longe,  longe de casa. de Arthur. de Billy. de todos eles. at dos amigos que  tivera na escola. J no era aquela rapariga alegre que acabara 
o  ceu curso trs meses antes. Era agora algum muito diferente,  algum assustado e ferido, com cicatrizes na alma. Quando estava  sentada no comboio e atravessava 
o Sul, comeou lentamente a  sentir-se humana de novo. Era como se tivesse de se afastar para bem  longe deles, dos seus enganos, das suas mentiras, das coisas que 
no  viam ou em que se recusavam a acreditar, dos jogos que jogavam. Era como  se, desde que Billy Durning a penetrara  fora, ningum a  pudesse ver mais. Ela 
no existia, porque ningum conseguia  perceber
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o pecado de Billy. Mas isso fora apenas Jean, disse para
consigo. No entanto, quem mais lhe restava? Se a prpria
me no acreditava nela... No quis pensar mais naquilo.
No quis pensar em nada. Ia para o mais longe possvel e
talvez nunca mais regressasse a casa, embora soubesse que
tambm isso era uma mentira. As ltimas palavras da me
tinham sido: Vens a casa no Dia de Aco de Graas, no
vens, Tan?, Era como se a me a temesse agora, como se tivesse visto  algo nos olhos da filha que no conseguia encarar, uma espcie de  sofrimento, uma dor aguda 
e profunda
que no podia ajudar e no queria que existisse. Tana  no        
voltaria a casa para o Dia de Aco de Gras; no  queria
voltar para casa nunca mais. Tinha fugido  vida insignificante...   hipocrisia... a Billy e aos seus amigos brbaros... a Arthur e  aos anos e anos em que tinha 
usado Jean...  esposa a quem  enganara... e s mentiras que Jean lhe tinha contado.
Tana j no conseguia suportar mais, e estava ansiosa por        
afastar-se suficientemente deles. Talvez no regressasse nunca  mais... nunca mais.
Gostava do som do comboio e ficou triste quando este parou em Yolan.  Green Hill College ficava a trs quilmetros e tinham mandado uma  velha carrinha para a buscar, 
por um velho condutor negro, de cabelos brancos. Este
cumprimentou-a com um sorriso carinhoso; ela olhou-o
desconfiada quando ele a ajudou a carregar as malas.
- Andou muito tempo de comboio, miss?
- Treze horas. - Mal lhe dirigiu a palavra durante o
curto percurso at  escola e, se ele tivesse estado prestes a
parar o carro, ela teria saltado e comeado a gritar. Ele
sentiu isso e no quis insistir tentando ser demasiado simptico  para ela. Assobiou durante parte do trajecto e, quando se cansou,  comeou a cantar canes do 
Sul que Tana nunca antes ouvira.  Apesar de tudo, quando chegaram, sorriu para ele.
- Obrigada pela boleia.
- s ordens, miss.  s descer ao escritrio e  perguntar        
pelo Sam. Dar-lhe-ei boleia para onde quiser ir. - Ento,         
ele deu uma tpica gargalhada carinhosa de negro e sorriu        
para ela. - No existem muitos lugares para visitar aqui nas  redondezas. - Tinha a pronncia do Sul.
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Desde que sara do comboio que notara como tudo
era bonito. As enormes rvores de aspecto majestoso, as 
flores vivas por todo o lado, a erva viosa e o ar parado        e  quente. Qualquer um sentiria vontade de se deitar, 
calmamente em qualquer lado mas, quando viu o colgio 
      pela primeira vez, ficou parada e sorriu. Era  tal como queria que  fosse. Quisera vir visit-lo no Inverno  anterior, mas no tivera tempo. Em vez disso, 
tinha conversado com o  seu
representante no Norte e aceitado o que vira nas  brochura.
Sabia que, academicamente, era uma das melhores escolas,
      mas na verdade queria algo mais: a  reputao e as histrias
que ouvira sobre a boa qualidade da velha escola.  Sabia
que era antiquada, mas de uma forma que a atraa. E nesse
momento, enquanto olhava para os belos edifcios brancos, 
perfeitamente conservados, com colunas altas e bonitas portas
envidraadas viradas para um pequeno lago, quase sentiu
que tinha regressado a casa.
Apresentou-se na recepo, preencheu alguns cartes, 
escreveu o seu nome numa longa lista, informou-se sobre
o edifcio onde iria viver e, um pouco mais tarde, Sam ajudava-a de  novo, colocando toda a sua bagagem numa velha
carroa. Estar ali era quase como fazer uma viagem ao
passado e, pela primeira vez em meses voltou a sentir-se
em paz. No teria de enfrentar a me ali, no teria de  explicar
      como se sentia ou no, no teria de ouvir  o odiado nome
      dos Durning, nem de ver a dor que Arthur deixava no rosto
de sua me... ou de voltar a ouvir falar de  Billy... S o facto
de se encontrar na mesma cidade que eles a asfixiava e, 
no primeiro ou segundo ms depois da violao, tudo o
que quisera fora fugir. Havia sido necessria muita coragem
para ir acampar naquele Vero, e cada dia fora uma batalha.
Quisera fugir sempre que algum se aproximava de mais, em
especial homens, e at os rapazes a assustavam. J no  tinha
que se preocupar com isso ali. Era uma escola s para raparigas;
no precisava de frequentar bailes ou festas, ou mesmo
jogos de futebol mais prximos. A vida social tinha-a abandonado  quando concorrera, mas isso j no lhe interessava. J nada lhe  interessava... ou, pelo menos, 
nada desde h trs meses...  Porm, subitamente... subitamente... at o ar
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cheirava bem e, enquanto Sam conduzia a carroa, olhou para ele e  sorriu. Sam tambm sorriu.
-  uma longa viagem desde Nova Iorque. - Os olhos parecia  danarem e os encarapinhados cabelos brancos eram macios.
- verdade. Tudo isto  verdadeiramente bonito. Olhou para o lago  e de novo para os edificios atrs de si, dispostos em leque, com  outros mais pequenos  frente. 
Parecia uma propriedade palaciana, e  fora-o, em tempos. Tudo estava muito bem tratado e imaculadamente  conservado. Quase sentiu pena por a me no a poder ver, 
mas  talvez um dia pudesse.
-Antigamente era uma plantao de algodo, sabe. Sam dizia o  mesmo a centenas de raparigas todos os anos. Gostava de lhes contar a  histria. O seu av tinha sido 
escravo exactamente ali, gabava-se  sempre, enquanto elas olhavam para ele de olhos arregalados. Eram to  jovens e to educadas, quase como a sua filha o fora, 
excepto que ela  j era uma mulher adulta com os seus prprios filhos. Embreve,  tambm aquelas raparigas teriam filhos. Sabia que todos os anos, na  Primavera, 
as raparigas regressavam de todos os cantos para se casarem  na bonita igreja que existia ali mesmo e, depois das cerimnias de  formatura, havia sempre pelo menos 
uma dzia que se casava nos dias  imediatamente a seguir. Olhou para Tana, enquanto ela seguia ao seu  lado, e imaginou quanto tempo ela iria ali ficar. Era uma 
das raparigas  mais bonitas que jamais vira, com pernas compridas e bem modeladas,  aquele rosto, os cachos de cabelos louros e aqueles enormes olhos  verdes. Se 
j a conhecesse bem, teria brincado com ela e dito que se  parecia com uma estrela de cinema, mas ela era mais reservada do que a  maioria. Tinha reparado desde 
o incio que Tana era invulgarmente  envergonhada.
-J aqui tinha estado? - Ela abanou a cabea, olhando para o  edificio onde ele acabara de parar a carroa. - Esta  uma das  melhores casas que temos. Jasmine House. 
Hoje j trouxe cinco  raparigas para c. Devem ser cerca de vinte e cinco ao todo e uma  encarregada de dormitrio para vos viiar a todas - disse -, embora  tenha 
a certeza de que nenhuma de vs ir precisar disso.
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Deu mais uma das suas enormes e sinceras gargalhadas, que soou quase a  msica, e Tana sorriu, ajudando-o a descarregar algumas das suas  malas. Seguiu-o para o 
interior e viu-se numa sala de estar  agradavelmente decorada. O mo bilirio era quase todo antigo, no  velho estilo ingls e americano, os tecidos eram floridos 
e alegres;  havia grandes ramos de flores em belos jarros de cristal sobre vrias  mesas e uma
secretria. Quando Tana entrou e olhou em redor, sentiu uma atmosfera  familiar. Uma das primeiras coisas que lhe chamou a ateno foi o  ar feminino daquele lugar. 
Tudo parecia limpo e arrumado, como se todos  devessem usar um chapu e luvas brancas. Subitamente, Tana olhou para  a sua saia de pregas, mocassinas e meias at 
aos joelhos e sorriu  para a mulher que se aproximava de si, num impecvel fato cinzento.  Tinha cabelos brancos e olhos azuis. Era a encarregada de dormitrio  
de Jasmine House, como Tana veio a saber pouco depois. J  desempenhava essa funo h mais de vinte anos, tinha um modo  dcil de falar, tpico do Sul e, quando 
o casaco se abriu, Tana  reparou no singelo fio de prolas. Parecia a tia de algum e  possua profundos traos de expresso risonha em redor dos  olhos.
- Bem-vinda a Jasmine House, minha querida. Nos terrenos do colgio,  h mais onze casas muito parecidas com esta, mas gostamos de pensar  que Jasmine  a melhor. 
Sorriu para Tana e ofereceu-lhe uma  chvena de ch, enquanto Sam levava as suas bagagens para cima.  Tana aceitou a chvena florida com uma colher de prata, recusou 
o  prato de bolinhos de aspecto delicado e sentou-se a apreciar a paisagem  do lago, pensando como a vida era estranha. Sentia-se como se tivesse  aterrado num universo 
diferente. Tudo era to diferente de Nova  Iorque. De sbito, ali estava ela, longe de todos os que conhecia, a  tomar ch e a conversar com aquela mulher de olhos 
azuis e  prolas. quando, h apenas trs meses, tinha estado deitada no  cho do quarto de Arthur Durning a ser violada e atacada pelo filho  dele. No achas, querida? 
- Tana olhou confusa para a encarregada de  dormitrio, sem saber ao certo o que esta acabara de dizer, e  reservadamente abanou a cabea, sentindo-se de repente 
cansada. Era  de mais para aceitar de uma s vez.
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- Sim. sim. acho. 
Nem sequer tinha a certeza daquilo que respondia. Tudo o que queria era  escapar-se para o seu quarto. Por fim, terminaram o ch, pousaram as  chvenas e Tana sentiu 
uma tremenda vontade de dar uma gargalhada ao  pensar na quantidade de ch que a pobre mulher teria bebido nesse  dia. Ento, como se tivesse sentido a impacincia 
de Tana por se  instalar, indicou-lhe o caminho para o quarto. Ficava por cima de dois  lanos de escadas, num corredor comprido, com quadros de flores e  fotografias 
dispersas de ex-alunas ali formadas. O seu quarto ficava  mesmo no fim do corredor. As paredes eram rosa-plido, as cortinas e  colchas de chintz.
Havia duas camas estreitas, dois bas muito velhos, duas cadeiras e  um pequeno lavatrio de canto. Era um engraado quarto antiquado,  e o tecto inclinava-se directamente 
sobre 2s cabeas delas. A  encarregada olhoatentamente para ela e
pareceu ficar satisfeita quando Tana se voltou e sorriu.
-  muito bonito.
- Todos os quartos de Jasmine House o so. Saiu do quarto pouco  depois, Tana sentou-se e ficou a olhar para as suas malas, sem saber bem  o que fazer. Deitou-se 
ento na cama, a olhar para as rvores  l fora. Pensou se
deveria esperar pela chegada da sua colega de quarto, antes de se  apoderar simplesmente de um dos bas, ou de metade do espao para  pendurar a roupa. De qualquer 
modo, no lhe apetecia desfazer as  malas. Estava a pensar em ir dar um         passeio a p  volta do  lago, quando ouviu algum a bater          porta, aparecendo 
de  repente o velho Sam. Sentou-se rapidamente na borda da cama e ele entrou  no quarto, carregando duas malas com um olhar estranho no rosto. Olhou  para onde Tana 
se encontrava, pareceu encolher os ombros e voltou a  olhar apenas para ela.
-Penso que  a primeira vez que isto nos acontece.
- Isto o qu?
Tana olhou, confusa, enquanto ele encolhia de novo os ombros e  desaparecia, deixando-a a olhar para as malas. Mas no parecia haver  ali nada de especial: duas 
enormes malas com rodas, uma azul-escura e  outra verde com pregas, uma         bOlsa de maquilhagem e uma caixa de  chapus redonda, 
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iguais s que estavam cheias com as coisas de Tana. Comeou a  caminhar lentamente pelo quarto, perguntando a si
prpria quando apareceria a dona delas. Contou com uma
espera interminvel, pois imaginou o ritual do ch, mas acabou por  ficar surpreendida com a rapidez com que a rapariga surgiu. A  encarregada bateu primeiro  porta, 
olhou para
os olhos de Tana quando a abriu, e depois afastou-se para o
lado, enquanto Sharon Blake parecia voar para dentro do
      quarto. Era uma das raparigas mais atraentes que  Tana jamais vira, com cabelos muito negros e bem apanhados atrs,  
         brilhantes olhos cor de nix, dentes mais  brancos que marfim num rosto de cacau claro, to bem desenhado que  mal
parecia real. A beleza dela era to marcada, os movimentos
to graciosos, o estilo to definido que cortou literalmente a
respirao a Tana. Vestia um casaco vermelho-vivo e um pequeno  chapu, que colocou prontamente numa das duas cadeiras do quarto,  revelando um vestido cingido de 
l cinzenta, exactamente da mesma cor  dos seus sapatos de boa
qualidade. Parecia mais um modelo do que uma estudante
colegial. Tana riu-se interiormente das coisas que ela prpria
trouxera. Eram saias de pregas e calas compridas, velhas
saias de l das quais no gostava muito, vrias blusas lisas,  
camisolas com decote em V e dois vestidos que a me lhe
comprara no Saks, pouco antes de partir.
- Tana... - A tonalidade da voz da encarregada de dormitrio indicava  que dava muita importncia  apresentao. Esta  a  Sharon Blake. Ela tambm  do Norte. 
Embora no
to do Norte quanto tu.  de Washington.
- Ol. - Tana olhou envergonhada para ela, enquanto
Sharon lhe devolvia um sorriso espantoso e estendia a mo: 
- Como ests?
- Vou deix-las sozinhas. - Pareceu olhar para Sharon
quase com pesar e para Tana com uma simpatia imensurvel. Cortava-lhe  o corao ter de fazer-lhe aquilo, mas algum tinha de dormir  com a rapariga e, afinal de 
contas, 
Tana era uma bolseira. Era justo. Ela tinha de agradecer tudo o que  recebesse. As outras no tinham de suportar isso.
      Fechou suavemente a porta e foi para baixo num  passo
determinado. Era a primeira vez que aquilo acontecia  em
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Jasmine House, em Green Hill para o caso, e Julia Jones desejava ter  tido algo mais forte do que ch para tomar nessa tarde. Bem  precisava. Depois de tudo; era 
uma tenso terrvel.
L em cima, Sharon apenas se riu, atirando-se para uma das  desconfortveis cadeiras e olhando para o cabelo louro e luzidio de  Tana. Eram um par completamente 
diferente. Uma muito loura, a outra de  tez escura. Olharam-se com curiosidade e Tana sorriu, perguntando-se o  que estaria a fazer ali. Ter-lhe-ia sido mais fcil 
ir para um  colgio do Norte, em vez de ter vindo para Green Hill. Mas ainda  no conhecia Sharon Blake. A rapariga era linda, sem qualquer sombra  de dvida, e 
vestia roupas muito caras. Tana voltou a reparar nisso  quando Sharon descalou os sapatos e os atirou para um canto.
- Bem. - O rosto delicado e moreno voltou a sorrir. - O que pensas de  Jasmine House?
-  bonita, no achas? - Tana ainda se sentia envergonhada com  ela, mas havia algo que a atraa naquela encantadora rapariga. Algo  de vivo, corajoso e bastante 
notrio que se salientava naquele rosto  requintado.
- Deram-nos o pior quarto, sabes?
Tana ficou abismada com aquilo.
- Como  que sabes?
- Vi, enquanto percorramos o corredor. - Ento suspirou e tirou  cuidadosamente o chapu. -J o esperava. Depois, olhou para Tana,  avaliando-a. - E que pecado 
cometeste tu para acabares por partilhar um  quarto comigo?perguntou com um sorriso meigo. Sabia porque estava ali,  pois era a nica aluna negra a ser aceite em 
Green Hill, o que era  invulgar, claro. O pai era um escritor notvel, vencedor do National  Book Award e do Prmio Pulitzer; a me era advogada, actualmente a  
trabalhar no Governo, e ela acabara por ser diferente da maioria das  raparigas negras. Era pelo menos o que esperavam dela. embora ningum  pudesse ter a certeza, 
 claro. e Miriam Blake tinha dado a escolher   sua filha mais velha, antes de a mandar para Green Hill. Podia ter  ido para qualquer lado no Norte, para Colmbia, 
em Nova Iorque, pois  as suas notas eram suficientemente boas, ou para Georgetown, perto de  casa, 
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onde havia a UCLA, se ela estivesse seriamente interessada
em seguir a carreira artstica. mas havia algo importante
que ela podia fazer, dissera a sua me.
 Algo que um dia signifique alguma coisa para as
outras raparigas, Sharon! Sharon olhara para a me, 
sem perceber o que ela quisera dizer. - Podias ir para Green
Hill.
- No Sul? - perguntara Sharon, chocada. - Nem sequer me aceitariam.
      Miriam olhara para ela.
      - Ainda no compreendeste, pois no, querida? O teu
pai  o Freeman Blake. J escreveu- livros que  as pessoas
lem por todo o mundo. Julgas que, actualmente, eles se
atreveriam a rejeitar-te?
Sharon sorrira nervosa.
      - Ora, sim, me. Cobrir-me-iam com  alcatro e penas
mesmo antes de desfazer as malas. - A ideia  aterrorizara-a.
Sabia o que acontecera em Little Rock, trs anos antes. Tinha lido  nos jornais. Haviam sido precisos tanques e a Guarda Nacional para  manter crianas negras numa 
escola para
brancos. E aquela no era uma pequena e velha escola qualquer...  Tratava-se de Green Hill; o colgio feminino mais
      exclusivo do Sul, onde estavam as filhas de  congressistas e senadores e para onde os governadores do Texas, da  Carolina do Sul e da Jrgia mandavam as suas 
filhas, a fim de  passarem dois anos de aprendizagem, antes de comearem a sair
com rapazes da sua espcie. - Me, isto   incrvel!
- Se todas as raparigas negras deste pas pensssem assim, Sharon  Blake, ento, daqui a cm anos, ainda estaramos a dormir em  hotis para ngros,  sentarmo-nos 
no
fundo dos autocarros e a beber a ga das fontes que cheirassem a  urina de rapazes brancos:
Os olhos da me tinham-se focdo nela, enquanto Sharon sorrira.  Miriam Blake pensava assim, e pensaria sempre. 
Obtivera uma bolsa de estudos e frequentra Radcliffe e a
Boalt Law School, na Universidade da Califrnia e, desde
      ento, lutara arduamente por aquilo em que  acreditava, pelos oprimidos e pelos homens vulgares. Agora, lutava  plos
      da sua raa. At mesmo o marido a admirava. Tinha mais
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coragem do que todos os que ele conhecia, e no ia parar agora. Mas  isso assustara muitas vezes Sharon. Assustara-a bastante, tal como tinha  acontecido quando 
concorrera para Green Hill.
- E se me aceitarem? - Isso assustara-a mais do que tudo e dissera-o ao  pai. - No sou como ela, pai. no pretendo provar nada. s ser  aceite. Quero ter amigos, 
divertir-me. O que a me pretende de mim   muito duro. - As lgrimas tinham-lhe enchido os olhos e ele  compreendera. Mas no podia mudar nenhuma delas: Miriam 
e o que  esperava de todos eles, ou a rapariga despreocupada, brincalhona e bela,  menos parecida com Miriam e mais consigo. Queria um dia ser actriz da  Broadway. 
E queria ir para a UCLA.
- Podes ir para l nos teus dois ltimos anos, Shara - dissera a  me -, mas depois de fazeres o que tens a fazer.
- Porque tenho eu de pagar seja o que for? - gritara.Porque tenho de  pagar com dois anos da minha vida?
- Porque vives aqui na casa do teu pai, num confortvel sobrbio  de Wshington, e dormes na tua boa e acolhedora cama, graas a  ns, sem nunca teres conhecido 
uma vida de dor. -Ento, bata-me.  Trate-me como uma escrava, mas deixe-me fazer o que quero! 
- Est bem. - Os olhos da me tinham soltado fascas. - Faz o  que queres. Mas nunca caminhars com orgulho, rapariga, se s  pensares em ti prpria. Julgas que 
foi isso que aconteceu em Little  Rock? Eles percorreram todo o caminho, com as armas apontadas   cabea e o Klan ansioso dos seus pescoos, todos os dias. E sabes 
por quem  que fizeram aquilo, rapariga? Fizeram-no por ti. E por  quem irs fazer, Saharon Blake?
- Por mim - gritara antes de subir a correr as escadas que a conduziam  ao quarto e atirar com a porta. Mas as palavras tinham-na perseguido. As  palavras da me 
tinham
sempre esse efeito. No era fcil viver com ela, ou conhec-la  ou mesmo am- la. Nunca facilitara nada a ningum. Todavia, ao  longo dos tempos, fizera coisas boas. 
Para todos.         
      Freeman Blake tinha tentado conversar com a  esposa, a noite. Sabia como Sharon se sentira e o quanto ela odeava  no ir para a UCLA.
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- Porque  que no a deixas fazer o que ela quer, para variar?
- Porque ela tem uma responsabilidade. E eu tambm, tal como tu. 
- No consegues pensar em mais nada? Ela  jovem. D-lhe uma  oportunidade. Talvez no queira lutar por uma causa. Talvez lutes o  suficiente por todos ns. - Mas 
ambos sabiam que aquilo no era  totalmente verdade. O irmo de
Sharon, Dick, tinha apenas quinze anos mas sara completamente a  Miriam e partilhava da maior parte das suas ideias, embora as dele  prprio fossem ainda mais furiosas, 
mais radicais. Ningum haveria  nunca de o repelir e Freeman sentia-se orgulhoso por isso, mas tambm  reconhecia que Sharon era uma criana diferente. - Deixa-a 
ser ela  mesma.
Foi o que fizeram mas, por fim, o sentimento de culpa sara vencedor,  pois Sharon estava ali com Tana.
Tinham jantado na sala de jantar principal e, nesse momento, j se  encontravam no quarto delas. Sharon numa camisa de noite de nylon  cor-de- rosa, um presente 
de despedi da da sua melhor amiga; Tana numa  camisa de noite de flanela azul, o cabelo apanhado num comprido  rabo-de-cavalo louro, enquanto olhava para a sua nova 
amiga.
- Penso que irei para a UCLA, depois de terminar aqui: 
- Suspirou e olhou para o verniz cor-de-rosa que acabara de aplicar nos  dedos dos ps, voltando depois a olhar para
Tana. - Ela espera tanto de mim. - E tudo o que ela queria para si era  ser bela, inteligente e, um dia, uma grande actriz. Isso era o  suficiente. Excepto para 
Miriam Blak.
Tana sorriu.
- A minha me tambm espera muito de mim. Dedicou toda a maldita  vida dela a fazer o que achava certo para mim. Tudo o que pretende   que eu venha para aqui durante 
um ou dois anos, para depois me casar com  algum jovem simptico. - Fez uma careta que sugeria que ela achava  ideia pouco atraente, e Sharon deu uma gargalhada.
- Secretamente,  o que todas as mes pensam, at a minha,  desde que eu prometa lutar pelos direitos dos outros, mesmo depois de me  casar. O que diz o teu pai? 
Deus proteja o meu, pois defende-me sempre  que pode. Ele tambm pensa que tudo aquilo  uma chatice.
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- O meu morreu antes de eu nascer.  por isso que ela se entusiasma  com tudo. Tem um medo de morte que tudo corra mal. Por isso, agarra-se a  toda e qualquer segurana 
que tenhamos e espera que eu faa o  mesmo. - Olhou ento de um modo estranho para Sharon. - Sabes, na  verdade, a tua me faz mais o meu gnero. - As duas raparigas 
desataram a rir e s apagaram a luz duas horas mais tarde. No fim da  primeira semana em Green Hill, as duas raparigas j eram grandes  amigas. Tinham praticamente 
o mesmo horrio, encontravam-se ao  almoo, iam juntas  biblioteca, davam passeios a p em redor  do lago e conversavam sobre a vida, sobre rapazes, sobre a familia 
e os  amigos. Tana Contou a Sharon a relao da me com Arthur  Durning, mesmo quando este ainda era casado com Marie, e o que pensava  dele. A hipocrisia, a tacanhez, 
a vida estereotipada em Greenwich com  crianas, amigos e scios que bebiam demais, numa casa que s  servia para ser exibida, enquanto a me no passava de escrava 
dele noite e dia, vivia para as suas chamadas e nada tinha para mostrar  aps doze anos. - Quero dizer, Shar, que tudo aquilo me aborrece  bastante. E sabes o que 
 pior? - Os olhos faiscaram em brasa, quando  olhou para a amiga. - O pior  que ela aceita toda a merda dele.  Est tudo bem para ela. Nunca o deixar, nem nunca 
pedir mais.  H-de ficar assim o resto da vida, grata por todas as coisas servis  que faz por ele, sem se aperceber de que ele nada faz por ela, enquanto  insiste 
que lhe deve tudo na vida. Qual tudo? Trabalhou que nem uma  escrava, durante toda a sua vida, para conseguir o que tem e ele trata-a  como uma pea de mobilirio. 
 uma cadela contratada. As  palavras de Billy ainda 
lhe soavam aos ouvidos, embora tivesse tentado esquec-las pela
dcima milionsima vez. - No sei. Ela v tudo de maneira  diferente, mas isso deixava-me furiosa. No consigo passar o resto da  minha vida a submeter-me a ele.
Devo muito  minha me, mas no devo um tosto ao Arthur,  nem ela, mas a minha me no v isso assim. Est sempre com  tanto medo. Pergunto-me vrias vezes se ela 
era
assim antes de o meu pai morrer. - A me dissera- que era muito  parecida com o pai, e o rosto iluminava-se.
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- Gosto mais do meu pai do que da minha me. Sharon era sempre  sincera em relao aos seus sentimentos, 
em especial com Tana.
No fim do primeiro ms, j tinham contado uma  outra
inmeros segredos, embora a nica coisa a que Tana nunca
se referira fosse a violao. De certa maneira, nunca conseguia  escolher as palavras certas, pensando para consigo que, de qualquer  modo, isso no era importante. 
Mas, alguns
dias antes do primeiro baile marcado para a Noite das Bruxas com uma  escola para rapazes da vizinhana, Sharon revi        rou os olhos e  deitou-se na cama.
      - Grande coisa - protestou ela. - Como  que  poderei
ir? Como uma gata negra, ou num lenol branco  como
membro do Klan? - As raparigas podiam ir danar sozinhas, visto que o  baile seria em Green Hill, o que era uma
sorte, uma vez que nem Tana nem Sharon tinham parceiro.
Nem sequer tinham amigas. As outras raparigas tinham o
cuidado de no se aproximar muito delas. Eram educadas, 
j ningum achava estranha a sua presena. Todos os professores  a tratavam com cortesia, mas era como se quisessem
fingir que no estava ali, como se, ignorando-a, ela desaparecesse. A  nica amiga que tinha era Tana, que ia para todo o lado consigo e,  como resultado, Sharon 
era a nica amiga
      de Tana. Todos se afastaram dela tambm. Se  gostava
de brincar com negros, acabaria por brincar sozinha.  Sharon
avisou-a disso mais de uma vez.
- Por que raio no vais tu divertir-te com as da tua
raa? - Tentou ser dura, mas Tana conseguia ver sempre
alm.
- Vai-te lixar.
- s uma idiota.
- ptimo. J somos duas.  por isso que nos damos
to bem!
- N - Sharon sorriu para ela -, damo-nos bem porque vestes roupas de  merda e, se no tivesses o meu gosto de roupa e os meus conselhos  inteligentes  mo, sairias 
com ar de tola completa.
- Sim - Tana sorriu alegremente -, tens razo. podes ensinar-me a  danar? - As raparigas acabaram por
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cair nas respectivas camas e as suas gargalhadas podiam ser ouvidas no  vestbulo durante quase toda a noite. Sharon possua uma energia,  um brio e um fogo tal 
que acabou por trazer Tana de volta  vida. Por  vezes, sentavam-se em qualquer lado e contavam anedotas, at as  lgrimas correrem pelos rostos e chorarem de tanto 
rir. Sharon  possua tambm um sentido de estilo que Tana nunca vira antes,  alm de possuir as roupas mais bonitas que ela vira. Ambas eram
 mais ou menos da mesma estatura e, aps algum tempo, 
      acabaram por misturar tudo nas mesmas gavetas e  vestir o que viesse  mo.
 - Ento. de que  que vais mascarar-te na Noite  das Bruxas, Tan? - Sharon estava a pintar as unhas de laranja, cor que  lhe ficava muito bem em contraste com a 
pele escura. Olhou para o verniz  hmido e depois para a amiga, mas Tana pareceu desinteressada, pois  virara a cara. 
- No sei. Depois verei. 
- O que  que isso significa? - Percebeu logo que havia algo  diferente na voz de Tana, algo que nunca antes notara, excepto talvez  uma ou duas vezes, quando suspeitara 
ter tocado nalgum ponto fraco.  Contudo, ainda no sabia que o ponto era esse, ou onde ele se  encontrava precisamente. - Tu vais, no vais?
Tana levantou-se e espreguiou-se, desviando os olhos. 
- No, no vou.
- Por amor de Deus, porque no? - inquiriu, abismada. Tana gostava de  se divertir. Tinha um ptimo sentido de humor, era uma rapariga  bonita, uma boa companhia 
e inteligente. - No gostas da Noite das  Bruxas?
- . bom: para as crianas. 
Era a primeira vez que Sharon a viu comportar-se daquele modo e ficou  surpreendida.
- No sejas uma desmancha-prazeres, Tan. Vamos, eu arranjo-te o fato.  - Comeou a vasculhar o armrio que partilhavam, tirando coisas e  atirando-as para cima da 
cama, mas Tana no pareceu animada. Nessa  noite, quando as lu zes se apagaram, Sharon perguntou-lhe de novo. -  Porque  que no queres ir ao baile da Noite das 
Bruxas, Tan?  Sabia que ela ainda no tinha parceiro mas, at ao momento, 
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nenhuma delas tinha. Para Sharon, era um percurso particularmente  solitrio por ser a nica rapariga negra da escola, mas tinha-se  resignado a isso, quando concordara 
vir para Green Hill, e ainda no  conhecia ningum. S algumas raparigas de sorte  que j  tinham parceiro, mas sabiam que
iriam conhecer um rebanho de jovens no baile. Subitamente, Sharon  sentiu-se ansiosa por sair. - Deixaste algum namorado em casa? - Ainda  no o referira. Sharon 
achou pouco provvel que ela o tivesse  calado, embora houvesse algumas coisas que ainda no tinham  partilhado. Haviam evitado o assunto sobre a sua virgindade, 
ou a falta  dela, o que Sharon sabia ser invulgar em Jasmine House. Parecia que  todas as outras estavam ansiosas por falar do seu estado o mximo  possvel, mas 
Sharon sentira correctamente a reserva de Tana. Ela  prpria tinha vontade de falar no assunto. Apoiou-se en to num  cotovelo e olhou para Tana, no quarto iluminado 
pela Lua. - Tan!
- No, no  nada disso. Apenas no gosto de sair.
- H algum motivo especial para isso? s alrgica a homens?  Ficas tonta de saltos altos? Transformas-te em vampiro depois da  meia-noite? Embora, na verdade - sorria 
maliciosamente -, isso fosse bem  giro na Noite das Bruxas.
Na outra cama, Tana deu uma gargalhada.
- No sejas idiota. No me apetece sair,  tudo. No   nada de especial. Vai tu. Vai apaixonar-te por um rapaz branco e deixar  os teus pais doidos. - Ambas se 
riram com a perspectiva.
- Credo, provavelmente acabaria por ser expulsa da escola! Se a velha  Mistress Jones pudesse decidir, ter-me-ia colocado junto ao velho Sam. -  A encarregada de 
dormitrio olhara vrias vezes para Sharon com ar  benvolo e depois para Sam, como se houvesse entre eles alguma  espcie de parentesco.
- Ela sabe quem  o teu pai? - Freeman Blake tinha acabado de receber  outro Pulitzer e toda a gente conhecia seu nome, quer tivesse ou no  lido os seus livros. 
-Julgo que ela no sabe ler.
- D-lhe um livro autografado quando regressares de frias -  sugeriu Tana, e Sharon deu uma gargalhada.
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- Ela morreria. 
Todavia, nada daquilo resolvia o problema do baile da Noite das Bruxas.  Sharon acabou por ir mascarada de gata preta, extremamente sexy,  vestindo um maillot preto, 
onde se salientava o seu rosto cor de cacau,  os enormes olhos e as pestanas que pareciam interminveis. Aps um  ou dois minutos de tenso inicial, algum a convidou 
para  danar e ela passou o resto da noite na pista de dana.  Divertiu-se bastante, apesar de nenhuma das raparigas ter conversado com  ela.
Tana ficou na cama e estava a dormir profundamente quando ela regressou  ao quarto, pouco depois da uma hora.
- Tan?. Tana?. Tan. 
Esta mexeu-se ligeiramente, levantou a cabea e abriu um olho,  bocejando.
- Divertiste-te?
- Foi ptimo! Dancei toda a noite! - Estava morta por contar tudo,  mas Tana j se tinha virado na cama.
- Fico feliz. Boa noite. - Sharon ficou a olhar para as costas da outra  rapariga e a pensar de novo no que a levara a no ir, mas nada mais  foi dito e, quando 
Sharon tentou
abordar o assunto no dia seguinte, Tana no ficou muito satisfeita.  Depois do baile, as outras raparigas comearam a receber muitas  chamadas. O telefone do andar 
inferior parecia estar sempre a tocar, e  s um rapaz ligou para Sharon Blake. Convidou-a a ir ao cinema e ela  aceitou mas, quando l chegaram, o arrumador no 
os deixou  entrar.
- Isto no  Chicago, amigos. - Olhou para eles, enquanto o rapaz  corava at  raiz dos cabelos. - Agora esto no Sul. - E,  voltando-se para o jovem, disse: - 
Vai para
casa e arranja uma rapariga decente, filho.
 Sharon tentou tranquiliz-lo, quando partiram.
- De qualquer modo, no me apetecia ver o filme. Palavra, Tm,  est tudo bem. - Mas o silncio foi agonizante durante o percurso  de regresso e, quando finalmente 
chegaram a Jasmine House, ela voltou-se  para ele. Falou com voz forte e suave, o olhar meigo e a mo  aveludada: 
- Est bem, Tm. Eu compreendo. J estou habituada. respirou  profundamente. -  por isso que vim para Green Hill.
- Parecia estranho ela dizer aquilo, e Tom olhou-a
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com ar interrogador. Era a primeira rapariga negra que convidava para  sair e achava que era a criatura mais extica que vira.
- Vieste para c para ser insultada por um excremento
qualquer de uma sala de cinema, numa cidade de cavalos? Ainda fervia por  dentro. Estava furioso por ela, mesmo que
      ela no estivesse.
- No - respondeu suavemente, recordando as  palavras da me -, vim para c para mudar as coisas, julgo eu.
Comea assim e continua por muito tempo, mas um
      dia ningum se importar que raparigas  negras saiam com rapzes brancos para irem ao cinema, andarem de  carro, passearem nas ruas ou comerem hamburgers onde 
quer que seja. Isso  acontece em Nova Iorque. Porque no pode acontecer
aqui? As pessoas podem olhar mas, pelo menos, no  mandam ningum embora. A nica maneira de chegar a  
comear por baixo, como esta noite. - O rapaz olhou para
ela, perguntando-se se teria sido usado, mas pensou
que no. Sharon Blake no era pessoa para isso e ele j  sabia
quem era o pai dela. Qualquer um ficava impressionado
com algum como ele. E admirou-a mais, depois do que
acabara de lhe dizer. Deixou-o um tanto confuso, mas sabia
que havia ali algo de verdadeiro.
- Lamento no termos entrado. Porque no tentamos
outra vez na prxima semana?
Ela deu uma gargalhada.
- No quero dizer que tenhamos de mudar tudo de
uma s vez. - Mas gostou da coragem dele. Ele compreendeu a ideia e  talvez a sua me no estivesse to errada. Afinal, talvez fosse  justo servir uma causa.
- Porque no? Mais cedo ou mais tarde, aquele tipo
ficar cansado de nos mandar embora. Raios, podemos 
ir tomar um caf... ao restaurante do outro lado da cidade...
As possibilidades eram ilimitadas e Sharon riu-se dele.
Ele ajudou-a a sair do carro e acompanhou-a at Jasmine House.
Ela ofereceu-lhe uma chvena de ch e sentaram-se na
      sala de estar durante algum tempo, mas os  olhares que receberam dos outros pares que ali estavam foram to  sinistros
que Sharon acabou por se levantar. Acompanhou-o,  lentamente
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      at  porta e, por momentos, pareceu  triste. Tudo teria sido muito mais fcil na UCLA, em Colmbia. em  qualquer stio que no no Norte. em qualquer lugar, 
menos ali. Tom  percebeu logo o que se passava com ela e segredou, enquanto permaneciam  junto  porta aberta: - Lembra-te. Nada acontece de um dia para o  outro. 
- Afagou-lhe ento o rosto e retiro-se, enquanto ela ficou  a v-lo afastar-se. Ele tinha razo,  claro. Nada acontece de  um dia para o outro.
Quando subiu as escadas, decidiu que no tinha sido  uma noite totalmente desperdiada. Gostava de Tom e perguntou a si  prpria se ele lhe ligaria de novo. Era 
uma boa pessoa.
- Ento? Ele declarou-se? - Tana sorria-lhe da cama quando Sharon  entrou e gemeu.
- Sim. Duas vezes.
- Isso  bom. Que tal foi o filme?
Sharon sorriu.
- Pergunta a outra pessoa.
- No foram? - perguntou, surpreendida.
- No nos deixaram entrar. Sabes. rapaz branco. rapariga escura.  Arranja uma rapariga decente, filho. Fingiu estar a rir, mas Tana  percebeu a dor nos olhos dela 
e franziu a testa.
- Grandes merdas. O que  que o Tom disse?
-Foi simptico. Quando regressmos, sentmo-nos l emz baixo  durante algum tempo, mas isso foi ainda pior. Devia haver sete Brancas  de Neve sentadas l em baixo 
com os seus Prncipes Encantados e  todos eles tinham os olhos colados em ns. - Suspirou e sentou-se,  olhando para a
amiga. - Merda. a minha me e as suas brilhantes ideias. Durante  cerca de um minuto no exterior do cinema, senti-me nobre, forte e pura  mas, quando regressmos, 
decidi que na verdade tinha sido uma enorme  chatice. Raios, nem sequer podemos ir comer um hamburger. Podia morrer   fome, nesta cidade.
 - No, se tivesses sado comigo, aposto. - Ainda no tinham  sado para comer. Sentiam-se demasiado bem onde estavam e a comida  era espantosamente boa l na escola. 
Anbas j tinham aumentado um  ou dois quilos, para desgosto de Sharon.
75
- No estejas assim to certa, Tan. Aposto que tambm
nos faro a vida num inferno, se tentar ir para qualquer lado
contigo. Preto  preto e branco  branco, independentemente da  forma como consideras o caso.
- Porque  que no tentamos? - Tana pareceu intrigada e, no dia  seguinte, saram.
Caminharam lentamente at  cidade e pararam para comer um  hamburger. A empregada de mesa dirigiu-lhes um
olhar longo, lento e feio, e depois afastou-se, sem as servir: 
Tana olhou para ela, estupefacta. Chamou-a de novo e
a mulher fingiu no ver, at que, por fim, Tana se aproximou
dela e perguntou se j podiam fazer o pedido. A empregada
olhou para ela, envergonhada.
Respondeu em voz baixa para que Sharon no pudesse
ouvir.
      - Desculpa, querida. No posso servir a tua  amiga. Esperava que percebessem o recado.
- Porque no? Ela  de Washington... - Como se  isso
fizesse alguma diferena... - A me  advogada e o pai 
recebeu duas vezes o Prmio Pulitzer...
      - Isso no faz diferena aqui. Isto no   Washington.
 Yolan. - Yolan, na Carolina do Sul, lar de Green  Hill.
      - H algum stio na cidade onde possamos  comer?
A empregada olhou, nervosa, para a loura alta e de  olhos
      verdes; a dureza da voz assustou-a.
- H um lugar para ela mesmo ao fundo da rua...
tu podes comer aqui.
- Quero dizer, juntas. - Os olhos de Tana estavam
mais duros do que ao verde e sentiu uma enorme revolta.
Quase lhe apeteceu bater em algum. Era algo que nunca
antes sentira, uma fria irracional. - Existe algum lugar
nesta cidade onde possamos comer juntas, sem termos
que apanhar o comboio para Nova Iorque? - Tana olhou
para ela e, lentamente, a empregada abanou a cabea. Mas
no deu um passo sequr. - Est bem, ento quero
dois hamburgers com queijo e duas Coca-Colas.
- No, no queres - disse um homem que acabara
de sair da cozinha atrs do local onde se encontravam. Regressem  quela maldita escola de onde vieram. - Eram
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facilmente reconhecidas em Yolan. As roupas de Sharon chamavam por si  s a ateno de qualquer um. Trazia uma saia e uma camisola que  a me lhe tinha comprado 
na Bonwit Teller, em Nova Iorque. - E l  podem comer tudo o que muito bem vos apetecer. No sei o que foi que  lhes deu. Mas, se permitem negras na escola, ento 
que as alimentem.  No temos de o fazer aqui. - Olhou insistentemente para Tana, depois  para o lugar onde estava Sharon e foi como se uma fora enorme  tivesse 
entrado na sala pois, por um segundo ou dois, Tanajulgou que ele  iria expuls-las. Desde que fora violada, nunca se sentira to  assustada ou to furiosa. Ento, 
sempre com muita calma, e no seu  estilo gracioso e altivo, como o de uma verdadeira lady, Sharon  levantou-se.
- Vamos, Tan - proferiu. A voz soou muito sensual e, por um instante,  Tana viu os olhos do homem quase a saltarem de desejo. e apeteceu- lhe  esbofete-lo. Isso 
f-la recordar algo em que nunca mais queria  pensar e, um segundo depois, seguiu Sharon.
- Filho da me. - Tana estava furiosa quando regressram para a  escola, mas Sharon parecia espantosamente calma. Sentia o mesmo que na  noite anterior, com Tom, 
quando no os tinham deixado entrar na sala  de cinema. Por um instante, sentira subir uma onda de poder,  compreendera o motivo por que ali estava, mas a depresso 
acabara por  venCer. Contudo; nessa noite, ainda no estava deprimida.
- A vida  estranha, no ? Se isto tivesse acontecido em Nova  Iorque ou em Los Angeles, ou at em qualquer
outro lugar, ningum teria dado importncia. Mas aqui, tem muita  importncia que eu seja negra e tu branca. Talvez a
minha me tenha razo. Talvez tenha chegado o momento de fazer uma  cruzada. No sei, sempre pensei que, desde que me sentisse  confortvel, no importava que coisas 
como
esta acontecessem a mais algum. Mas, de repente, esse mais algum  sou eu. - Subitamente, compreendeu o que levara a me a insistir na  ida dela para ali e, pela 
primeira vez desde que chegara, interrogou-se  sobre se ela estaria certa. Talvez fosse ali o seu lugar, apesar de  tudo. Talvez devesse isso a algum,
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por todo o tempo em que se sentira confortvel. No sei o que  pensar, Tan. 
- Nem eu... - Faziam o percurso lado a lado. - Nunca me senti to  intil nem to furiosa. - Ento, de sbito,
o rosto de Billy Durning veio-lhe  memria e ela tremeu
visivelmente. - Bem. Talvez uma vez. 
Sentiram-se, de repente, mais prximas uma da outra
que nunca. Tana quase teve vontade de colocar um brao
 volta dela para a proteger de mais mgoas.
- Quando  que isso aconteceu, Tan... - perguntou Sharon,  sorrindo.
- Oh, h muito tempo... - Forou um sorriso. H cerca de cinco  meses...
      - Sim... foi mesmo h muito tempo... - As  duas trocaram um sorriso e continuaram o caminho. Passou um carro por  elas, mas ningum as incomodou e Tana no 
sentiu
medo: Ningum voltaria a fazer-lhe o que Billy  Durning lhe
fizera. Mat-lo-ia primeiro. Havia nos seus olhos uma expresso  estranha e cruel quando Sharon olhou para ela e a
chamou: 
- Deve ter sido bastante mau.
- Foi.
- Queres falar disso? - A voz soou to suave como a noite  cinzento-escura, e caminharam algum tempo em silncio, enquanto Tana  pensava. Nunca quisera contar a
ningum o sucedido, em especial depois da reaco da  me.
- No sei.
Sharon abanou a cabea, como se tivesse compreendido.
Todos tinham algum segredo que no queriam partilhar.
Ela prpria tambm tinha um segredo assim.
- Est bem, Tan.
Porm, assim que falou, Tana olhou para ela e, de rente, as palavras  comearam a sair, quase por si s.
- Sim, quero... - E depois: - No sei... Como 
que se fala de uma coisa como aquela? - Comeou a caminhar
mais depressa, como se estivesse a fugir, e Sharon seguiu-a 
facilmente nas suas longas e graciosas pernas. Sem pensar,
Tana passou nervosamente uma mo pelo cabelo, desviou o olhar e  comeou a respirar com maior dificuldade. 
- No h muito a dizer... Fui a uma festa depois de terminar o  liceu
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em junho. Na casa do patro da minha me. Ele tem um filho que   um demnio. e eu disse  minha me que no queria ir. -  Respirava em suspiros curtos, e Sharon 
reparou que ela nem sequer o  notava, enquanto caminhavam. Sabia que aquilo estava a torturar a  rapariga e seria melhor que ela deitasse tudo c para fora. - De 
qualquer modo, ela disse-me que eu tinha de ir, quisesse ou no.  Diz-me sempre isso. Ela  assim, em especial no que se refere ao  Arthur Durning e aos seus filhos... 
 cega por aquilo que eles  so, e. - O fluxo de palavras cessou, e ambas continuaram a caminhar,  cada vez mais depressa, como se ela ainda pudesse fugir. Sharon 
acompanhou o passo, vendo que ela lutava contra as recordaes. -  Bom, um rapaz pateta veio buscar-me e chegmos l.  festa,  quero dizer. e todos estavam bbedos. 
e o rapaz pateta que me deu  boleia embebedou-se e desapareceu. Eu estava a passear pela casa. e o  Billy. o filho do Arthur. perguntou-me se queria ver a sala onde 
a minha  me trabalhava, que eu sabia qual era. 
- As lgrimas corriam-lhe pelo rosto, mas ela nem as sentia por causa  do vento, e Sharon no disse nada. - Em vez disso, levou-me at ao  quarto do Arthur, onde 
tudo era cinzento, veludo cinzento, cetim  cinzento. pele cinzenta. at a alcatifa do cho era cinzenta. -  Era s disso que se lembrava: a interminvel cor cinzenta 
e, mais  tarde, o seu sangue no cho, o rosto de Billy e depois o acidente;  mal conseguia respirar com a lembrana. Puxou a gola da camisa e  comeou a correr, 
j a soluar. Sharon seguiu-a, mantendo-se  prximo dela. J no estava sozinha; agora tinha uma amiga que  a acompanhava no pesadelo. - O Billy comeou a bater-me 
e a  empurrar-me para o cho. e tudo o que fez. - Voltou a lembrar-se da  sua impotncia, do desespero que sentira mas, de repente, no ar da  noite, deu um grito 
e parou bruscamente, tapando o rosto com as mos.  - No consegui fazer nada que o obrigasse a parar. No consegui...  - Todo o seu corpo tremia, e Sharon abraou-a 
sua vemente. - E ele  violou-me. e deixou-me ali com sangue por todo o lado. As minhas pernas  e o meu rosto. E depois eu vomitei. Mais tarde, ele seguiu-me rua 
abaixo  e obrigou-me a entrar no carro e quase bateu num camio.
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- No podia calar-se. Chorou e Sharon chorou com ela. Acabmos por  bater numa rvore e ele cortou a cabea, ficando tambm cheio  de sangue, e levaram-nos para 
o hospital... e depois apareceu a minha  me... - Voltou a parar e, 
com o rosto cheio de fria pela memria  qual tentara escapar  durante cinco meses, levantou os olhos e fitou Sharon.
- Quando tentei contar-lhe, no acreditou em nada do que
eu lhe disse... Respondeu-me que o Billy Durning nunca faria nada  daquilo. - Os soluos eram agora profundos e dolorosos.
Suavemente, Sharon abraou-a com mais fora.
- Eu acredito em ti, Tan.
      Tana anuiu, parecendo uma garotinha  desolada.
- Nunca mais quero que algum me toque.
      Sabia exactamente como Tana se sentia, mas  no pelas
      mesmas razes da amiga. No tinha sido violada. Oferecera-se  livremente ao rapaz que amava.
- A minha me nunca acreditou numa nica palavra  do
que eu lhe disse - prosseguiu Tana. - Nem nunca h-de
acreditar. Os Durning so deuses para ela.
- Tudo o que interessa  que estejas bem, Tan. - Sharon conduziu-a  at um cepo, onde se sentaram. Ofereceu-lhe um cigarro e, pela  primeira vez, Tana deu uma baforada. 
- E tu sabes que ests bem.  Melhor do que julgas. Sorriu com carinho para a amiga, profundamente  comovida
pela confidncia dela, e limpou-lhe as lgrimas do rosto, enquanto  Tana lhe devolvia um sorriso.
- No achas que fiquei horrvel por causa daquilo?
- Que pergunta mais pateta! No existe em ti qualquer
reflexo, Tan.
- No sei... s vezes penso que ... Como se eu pudesse  t-lo impedido, se tivesse tentado o suficiente... - Sentiu-se bem,  s por ter falado, s por ter deitado 
tudo para
fora. As palavras tinham-na perseguido durante meses.
- Acreditas realmente nisso, Tan? Achas realmente
que podias t-lo impedido de fazer aquilo? Diz a verdade.
Pensou naquelas palavras durante algum tempo e depois
abanou a cabea.
- No.
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- Ento, no te tortures. Aconteceu. Foi horrvel. Pior do que  isso. Foi provavelmente a pior coisa que alguma vez aconteceu em toda a  tua vida, mas ningum voltar 
a faz-lo de novo. E, na verdade,  no foi em ti que ele tocou. No conseguiu tocar no teu verdadeiro  eu, fizesse o que fizesse, Tan. Esquece tudo isso. Apaga essa 
recordao. E segue a tua vida.
- Isso  fcil de dizer. - Tana sorriu cansada. - Mas no   assim to fcil de fazer. Como  que se esquece uma coisa  destas?
- Fazes por isso. No deixes que isso te destrua, Tan.          nessa  altura que um rapaz como ele vence. Ele  doente. Tu no. No  adoeas por causa do que ele 
te fez. Horrvel como foi, tira isso  da cabea e segue o teu caminho.
- Oh, Sharon. - Suspirou e levantou-se, olhando para a amiga. Estava uma  noite muito bonita. - Como  que consegues ser to  inteligente?
Sharon sorriu mas, nessa noite, os seus olhos estavam srios, quase  tristes, quando Tana olhou para ela.
- Tambm tenho os meus segredos.
- Tais como? - Tana sentiu-se mais calma do que nunca. Era como se um  animal feroz se tivesse libertado de dentro dela, como se Sharon o  tivesse deixado sair da 
jaula. Tana voltara novamente a sentir-se em  paz. A me no tinha conseguido faz-lo por ela cinco meses  antes, mas aquela rapariga sim. Tana sabia que, acontecesse 
o que  acontecesse depois disso, seriam amigas para sempre. - O que foi que te  aconteceu? - Tana procurou-lhe os olhos, sabendo que ali havia alguma  coisa. Teve 
a certeza, quando Sharon olhou para ela. Sem rodeios. Nunca  contara nada a ningum, mas pensava muito naquilo. Conversara sobre o  assunto com o pai, na noite anterior 
 partida para Green Hill. Este  dissera-lhe o mesmo que ela acabara de dizer a Tana, isto , que  no podia deixar que isso lhe destrusse a vida. Tinha acontecido. 
E agora j estava feito. Ela tinha de deixar que as coisas ficassem  assim e seguir a vida, mas questionava-se se alguma vez o  conseguiria.
- Tive um filho este ano.
Tana susteve a respirao e ela olhou estupefacta para Sharon.
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- Tiveste?
- Sim. Arranjei um namorado aos quinze anos e, quando fiz dezasseis, ele  ofereceu-me o seu anel de curso... No
sei, Tan... Pareceu-me um gesto to carinhoso... Ele parece
um deus africano e  bastante inteligente, e dana... - Mostrou-se  bela e jovem enquanto pensava nele... - Est agora
em Harvard... - Os olhos tornaram-se tristes. - H quase
um ano que no falo com ele. Fiquei grvida, disse-lhe e ele
entrou em pnico, julgo. Quis que eu fizesse um aborto
num mdico conhecido do primo, mas eu recusei... Raios, 
      tinha ouvido falar de raparigas que morreram. -  Os olhos
      encheram-se de lgrimas devido  recordao, e ela esqueceu  que Tana estava ali de p, a olhar para ela. - Ia contar  minha  me, mas... no fui capaz... 
Em vez disso, contei ao meu pai... e  depois ele contou-lhe... e todos ficaram doidos... e chamaram os pais  dele. Todos choraram e gritaram. A minha me chamou-lhe 
preto  maldito... e o pai dele chamou-me prostituta... Foi a pior noite da  minha vida e, 
quando tudo passou, os meus pais deram-me a escolher.  Podia fazer um aborto num mdico de quem a minha me ouvira falar,  ou podia ter o beb e entreg-lo a algum... 
Disseram-me... -  Respirou fundo; como se aquela fosse a pior
parte. - Disseram-me que no podia ficar com a criana...
      que isso iria arruinar-me a vida... - Todo o seu  corpo tremeu. - Ter um beb aos dezassete anos... e, no sei  porqu; 
decidi ter a criana. Penso que foi por achar que o  Danng
podia mudar de ideias... ou ento os meus pais... ou que podia  acontecer um milagre... Mas nada aconteceu. Vivi nu
lar durante cinco meses onde continuei a fazer os testes
da escola. O beb nasceu no dia dezanove de Abril... um rapazinho...  - Estava a tremer e Tana, sem dizer uma palavra,
estendeu o brao e pegou-lhe na mo. - Eu no devia  t-lo
visto... mas vi-o uma vez... Era to pequeno... Estive em
trabalho de parto durante dezanove horas e foi horrvel, apesar de  pesar apenas dois quilos e setecentos... - O olhar estava distante;  pensava no pequeno rapaz 
que nunca mais haveria de ver. Olhou para Tana  e disse: - Foi-se, Tan. - Desatou a chorar como a criana que em  muitos aspectos ainda era. Ambas eram. - Assinei 
os ltimos papis  h trs semanas.
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A minha me entregou-os. Foi adoptado por um casal de Nova Iorque. -  No conseguiu parar de soluar e inclinou a cabea. - Oh, meu  Deus, Tan, espero que sejam 
bons para ele. nunca deveria t-lo  deixado ir. E tudo para qu?Olhou furiosa para a amiga. - Para isto?  Para vir para esta maldita escola e provar algo, a fim 
de que outras  raparigas de cor possam um dia vir para aqui? E depois?
- Aquilo nada teve a ver com isto. Eles quiseram que tu comeasses  tudo de novo, com um marido e uma famlia na altura certa.
- Estavam enganados, e eu tambm. Nunca sabers como . O  vazio, quando regressei a casa. sem nada. sem ningum. Nada poder  algum dia substituir isso. - Respirou 
profundamente. - No vejo o  Danny desde que fui para o lar em Maryland. e nunca saberei onde est  o beb. Acabei o liceu com os meus colegas. - Via-se que tinha 
um  peso enorme no corao. - E ningum soube o que eu senti. -  Tana abanou a cabea, sem tirar os olhos dela. As duas j eram  mulheres. Tinham-no conseguido da 
forma mais dura e difcil e, em  breve, iriam saber se tudo melhoraria com o tempo. Mas de uma coisa  estavam certas: cada uma delas tinha uma amiga. Tana puxou 
Sharon e  abraaram-se, as lgrimas de uma a correrem no rosto da outra,  cada uma a sentir a dor da outra.
- Gosto muito de ti, Shar - disse Tana com um sorriso meigo, e Sharon  limpou-lhe os olhos.
- Sim. Eu tambm. 
Caminharam de brao dado, no silncio da noite, e regressaram a  Jasmine House, despiram-se emeteram-se nas respectivas camas, cada uma  com os seus prprios pensamentos.
- Tan? - Era a voz de Sharon na escurido do quarto.
- Sim?
- Obrigada.
- Porqu? Por ouvir?  para isso que srvem os amigos. Eu  tambm preciso de ti.
- O meu pai tinha razo, sabes? Temos de seguir a vida.
- Parece que sim. - Mas como? - Ele deu-te alguma sugesto sobre como  tirar isso da cabea?
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Sharon deu uma gargalhada.
- Terei de lhe perguntar. - Subitamente, teve uma
ideia. - Porque  que no lhe perguntas tu? Porque  que
no vens comigo no Dia de Aco de Graas?
Na sua cama, Tana pensou no assunto, comeando a sorrir. Gostava da  ideia.
- No sei o que a minha me dir. - Mas no sabia
bem se a me iria importar-se e, caso assim fosse, no seria
tanto quanto se importara seis meses antes. Talvez j fosse
altura de tomar as suas prprias decises e fazer o que lhe
      apetecesse. - Ligar-lhe-ei amanh   noite.
- ptimo. - Sharon sorriu, sonolenta, e virou-se  na
cama, com as costas voltadas para a amiga. - Boa noite, 
Tan. Um segundo depois, ambas estavam a dormir, 
mais descansadamente do que h meses, as mos de Tana  infantilmente colocadas sobre o cabelo louro, e Sharon enroscad como  uma pequena bola a ronronar. At as 
pernas
compridas parecia terem desaparecido e ela assemelhava-se a
uma gata a dormir placidamente.

CAPTULO 5
Jean Roberts ficou desiludida quando a filha lhe ligou a dizer que tinha  decidido no ir a casa para o Dia de Aco de Graas.
- Tens a certeza? - No queria insistir, mas teria preferido que Tana  viesse. - No conheces muito bem essa rapariga. 
- Me, eu vivo com ela. Partilhamos o mesmo quarto. Conheo-a  melhor que qualquer outra pessoa que conheci na vida.
- Tens a certeza de que os pais no iro importar-se?
- Absoluta. Ela telefonou-lhes esta tarde. Tm um quarto para mim e  ela disse-me que eles ficaram encantados por ela levar algum l  para casa. - Claro que tinham 
ficado. Por aquilo que Sharon dissera,  Miriam tivera razo ao pensar que Sharon podia ser feliz em Green  Hill, mesmo que fosse a nica rapariga negra ali. Agora, 
ela trazia  uma delas para casa, a prova de como fora bem aceite. No sabiam que  Tana era a nica amiga, que no havia um nico lugar em Yolan  onde a servissem, 
que no conseguia ir a um cinema desde que l  chegara e que, at nas cafetarias da escola, as raparigas a evitavam.  Porm, segundo Sharon, mesmo que o tivesse 
sabido, Miriam teria  achado que era necessrio Sharon estar ali. Eles tinham de aceitar os  negros algum dia. Era um bom desafio para Sharon, em particular depois 
do ano anterior. Isso evitaria que ela lutasse consigo prpria,  pensava Miriam Blake. Dar-lhe-ia mais em que pensar. 
- A srio, ; disseram que no havia problema.
- Est bem, mas v se a convidas durante as frias de Natal -  Jean sorriu ao telefone -, pois, na verdade, tenho uma pequena surpresa  para ti. O Arthur e eu amos 
dizer-te no Dia de Aco de  Graas. - O corao de Tana parou. Iria finalmente casar-se com  ela? Ficou sem fala e a me continuou. - O Arthur arranjou-te a  possibilidade 
de teres uma pequena festa de apresentao   sociedade. Vai haver um pequeno baile aqui na cidade. Bem, na verdade,  no 
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um baile, mas uma festa de debutantes para vrias classes, e o Arthur  inscreveu- te. Quero dizer, afinal frequentaste o colgio de Miss  Lawsori, querida, e. Sers 
uma debutante, meu amor. No   maravilhoso? - Durante alguns momentos, nenhuma palavra veio  mente  de Tana. De modo algum lhe pareceu particularmente maravilhoso 
e, mais  uma vez, a me beijaria os ps de Arthur Durning. Casar-se com  ela. que anedota. Como podia ela ter pensado numa coisa dessas. Um baile  de vrias classes. 
Merda. Porque  que no convidas a tua amiga  nessa altura? - Tana quase se engasgou. Porque a minha nova amiga   negra, me! 
      - Vou convid-la, mas julgo que ela vai  passar as frias
fora. - Merda. Uma debutante. E quem seria o seu  par?
      Billy Durning? O filho da me.
- No pareces muito entusiasmada, meu amor. -  Percebia-se a desiluso na voz de Jean, tanto por Tana no ir  
casa, como por no ter ficado muito entusiasmada com
a festa que Arthur organizara. Ele sabia o quanto isso sigmificava para  Jean. Ann tinha sido apresentada h quatro anos, mas no numa  pequena festa de apresentao 
como esta: 
Contudo, seria uma experincia maravilhosa para Tana, ou
pelo menos assim pensava Jean.
- Desculpe, me. Julgo que fiquei apenas surpreendida.
-  uma bonita surpresa, no ? - No. Na verdad
no queria saber daquilo. Nada daquilo tinha qualquer importncia  para ela. Nunca tivera. Toda a estupidez social
do mundo dos Durning parecia irrelevante para ela, mas significava muito  para Jean. Significara sempre, desde que se apaixonara por ele. -  Ters de pensar num 
par para a dana.
Esperava que pudesse ser o Billy. - Tana sentiu o corao
saltar e o peito apertado. - Mas ele vai para a Europa esquiar com os  amigos. Para Saint Moritz, imagina... Que sorte! - Que sorte!.. Ele  violou-me, me... - Ters 
de arranjar outra pessoa. Algum  apropriado, claro. - Claro!
Quantos violadores mais conhecemos ns?
      -Tenho pena de no poder ir sozinha. - A voz  
de Tana soou sem vida, naquela extremidade da  linha.
- Que coisa mais ridcula - disse Jean, aborrecida.
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Bem, de qualquer modo, no te esqueas de convidar a tua amiga.  aquela com quem vais passar o Dia de Aco de Graas.
- Com certeza. - Tana sorriu. Se ela soubesse. Jean Roberts teria  morrido se Tana convidasse uma amiga negra para a pequena festa de  apresentao que Arthur organizara. 
Tana quase se riu s de  pensar naquilo, mas nunca abusaria assim de Sharon. Eles no passavam  de um bando de puritanos rudes. Sabia que nem mesmo a sua me estava 
preparada para isso. - O que  que vai fazer no Dia de Aco de  Graas, me? Vai ficar bem, no vai?
- Eu fico bem. O Arthur j nos tinha convidado para passar o dia em  Greenwich.
-J que no estarei a, tlvez a me possa passar a noite  l. - Ouviu- se um silncio profundo no outro lado da linha, e  Tana arrependeu-se das palavras que disse. 
- No foi bem isso que  quis dizer.
- Foi, sim.
- Bem, que diferena  que isso faz? J tenho dezoito anos.  Isso no  segredo. - Tana sentiu-se mal ao recordar o  interminvel quarto cinzento onde. - Desculpe, 
me.
-Beijinhos. - Animou-se. Ia sentir a falta da filha mas tinha muita  coisa para fazer e, de qualquer modo, Tana estaria em casa dentro de um  ms. - No te esqueas 
de agradecer  tua amiga por te ter  convidado para casa dela. Tana sorriu para consigo. Era como se tivesse  voltado a ter sete anos. Talvez fosse sempre assim.
- No me esquecerei. Tenha um bom Dia de Aco de Graas,  me.
- Terei. E agradecerei ao Arthur por ti. - Jean sublinhou bem as  palavras e Tana ficou lvida do outro lado.
- Porqu?
- O baile, Tana, o baile. No sei se j percebeste, mas uma coisa  dessas  muito importante para uma jovem. Alm disso,  algo  que eu prpria nunca poderia fazer. 
- Importante. Importante para  quem. - No fazes ideia do que isso significa. - As lgrimas  afloraram aos olhos de Jean. Em certos aspectos, era a  concretizao 
de um sonho. A filhinha de Andy e Jen Roberts, o  beb que Andy nunca
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vira, seria apresentada  sociedade de Nova Iorque e, mesmo que fosse  uma festa pequena, era um acontecimento importante para ambas. para  Tana. e, em especial, 
para Jean. Seria o momento mais importante da sua  vida. Lembrou-se do baile de apresentao de Ann. Planeara o mais  nfimo pormenor e nunca pensara que Tana tambm 
seria apresentada  um dia.
- Desculpe, me.
- Acho bem. E penso que deves escrever uma carta ao Arthur. Diz-lhe o  que isso significa para ti.
Apeteceu-lhe gritar ao telefone. Mas que raio significava         aquilo?  Que algum dia acabaria por encontrar um marido rico, que poderiam  avaliar o seu pedigree? 
O que  que isso 
importava? Que faanha era aquela de fazer vnias num baile  pateta, de se sentir observada por uma srie de bbedos? Nem  sequer sabia quem levaria consigo, e estremeceu 
com o
pensamento. Tinha sado com meia dzia de rapazes diferen tes  durante os ltimos dois anos escolares, mas nunca considerara  ningum a srio e, depois do que acontecera 
em Junho, 
em Greenwich no lhe apetecia sair com ningum.
- Tenho de desligar, me. - Sentiu-se subitamente ansiosa por  desligar o telefone mas, quando regressou ao quar to, estava deprimida e  Sharon reparou nisso. Encontrava-se 
de novo a arranjar as unhas.  Recentemente, ambas tinham
experimentado o bege, Straw Hat de Faberg.
- Ela disse que no?
- Ela disse que sim.
- Ento? Pareces uma criana a quem acabaram de rebentar o  balo.
- Acho que foi isso que ela fez. - Tana sentou-se de rompante na cama. -  Merda. Convenceu o maldito amante dela a inscrever-me num pateta baile  de debutantes. 
Credo, Shar, sinto-me uma idiota! 
Sharon olhou para ela e desatou a rir.
- Queres dizer que vais ser uma debutante, Tan?
- Mais ou menos - resmungou Tana, embaraada. 1"  que ela me  pde fazer isto?
- Talvez seja divertido.
- Para quem? E com que finalidade?  como conduzir 
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uma enorme manada. Empurram-te para todo o lado e exibem-te a uma  srie de bbedos. Parece que temos de encontrar um marido algures  por ali. Muito engraado, hein?Pareceu 
enojada e Sharon afastou o  frasco de verniz.
- Quem vais levar contigo?
- Nem me perguntes. Ela queria que o Billy Durning fosse o meu par,   claro, mas graas a Deus ele vai para fora.
- Agradece aos cus por isso. - Sharon olhou insistentemente para  ela.
- Agradeo. Mas tudo aquilo me soa a farsa.
- Tal como muitas coisas na vida.
- No sejas to cnica, Shar.
- No sejas to medricas, Tan. Far-te- bem.
- Quem  que o diz?
- Digo eu. - Sharon aproximou-se dela e tentou fix-la nos olhos. -  Tu, aqui, vives como uma freira.
- Tu tambm. E depois?
- Eu no tenho outra hiptese. - Tom nunca mais voltara a  telefonar- lhe, tudo aquilo era superior s suas foras. Sharon  sabia disso e compreendera perfeitamente. 
Nunca esperara mais dele. Mas  isso no tornara mais interessante a sua vida em Green Hill. - Tu  tens.
- No interessa.
- Tens de comear a sair.
- No, no tenho. - Tana fixou-a nos olhos. - No tenho de  fazer absolutamente nada que no me apetea. Tenho dezoito anos e  sou livre que nem um pssaro.
- Uma deficiente - contraps Sharon. - Volta a sair, Tan. - Mas Tana  no disse mais nada.
Dirigiu-se  casa de banho que partilhavam com o quarto ao lado,  trancou a porta, encheu a banheira e s saiu uma hora depois.
- Repito o que disse - insistiu Sharon com voz rouca na escurido do  quarto, assim que as duas se deitaram.
- Sobre o qu?
- Deves comear a sair de novo.
- Tu tambm. 
- Sairei um dia destes. - Sharon suspirou. - Talvez nas frias,  quando estiver em casa. Aqui no tenho ningum
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com quem sair. - Ento, deu uma gargalhada. - Raios, 
Tan, nem sei do que  que me estou a queixar! Pelo menos
tenho-te a ti.
Tana sorriu para ela e ficaram a conversar durante alguns
minutos. Depois, viraram-se para o lado e adormeceram.
Na semana seguinte, Tana foi para Washington com ela.
O pai de Sharon, Freeman Blake, foi esper-las  estao,  e
Tana ficou instantaneamente admirada com a altura e beleza
dele. Era um homem magnfico, com um rosto altivo, mito bem  talhado e quase cor de mogno, ombros largos e as
mesmas pernas interminveis de Sharon. Tinha um sorriso
caloroso, dentes espectacularmente brancos, e foi rpido
a abraar a filha e a apert-la com fora. Sabia o quanto tinha  passado no ano anterior e que ela se sara daquilo como uma campe  tal como ele esperara. Sentia-se 
orgulhoso dela.
- Ol, querida, como vai a escola? - Ela revirou
os olhos e virou-se rapidamente para a amiga.
      - Tana, este  o meu pai, o Freeman Blake.  Pap, esta
 Tana Roberts, a minha companheira de quarto em  Green
      Hill.
Ele apertou poderosamente a mo de Tana e, no  caminho para casa, esta sentiu-se magnetizada pelos seus olhos
e pelo som da sua voz. Ps Sharon ao corrente das notcias 
      locais, da nomeao da me para um  lugar ainda mais importante, do novo e grande romance do seu irmo  Dick, da
renovao da casa, do beb recm-nascido  da vizinha, do
seu novo livro. Era uma tagarelice to calorosa e afvel que 
comoveu o corao de Tana, acabando por sentir inveja da
vida que a sua amiga tinha. Sentiu isso ainda mais durante
o jantar dessa noite, na bela sala de jantar colonial. Tinham 
uma bonita casa com um enorme jardim e quintal, trs automveis na  garagem, um dos quais era um Cadillac, que
Freman conduzia, apesar dos comentrios dos seus amigos.
Mas ele admitira que sempre quisera ter um Cadillac descapotvel e  tinha-o agora, depois de todos esses anos. Eram
todos obviamente muito unidos e Tana achou Miriam fabulosa. Era to  inteligente e to directa que cortava a respirao de qualquer  um e parecia esperar constantemente 
o
mximo de todos. Ningum se livrava das suas perguntas,
das suas ordens e do seu olhar sempre perspicaz.
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- Vs o que quero dizer? - perguntou Sharon quando estavam sozinhas  no andar superior. - Estar apenas a jantar com ela  como estar no  banco das testemunhas. - 
Quisera saber tudo o que Sharon tinha feito nos  ltimos dois meses e mostrara-se interessada tanto no incidente com  Tom  porta do cinema, como no da cafetaria 
com Tana, depois  disso.
- que ela preocupa-se muito, Shar... com tudo. 
- Eu sei. Mas isso enlouquece-me. Caramba, o meu pai  to  inteligente quanto ela e  muito mais meigo! - Ele era assim, contava  histrias fabulosas, fazia toda 
a gente rir e tinha o condo de  tornar tudo mais agradvel para todos, de os aproximar e formar um  elo irresistvel. Tana notara-o, durante toda a noite e achou 
que ele  era o homem mais extraordinrio que alguma vez conhecera.
-  um homem incrvel, Shar.
- Eu sei.
- Li um dos seus livros no ano passado. Agora, hei-de ir para casa ler  todos eles.
- Eu ofereo-tos.
- S se me ofereceres um conjunto autografado. Ambas se riram e, um  pouco depois, Miriam bateu  porta,ansiosa por saber se estavam  bem.
- Tm tudo o que precisam?
Tana sorriu quase envergonhada para ela.
-Eu tenho. Muito obrigada, Mistress Blake.
- De nada. Estamos felizes por teres vindo. - O sorriso era ainda mais  espantoso do que o de Shar, e os olhos eram enrgicos, omnipresentes  e quase assustadores, 
como
se captassem de imediato a alma de uma pessoa. - Gostas de Green  Hill?
- Gosto. Muito. Os professores so bastante interessantes. - Mas  notou-se uma falta de entusiasm na sua voz, 
em que Miriam reparou logo.
- Mas?. 
Tana sorriu. Ela era directa. Muito directa.
- A atmosfera no  to calorosa como eu pensava que seria.
- E porqu?
- No sei. As raparigas parece que andam em grupos muito  fechados.
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- E vocs as duas?
- Andamos quase sempre juntas. - Sharon olhou para Tana e sorriu, e  Miriam no pareceu descontente. Pensou que Tana era uma rapariga  muito inteligente e que havia 
ali um grande potencial. Muito maior do  que a prpria Tana sabia. Era rpida, esperta e por vezes  cmica, mas cautelosa. Algum dia teria de desabrochar e, quando 
o  fizesse, s Deus sabia o que haveria ali.
- Ento talvez seja esse o vosso problema, meninas. Tana, quantas  amigas mais tens tu em Green Hill? 
- S a Shar. Ficamos juntas nas aulas a maior parte do tempo e  partilhamos o mesmo quarto.
- E, provavelmente, ests a ser castigada por isso. Tenho a certeza  que percebes. Se a tua melhor amiga  a nica negra de l,  sers penalizada, como sabes.
- Porqu?
- No sejas ingnua.
- No seja to cnica, me - interveio Sharon, subitamente  aborrecida.
- Talvez tenha chegado o momento de crescerem.
- Mas que raio quer isso dizer? - perguntou Sharon. Bolas, estou em casa   nove horas e j est em cima de mim com os seus discursos e  cruzadas! 
- No estou a fazer nenhum discurso. Estou apenas a pedir que encarem  os factos. - Olhou para ambas. - No podem esconder-se da verdade,  meninas. No  fcil ser-se 
negro nos dias de hoje. ou amigo de  um negro. Ambas tero de compreender isso e estar dispostas a pagar o  preo se esperam que a vossa amizade dure.
- No consegue fazer nada sem ter de transformar tud numa cruzada  poltica, me?
Miriam olhou para ela e depois para a amiga.
- Quero que faam uma coisa, as duas, antes de regressarem   escola, no domingo  noite. Sei de um homem que vai discursar este  domingo em Washington.  um dos 
homens mais extraordinrios que  j conheci. Chama-se Martin Luther King, e quero que venham ouvi-lo  comigo.
- Porqu?
- Porque  algo que nenhuma de vs ir esquecer. 
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Mais tarde, enquanto faziam o percurso de regresso  Carolina do Sul,  Tana ainda pensava naquilo. Miriam Blake tivera razo. Era o homem  mais visionrio que Tana 
escutara. Fizera com que todos se sentissem  estpidos e cegos e s horas mais tarde  que ela conseguira  falar sobre o que acabara de ouvir. Palavras simples sobre 
o ser-se  negro e ser-se amigo de um negro, sobre os direitos civis e a igualdade  entre todos. Depois disso cantaram juntos, balanando-se de brao  dado ou segurando 
a mo uns dos outros. Olhou para Sharon, uma hora  depois de terem deixado Washington.
- Ele foi espantoso, no foi?
Sharon anuiu, pensando de novo nas palavras dele.
- Sabes, parece uma patetice ter apenas de regressar  escola. Sinto  que devia estar a fazer qualquer coisa. Apoiou a cabea no encosto e  fechou os olhos. Tana 
ficou a olhar pela janela para a noite escura,  enquanto rumavam ao Sul. Aquilo parecia tornar as palavras dele ainda  mais importantes do que haviam soado. Era 
ali que tudo estava a  acontecer, que as pessoas eram magoadas, ignoradas e abusadas. Mas,  enquanto os seus pensamentos vagueavam, lembrou-se da festa de  apresentao 
que a me lhe arranjara e parecia que os dois  pensamentos eram to diametralmente opostos que no cabiam na  mente ao mesmo tempo. Quando Sharon voltou a abrir 
os olhos, Tana olhou  para ela.
- O que  que vais fazer? - perguntou Tana. Tinha de fazer-se  qualquer coisa depois de o ouvir. No havia outra hiptese. At  mesmo Freeman Blake concordara.
- Ainda no sei. - Sharon pareceu cansada, mas desde que tinham  sado de Washington que pensava naquilo, no que podia fazer para  ajudar. em Yolan. em Green Hill. 
E tu?
- No sei - suspirou Tana. - Tudo o que puder, julgo. Mas digo-te,  depois de ouvir o doutor King a falar, tenho a certeza de uma coisa:  aquela festa a que a minha 
me quer obrigar-me a ir em Nova Iorque   a coisa mais pateta que alguma vez farei.
Sharon sorriu. J no podia discordar, mas tambm havia
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um outro lado da questo. Numa escala mais pequena, mas mais  humana.
- Ir fazer-te bem. 
- Duvido. - As duas raparigas trocaram um sorriso e continuaram o  caminho para o Sul, at chegarem a Yolan, e apanharem um dos dois  txis da cidade para Green 
Hill.

CAPTULO 6
O comboio chegou  Estao de Pensilvnia no dia 21 de  Dezembro, pouco depois das duas da tarde, e a neve caa, dando   cidade um ar natalcio e quase como de 
um conto de fadas; quando Tana  pegou nas malas, abriu caminho atravs da estao e saiu para  chamar um txi, percebeu o quanto a deprimia estar prestes a  regressar 
a casa. Isso f-la sentir-se imediatamente culpada em  relao a Jean; sabia tambm que no estava a ser justa, mas  preferia estar em qualquer outro lugar do que 
a caminho de casa; em  direco ao seu baile de debutantes. Sabia o quanto a me  estava entusiasmada. Nas duas ltimas semanas, tinha telefonado a  Tana quase todas 
as noites para falar dos convidados, das flores, da  decorao da mesa, do par dela, do vestido. Ela prpria  escolhera o vestido de Tana, uma requintada seda branca 
com remate a  cetim branco e pequenas contas brancas bordadas num padro florido em  redor da bainha. Custara quase uma fortuna, e Arthur mandara-a creditar  na 
sua conta, no Saks.
Ele  to bom para ns, querida. Enquanto fazia de txi o  percurso para casa, Tana conseguiu fechar os olhos e imaginar a cara da  me quando lhe dissesse o que 
pensava. Porqu, porque lhe estava  ela eternamente to grata? Que raio tinha ele feito por ela, a no  ser deix- la trabalhar que nem uma escrava e esperar por 
ele todas  aquelas vezes em que no aparecera, quando Marie ainda era viva. E  mesmo agora, tudo o resto parecia estar sempre em primeiro lugar. Se  amava Jean assim 
tanto, por que raio no se casara ainda com ela?  Tana sentiu-se deprimida por pensar tambm nisso. Era tudo uma farsa  to idiota: a me e Arthur. Como os Durning 
eram to bons para  elas, sim, tal como Billy o fora para si. e a festa a que teria de ir na  noite seguinte. Convidou um rapaz que j conhecia h muitos anos e 
de quem nunca gostara, mas que era do tipo certo para um acontecimento  como aquele, Chandler George III. J tinha ido a dois bailes com ele,  e aborrecera-se de 
morte, mas a me ficaria satisfeita. Tambm  sabia que ia passar um mau
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bocado, mas nada podia fazer. O mais importante de tudo  que ele era  inofensivo e educado e nunca faria nada pouco conveniente.
O apartamento encontrava-se s escuras quando entrou. Jean ainda  estava a trabalhar. Tana olhou em volta. Tudo parecia na mesma, embora  um tanto mais pequeno e 
enfadonho do que se lembrava. Porm,  arrependeu-se logo de ter pensado aquilo. Sabia como a me lutava por  ter um lar acolhedor para as duas, e lutara sempre. 
No entanto, Tana  teve a sensao de que as coisas agora eram diferentes, como se  ela as tivesse mudado imperceptivelmente e j no se encai xassem  naquele cenrio. 
Deu consigo a pensar na confort vel casa dos  Blake, em Washington, e no quanto tinha gostado de l estar. No  era pretensiosa, como a casa do Durning, mas acolhedora, 
bonita e  verdadeira. Tambm sentiu a falta dos Blake, em especial de Sharon.  Tana vira-a descer do comboio, sentindo que estava a perder a sua melhor  amiga, e 
Sharon virara-se para lhe dirigir um grande sorriso e dizer  adeus, antes de desaparecer. O comboio continuou a dirigir-se para norte  e, agora, ali estava ela, 
sentindo uma grande vontade de chorar,  enquanto pousava as malas no seu quarto. 
-  a minha filhota? - A porta da frente fechou-se e a voz de Jean  ouviu-se por toda a casa. Tana virou-se, assustada. E se a me  conseguisse ler-lhe os pensamentos 
ou pudesse ver como ela se sentia  desconfortvel, s por ali estar. Mas Jean no viu nada  daquilo. S viu a filha que adorava e, por um instante, abraou-a  com 
fora, antes de recuar um passo. - Ena, ests com bom aspecto!  - E Jean tambm. As faces estavam rosadas devido ao frio, viam-se  pedaos de gelo nas pontas do 
cabelo e os olhos pareciam grandes e  escuros.
Estava to animada que nem sequer parou para despir
o casaco, antes de correr at ao seu prprio quarto e sair de novo  com o vestido de Tana. Era requintado, visto ali pendurado no cabide de  cetim almofadado com 
o qual fora vendido. Quase parecia um vestido de  casamento e Tana sorriu.
- Onde est o vu?
A me devolveu-lhe o sorriso. 
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- Nunca se sabe. Isso vir a seguir.
Tana deu uma gargalhada e abanou a cabea.
- No vamos apressar as coisas. Tenho apenas dezoito anos.
- Isso no significa nada, meu amor. Talvez conheas o homem dos  teus sonhos amanh  noite, sabes? E quem sabe o que ir  acontecer? - Tana olhou incrdula para 
ela. Algo nos olhos de Jean  dizia que ela estava a falar a srio.
-  isso que quer, me?
Jean Roberts voltou a sorrir. Era maravilhoso voltar a ver Tana e, agora  que j vira o vestido ao lado da filha, sabia como iria ficar  fabuloso nela.
- s uma rapariga bonita, Tana. Algum homem ir ter a sorte de te  ter como esposa.
- E no ficaria preocupada se eu o conhecesse agora?
- Porqu? - Parecia no ter compreendido, e Tana ficou  boquiaberta.
- Mas s tenho dezoito anos. No quer que eu termine o colgio  e faa algo por mim?
-J ests a fazer.
- Mas isto  apenas o comeo, me. Quando terminar os meus dois  anos em Green Hill, quero continuar e fazer qualquer outra coisa.
 Jean franziu a testa.
- No h nada de errado em casar e ter filhos.
-  disso que se trata? - Subitamente, Tana sentiu-se incomodada. -  Esta treta da festa. Mais parece um leilo
de escravos, no acha?
Jean Roberts pareceu chocada.
 - Tana, que coisa mais terrvel de se dizer.
- Bem,  verdade, no ? Todas estas jovens raparigas a fazerem  vnias como tolas, e um bando de homens a examin-las. -  Semicerrou os olhos como se as raparigas 
estivessem alinhadas  sua  frente. - Vejamos, eu fico... com aquela ali. - Os olhos abriram-se de  novo e ela
pareceu aborrecida. - Raios, tem de haver mais na vida do         que isso!  
-Fazes com que isto parea mau, mas no .  uma bonita  tradio que significa muito para todos.
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No, no significa, me, pelo menos no para mim. s para  si. mas no conseguiu dizer o que pensava.
Jean olhou-a com um ar triste. 
- Porque  que ests a ser to dificil em relao a isto.  A Ann Durning foi apresentada h quatro anos e divertiu-se  bastante.
- Ainda bem para ela. Mas eu no sou a Ann. - Ela tambm tinha  fugido para Itlia com um parvalho qualquer que tivera de ser  comprado para se afastar, como Tana 
bem se lembrava. 
Jean suspirou e sentou-se, olhando para Tana da cadeira onde estava.  No a via h trs meses e j sentia a tenso a subir  entre elas.
- Porque no descansas e te divertes, Tana? Nunca se sabe, talvez  conheas algum de quem gostes. 
- No quero conhecer algum de quem goste. Nem sequer quero ir,  me.
As lgrimas encheram os olhos de Jean, quando olhou para a filha.  Tana no conseguiu suportar aquele olhar. 
- S queria que tu. Queria que tu tivesses. Tana ajoelhou-se e  abraou-a com fora. 
- Desculpe, me. Desculpe. Sei que vai ser muito bonito.
Jean sorriu atravs das lgrimas e beijou a face de Tana. 
- Uma coisa  certa: vais ficar linda, querida. 
- Com aquele vestido no seria de esperar outra coisa. Deve ter gasto  uma fortuna com ele. - Ficou emocionada, mas achou uma despesa  intil. Teria preferido roupas 
para a escola, pois estava sempre a  pedir coisas emprestadas a Sharon. 
Jean sorriu para ela.
-  um presente do Arthur, querida. - Tana sentiu o
estmago a dar um n. Outro motivo para mostrar-se grata. Estava  farta de Arthur e dos seus presentes. . 
- Ele no devia ter feito isso. - Tana estava pouco contente e Jean  no compreendia porqu. Achava que ela tinha sempre cimes  dele.
- Ele quis que tivesses um vestido bonito: - E tinha, na verdade.
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Quando se viu ao espelho na noite seguinte, o cabelo esticado e apanhado  em cima tal como a me vira o de Jackie Kennedy na Vogue, com o belo  vestido de seda, 
parecia uma princesa de conto de fadas, com cabelos  louros e enormes olhos verdes. As lgrimas encheram os olhos de Jean,  s de olhar para ela. Tinha um aspecto 
requintado. Momentos mais  tarde, chegou Chandler George para a levar e Jean seguiu com eles.  Arthur dissera que iria tentar aparecer por l, mas no garantira. 
Tinha um jantar ao qual no podia faltar e ia fazer o seu melhor. No  txi, Tana no disse nada sobre aquilo a Jean, mas j tinha  ouvido antes a frase, e sabia 
que no significava absolutamente nada.  Tinha sido utilizada no Natal, no Dia de Aco de Graas e nos  aniversrios de Jean ao longo dos anos. E, geralmente, fazer 
o seu  melhor, significava no vir e bastava um ramo de flores, um telegrama  ou um carto. Lembrava-se sempre do rosto triste
da me nessas ocasies, mas no nessa noite. Jean estava  demasiado animada com ela para se preocupar muito com Arthur. Amparava-a  como uma me galinha, juntando-se 
ao grupo das outras mes num dos  lados de um longo bar. Os pais tambm se reuniram, e havia grupos de  velhos amigos de famlia, mas a maior parte da sala estava 
repleta de  jovens mais ou menos da idade de Tana, raparigas em vestidos  cor-de-rosa, vermelho, ou verde-vivo, e s uma dzia delas usavam  os vestidos brancos 
que os pais lhes tinham comprado para serem  apresentadas nessa noite. Na sua maioria, eram um bando de adolescentes  multicolores, com rostos e cinturas que levariam 
anos a emagrecer. Havia  algo singularmente indistinto nas raparigas daquela idade e, por causa  disso, Tana em especial destacava-se. Era alta e magra e mantinha 
a  cabea erguida. 
Do outro lado da sala, Jean olhava orgulhosa para ela. Quando chegou o  grande momento e se ouviram os tambores, cada rapariga foi conduzida  pelo brao do pai para 
cumprimentar os convidados. Viam- se  lgrimas de orgulho nas
faces de Jean. Tinha contado que Arthur Durning ali estivesse nessa  altura e at se atrevera a esperar que ele a conduzisse. Mas ele  no pudera aparecer,  claro. 
J tinha feito o suficiente por  elas e Jean no podia esperar que fizesse mais.
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      Tana surgiu nervosa e corada no brao de  Chandler George.
      Cumprimentou todos com graciosidade, baixou os olhos e
      desapareceu no meio do restante grupo. A msica voltou a
      ouvir-se, depois disso. J tinha acontecido, j estava feito.
      Tana fora oficialmente apresentada. Depois, olhou em
      volta, sentindo-se uma tola completa. No havia graa, nem  emoo, nem sequer um formigueiro romntico a percorr-la.  Tinha-o feito porque a me assim o 
desejara, mas j tu        do  terminara. Sentiu-se grata pela algazarra que surgiu a seguir, o que lhe  permitiu desaparecer por uns momentos: 
      Chandler parecia ter-se apaixonado loucamente por uma
rechonchuda rapariga ruiva de sorriso doce e vestido  de veludo branco. Tana desapareceu discretamente, permitindo que
      ele perseguisse a sua presa. Entretanto ela  descobriu um
      canto sossegado e sentou-se numa cadeira. Apoiou a cabea
      no encosto, fechou os olhos e suspirou, grata por estar longe de tudo,  da msica, das pessoas e de Chandler a quem no
suportava, bem como do olhar orgulhoso e  desesperadamente
      solitrio da me. Tana voltou a suspirar  s de pensar naquilo.
      Depois, deu um salto da cadeira quando ouviu uma voz.
         - No pode ser assim to mau.
         Abriu os olhos para ver um jovem de cabelo escuro e
      fsico poderoso, com olhos to verdes  quanto os seus. Notou nele algo de jovial, mesmo de smoking, um ar  descuidado
no modo como permaneceu de p a olhar para ela, de  copo
na mo e a sorrir cinicamente, enquanto uma madeixa de cabelo negro  lhe caa sobre um dos olhos verdes.
      - Ests aborrecida, princesa? - Parecia  to sarcsticco
      quanto divertido; Tana, muito envergonhada, assentiu com
      a cabea e comeou a rir.
      - Apanhaste-me. - Olhou para os olhos dele e sorriu.
      Tinha a sensao de j o ter visto em qualquer lado, mas
no se lembrava onde. - Que posso eu dizer? Isto   uma chatice.
      - Concordo com isso. Uma exibio de gado.  Aposto que fao a ronda. - Mas no tinha aspecto de fazer aquilo  h muito tempo. Apesar do tom sofisticado, aparentava 
no ter  muita idade: 
- H quanto tempo?
Sorriu com um ar arrapazado.
100
- Este  o meu segundo ano. Na realidade, devia ser o meu primeiro,  mas no ano passado convidaram-me para aqui por engano, bem como para  todos os restantes bailes 
e, por isso, fui. - Revirou os olhos com um  sorriso. - Que grande maada. - Depois, examinou-a com ar apreciativo  e deu um gole no usque. - E como  que vieste 
aqui parar?
- De txi. - Sorriu-lhe docemente e ele fez o mesmo.
- Arranjaste um belo par. - O sarcasmo voltou a sentir-se nas suas  palavras e ele deu uma gargalhada. - J te comprometeste com ele?
- No, obrigada.
- Pelo menos isso demonstra que sabes avaliar as pessoas. - Falava de  forma arrastada e lacnica, com a pronncia da alta sociedade e,  contudo, parecia gozar com 
tudo aquilo. Tana sentiu-se divertida ao seu  lado. Havia algo de ultrajante naquele rapaz, apesar de ser  respeitvel e de estar
bem vestido. Mas, ao mesmo tempo, manifestava uma irreverncia  chocante que se notava e se adaptava perfeitamente a ela.
- Ento, conheces o Chandler? - perguntou Tana.
O jovem voltou a sorrir.
-Frequentmos o mesmo colgio durante dois anos. joga muito bem  skuash, no presta no brdege, mexe-se muito bem no campo de  tnis, reprovou a Matemtica, Qumica 
e Biologia e no tem  absolutamente nada entre as orelhas. Tana desatou a rir. De qualquer  forma, no gostava dele, e pareceu-lhe um retrato quase  cirurgicamente 
preciso, se bem que cruel.
-Isso parece correcto. No agradvel, mas correcto.
- Ningum me paga para ser agradvel - retorquiu ele num ar  malicioso enquanto dava mais um gole na bebida e fazia uma  avaliao evidente do colo e da cintura 
estreita dela.
- Pagam-te para fazeres alguma coisa?
-Na verdade, anda no. - Sorriu benevolentemente para ela. - E,  com um pouco de sorte, nunca pagaro.
- Que escola frequentas?
Ele franziu a testa, como se se tivesse esquecido de alguma 
101
coisa em qualquer lugar; depois olhou directamente
para ela.
- Sabes... no consigo lembrar-me. - Voltou a sorrir, 
enquanto ela pensava no que quereria dizer aquilo. Talvez
no frequentasse nenhum colgio, embora tambm no parecesse  desse tipo. - E tu?
- Green Hill.
O sorriso endiabrado voltou a aparecer, com uma
sobrancelha levantada.
- Que requintado! E estudas o qu? As plantaes
do Sul, ou a maneira de servir ch?
- Ambas. - Ela sorriu e levantou-se. - Pelo menos
      frequento uma escola.
      - Durante dois anos, de qualquer modo. E depois,
      princesa? Ou esta noite tem a ver com isso? A grande caa
ao esposo nmero um!.. - Fingiu estar a falar a  um
megafone. - Todos os candidatos queiram alinhar contra
a parede do fundo. Todos os jovens machos brancos e com
      pedigree... tenham  mo o extracto  bancrio dos vossos
pais. Tambm queremos saber quais as escolas que  frequentam, o vosso grupo sanguneo, se tm carta ou no, o
tamanho da vossa fortuna pessoal e quando  que podem deitar-lhe a  mo... - Tana riu-se. Ele baixou a voz: - J viste algum  interessante, ou ests assim to loucamente 
apaixonada por  Chandler George?
- Estou muito. - Comeou a caminhar lentamente
em direco ao salo de baile e ele seguiu-a, a tempo de  verem
o par dela a beijar a ruiva rechonchuda, no outro lado da sala.
O jovem belo e moreno virou-se para Tana e falou com
ar melanclico: 
- Tenho ms notcias para ti. Penso que ests prestes a
romper o noivado, princesa.
Ela encolheu os ombros e olhou para os olhos verdes
to parecidos com os seus.
- Que assim seja, espero. - Havia riso nos seus olhos.
Pouco se importava com Chandler George.
      - Queres danar?
- Sim.
Com percia, f-la rodopiar pela pista de dana.
102
Havia qualquer coisa de muito arrojado e experiente naquele rapaz, que  parecia desmentir a sua juventude. Ficava-se com a sensao de que  j vivera muito, embora 
Tana no soubesse nada a respeito dele, ou  mesmo quem era, uma circunstncia que ele remediou no final da  primeira dana.
- A propsito, como te chamas, princesa?
- Tana Roberts.
- Eu chamo-me Harry. - Olhou para ela com um sorriso
maroto e ela tambm sorriu. Ento, inesperadamente,         
fez-lhe uma vnia. - Harrison Winslow, o Quarto, na verdade. Mas  basta Harry.
- Devo ficar impressionada? -Jestava, mas nunca lhe        
daria a satisfao de deixar que ele percebesse.
- S se ls regularmente as colunas sociais. Harrison
o Terceiro, faz sempre figura de parvo nas cidades
do mundo... Paris e Londres, durante a maior parte do tempo. Roma quando  tem vagar. Saint Moritz... Muue, Berlim. E Nova Iorque, quando no  tem outra alternativa 
e precisa de lutar contra os procuradores a quem a  minha
me deixou a cargo a sua fortuna. Mas ele no gosta muito
dos Estados Unidos, nem de mim, deixa-me dizer... - Falava num tom  monocrdico, enquanto Tana olhava e pensava no que estaria a  passar-se na cabea dele. Mas ainda 
no
tinha a mnima ideia. - A minha me morreu quando eu tinha quatro  anos. No me lembro nada dela, excepto uma vez
por outra, quando surge algo vago... como um perfume...
o riso dela nas escadas, quando saamos... Nada ntido que me  faa record-la, mas isso  provavelmente
impossvel. Ela suicidou-se. Muito instvel, como a minha av  costumava dizer, mas uma bonita pea. E o pobre
pai tem tentado sarar as feridas desde ento... Esqueci-me de  mencionar o Mnaco e Antibes. Ele tambm
trata ali as feridas. Com ajudantes, claro. Tem uma regular
trupe quando vai a Londres, onde fica a maior parte do ano, uma amante  bonita em Paris... uma com quem gosta de esquiar...
uma chinesa em Hong Kong. Antigamente, levava-me com
ele, quando eu no tinha aulas, mas acabei por tornar-me  desagradvel e, por isso, deixou de me levar. Isso
fez com que o lugar se tornasse vago. - E outras coisas... De
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qualquer modo - voltou a sorrir cinicamente para Tana - esse  o  Harrison linslow, pelo menos um deles.
- E tu? - perguntou ela com suavidade. Os olhos dele estavam tristes.  Tinha-lhe contado mais do que desejava. Mas tambm j ia no quarto  usque e, embora no o 
tivesse feito torcer os ps quando  danaram, tinha-lhe soltado a ln gua; no entanto, ele no se  importava com isso. Todos em Nova Iorque sabiam quem era Harry 
Winslow,  pai e filho.         s como ele? - Duvidava. No tinha tido tempo  para desenvolver todas aquelas destrezas. No podia ser muito mais  velho do que ela, 
afinal.
Ele encolheu os ombros com um ar despreocupado.
- Estou a trabalhar nisso. - E, depois, voltou a sorrir. Tem cuidado,  minha bela! Tem cuidado! - E, com aquilo tomou-a nos braos e  regressaram  pista de dana.
Tana viu que a me estava a olhar para eles. Observou durante muito  tempo e depois perguntou a algum quem ele era e no pareceu  desapontada.
- Vs muitas vezes o teu pai? - Ainda estava a pensar no que ele lhe  contara, enquanto rodopiava com ela pela pista. Soava a uma vida  solitria. colgios internos. 
a me morta por suicdio,  quando tinha quatro anos. o pai do outro lado do mundo durante a maior  parte do tempo e, obviamente, um libertino.
- Por acaso, no. No tem tempo. - Por um instante pareceu um  rapaz ainda muito jovem, mas foi rpido a inverter as posies.  - E tu? Qual  a tua histria, Tana
Roberts, para alm do fcto de teres um gosto deplorvel em  homens? - Olhou na direco de Chandler George, que estava  abraado  pequena ruiva, e ambos desataram 
a rir.
- Sou solteira, tenho dezoito anos e ando em Green Hill.
-Jesus. Que monotonia. E que mais? Algum homem importante?
O rosto fechou-se completamente e ele reparou.
- No.
- Calma. Quis dizer outro que no o Chandler. Ela voltou a acalmar-se  um pouco. - Embora tenha de admitir que  dificil arranjar melhor do  que ele. Para
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Chandler, estavam ambos a ser cruis, mas de facto era o rapaz mais  aborrecido que ela conhecia. Por isso tornava-se alvo do escrnio dos  seus conhecidos. - Vejamos, 
que mais? Pais? Filhos ilegtimos?  Ces? Amigos? Passatempos? Espera. - Bateu nos bolsos; como se  estivesse  procura de qualquer coisa. - Devo ter um formulrio 
algures. Ambos se riram. - Tudo o que mencionei. Nada do que eu  disse?
-Uma me, nenhum co e nenhum filho ilegtimo. Pareceu ficar  triste.
- Estou desapontado contigo. Achei que irias sair-te melhor do que isso.  - A msica chegava ao fim e Harry olhou em redor. - Que bando de  chatos. Queres ir a qualquer 
lado comer um hamburger ou tomar uma  bebida? - Ela sorriu.
- Gostava muito, mas ser que podemos levar o Chandler connosco? -  perguntou com uma gargalhada; Harry fez uma vnia.
- Deixa isso comigo. - Desapareceu e regressou com um sorriso  traquina.
- Meu Deus, o que  que fizeste?
- Disse-lhe que estavas aborrecida com a forma como se comportou toda a  noite com aquele pastel ruivo e que vou levar-te ao psiquiatra.
- No disseste nada disso?
- Disse. - Fez um ar inocente e depois desatou a rir. Na verdade, disse-  lhe apenas que tinhas visto a luz e me tinhas escolhido. Ele  congratulou-se pelo teu bom 
gosto e desapareceu com a sua amiguinha  rechonchuda. - Independentemente daquilo que Harry lhe dissera, Chandler  acenoualegremente e saiu com a outra debutante; 
assim, ningum ficou  magoado.
- Tenho de dizer qualquer coisa  minha me, antes de irmos.  No te importas?
- Claro que no. Bem, na verdade, sim, mas julgo que no tenho  outra hiptese.
Comportou-se bem quando Tana o apresentou a Jean. Ele tinha um ar muito  fino, para sua satisfao. Saram do salo e Jean foi para  casa sozinha, desejando que 
Arthur ali
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estivesse a ver tudo. Tinha sido uma bela noite e era bvio
que Tana se divertira bastante. E agora ia sair com Harry
linslow IV. Jean sabia quem ele era, ou pelo menos conhecia-o de  nome.
- E o teu pai?
Esticou as pernas no txi, depois de ter dado o endereo; 
do 21, o seu local preferido, quando estava na cidade, e Tana
ficou satisfeita. Era de certeza mais divertido do que sair
com Chandler George. Alm disso, h tanto tempo que no
saa com ningum que j nem se lembrava como era, e os
seus pares nunca tinham sido como aquele. Normalmente
iam todos em grupo para comerem uma pizza na Segunda
Avenida, e isso antes da concluso do liceu... Antes de Bill
Durning...
- O meu pai morreu antes de eu nascer, na guerra.
- Foi atencioso da parte dele. Desse modo foi um sofrimento menor do que  se tivesse ficado por a mais alguns anos. - As palavras deixaram  Tana a pensar no que 
teria levado a me dele a suicidar-se, mas nunca  se atreveria a perguntar. - A tua me voltou a casar?
- No. - Tana abanou a cabea hesitante e continuou: 
Tem um amigo. - Era o tipo de pessoa a quem se podia confiar uma coisa  daquelas. Havia algo nos olhos dele. Algo
      que fazia com que qualquer um confiasse nele e  gostasse
logo dele.
Ele voltou a erguer maliciosamente a sobrancelha.
      - O amigo  casado?
      Ela corou bastante, mas ele no reparou.
- O que te fez perguntar isso? 
- Perspiccia, julgo. - Ele era impossvel. Dava vontade de lhe  esbofetear a cara, se no fosse to garoto e, ao mesmo tempo,  to atraente. Era to abertamente 
descarado
      que, de certa maneira, tudo ficava bem. - Estou  aborrecida com o facto. Em geral, ela nunca-o teria admitido a  ningum, mas agora sim.
      - Sim, ou pelo menos foi durante muito tempo. 
vivo h quatro anos e ainda no se casou com  ela. um
filho da me muito egosta. - Foi a frase mais forte que  alguma
      vez dissera sobre ele, publicamente. Nem mesmo  a
      Sharon dissera tal coisa.
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Harry no pareceu perturbado.
- A maioria dos homens . Devias conhecer o meu pai. Passa a vida a  destroar coraes.
- Que simptico.
- No . - Os olhos de Harry endureceram. - S se interessa por  uma coisa. Ele prprio. No admira que ela se tenha suicidado -  Nunca perdoara aquilo ao pai, e 
Tana sentiu pena dele.
O txi parou  frente do 21. Harry pagou e saram. Pouco  depois, viram-se envolvidos na animao do restaurante exclusivo.  Tana s l tinha estado uma ou duas 
vezes, como na noite de fim de  curso, e adorou os objectos suspensos sobre o bar, as pessoas bem  vestidas que l estavam, incluindo as estrelas de cinema que ela 
reconheceu de imediato. O chefe de mesa cumprimentou Harry com prazer,  contente em v-lo de novo. Era claramente o seu refgio preferido  e passava a vida ali. 
Ficaram no br durante algum tempo e depois  foram para a mesa, onde Harry pediu um bife trtaro e Tana mandou vir  ovos Benedict. Enquanto bebiam o champanhe Louis 
Roederer que ele  encomendara, Harry viu rosto dela tornar-se tenso. Estava a olhar para o  outro lado da sala, para uma mesa de pessoas que parecia estarem a  distinguir-se 
e onde se encontrava um homem mais velho com o brao   volta de uma rapariga bastante nova. Harry olhou para o rosto dela,  depois para os olhos e, a seguir, tocou-lhe 
na mo.
- Deixa-me adivinhar. Um amor antigo? - Ficou surpreendido por ver que o  olhar incidia no homem mais velho. Ela no parecia ser uma pessoa  daquele gnero.
-No meu, de qualquer modo.
Ele percebeu imediatamente.
- O amigo da tua me?
-Ele disse-lhe que tinha um jantar de negcios esta noite.
- Talvez seja.
- No me parece. - O olhar estava duro, quando se voltou de novo para  Harry. - O que mais me irrita  que, aos olhos dela, ele no faz  nada de mal. Arranja sempre 
uma desculpa para ele. Senta-se e espera e  acha que deve sentir-se agradecida.
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- H quanto tempo andam juntos?
- H doze anos. Ele fez uma careta.
- Bolas, isso  muito tempo! 
- Sim. - Tana voltou a olhar malevolamente na direco de Arthur.  - E no parece constrangido. - V-lo ali f- la pensar de novo  em Billy. Virou a cara, como se 
quisesse fugir ao pensamento, mas Harry  reparou na sbita expresso de dor nos seus olhos.
- No leves isso to a srio, princesa - disse ele com  suavidade.
- A vida  dela, no minha.
- Exacto. Nunca te esqueas disso. Podes fazer o que quiseres com a  tua vida. - Sorriu. - E isso recorda-me que ainda no respondeste a  todas as minhas perguntas 
rudes e directas. O que  que vais fazer  depois de Green Hill?
- S Deus sabe. Talvez v para Colmbia. No sei bem. Quero  continuar.
- No pensas em casar e ter quatro filhinhos? 
Ambos deram uma gargalhada.
- Por agora no, obrigada, embora seja o maior sonho da minha me.  - Depois, virou-se para ele com um olhar
curioso. - E tu, que escola frequentas?
Ele suspirou, enquanto pousava o copo de champanhe. - Harvard, por  acaso. Soa a chato, no soa? - Foi por isso que no lhe dissera  logo.
-  verdade?
- Infelizmente, sim. - Sorriu. - Mas tenho esperanas. 
Talvez chumbe antes do fim do ano.  o que estou a tentar fazer.
- No podes ser assim to mau, ou no terias entrado.
- Um linslow no entrar? No sejas absurda, querida. Ns  entramos sempre. Ns praticamente construmos o lugar.
- Ah. - Ela pareceu impressionada. - Compreendo. E no querias  ir?
- No especialmente. Queria ir para algures. Pensei em Stanford ou na  Califrnia, mas o meu paij tinha decidido e no valia a pena  discutir com ele. Assim, l 
estou
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eu, a fazer-lhes a vida negra e a obrig-los a arrependerem-se de me  terem aceite.
- Deves ser uma verdadeira ameaa para eles. - Tana riu, reparando  que Arthur Durning e o grupo j tinham sado. No a vira e ela  no sabia bem se estava contente 
ou no por isso.
- Tens de l ir visitar-me. Talvez durante as frias da  Primavera.
Ela achou graa e abanou a cabea.
- Duvido que possa.
- No confias em mim? - Parecia divertido e muito corts para um  rapaz de dezoito anos.
- Na verdade, no. - Deu mais um gole no champanhe e ambos desataram  a rir. J estava um tanto tonta e divertia-se bastante com ele. Era o  primeiro rapaz com quem 
simpatizava desde h muito tempo, e gostou  dele como amigo. Era divertido rir-se com ele e podia contar-lhe coisas  que nunca conseguira dizer a ningum, excepto 
a Shar. Ento, teve  uma ideia: - Talvez aparea, se puder levar uma amiga.
- Que tipo de amiga? - perguntou, desconfiado.
- A minha companheira de quarto, em Green Hill. Falou-lheento de  Sharon Blake e ele pareceu intrigado.
- A filha do Freeman Blake? Isso  outra coisa. Ela  to  maravilhosa como dizes?
- Ainda mais. - Contou-lhe ento a histria de no as servirem  na cafetaria de Yolan e falou da palestra de Martin Luther King. Ele  pareceu interessado em tudo 
aquilo.
-Gostava de a conhecer. Achas que irs mesmo at Cambridge nas  frias da Primavera?
- Talvez, terei de lhe perguntar.
- O que  que vocs so, gmeas siamesas? - Olhou para Tana  com ar apreciador. Era uma das raparigas mais bonitas que j vira e  valia a pena aturar mais algum 
s para a ver de novo.
- Mais ou menos. Eles convidaram-me para o Dia de Aco de  Graas e gostava de l voltar.
- Porque no a tens aqui contigo?
Houve uma longa pausa e, depois, Tana olhou para ele.
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- A minha me teria um colapso se soubesse que a Sharon  negra.  Contei-lhe tudo, menos isso.
- Maravilha. - Harry sorriu. - Disse-te que a minha av materna era  negra, no disse? - Por um instante, pareceu to sincero que ela  quase acreditou no que ele 
disse. Depois, ele comeou a rir e ela  fez-lhe uma careta.
- Parvalho. E se eu falar de ti  minha me?
- Faz-me esse favor.
E assim o fez no dia seguinte, quando ele telefonou para a convidar a  almoar da a dois dias. Tinham de passar o Natal, entretanto.
- No  o rapaz que conheceste ontem  noite? Era sbado de  manh e Jean descansava, lendo um livro. No tinha notcias de  Arthur desde o dia anterior, e estava 
ansiosa por lhe contar como fora o  baile, mas no queria incomod-lo. Normalmente, esperava que ele  lhe telefonasse. Era um hbito que adquirira desde que ele 
ainda era  casado com Marie. E, afinal, era Natal. Ele iria estar ocupado com Billy  e Ann.
- Sim, . - Tana explicou  me o telefonema de Harry.
- Parece simptico.
- . - Mas no da forma que Jean aprovaria, como Tana to bem  sabia. Harry era irreverente e malicioso, e bebia muito. E era  obviamente muito mimado; porm, tinha-se 
comportado com decncia  quando a trouxera para casa.
Desejara-lhe as boas-noites e no tentara nada. Ela sentira-se  nervosa com isso, mas sem razo. Dois dias depois, quando
ele a foi buscar para almoar, trazia um casaco e uma gravata de  riscas cinzentas mas, assim que desceram as escadas, calou uns  patins, colocou um chapucmico 
e comeou a portar-se como um  doido varrido, enquanto caminhava em direco  cidade. Tana  desatou a rir.
- Harry Winslow, s completamente doido, sabes?
- Sim, minha senhora: - Ele sorriu e semicerrou os olhos, insistindo em  manter os patins calados no O Room, onde foram almoar. O chefe  de mesa no parecia nada 
satisfeito, mas sabia quem ele era e no  se atreveu a expuls-lo. Harry encomendou uma garrafa de champanhe  Roederer e bebeu um copo, assim que tiraram a rolha. 
Em
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seguida, pousou o copo vazio e sorriu para Tana. - Penso que sou viciado  nesta coisa.
- Queres dizer que s um bbedo.
- Sim - disse-o com orgulho. e encomendou o almoo para os dois.
Em seguida, foram at Central Park e pararam no Whoman Rink, onde  ficaram a ver os patinadores no gelo durante mais de uma hora e a  conversar sobre a vida. Sentiu 
que havia nela uma certa reserva. Ela  no se oferecia, no sentido romntico; era cuidadosa e fechada e,  contudo, ao mesmo tempo inteligente e meiga. Preocupava-se 
com as  pessoas, as causas e as coisas. Mas no lhe estendia a mo. Sabia  que tinha arranjado uma nova amiga, mas nada mais, pois ela fizera tudo  para que ele 
compreendesse isso, o que lhe despertou a curiosidade.
- Ests envolvida com algum em Green Hill?
Ela abanou a cabea.
- No, no  nada disso. No quero envolver-me com  ningum agora. - Surpreendeu-o a sinceridade dela. E era tambm um  desafio, claro, ao qual no conseguia resistir 
completamente. 
- Porque no? Receias magoar-te, como aconteceu com a tua me? -  Ela nunca pensara daquela maneira. Fora ele que lhe dissera que no  queria ter filhos. No queria 
magoar ningum, tanto como ele  prprrio ficara magoado. E ela tinha acabado de lhe contar como  Arthur voltara a tratar a me, no Natal desse ano.
- No sei. Talvez. Isso e outras coisas.
- Que tipo de outras coisas?
- Nada de que me apetea falar.
Desviou os olhos e ele tentou imaginar o que a teria marcado assim  tanto. Ela mantinha uma distncia segura entre eles e, mesmo quando  se riam ou brincavam, enviava 
mensagens que diziam no te aproximes  muito de mim. Esperava que no houvesse nada de estranho com a  rapariga ou com as suas tendncias sexuais, mas achou que 
no era  isso. Tana escondia algo, e ele no sabia bem a razo. Algum  era responsvel por aquela reaco e ele questionava-se sobre  isso.
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-J houve algum importante na tua vida?
- No. - Olhou-o directamente nos olhos. - No quero falar disso.  - O olhar dela f-lo recuar de imediato. Era de fria, mgoa e  algo que ele no conseguia definir, 
mas to poderoso que lhe  cortou a respirao. Ele no se assustava facilmente; porm,  dessa vez, entendeu o recado. At um cego entenderia.
- Desculpa. - Mudaram ento de assunto e voltaram a falar de coisas  triviais.
Harry comeara a gostar muito dela e viu-a vrias vezes, durante  aquelas frias de Natal. Jantaram e almoaram juntos, foram  patinar no parque, e ao cinema uma 
noite, e ela at o convidou para  jantar com Jean. Contudo, isso foi um erro, reconheceu-o logo. Jean  fez-lhe um interrogatrio cerrado, como se ele fosse um grande 
candidato a casamento, fez-lhe perguntas sobre os planos para o futuro,  sobre os pais, a carreira que ele queria seguir, as notas. Tana mal  pde esperar que ele 
se fosse embora e, quando saiu, gritou com  Jean.
- Porque  que fez isso? Ele s c veio jantar! No veio  pedir-me em casamento.
- Tens dezoito anos e j deves comear a pensar nisso. -  Porqu? - Tana estava furiosa. - Ele  apenas um amigo, por amor  de Deus! No comece a agir como se eu 
ti vesse de me casar at   prxima semana.
 - Bem, quando  que queres casar, Tana? - Nunca, raios! Por que raio  tenho de me casar?
- O que  que vais fazer no resto da tua vida? - Os
olhos da me perseguiam-na, empurrando-a para os cantos cada vez com  mais fora, e ela odiava aquilo.
- No sei o que vou fazer. Tenho de decidir isso agora? Exactamente  agora? Esta noite? Esta semana? Merda! 
- No fales assim comigo! - A me tambm j estava  zangada.
- Porque no? O que  que est a tentar fazer-me?
- Quero ver-te com alguma segurana, Tana. Que no vivas no mesmo  barco que eu, quando tiveres quarenta anos. Mereces mais do que isso!  
- E a me tambm. Alguma vez pensou nisso? Detesto
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v-la assim, sempre  espera do Arthur, como se fosse sua escrava.   o que tem sido durante todos estes anos, me. A concubina do  Arthur Durning. - Teve vontade 
de contar-lhe que o vira com outra mulher  no 21, mas no podia fazer-lhe isso. No queria causar-lhe essa  dor to grande. Tana conteve-se mas, de qualquer modo, 
Jean estava  colrica.
- Isso no  justo e no  verdade.
- Ento, porque no posso ser como a me? - Jean virou-lhe as  costas para que ela no visse as lgrimas; de repente, mostrou a  Tana os doze anos de pesar que se 
notavam nos seus olhos, bem como uma  vida inteira anteror a isso.
- Quero que tenhas tudo o que eu no tive.  pedir muito?
Tana sentiu-se subitamente comovida com a me e cedeu. A voz soou  mais suave quando voltou a falar.
- Mas talvez eu no queira as mesmas coisas que a me.
- O que  que tu no queres? Um marido, segurana, um lar,  filhos. O que h de mal em tudo isso? - Pareceu chocada.
- Nada. Mas ainda sou muito nova para pensar em tal coisa. E se eu  quiser seguir uma carreira?
Jean Roberts olhou para ela, abismada.
- Que tipo de carreira?
- No sei. Falei apenas hipoteticamente.
-  uma vida solitria, Tana - retorquiu a me, preocupada. -  Ficarias melhor se constitusses famlia.
Todavia, para Tana isso significava desistir, e pensou naquilo quando se  dirigia para sul, de comboio. Ela e Sharon conversaram sobre o assunto  na primeira noite 
em Jasmine House assim que as luzes se apagaram.
-Jesus, Tan, ela parece a minha me... um pouco diferente,   claro. Mas todas elas querem para ns o que quiseram para si  prprias, independentemente de sermos 
diferentes delas, daquilo que  pensamos, sentimos e queremos. O meu pai compreende, mas a minha me.  S oio falar sobre a Faculdade de Direito, greves, e ser  
responsvel pela raa negra. Estou to farta de ser  responsvel, que me
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apetece gritar. Em primeiro lugar, foi por isso que vim para c, para  Green Hill. Queria ir para um lugar onde houvesse outras negras. Raios,  aqui nem sequer posso 
sair com um rapaz, e ela responde-me que tenho  muito tempo para isso. Quando? Quero sair agora, quero divertir-me,  quero ir a restaurantes e cinemas e a jogos 
de futebol.
Foi ento que Tana se lembrou do convite que lhe tinham feito e  sorriu no escuro.
- Queres ir a Harvard comigo nas frias da Primavera?
- Fazer o qu? - Sharon apoiou-se num cotovelo, no meio da  escurido, com um olhar entusiasmado. Ento, Tana contou-lhe tudo  sobre Harry linslow. - Ele parece 
impecvel. Apaixonaste-te por  ele?
- No.
- Porqu?
Houve um silncio que ambas compreenderam.
- Tu sabes porqu.
- No podes deixar que isso estrague o resto da tua vida, Tan.
- Agora, s tu que pareces a minha me. Ela quer que eu me  comprometa com algum at  prxima semana, desde que ele  deseje casar-se comigo, comprar-me uma casa 
e dar-me filhos. 
-  horrvel participar em greves e levar com ovos no cabelo.  Parece-te divertido?
Tana sorriu.
- Nem por isso.
- O teu amigo de Harvard parece boa pessoa.
- . Gosto muito dele, como amigo.  a pessoa mais sincera e  directa que conheo.
O telefonema que ele lhe fizera, j no fim daquela semana, cimentara  ainda mais a relao de ambos. Telefono a fingir que era o  dono de um laboratrio de Yolan 
onde precisavam de raparigas para  fazerem experincias, explicando:
- Estamos a tentar descobrir se as raparigas jovens so to  inteligentes quanto os rapazes jovens - disse, disfarando a voz. -  Claro que sabemos que no so mas... 
E, pouco antes de Tana  rebentr de fria, reconheceu a voz dele: - Seu merdas!
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- Ol, mida. Como vai a vida a pelo Sul?
- Nada mal. - Por fim, deixou-o falar com Sharon e as duas permaneceram  junto ao telefone, passando-o uma  outra; depois, Sharon acabou por  ir para cima e Tana 
ficou a falar durante hras. No havia  qualquer tom romntico, pois ele era mais como um irmo para ela  e, aps dois meses de telefonemas, alm de Sharon, Harry 
era o seu  amigo mais chegado. Ele esperava v-la nas frias da Primavera e  ela tentou convencer Sharon a irem juntas, mas no teve sucesso. Tana  decidiu desafiar 
a me e convidar Sharon a passar uns dias com elas,  mas Miriam Blake falara ao telefone com a filha quase todas as noites.  No fim-de- semana da Pscoa, ia haver 
em Washington um enorme  comcio de negros pelos direitos civis, com uma viglia  luz  de velas. Ela queria que Sharon estivesse presente. Achou que era uma  parte 
importante das suas vidas e no era altura para uma viagem de  frias. Sharon ficou triste quando ambas deixaram Green Hill.
- S tinhas de dizer que no, Shar. - Tana olhou para ela e abanou  a cabea e, por um momento, algo parecido com fria passou pelos  olhos da bela rapariga negra.
- Tal como fizeste em relao  festa de apresentao,  hein, Tan?
Houve silncio e depois, lentamente, Tana anuiu. A amiga no  estava muito errada. Era dificil estar sempre a lutar contra eles.  Encolheu os ombros, com um sorriso 
tmido.
- Est bem, venceste. Desculpa. Vamos sentir a tua falta em Nova  Iorque.
- Eu tambm vou ter saudades tuas. - Dirigiu-lhe um sorriso  luminoso.
Durante a viagem, conversaram e jogaram s cartas. Sharon desceu em  Washington e Tana continuou at Nova Iorque. Quando saiu da  estao, o tempo estava fresco 
e agradvel e acenou para um  txi. O apartamento parecia estar na mesma mas, de certo modo e por  um motivo que no conseguia explicar, era deprimente estar de 
volta.  Tudo era igual. Nada tinha crescido, nada tinha mudado. Nunca havia  tecidos novos, plantas novas, flores maravilhosas ou qualquer coisa de  excitante. Eram 
sempre as mesmas coisas, a
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mesma vida, o mesmo sof gasto, as mesmas plantas de aspecto medonho,  ano aps ano. No o achara assim to mau, quando vivera ali  todos os dias; agora que ia e 
vinha, tudo lhe parecia diferente. Tudo  estava mais esfarrapado e todo o apartamento parecia ter encolhido. A  me encontrava-se a trabalhar. Tana tinha acabado 
de colocar as malas  no quarto, quando o telefone tocou. Regressou  sala de estar para o  atender, olhando de novo em volta.
- Est l?
- Daqui linslow. Como ests, mida?
Ela sorriu. Era como uma lufada de ar fresco naquela sala deteriorada e  bolorenta.
- Ol.
- Quando  que chegaste?
- H cerca de quatro segundos. E tu?
- Vim de carro ontem  noite, com dois rapazes. E...
- Olhou preguiosamente para o apartamento que o pai possua no  Hotel Pierre. - Aqui estou. A mesma velha es pelunca, a mesma velha  cidade. - Parecia um garoto 
quando sorriu no outro lado do telefone.  Tana ficou entusiasmada com a perspectiva de o ver de novo. Nos  ltimos quatro meses, tinham aprendido tanto um com o 
outro, ao  telefone; era como se j fossem velhos amigos. - Queres c vir  beber alguma coisa.
- Claro. Onde ests?
- No Hotel Pierre. - Parecia dar pouca importncia ao local onde ele  se encontrava, e Tana sorriu.
-  bonito.
- Nem por isso. No ano passado, o meu pai mandou remodelar o apartamento  a um decorador qualquer. Agora
parece uma residncia enfadonha mas, pelo menos est limpo quando  venho a Nova Iorque. 
- O teu pai est a? - perguntou, intrigada, e Harry
riu, zombeteiro.
- No sejas ridcula. Julgo que est em Munique, esta semana.  Gosta de passar l a Pscoa. Os Alemes so mais emotivos  com as festas religiosas. Com elas e com 
a Ok1 berfest. - Ela no  percebeu. - No interessa. Vem para c e vamos enlouquecer o  servio de quartos. O que  que queres?
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Vou j encomendar qualquer coisa, pois levaro duas horas a  trazer.
- No sei. um hamburger e uma Coca-Cola? Achas bem?
Toda aquela atmosfera era impressionante, mas Harry era indiferente a  tudo aquilo. Quando ela chegou, encontrava-se deitado no sof, de  calas de ganga e descalo, 
a ver umjogo de futebol na TV.  F-la desequilibrar- se ao abra-la com fora. Era bvio  que estava genuinamente satisfeito de a ver, muito mais do que ela  imaginara. 
Todo o corpo dele tremia quando lhe afagou amigavelmente o  rosto. Ento, houve um momento de constrangimento, pois era  necessrio passar para a vida real a intimidade 
desenvolvida ao  telefone. Ao fim da tarde, j eram como velhos amigos e Tana detestou  ter de sair para regressar a casa.
-Ento fica. Vou calar uns sapatos e vamos ao 21.
- Assim vestida? - olhou para a saia de pregas, os mocassins e meias de  l, mas abanou a cabea. - No, tenho de ir a casa. No vejo  a minha me h quatro meses.
- Estou sempre a esquecer-me desses rituais - comentou em voz baixa.  Estava ainda mais bonito do que antes; porm, no corao de  Tana apenas existia a amizade 
que continuara a crescer desde que se  tinham conhecido e nada mais. Ela pensava que os sentimentos dele  tambm no eram mais do que platnicos em relao a  si.
Virou-se para olhar para ele, enquanto pegava na gabardina que estava em  cima de uma cadeira.
- Nunca vs o teu pai, Harry? - perguntou com voz suave e um olhar  triste. Sabia como ele se sentia abandonado. Tinha passado as frias  sozinho, passava-as sempre, 
segundo ele, ou com amigos, ou em casas  vazias ou hotis, e s mencionava o pai no contexto de  brincadeiras maldosas com as suas mulheres e amigos, bem como no 
seu  vagabundear para c e para l.
- Vejo-o de vez em quando. Damos de caras um com o outro uma a duas  vezes por ano. Normalmente aqui, ou no Sul de Frana. - Parecia  fabuloso, mas Tana percebeu 
logo como Harry estava s. Fora por isso  que se abrira tanto com ela. Havia qualquer coisa dentro dele que  ansiava por sair e
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ser amada. Tambm nela havia algo assim. Uma parte dela que apenas  tivera Jean e queria mais, um pai, irms e irmos, uma famlia.  algo mais do que apenas uma 
mulher solitria que passava a vida   espera de um homem que no
a apreciava. Harry nem sequer tinha isso. Tana sentiu dio pelo pai  dele.
- Como  ele?
Harry voltou a encolher os ombros.
- Bonito, julgo. Pelo menos,  o que as mulheres dizem. Inteligente.  frio. - Olhou directamente para os olhos de Tana. - Matou a minha  me. Como  que achas que 
ele ?
Sentiu um grande pesar quando olhou para os olhos do amigo. No soube  que responder. Lamentou ter feito a pergunta, mas Harry colocou um  brao em volta dos ombros 
dela e dirigiram-se para a porta.
- No deixes que isso te apoquente, Tan. J acontece h muito  tempo.
Era um rapaz to solitrio, apesar de alegre, honesto amigo.  Aquilo no era justo. mas tambm era mimado, comodista e  malicioso. Falara com sotaque britnico quando 
o primeiro empregado  do hotel tinha aparecido e fingira que era francs com o segundo.  Depois, tanto ele como Tana
riram a bandeiras despregadas. Ela perguntou a si prpria se ele se  comportaria sempre assim e suspeitou que sim. Quando apanhou o autocarro  de volta, sentiu subitamente 
que j no se importava com o pequeno  e deprimente apartamento que partilhava com Jean. Era melhor aquilo do  que a luxuosa e fria decorao da suite dos linslow, 
no
Pierre. As salas eram grandes e tudo era cromado, vidro branco e caro.  Havia no cho dois fabulosos tapetes brancos de plo alto, bem  como quadros e objectos valiosos 
por todo o lado. Mas era tudo o que  havia. Ningum ali estava, quando ele chegava da escola, nem estaria  ali naquela noite ou na seguinte. Somente Harry, com um 
frigorfico  cheio de bebidas alcolicas e Coca-Colas, um guarda-fato cheio de  roupas caras e uma televiso.
- Ol. Cheguei. - disse em voz alta, quando entrou, e Jean apareceu a  correr, abraando-a com fora. 
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- Oh, querida, ests to bonita! 
Aquela frase f-la pensar de novo em Harry e em tudo o que ele no  tinha, apesar da sua fortuna e das suas casas, do seu nome famoso. Ele  no tinha aquilo. De 
certo modo, Tana queria compens-lo. Jean  olhou para ela e notou-se uma satisfao tal nos seus olhos que,  na verdade, lhe soube bem estar em casa.
- Vi as tuas malas. Onde foste? - prosseguiu a me.
- Fui ver uma pessoa amiga no centro da cidade. Julguei que s  chegaria mais tarde.
- Sa mais cedo, para o caso de chegares.
- Desculpe, me.
 - Quem foste ver? - Jean gostava sempre de saber o que ela fazia, ou  com quem se encontrava. Mas Tana j noestava to habituada  s perguntas e hesitou um segundo, 
antes de sorrir.
- Fui ter com Harry Winslow ao Hotel Pierre. No sei se se lembra  dele.
- Claro que sim. - Os olhos de Jean iluminaram-se. Ele est  c?
- Tem um apartamento na cidade - respondeu Tana. Jean comeou logo a  pensar. Era ptimo que ele fosse suficientemente maduro e abastado  para ter o seu prprio 
apartamento, ao mesmo tempo, tambm era  perigoso.
- Ficaste sozinha com ele? - perguntou, preocupada. Desta vez, Tana deu  uma gargalhada.
- Claro. Partilhmos um hamburger e vimos televiso. Tudo  perfeitamente inofensivo, me.
- Mesmo assim. acho que no devias ter ido. Olhou para os olhos de  Tana, que comeava a ficar tensa.
- Ele  meu amigo, me.
- Ainda  um jovem e nunca se sabe o que pode acontecer numa  situao dessas.
- Sim, eu sei. - O olhar tornou-se imediatamente duro. Sabia-o bem de  mais. S que isso acontecera na casa do famoso Billy Durning, no  quarto do seu prprio pai, 
com uma dezena de midos no andar  inferior. - Sei em quem posso confiar.
- Ainda s muito jovem para saberes julgar coisas como essa, Tan.
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- No, no sou. - O rosto de Tan ficou como uma rocha. A  violao de Billy Durning tinha alterado toda a sua vida. Sabia  tudo sobre coisas como aquela e, se tivesse 
sentido alguma ameaa por  parte de Harry, nunca teria ido ao seu hotel, ou permanecido l. No  entanto, soubera logo que ele era seu amigo e nunca sofreria nas 
mos  dele, ao contrrio do filho do amante da me. - O Harry e eu somos  apenas amigos.
- Ests a ser ingnua. No existe nada disso entre rapazes e  raparigas, Tan. Homens e mulheres no podem ser amigos.
Os olhos de Tana abriram-se muito. No conseguia acreditar que a  me tivesse dito aquelas palavras.
- Como pode dizer uma coisa dessas, me?
- Porque  verdade. E, se ele te convidou para o hotel,  porque  tem qualquer coisa em mente, quer reconheas ou no. Talvez esteja  a ganhar tempo. - Depois, sorriu. 
Achas que ele pode ter sentimentos  srios para contigo, Tan?
- Srios? - Tana parecia que estava prestes a explodir. Srios?  J lhe disse que somos somente amigos.
- E eu j te disse que no acredito nisso. - Havia algo quase  insinuante no sorriso dela. - Sabes, Tan, ele ser uma ptima  pesca.
Aquilo j era de mais. Tana deu um salto e olhou para a me com  desdm.
- Fala dele como se fosse um peixe, por amor de Deus! No quero uma  pesca. No quero casar-me. No quero ir para a cama com  ningum. S quero ter alguns amigos
e ir para a escola. Consegue compreender isso? - Havia lgrimas nos  seus olhos, tal como nos de Jean.
- Porque  que tens de ser to violenta com tudo? no eras  assim, Tan. - Parecia to triste que Tana sentiu o corao  despedaar-se, mas no podia mudar a sua 
maneira de sentir, nem as  palavras que acabara de dizer: 
- A me tambm no andava sempre a pressionar-me? 
- Quando  que eu te pressionei? - Estava abismada. Eu nem sequer te  vejo. Vi-te duas vezes em seis meses. Isso  pressionar?
- Aquela festa de apresentao foi pressionar, e o que
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acabou de dizer do Harry  pressionar. Falar de pesca, de tomar  juzo e de casamento  pressionar. Por amor de Deus, me, eu  tenho dezoito anos! 
- E ests quase a fazer dezanove. E depois? Quando  que vais  comear a pensar nisso, Tan?
- No sei, me. Talvez nunca, que tal? Talvez nunca me case. E  depois? Se eu for feliz, quem se importar com isso?
- Importo-me eu. Quero ver-te casada com um bom homem, com bons filhos,  numa bonita casa. - Jean j chorava copiosamente; era tudo o que  sempre desejara para si 
prpria. No entanto, estava sozinha. tinha  duas noites por semana com o homem que amava e uma filha que estava  quase sempre longe... inclinou a cabea e soluou.
Tana aproximou-se dela e abraou-a com fora.
- Vamos, me, pare. Sei que quer o melhor para mim... mas deixe que  as coisas aconteam  minha maneira.
A me olhou-a com olhos grandes, tristes e escuros.
- Sabes quem  o Harry linslow?
- Sim - respondeu Tana com voz meiga. -  meu amigo.
- O pai dele  um dos homens mais ricos dos Estados Unidos. Ao seu  lado, at o Arthur Durning parece pobre. Arthur Durning! A bitola  para tudo na vida de Jean.
- E depois?
-J imaginaste que tipo de vida poderias ter com ele? Tana sentiu  tristeza pela me e, subitamente, ela prpria ficou triste. A  me no entendia o seu ponto de 
vista e talvez nunca tivesse  entendido. Contudo, Jean tinha-lhe dado muito. Tana sentia que lhe devia  bastante, agora. No entanto,         apesar disso, mal viu 
Jean durante as  duas semanas que passou em Nova Iorque. Saiu com Harry quase  diariamente, embora no o tivesse admitido a Jean. Ainda estava  furiosa com o que 
a me lhe tinha dito. Sabes quem ele ? Como se  fizesse alguma diferena. Perguntou a si prpria quantas pessoas  pensariam dessa forma. Pareceu-lhe um pensamento 
abominvel, ser-se  avaliado segundo o apelido.
Cautelosamente, chegou mesmo a falar sobre isso com Harry, quando faziam  um piquenique no Central Park.
- Isso no te aborrece, Harry? Quero dizer, as pessoas a
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quererem conhecer-te s por seres filho de quem s?O pensamento  ainda a horrorizava, mas ele apenas encolheu os ombros e continuou a  comer a ma, deitado sobre 
a relva.
- As pessoas so mesmo assim, penso. Isso d-lhes um prazer  qualquer. Antigamente, eu via toda a gente a fazer isso ao meu pai.
- E ele no se aborrece?
- Acho que ele se est nas tintas. - Harry sorriu para ela. -   to insensvel que acho que no se d conta absolu tamente  de nada.
Tana olhou para os olhos de Harry.
- Ele  assim to mau?
- Pior.
- Ento, como  que tu s to bom?
Ele deu uma gargalhada.
- Foi sorte, julgo. Ou talvez sejam os genes da minha
me.
- Ainda te lembras dela? - Era a primeira vez que lhe perguntava aquilo,  e ele desviou o olhar.
- s vezes. um pouco. No sei, Tan. - Voltou a olhar para ela. -  s vezes, quando eu era criana, mentia aos meus amigos, dizendo  que ela estava viva, que tinha 
sado para fazer compras ou coisa  assim, quando apareciam para brincar. No queria ser diferente de  todos eles. Mas descobriam sempre. As mes ou outras pessoas 
contavam-lhes
quando regressavam a casa. Ento, achavam que eu era esquisito, mas  eu no me importava. Sabia bem sentir-me normal, s durante  algumas horas. Falava dela como 
se
tivesse sado. ou estivesse no andar de cima. - Tan viu lgrimas a  aflorarem aos olhos dele. - Grande pateta, hein, ficar dependente de uma  me que nem sequer 
conheci!
Tana sentiu muita pena dele e falou-lhe em voz muito meiga.
- Eu teria feito a mesma coisa no teu lugar. Ele encolheu os ombros e  desviou o olhar. Pouco depois foram dar um passeio a p e conversaram  de outras coisas: Freeman 
Blake, Sharon, as aulas de Tana em Green Hill.  Subitamente, sem qu nem porqu, Harry pegou-lhe na mo.
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- Obrigado por tudo o que disseste.
Ela percebeu logo o que ele queria dizer. Tinham uma espcie de  transmisso de pensamentos, desde o momento em que se haviam  conhecido.
- Est tudo bem. - Ela apertou-lhe a mo e continuaram a  caminhar.
Tana estava admirada com o facto de se sentir to confortvel ao  lado dele. Ele no a pressionava em nada ej no perguntava  porque  que no saa com outros rapazes. 
Parecia aceit-la  como ela era, e Tana sentia-se grata por isso. Sentia-se grata por  muitas coisas: pelo modo como ele encarava a vida, pelo prazer de  estarem 
juntos, pelo sentido de humor que a fazia sempre rir. Era  maravilhoso ter algum com quem partilhar as suas ideias.
Ele era quase como uma caixa de ressonncia para tudo o que ela tinha  em mente. Tana sentiu-se particularmente grata por isso, ao regressar a  Green Hill. Quando 
tornou a ver Sharon, foi como se a famlia tivesse  mandado outra pessoa no seu lugar, pois todas as suas ideias  polticas moderadas tinham desaparecido. Tinha 
assistido com a me  e pessoas
amigas a uma srie de comcios e reunies e, subitamente,  estava to fantica quanto Miriam Blake. Tana no conseguia  acreditar na mudana que tivera lugar e, 
por fim, depois de a ouvir  durante dois dias, virou-se para Sharon e perguntou:
- Por amor de Deus, Shar, o que foi que te aconteceu? Este quarto tem  sido um comcio, desde que regressmos. Para com a tua  oratria, rapariga. Que raio te aconteceu? 
Sharon ficou sentada e,  subitamente, as lgrimas encheram-lhe os olhos. Inclinou a cabea,  engasgou-se com os soluos e os seus ombros abanaram. S meia hora  
depois conseguiu falar. Tana olhava para ela, abismada. Tinha acontecido  algo de terrvel  rapariga, mas era impossvel determinar o  qu. Abraou-se a ela e comeou 
a balan-la. Por fim,  Sharon disse:
- Mataram o Dick na Sexta-Feira Santa, Tan. Mataram-no. Tinha quinze  anos. e foi enforcado. - Tana sentiu-se imediatamente mal. No podia  ser verdade. Aquilo no 
acontecia a ningum conhecido. a negros. a  ningum.
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Mas viu no rosto de Sharon que era verdade e, quando ligou para Harry  nessa noite, chorou ao contar-lhe a notcia.
- Meu Deus. Ouvi qualquer coisa na escola, que o filho de um negro  importante tinha sido assassinado, mas no fazia ideia. Merda! Era o  irmo de Sharon e pouco 
mais de uma criana.
- Sim. - Tana sentiu um grande peso no corao. Quando a me  lhe telefonou no fim dessa semana, ela ainda estava deprimida.
- O que  que se passa, querida? - Tu e o Harry discu tiram? -  Tentava uma tctica nova; ia fingir a Tana e a si prpria que era  um romance e talvez a ideia fizesse 
efeito: mas Tana no teve  pacincia para a me e ficou imediatamente furiosa.
- O irmo da minha colega de quarto morreu.
- Oh, que terrvel. - Jean pareceu horrorizada. Num acidente?
Houve uma longa pausa, enquanto Tana media as palavras. No, me,  ele foi enforcado; sabe, ele  negro.
- Mais ou menos. - A morte no era sempre um acidente? Quem esperava  por ela?
- Diz-lhe que lamento muito. Foi com essas pessoas 
que passaste o Dia de Aco de Graas, no foi? 
- Sim - respondeu Tana em voz baixa e sem entoao.
- Mas isso  terrvel.
Tana no conseguia falar mais com ela.
- Tenho de desligar, me.
- Liga-me daqui a alguns dias.
- Tentarei. - Interrompeu-a e desligou. No lhe apetecia falar com  ningum, mas tanto ela como Sharon ficaram a conversar pela noite  dentro. Subitamente, tudo 
na vida de Sharon tinha mudado. Chegara mesmo  a contactar a igreja negra local e ajudou a organizar comcios aos  fins-de-semana durante o resto da Primavera.
- Achas que deves fazer isso, Shar?
Sharon olhou zangada para ela.
- Existe alguma outra hiptese? Eu penso que no. 
Havia fria na sua alma, uma fria que ningum podia
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suavizar, um fogo que nenhuma paixo podia apagar. Tinham assassinado  o rapazinho com quem ela crescera. -. Ele era sempre um chato to  grande. - Riu atravs das 
lgrimas, uma noite, enquanto  conversavam no escuro. - Era to parecido com a me, e agora. e  agora. - Engoliu os soluos e Tana foi sentar-se na cama dela.
Era assim todas as noites: ou falavam de marchas algures no Sul, ou de  comcios na cidade, ou do Dr. Martin Luther King. Era como se ela  j no estivesse realmente 
ali e, a meio do perodo, entrou em  pnico. No tinha estudado nada. Era uma rapariga inteligente, mas  agora temia desesperadamente reprovar. Tana ajudou-a o mais 
possvel,  partilhou apontamentos e sublinhou-lhe os livros, mas no havia  grande esperana. A mente de Sharon estava no comcio que  organizara para a semana seguinte 
em Yolan. Os habitantes da cidade  j se tinham queixado dela duas vezes ao reitor de Green Hill; no  entanto, por ser filha de quem era, apenas fora chamada para 
conversarem  com ela. Compreendiam o desgosto que ela estava a sofrer, depois do.  hum. infeliz acidente do irmo, mas mesmo assim ela tinha de se  comportar bem 
e no queriam que causasse mais confuses na  cidade.
-  melhor desistires, Shar. Eles correm contigo, se no          parares - avisou-a Tana mais de uma vez, mas era algo que no podia  mudar. Ela no tinha outra 
hiptese. Era algo que tinha de  fazer.
Na noite anterior ao enorme comcio em Yolan, virou-se para Tana,  pouco antes de esta apagar a luz. Havia algo de intenso nos seus olhos  que quase a assustou quando 
olhou para ela.
- Passa-se alguma coisa? - perguntou Tana.
- Quero pedir-te um favor e no ficarei zangada se disseres que  no. Prometo e, por isso, faz o que te apetecer. Combinado?
- Est bem. O que ? - Tana rezava para que ela no lhe pedisse  para fazer batota num teste.
- O reverendo Clarke e eu conversmos hoje na igreja sobre se faria  uma grande diferena se houvesse brancos no comcio de amanh,  na cidade. Vamos entrar numa 
igreja de brancos.
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- O qu? - perguntou Tana, estupefacta, e Sharon
sorriu.
- Isso que ouviste. - As duas trocaram um sorriso. O doutor Clarke vai  ver quem consegue arranjar, e eu. no
sei... talvez seja errado, mas quis pedir-te. Se no quiseres ir,  Tan, no vs.
- Porque iriam eles ficar aborrecidos, se eu entrar na sua igreja? Eu  sou branca! 
- Se fores connosco, no s. Isso transforma-te em lixo branco, ou  pior. Se entrares de mo dada comigo, entre mim e o reverendo Clarke  ou outro negro. isso  
diferent Tan.
- Sim. - Sentiu uma ponta de medo, mas tamb queria ajudar a amiga. -  Acho que estou a perceber.
- O que  que dizes? - Sharon olhou-a directamente nos olhos e Tana  fez o mesmo.
- Sinceramente? Tenho medo.
- Tambm eu. Tenho sempre. - Depois, muito suavemente. - E o Dick  tambm tinha. Mas ele foi. E eu tambm vou. Irei sempre que puder  para o resto da minha vida 
at as coisas mudarem. Mas a guerra   minha, Tan, no tua. Se vieres, virs como minha amiga. E, se  no vieres, eu gosto de ti  mesma.
- Obrigada. Posso pensar nisso esta noite? - Sabia que aquilo podia ter  repercusses se chegasse ao conhecimento da escola. No queria  desperdiar a bolsa para 
o ano seguinte. Ligou para Harry nessa  noite, mas ele tinha sado. Levantou-se de madrugada, lembrando-se  das idas  igreja quando ainda era pequena, bem como 
de coisas que a  me lhe dissera sobre as pessoas serem iguais aos olhos de Deus: os  ricos e
os pobres, os brancos, os negros, todos. Depois, pensou no irmo de  Sharon, Dick, uma criana de quinze anos. Quando Sharon se virou na  cama ao nascer do sol, 
Tana estava  sua espera.
- Dormiste bem?
- Mais ou menos. - Sentou- se  beira da cama e  espreguiou-se.
- J te levantaste? - Os olhos de Sharon questionaram-na e Tana  sorriu.
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- Sim. Vamos  igreja hoje, no vamos? - Ao ouvir aquilo, Sharon  fez um grande sorriso para a amiga. Saltou para fora da cama,  abraou-a, deu-lhe um beijo e sorriu 
vitoriosa.
- Estou to feliz, Tan.
- Eu no sei se estou, mas  o que tenho de fazer.
- Eu sei que . - Ia ser uma longa e terrvel luta, mas Sharon  estaria ali, bem como Tana, s desta vez. Colocou um vestido simples  de algodo azul, a cor do cu, 
escovou os seus longos cabelos  louros e apanhou-os em rabo-de-cavalo, calou umas mocassinas, e as  duas foram a p at  cidade, lado a lado.
- Vo  igreja, meninas? - perguntou a encarregada a sorrir e as  duas responderam que sim.
Ambas sabiam que ela se referia a igrejas diferentes, mas Tana foi com  Sharon  igreja dos negros, onde se encontraram com o Dr. Clarke e um  pequeno grupo de noventa 
e cinco negros e onze brancos. Foi-lhes dito  para manterem a calma e sorrirem se fosse apropriado, mas nunca se isso  pro vocasse algum, alm de manterem o silncio, 
independentemente do que lhes fosse dito. Deviam dar as mos e entrar  solene e respeitosamente na igreja, em grupos de cinco. Sharon e Tana  deviam ficar juntas. 
Havia outra rapariga branca com eles e dois homens  negros, robustos e altos. Eram um pouco mais velhos do que as raparigas,  mas ambos eram casados, um deles tinha 
trs filhos, o outro quatro e  parecia no quererem saber porque estava ela ali. Trataram-na por  irm e, pouco antes de entrarem na igreja, os cinco companheiros 
trocaram um sorriso nervoso. Depois, muito calmamente, entraram. Era uma  pequena igreja presbiteriana no lado residencial da cidade, sempre  repleta de gente ao 
domingo, com uma catequese muito frequentada. Quando  os rostos negros comearam a entrar, todos os homens e mulheres da  igreja se voltaram. Todos pareciam chocados; 
o rgo parou de  tocar, uma mulher desmaiou, outra comeou a gritar e, em poucos  segundos, tudo estava em alvoroo. O padre comeou a gritar,  algum correu a 
chamar a Polcia e s os voluntrios do Dr.  Clarke
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se mantiveram calmos, solidamente de p contra a parede do fundo e  sem causarem qualquer confuso, enquanto os outros se viravam e  troavam, insultando-os, apesar 
de se en contrarem dentro de uma  igreja. Poucos minutos depois, chegava o pequeno esquadro da  polcia de choque da cidade. Os seus elementos tinham sido  recentemente 
treinados para os comcios que iam surgindo, e eram  essencialmente polcias de trnsito. Comearam a empurrar, a  expulsar e a arrastar para fora os corpos negros 
no cooperantes,  enquanto estes se apertavam uns contra os outros e se deixavam arrastar.  Subitamente, Tana compreendeu o que estava a acontecer. Ela iria a  seguir, 
e aquilo no estava a acontecer a uns eles remotos; estava a  acontecer a um ns e a ela. De repente, dois polcias enormes  saltaram para cima dela e agarraram-na 
brutalmente pelos dois braos,  abanando os cassetetes mesmo junto  sua cara.
- Devias ter vergonha. pedao de lixo branco! Ela abriu muito os  olhos, enquanto era arrastada para
fora e, com toda a fria do seu ser, teve vontade de os esbofetear,  de morder e dar pontaps, lembrando-se de Richard Blake e em como ele  fora assassinado, mas 
no se atreveu. Atiraram-na para a parte de  trs da carrinha, bem como  maior parte do grupo do Dr. Clarke e,  meia hora mais tarde, tiravam-lhe as impresses 
digitais e  colocavam-na numa cela. Ficou ali sentada at ao fim do dia, com mais  quinze raparigas, todas elas negras. Podia ver Sharon do outro ldo.  Permitiram 
um telefonema a cada um deles, ou pelo menos
aos brancos; os negros ainda estavam a ser processados, segundo os  polcias, e Sharon pediu que ela telefonasse 
me, o que Tana fez. Miriam chegou a Yolan  meia-noite, libertou  Sharon e Tana, simultaneamente, felicitando ambas. Tana reparou que ela  estava mais dura e carrancuda 
do que seis meses antes, mas parecia  satisfeita com o que as raparigas tinham feito. Nem sequer se aborreceu  quando Sharon lhe deu a notcia, no dia seguinte. 
Tinha sido expulsa  de Green Hill, a partir daquele preciso momento. As malas tinham sido  feitas pela encarregada de dormitrio de Jasmin House e fora-lhe  pedido 
para deixar o complexo universitrio antes do meio-dia. Tana  ficou chocada quando soube.
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Tambm sabia o que esperar, quando foi chamada ao gabinete do reitor.  Tal como pensara, convidaram-na a abandonar a escola. No iria  receber qualquer bolsa para 
o ano seguinte. Na verdade, no ia haver  ano seguinte. Tal como Sharon, tudo tinha terminado para ela. A nica  diferena era que, se aceitasse ficar de castigo, 
poderia continuar  l at ao final do ano, o que pelo menos significaria poder fazer  os exames finais e concorrer a outra faculdade. Mas qual? Sentou-se no  quarto, 
abismada, depois de Sharon ter partido. Sharon ia regressar a  Washington com a me e j se falava em passar algum tempo como  voluntria do Dr. King.
- Sei que o pai vai ficar furioso, pois ele quer que eu estude mas,  sabes, sinceramente, Tan, estou farta de escola at aqui. - Ento,  olhou com pena para Tana. 
- E tu? - Ficou arrasada com o preo do  comcio que ela tivera de pagar. Nunca tinha sido presa, apesar de  ter sido avisada antes do comcio da igreja de que era 
bastante  possvel isso acontecer; contudo, nunca esperara que isso fosse  possvel.
- Talvez seja melhor assim. - Tana tentou anim-la, mas ainda estava  chocada quando Sharon partiu. Ficou sozinha at escurecer. O seu  castigo significava ter de 
comer sozinha em Jasmine House, no sair  do quarto  noite e evitar todas as actividades sociais, incluindo o  baile de caloiros. Ela era uma pria de m qualidade, 
mas  tambm sabia que a escola terminaria dentro de trs semanas.
O pior de tudo  que, quando avisaram Tana, informaram Jean. Esta  telefonou, descontrolada, nessa noite, a chorr ao telefone.
- Porque  que no me disseste que essa estuporada era negra?
- Que diferena faz a cor dela? Ela  minha amiga. Depois as  lgrimas encheram os olhos de Tana e as emoes dos ltimos  dias derrotaram-na subitamente. Toda a 
gente da escola olhava para ela  como se tivesse morto algum, e Sharon tinha-se ido embora. No  sabia para que escola ir no ano seguinte e a me gritava consigo. 
Era  como voltar aos cinco anos, com algum a dizer-lhe que tinha sido  muito, muito m, sem saber bem porqu.
- Chamas a isso uma amiga? - A me deu uma gargalhada
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atravs das lgrimas. - Ela custou-te a bolsa de estu dos e fez  com que fosses expulsa da escola. Achas que iro aceitar-te noutra  escola, depois disto?
- Claro que sim, sua pateta - garantiu-lhe Harry, quando ela lhe contou  aos soluos, no dia seguinte. - Merda, h trilies de radicais  por essas universidades 
fora! 
- Eu no sou uma radical - retorquiu Tana, chorando um pouco  mais.
- Eu sei. S foste a um comcio. A culpa  tua por teres ido  para essa presumida escola de brancos rurais. Quero dizer, a nem  sequer ests no mundo civilizado. 
Porque no vens para uma escola  daqui?
- Tu realmente achas que consigo entrar?
- Com as tuas notas? Ests a brincar! At te deixaro dirigir o  lugar.
- S ests a tentar fazer com que me sinta melhor. E comeou de  novo a chorar.
-J comeas  a chatear-me! Porque no me deixas arranjar-te  um formulrio e esperamos para ver o que acontece? - E o que  aconteceu foi que a aceitaram, para seu 
grande espanto e  humilhao da me.
- A Universidade de Boston? Que tipo de escola  essa?
- Uma das melhores do pas e at me deram uma bolsa de estudos. -  O prprio Harry entregara o formulrio e falara dela, o que lhe  pareceu uma tolice, mas que a 
comoveu bastante; a 1 de Julho, j  estava decidido: ia para a Universidade de Boston, no Outono.
Ainda se sentia entorpecida devido aos acontecimentos de dois meses  antes, e a me ainda queria discutir com ela sobre o assunto.
- Acho que devias arranjar um emprego temporrio, Tan. No podes  andar de escola em escola o resto da vida.
Tana ficou horrorizada.
- Que tal mais trs anos, s at conseguir um diploma?
- E depois? O que  que vais fazer depois, Tana, bem podes dizer  agora?
- Arranjo um emprego decente.
- Podias comear j a trabalhar para a Durning International.  Falei com o Arthur na semana passada. 
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Tana parecia estar sempre a gritar com ela, mas Jean nunca percebia.
- Por amor de Deus, no me condene a isso para o resto da minha vida!  
- Condenar-te! Condenar-te! Como te atreves a dizer uma coisa dessas?  s presa, expulsa da escola e ainda achas que tens direito ao mundo.  Tens sorte que um homem 
como o Arthur Durning ainda pense em contratar-  te.
- Ele tem sorte por eu no ter levado o filho dele a tribunal, no ano  passado! - As palavras saram da boca de Tana antes de as poder  controlar, e Jean olhou para 
ela.
- Como te atreves a dizer uma coisa dessas?
-Porque  verdade, me - respondeu ela, calma e triste.
Virou as costas a Tana, como se quisesse fugir ao seu olhar, recusando-  se a ouvir.
- No quero ouvir-te dizer mentiras dessas. Tana saiu calmamente da  sala e, uns dias mais tarde, saiu de casa.
Foi morar com Harry na casa do pai, em Cape Cod, ondejogaram tnis e  andaram de barco, nadaram e visitaram amigos. Nunca se sentiu  ameaada por ele. A relao 
era inteiramente platnica no  que se referia a ela e, por isso, confortvel. Os sentimentos de  Harry eram outra coisa, mas ele escondia-os bem. Tana escreveu vrias 
vezes a Sharon; porm, as respostas que vinham eram breves, confusas  e obviamente escritas  pressa. Nunca estivera to ocupada, nem  to feliz na sua vida. A me 
tivera razo e ela arranjara um  emprego maravilhoso, a trabalhar como voluntria do Dr. Martin Luther  King. Era espantoso como as suas vidastinham mudado num nico 
ano.
Quando Tana comeou as aulas na Universidade de Boston, ficou  admirada por ser to diferente de Green Hill, to aberta to  interessante e to avantgarde. Tambm 
gostava de ter aulas com  rapazes. Abordavam-se constantemente assuntos interessantes e ela  saiu-se bem em todas as disciplinas. Secretamente, Jean sentia-se  orgulhosa 
da filha, embora o
seu relacionamento com Tana j no fosse to bom como  antigamente. Disse a si mesma que era uma fase passageira.
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De qualquer modo, tinha outras coisas em que pensar. No final do  primeiro ano de Tana na Universidade de Boston, Ann Durning casava-se de  novo. Ia haver um casamento 
enorme na Igreja Episcopal de Greenwich,  Connecticut, e um copo-d'gua, organizado por Jean, em casa. No  escritrio, a secretria estava cheia de listas, fotografias, 
nomes de fornecedores, e Ann ligava, pelo menos, catorze vezes ao dia.  Era quase como se a sua prpria filha fosse casar e, aps catorze  anos como amante de Arthur 
Durning e seu brao direito, sentia-se  possessiva em relao aos filhos. Ficara satisfeita por Ann ter  escolhido to bem, desta vez. Ele era um homem encantador 
de trinta e  dois anos, que tambm j tinha sido casado, e um dos scios da  Sherman & Sterling, um escritrio de advogados em Nova Iorque. Jean  ouvira dizer que 
ele era um advogado de futuro e tinha fortuna  prpria. Arthur tambm estava satisfeito com o casamento. Ofereceu  a Jean uma bracelete de ouro Cartier, como agradecimento 
por todo o  trabalho que ela tivera para fazer do casamento de Ann um sucesso.
- s realmente uma mulher maravilhosa, sabes? - Sentou-se na sala de  estar a beber um usque, olhando-a e pensando na razo por que  nunca se casara com ela. Apetecera-lhe 
uma ou outra vez, embora agora se  sentisse confortvel sozinho. J estava habituado.
- Obrigado, Arthur. - Estendeu- lhe um pequeno prato com os aperitivos  que ele mais gostava: salmo Nova Scotia sobre pequenas fatias finas  de po de centeio integral, 
bolinhas de bife trtaro sobre tosta  de po branco, nozes que ela tinha sempre em casa para o caso de ele  aparecer, bem como o seu usque favorito, os biscoitos 
favoritos... o  sabonete. a gua-de-colnia. tudo o que ele gostava. Agora era  mais fcil estar sempre pronta para ele, com Tana longe. Por um lado,  isso ajudara 
o relacionamento deles, e por outro, no. Agora ela  estava mais livre, mais disponvel, sempre pronta para o receber  quando ele resolvia aparecer. Ao mesmo tempo, 
sentia-se muito mais  sozinha sem Tana e
mais ansiosa pela companhia dele. Isso deixava-a mais insatisfeita, mais  solitria e menos compreensiva quando passavam duas semanas sem que  ele dormisse uma noite 
na sua
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cama. Compreendia que devia estar-lhe grata por ele aparecer e  facilitar-lhe tanta coisa da sua vida, mas queria muito mais dele,  sempre quisera, desde o primeiro 
encontro.
- A Tana vem ao casamento, no vem? - Deu outra dentada no bife  trtaro e ela tentou parecer distante. Uns dias antes, ligara a Tana  por causa disso. Ainda no 
tinha respondido ao convite que Ann lhe  enviara, e Jean ralhara com ela, dizendo-lhe que era falta de  educao e que a maneira de estar da Universidade de Boston 
no  se aplicava ali, o que,  claro, no sortira qualquer efeito em  Tana. 
- Responderei assim que puder, me. Neste momento, estou em exames. O  convite s chegou na semana passada.
- Basta um minuto para responderes.
O tom de voz da me aborreceu Tana, tal como ultimamente, e foi  spera quando respondeu: 
- Est bem. Ento, diga-lhe que no vou.
-No digo nada disso. Responde tu a esse convite. acho que devias  ir.
-Bem, que grande surpresa. Outra ordem dada pelo Durning. Quando   que se pode dizer-lhes que no? Ainda se encolhia de medo, sempre que  pensava na cara deBilly. 
- De qualquer modo, estou ocupada.
- Podias fazer um esforo, por mim, pelo menos.
- Diga-lhes que no tem controlo sobre mim, que sou impossvel,  que estou a escalar o monte Evereste. Diga-lhes
o que lhe vier  caba! 
- Ento no vais mesmo? - perguntou Jean chocada, como se isso  fosse impossvel.
- Ainda no tinha pensado nisso, a no ser agora. Mas, j que  insiste, acho que no vou.
- Tu j sabias.
- Por amor de Deus. Olhe, no gosto da Ann nem do Billy. Risque isso.  No gosto da Ann e odeio o Billy. Arthur  seu amante, perdoe-me a  expresso. Porque tem 
de me arrastar para isso? J sou adulta e  eles tambm. Nunca fomos amigos.
-  o casamento dela e ela quer que l estejas.
- Uma ova! Provavelmente convidou toda a gente que conhece, e est a  convidar-me para lhe ser agradvel, me.
133
         - Isso no  verdade. - Mas ambas sabiam que era.
       medida que o tempo passava, Tana sentia-se  cada vez
mais forte. De certo modo, era a influncia de  Harry sobre
si. Ele tinha ideias definidas sobre quase tudo e isso fizera
desabrochar nela algo parecido. Harry f-la meditar no que
sentia e no que pensava sobre as coisas, e estavam mais unidos do que  nunca. Ele tambm tivera razo quanto  universidade. A ida  para Boston fizera-lhe bem, muito 
mais do
que a ida para Green Hill. Ela crescera bastante no ltimo
ano. J tinha quase vinte anos.
- Tana, no consigo compreender porque reages assim. - Falavam de  novo sobre o casamento, e a me estava
a p-la doida.
- Me, no podemos falar de outra coisa? Como  que a
me est?
- Estou bem, mas gostava de pensar que tu vais, pelo
menos, pensar nisto...
- Est bem! - gritou. - Vou pensar nisso. Posso levar 
companhia? - Talvez fosse mais suportvel se Harry tambm  fosse.
- Eu contava com isso. Porque  que tu e o linslow
no aprendem com a Ann e o John e se casam?
- Porque no estamos apaixonados. Essa  a razo
por que no casamos.
- Acho difcil acreditar nisso, depois de todo este tempo.
- Os factos so opostos  fico, me. - Falar com
      a me punha-a sempre fora de si.
      Tentou explicar isso a Harry, no dia seguinte.
-  como se ela passasse todo o dia a planear o  que
deve dizer-me para me irritar o mais possvel, e nunca fracassa.
Consegue sempre os fins dela.
- O meu pai  a mesma coisa.  um requisito.
- Para qu?
- Para a paternidade. Tens de passar num teste. Se
no te irritares o suficiente, obrigam-te a tentar de novo at  sair certo. Ento, depois de a criana nascer, tm de  renov-lo de tantos em tantos anos. Assim, 
aps quinze ou
vinte anos, so realmente bem sucedidos. Tana desatou a rir
com a ideia, enquanto olhava para ele. Estava ainda mais bonito
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do que quando se tinham conhecido, e as raparigas andavam loucas por  ele. Havia sempre meia dzia com quem ele saa, mas tinha sempre  tempo para Tana. Ela estava 
sempre em primeiro lugar e era sua amiga. Na  verdade, era mais do que isso para ele, mas Tana nunca o compreendera. -  Tu continuars por aqui durante muito tempo, 
Tan. Elas  desaparecero na prxima semana. - Nunca levara a srio nenhuma  delas, por muito que o desejassem. No enganava nem magoava  ningum; sabia tudo sobre 
o controlo de natalidade.
- No h baixas, graas a mim, Tan. A vida  demasiado curta  para isso e j existe por a tanto sofrimento que no   preciso aumentarmos o dos nossos amigos. - 
Mas tambm no oferecia  qualquer falsa esperana. Harry linslow queria divertir-se e nada  mais do que isso. Nenhum amo-te, nenhum anel de noivado, nenhum olhar 
apaixonado, mas apenas algumas gargalhadas, muita cerveja e um pedao  de tempo bem passado, se possvel na cama. Pelo contrrio, o  corao estava comprometido, 
se bem que secretamente, mas as suas  outras partes interessantes no.
- Elas no querem mais do que isso?
- Claro que sim. Tambm tm mes como tu. S que do mais  ouvidos s mes delas do que tu. Todas querem casar e abandonar os  estudos, o mais cedo possvel. Mas 
digo-lhes sempre para no  contarem comigo para as ajudar. E se no acreditam, chegam depressa a  essa concluso.
Sorriu e Tana deu uma gargalhada. Sabia que as raparigas se derretiam  todas sempre que ele olhava para elas. Ela e Harry tinham sido  inseparveis no ano anterior, 
e todas as suas amigas a invejavam.  Achavam impossvel acreditar que no houvesse nada entre eles.  Ficavam to confusas quanto a me, mas a relao manteve-se 
casta. Harry acabou por compreend-la e nunca se atreveu a escalar o  muro que ela erguera em redor da sua sexualidade. Uma ou duas vezes,  tentou que ela sasse 
com um dos seus amigos, com ele prprio e  uma das suas fs, mas ela no se interessou por isso.
O companheiro de quarto de Harry chegou mesmo a perguntar-lhe se ela era  lsbica, mas ele estava certo de que no era isso. Pressentia que  algo a tinha traumatizado; 
porm, ela nunca quisera falar disso,  mesmo com ele; por isso, nunca 
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insistira. Saa com Harry, ou com amigas da universidade, ou ento  sozinha, mas no havia homens na sua vida, no no sentido  romntico. Nunca. Tinha a certeza 
disso.
-  uma grande perda de tempo, sabes, mida. - Tentou falar do  assunto provocando-a, mas ela afastou-o, como
      sempre.
- Tu fazes o suficiente pelos dois.
- Isso no te serve de nada.
- Estou a poupar-me para a minha noite de npcias - retorquiu Tana  com uma gargalhada.
- Que causa nobre. - Fez-lhe uma vnia e ambos desataram a rir.
Toda a gente em Harvard e na universidade j estava habituada a  v-los juntos, a provocarem desordem, a fazerem
      travessuras sozinhos ou com amigos. Num  fim-de-semana, 
Harry comprou uma bicicleta de dois lugares num  leilo 
ambos foram passear nela por Cambridge; Harry usava
chapu de guaxinim, nos meses de Inverno, e um de palha, 
quando o tempo aquecia.
- Queres ir comigo ao casamento de Ann Durning?
      Tinham ido passear a Harvard Quad, um dia depois  de 
me a ter pressionado ao telefone para ir.
- Nem por isso. Ser minimamente divertido?
      - Creio que no. - Tana esboou um sorriso  angelical. - Mas a minha me acha que eu tenho de ir.
- Tenho a certeza que j esperavas isso.
- Tambm acha que nos devamos casar.
- Eu concordo com ela.
- Ainda bem. Ento, vamos transform-lo numa dupla
cerimnia. A srio, queres ir?
- Porqu? - Havia algo de nervoso nos olhos dela e
ele tentou descobrir o que era. Conhecia-a bem mas, de vez
em quando, ela escondia-se dele, se bem que sem muito xito.
      - No quero ir sozinha. No gosto de  nenhum deles.
      A Ann  uma fedelha mimada e j foi casada uma vez, 
      o pai parece estar a fazer um grande alarido com este casamento. Acho  que desta vez ela acertou.
- O que  que isso significa?
      - O que achas? Significa que o tipo com quem  vai
casar tem dinheiro.
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- Que maravilha. - Harry sorriu e Tana deu uma gargalhada.
-  bom saber onde esto os valores das pessoas, no ? De  qualquer modo, o casamento  pouco depois de terminarmos as aulas, no  Connecticut.
- Ia para o Sul de Frana nessa semana, Tan, mas posso adiar por  alguns dias, se isso te ajuda.
- No ser uma grande maada para ti?
-  - respondeu -, mas por ti fao tudo. Fez uma vnia e ela  riu. Ele deu-lhe uma palmadinha no rabo e ambos fizeram o percurso de  regresso na bicicleta de dois 
lugares. Ela ficou no dormitrio da  universidade. Nessa noite, ele tinha um grande encontro. J investira  quatro jantares na rapariga e esperava que ela se abrisse 
para ele nessa  noite.
- Como podes falar assim! - Tana deu uma gargalhada e ralhou com ele,  quando j estavam  porta do dormitrio.
- No posso aliment-la para sempre sem receber nada em troca.  Alm disso, ela come aqueles bifes enormes com tiras de lagosta. A  minha conta bancria est a sofrer 
com esta         rapariga, mas. -  Sorriu, pensando no peito dela. - Depois, conto-te como tudo se  passou.
- Acho que no quero saber.
-  verdade. Ouvidos virgens. Bom. - Acenou-lhe, enquanto se afastava  de bicicleta.
Nessa noite, Tana escreveu uma carta a Sharon e lavou o cabelo. No dia  seguinte, almoou com Harry. No conseguira nada da rapariga, a  comilona, como a tratava 
agora. devorara no s o seu prprio  bife como a maior parte do dele e a lagosta dos dois; em seguida,  dissera-lhe que no se sentia bem e que tinha de regressar 
a casa  para estudar para os exames. No conseguira o que quer que fosse  apesar de ter penado, excepto uma conta volumosa no restaurante e uma  noite de bom descanso, 
sozinho, na sua cama.
-J no quero saber dela. Credo, as coisas que  preciso hoje  em dia fazer para irmos para a cama com algum. No entanto, por  aquilo que ouvira, Tana sabia que 
ele se dava geralmente bem e  espicaou-o quanto a isso, no percurso para Nova Iorque, em Junho.  Ele deixou-a no apartamento 
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dela e seguiu para o Hotel Pierre. No dia seguinte, 
quando a foi buscar para irem para o casamento, ela teve
de admitir que ele estava espectacular. Trazia umas calas de
flanela branca, um casaco de caxemira azul, uma camisa
de seda creme, que o pai mandara fazer em Londres no ano
anterior, e uma gravata Herms azul-escura e vermelha.
      - Bolas, Harry, se a noiva tivesse juzo,  abandonava este tipo e fugiria contigo! 
- No necessito dessa dor de cabea. Tu  tambm no
ests nada mal, Tan. - Trazia um vestido de seda verde
quase da cor dos seus olhos, e o cabelo a cair pelas costas.
Escovara-o at brilhar tanto quanto os olhos, que faiscaram
quando olhou para ele.
- Obrigada por vires comigo. Sei que vai ser maador
mas agradeo-te.
      - No sejas tola. De qualquer modo no  tinha mais nada para fazer. S parto para Nice amanh  noite.  - E da
      ia para o Mnaco, onde o pai se encontraria com ele no iate de um  amigo. Harry ia passar duas semanas com ele; depois
o pai trazia-o a terra e seguia com os amigos,  deixando Harry sozinho na casa de Cap Ferrat. - Sei de sinas piores,
Tan. - Comeou a imaginar a confuso que ia armar, correndo  atrs de raparigas no Sul de Frana e vivendo sozinho
na casa, mas tudo aquilo soou a solido para ela. No ter 
ningum com quem conversar a maior parte do tempo, 
ningum que realmente cuidasse dele. Por outro lado, ela 
ia passar o Vero a ser sufocada por Jean. Num momento
de fraqueza, sentindo-se culpada pela independncia que
conquistara a muito custo, concordara em ter um emprego
no Vero e trabalhar para a Durning International. A me ficou
radiante.
- Podia matar-me cada vez que penso nisso - respondia a Harry, sempre  que o assunto vinha  tona. - Estou
      doida. Mas, s vezes sinto tanta pena dela.  Agora que
no estou l, ela fica to sozinha! Por isso,  achei que seria
bom aceitar, mas bolas, Harry... O que  que eu fui fazer?
- No vai ser assim to mau, Tan.
- Queres apostar? - Acabara de receber a bolsa de
estudos para o ano seguinte e queria juntar algum dinheiro
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para poder gastar. Pelo menos, isso iria ajudar. Mas deprimia-a, acima  de tudo, pensar que teria de passar todo o Vero em Nova Iorque,  vivendo com Jean e vendo-a 
no escritrio a beijar diariamente os  ps de Arthur. S de pensar nisso, ficava maldisposta.
- Quando eu regressar, iremos passar uma semana a Cape.
- Graas a Deus. - Trocaram um sorriso.
Ele levou-a at Connecticut. Pouco depois, j se encontravam na  igreja episcopal, juntamente com os restantes convidados, num dia de  Junho bastante quente e asfixiante; 
quando, por fim, se viram l  fora, dirigiram-se para a casa dos Durning e, ao atravessarem os  portes, Harry olhou para o rosto dela. Era a primeira vez que ali 
ia, desde o pesadelo de h cerca de dois anos. Na verdade,  exactamente dois anos. Formou- se uma ligeira camada de suor sobre o  lbio superior de Tana, s de se 
lembrar.
- Tu no gostas mesmo disto, pois no, Tan?
- No muito. - Olhou pela janela e pareceu distante, enquanto ele  ficou a olhar para a parte de trs da sua cabea.
Harry percebera que ela ficara tensa, e isso piorou quando estacionaram  o carro e saram. Percorreram a fila de recepo e disseram as  palavras apropriadas. Tana 
apresentou Harry a Arthur e aos noivos ,  quando pediu uma bebida, viu Billy a olhar para si. Olhava intensamente  para ela. Harry observou Billy quando este se 
afastou. Depois disso,  Tana pareceu ter ficado atordoada. Danou com Harry vrias vezes,  assim como com pessoas que no conhecia; conversou com a me uma  ou duas 
vzes e, subitamente, deu de caras com Billy.
- Ol, pequena. J me tinha perguntado se virias. 
Ela sentiu uma tremenda vontade de o esbofetear mas, em vez disso,  virou-lhe as costas. No conseguia respirar s de olhar para ele.  Nunca mais o vira, desde aquela 
noite, e ele tinha um ar to  malvolo como na altura, to fraco, diablico e mimado. Ainda  se lembrava de como ele lhe batera e depois. 
- Afasta-te de mim - disse numa voz sumida.
- No sejas to brusca. Raios, hoje  o dia do casamento
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da minha irm!  um acontecimento romntico. - Ela
notou que ele estava mais do que ligeiramente bbedo. Sabia
que ele se tinha formado em Princetown alguns dias antes e, 
provavelmente, bebera sem parar desde ento. Ia trabalhar para
a empresa da famlia e, por conseguinte, podia andar por ali a
correr atrs das secretrias. Tana teve vontade de lhe perguntar  quem violara ele recentemente. Em vez disso, comeou apenas a  afastar-se, mas ele prendeu-lhe 
um brao. - Isso  de muito m  educao.
Ela voltou-se para ele, com os dentes cerrados e o olhar
      furioso.
- Tira as patas de cima de mim, ou atiro-te esta  bebida
       cara - Contorceu-se como uma cobra e,  subitamente, 
      Harry materializou-se ao seu lado, olhando para ela, vendo algo que  nunca antes vira e notando tambm o olhar de
      Billy Durning.
Billy Durning sussurrou uma palavra, puta, com um
olhar feroz, e num simples gesto, Harry agarrou-lhe no brao e  torceu-o fortemente. Billy gemeu e tentou lutar, mas 
no quis armar escndalo; Harry segredou-lhe qualquer coisa ao  ouvido, enquanto lhe endireitava a gravata com a mo
livre, quase o sufocando.
- Percebeste bem, amigo? ptimo! Ento, porque no
pegas em ti e desapareces daqui? - Billy libertou o brao e
      sem dizer uma palavra, afastou-se. Harry olhou  para Tana: 
Ela tremia da cabea aos ps. - Ests bem? -  Ela anuiu, 
mas ele no se convenceu. Estava mortalmente plida e
os dentes batiam, apesar do calor. - O que foi aquilo tudo?
      Um velho amigo?
      - O adorvel filho de Mister Durning.
      - Presumo que vocs j se conheciam.
Ela anuiu.
- No tenho nisso o mnimo prazer.
Depois daquele incidente, pouco mais tempo ficaram,
pois era bvio que Tana estava ansiosa por se ir embora.
Assim, Harry foi o primeiro a sugerir. Enquanto regressava
 cidade, ficou calado durante algum tempo e viu que ela se 
ia visivelmente acalmando  medida que aumentava a distncia
entre eles e a casa dos Durning. Nessa altura, teve de
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perguntar. Algo de muito poderoso tinha pairado no ar, e ele ficara  assustado com ela.
- O que foi aquilo, Tan?
- Nada de especial. Um dio antigo, s isso.
- Baseado em qu?
- Ele  uma grande besta,  o que . - Eram palavras muito  fortes para Tana, e Harry ficou surpreendido, pois no havia sombra  de humor na voz dela. - Um malvado 
filho da me. - As lgrimas  queimavam-lhe os olhos e as mos tremiam-lhe, quando acendeu um  cigarro, coisa que raramente fazia.
- Percebi que vocs dois no so l grandes amigos. Harry  sorriu, mas ela no respondeu. - O que foi que ele te fez para o  odiares tanto, Tan? - Tinha de saber. 
Por ela e tambm por ele.
- Agora j no  importante.
- Sim, .
- No, no ! - gritou, e as lgrimas correram-lhe pelo  rosto abaixo. Nada daquilo sarara naqueles dois anos, pois ela nunca  permitira que o ar penetrasse. Nunca 
dissra a ningum a no  ser a Sharon, nunca se apaixonara, nem nunca tivra encontros  amorosos. - J no tem importncia.
Esperou que ela se calasse.
- Ests a tentar convencer-me ou queres convencer-te? perguntou ele.  Tirou um leno do bolso e entregou-lho; ela assoou o nariz enquanto  as lgrimas continuaram 
a correr-lhe pela cara abaixo.
- Desculpa, Harry.
-No peas desculpa. Sabes quem eu sou? Sou teu amigo.
Ela sorriu atravs das lgrimas e afagou-lhe a face, mas o medo  terrvel voltara a persegui-la.
- s o melhor amigo que eu tenho.
- Quero que me contes o que aconteceu com ele.
- Porqu? Ele sorriu.
- Para poder voltar para trs e mat-lo, se tu quiseres.
- Est bem. Faz isso. - Deu uma gargalhada pela primeira vez em  horas.
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- A srio, penso que precisas de deitar isso c para fora.
- No, no preciso. - Aquilo assustava-a mais do que
viver com a lembrana. J nem lhe apetecia falar.
      - Ele tentou alguma coisa contigo, no  foi?
- Mais ou menos. - Tana olhou de novo pela janela.
- Tana... fala comigo...
Virou-se para ele com um sorriso gelado.
- Porqu?
- Porque me interessa. - Parou o carro  beira da estrada, desligou o  motor e olhou para ela. De repente, percebeu que estava prestes a abrir  uma porta fortemente 
trancada, mas precisava de abri-la para bem dela. -  Conta-me o
que  que ele te fez.
Ela olhou para os olhos de Harry e tentou negar com 
cabea, mas ele no a deixou. Pegou-lhe carinhosamente numa mo  at que, por fim, ela falou.
- Ele violou-me h dois anos. - Na realidade, faz amanh   noite dois anos. Feliz Aniversrio.
Harry sentiu-se mal.
- O que queres dizer com isso? Saste com ele?
Ela abanou a cabea.
- No. - No incio, a voz saiu num sussurro.
A minha me insistiu que eu viesse a uma festa aqui na casa
de Greenwich. Uma festa do Billy. Fui com um dos amigos
dele, que se embebedou e desapareceu, e o Billy apanhou-me a vaguear  pela casa. Perguntou-me se eu queria ver
o quarto onde a minha me trabalhava. E, como uma idiota,
      respondi que sim. Tudo o que me lembro a seguir   que
me arrastou para o quarto do pai dele, me atirou ao  cho
      e me bateu com toda a fora. Violou-me e  bateu-me durante
horas a fio. Depois, levou-me para casa e, no caminho,  
bateu com o carro. - Comeou lentamente a soluar, sufocando-se  com as suas prprias palavras, pois sentia-as a sar  descontroladas, quase a magoando fisicamente. 
- Entrei
no hospital em estado de choque... Depois de a Polcia desaparecer...  apareceu a minha me... e ela no acreditou em mim.
Pensou que eu estava bbeda... O querido Billy nunca
fazia nada de mal, aos olhos dela... Tentei dizer-lhe numa outra
altura... - Tapou a cara com as mos e Harry abraou-a e
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acarinhou-a como nunca ningum o fizera a ele, mas ouvi-la quase lhe  despedaara o corao. Era por isso que ela nunca sara com  ningum desde que se conheciam, 
nem mesmo com ele; por isso, era  to fechada e assustada.
- Pobrezinha. Pobre Tan. 
Ento, regressaram  cidade e ele levou-a a jantar num local  sossegado. Depois, foram at ao Hotel Pierre, onde conversaram  durante horas. Ela sabia que a me 
voltaria a passar a noite em  Greenwich. Passara l a semana inteira, para se certificar de que  tudo corria bem. Quando Harry a deixou em casa, perguntou a si  
prprio se as coisas agora irim mudar para Tana ou se,  possivelmente, mudariam entre eles. Ela era a rapariga mais  fantstica que conhecera e, se tivesse querido, 
ter-se-ia apaixonado  loucamente por ela. Mas, conhecera-a melhor naqueles dois anos e no  podia esquecer-se disso. No queria estragar o que tinham e para  qu? 
Por umas horas na cama? Disso tinha ele muito, alm de que  ela significava muito mais do que isso. Ainda seria preciso muito tempo  para sarar, se  que alguma 
vez o conseguiria, e ele podia  ajud-la mais como amigo do que tentando satisfazer as suas  prprias necessidades, indo para a cama e brincando aos mdicos  com 
ela.
No dia seguinte, telefonou-lhe antes de partir para o Sul e Frana e  ordenou que lhe levassem flores no outro dia, com um bilhete que dizia:  Manda o passado  
fava. Agora ests bem. Beijos, H. Telefonava-lhe  da Europa, sempre que se lembrava e tinha tempo. O Vero dele foi  muito mais interessante do que o dela. Compararam 
o que tinham feito,  quando ele regressou uma semana antes do Dia do Trabalho. O contrato de  trabalho de Tana chegou ao fim, e ela iria com Harry para Cape Cod. 
Estava aliviada por ter sado finalmente da Durning International.  Tinha sido um erro, mas conseguira suportar.
- Algum romance importante, enquanto estive fora?
- Nada. No me conheces? Estou a poupar-me para a a noite de  npcias. - Mas sabiam qual era a verdadeira razo. Ainda estava  traumatizada com a violao e tinha 
de
Primeira segunda-feira de Setembro. (N. da T. )
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super-la. Contudo, depois de ter falado com Harry pouco antes de ele  ter partido para a Europa, tudo lhe parecia agora menos doloroso. As  feridas comeavam finalmente 
a sarar.
- Se no sares, nunca haver noite de npcias, pateta.
- Pareces outra vez a minha me. - Sorriu. Era to bom voltar a  v-lo.
- Como est ela, a propsito?
- Na mesma. A escrava devota de Arthur Durning. At me deixa  maldisposta. No quero ser assim para ningum.
Harry deu um estalo com os dedos e fz um olhar desesperado.
- Merda. E eu que esperava que. - Ambos desataram a rir. 
A semana decorreu como sempre, quando se divertiam. havia qualquer coisa  de mgico sempre que iam juntos a Cape Cod. Todavia, apesar dos  sentimentos secretos que 
Harry nutria por ela, mantiveram a  relao tal como senpre. Os dois regressaram s respectivas  escolas para o pen timo ano, o qual pareceu ter voado. No Vero 
seguinte, Tana ficou a trabalhar em Boston, e Harry foi novamente para a  Europa. Quando regressou, voltaram a Cape Cod. Os tempos fceis  estavam quase a chegar 
ao fim. Faltava-lhes apenas um ano para terem de  encarar a vida real. E cada un  sua maneira, comeou a pensar no  futuro.
- O que  que vais fazer? - perguntou Tana gravemente, numa noite.  Acabara por concordar em sair com um de seus amigos, mas as coisas  andavam muito devagar e Tana 
no estava interessada nele.  Secretamente, Harry sentiu-se feliz, mas pensava que algumas sadas  superficiais seriam
benficas para ela.
- No faz o meu gnero.
- Como  que sabes? No saste com ningum nestes trs  anos. 
- Por aquilo que tenho visto, no perdi nada.
- Sua marota! - exclamou com um sorriso.
- A srio. Que raio vamos ns fazer no prximo ano? J  pensaste numa ps-graduao?
- Por Deus, no! S me faltava isso. Fiquei farto at ao resto  da minha vida. Vou parar aqui.
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- E vais fazer o qu? - Ela passara os dois ltimos meses a  atormentar-se.
- No sei. Acho que vou passar uns tempos na casa de Londres.  Actualmente, o meu pai passa a vida na frica do Sul. Por isso,  no deve haver problema. Talvez Paris. 
Roma e depois volto para  c. S quero divertir-me, Tan. Estava a fugir de uma coisa que  queria e sabia que no podia t-la. Ainda no.
- No queres trabalhar? - perguntou, chocada.
- Porqu? - resmungou ele.
-  horrvel! 
- O que h de horrvel nisso? Os homens da minha famlia  passaram anos sem trabalhar. Como posso eu estragar
uma tradio dessas? Seria um sacrilgio.
- Como podes admitir isso?
- Porque  verdade. So uma cambada de parvos ricos e  preguiosos. Tal como o meu velho. - Mas as coisas no eram assim  to simples. Havia mais, muito, muito mais.
-  isso que esperas que os teus filhos digam de ti? - Olhou-o,  horrorizada.
- Claro, se eu for suficientemente estpido para t-los, o que  duvido.
-J pareces eu a falar.
- Deus me valha! - Ambos sorriram.
- A srio, no vais pelo menos fingir que ests a trabalhar?  Porqu?
- Pra com isso! 
- Quem se interessa se eu trabalho ou no, Tan? Tu? Eu? O meu velho?  Os colunistas?
- Ento, porque foste  escola?
- No tinha mais nada para fazer e Harvard era divertido. 
-Disparate. Fartaste-te de estudar para os exames. - atirou a cabeleira  loura para trs com um ar srio. - Foste bom aluno. Para  qu?
- Para mim. E tu? Ests a faz-lo para qu?
- Tambm para mim. Mas agora, no sei o que devo fazer.
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No entanto, duas semanas antes do Natal, o destino decidiu por ela.  Sharon Blake ligou e perguntou- lhe se ela no gostaria de fazer  parte de uma marcha com o 
Dr. King. Tana pensou nisso durante a noite e,  no dia seguinte, ligou
a Sharon, com um sorriso cansado.
- Convenceste-me, mida.
- Vem depressa! Sabia que virias! 
Contou os pormenoras a Tana. Ia ter lugar em Alabama trs dias antes  do Natal e no corria quase nenhum risco. 
Tudo lhe pareceu bem e as duas conversaram como nos tempos antigos.  Sharon nunca mais voltara a estudar para
desgosto do pai e agora estava apaixonada por um advogado negro.  Pensavam em casar-se na Primavera. Tana ficou feliz por ela e contou a  Harry a marcha que ia haver 
na tarde do dia seguinte.
- A tua me vai ter um colapso.
- No preciso de lhe contar. Ela no tem de saber tudo o que  fao.
- Saber, quando tu fores presa outra vez.
- Telefono-te e pagas tu a fiana para eu sair. - Falou srio e  ele abanou a cabea.
- No posso. Estarei em longe.
- Merda! 
- Acho que no deves ir.
- No te perguntei.
Quando chegou o momento, ficou de cama com 39 de febre e uma gripe  virulenta. Tentou levantar-se e fez as malas na noite anterior, mas  sentiu-se muito mal. Ligou 
para casa dos Blake, em Washington, e quem  atendeu foi Freeman Blake.
- Ento j sabes a notcia. - A voz dele parecia vir do fundo  de um poo e estava cheia de tristeza.
- Que notcia?
Nem sequer conseguia dizer as palavras. Apenas ficou ali a chorar e, sem  saber porqu, Tana comeou a chorar tambm.
- Ela morreu. Mataram-na ontem  noite. Deram-lhe um tiro. O meu  beb. a minha filhinha. - Estava completamente descontrolado e Tana  soluava tambm,
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sentindo-se assustada e histrica, at que Miriam Blake veio ao  telefone. Parecia agitada, mas estava mais calma do que o marido.  Comunicou a Tana quando era o 
funeral. Com febre e tudo, Tana apanhou o  avio para Washington na manh da vspera de Natal. Tinham  levado todo aquele tempo a trazer o corpo para casa, e Martin 
Luther  King fizera tudo para estar presente e fazer-lhe o elogio  fnebre.
Havia cobertura televisiva, reprteres a tentarem entrar na igreja e  mquinas fotogrficas sempre a disparar nos rostos das pessoas.  Freeman Blake estava completamente 
de rastos. Tinha perdido os seus dois  filhos, pela mesma causa. Mais tarde, Tana passou algum tempo com eles e  com amigos, em casa.
- Faz qualquer coisa de til com a tua vida, filha. Freeman Blake  olhou desolado para ela. - Casa-te, tem filhos. No faas o que a  Sharon fez. - E comeou a chorar 
de novo. Por fim, o Dr. King e outro  amigo levaram-no pa ra o andar de cima e foi Miriam quem se aproximou e  seentou ao lado de Tana. Todos tinham chorado o dia 
inteiro, bem como  nos dias anteriores, e Tana sentia-se esgotada, tanto pelas  emoes como pela gripe.
- Lamento tanto, Mistress Blake.
- Tambm eu. - Os olhos pareciam rios de dor. J tinham visto de  tudo, mas ela ainda estava de p e estaria sempre. Era essa a sua  natureza e, em certos aspectos, 
Tana admirava-a. - O que vais fazer  agora, Tana?
No percebeu bem o que Miriam queria dizer.
- Vou para casa, julgo. - Ia apanhar um voo tardio, essa noite, para  passar o Natal com Jean. Como sempre, Arthur tinha ido para fora com  amigos e Jean ia ficar 
sozinha. 
- Quero dizer, quando terminares a escola.
- No sei.
-J pensaste alguma vez em trabalhar para o Governo?  disso que  este pas precisa. - Tana sorriu; quase lhe pareceu ouvir Sharon a  falar consig. A filha acabara 
de falecer e j estava de novo nas  suas cruzadas. Era de certo modo assustador, mas ao mesmo tempo  admirvel. - Devias seguir Direito. Podias mudar as coisas, 
Tana.   esse tipo de coisas.
147
       - No sei se sou.
 - s. Tens coragem. A Sharon tambm tinha, mas  no         pensava como tu. Em certos aspectos, s como eu. -  Era
uma ideia assustadora, visto que Tana sempre a achara fria e no  queria ser assim.
- Sou? - perguntou, um tanto abismada.
- Sabes o que queres e lutas por isso.
- s vezes - concordou com um sorriso.
- Nem sequer vacilaste, quando foste expulsa de Green Hill.
- Tive apenas sorte por um amigo me ter sugerido a Universidade de  Boston.
- Se ele no o tivesse feito, cairias de p  mesma.  Levantou-se, emitindo umpequeno suspiro. - De qualquer modo, pensa  nisso. No existem muitos advogados como 
tu, Tan. s aquilo de que este pas precisa.
Era algo precipitado para se dizer a uma rapariga de vin te e um anos e,  no avio para casa, as palavras ecoaram-lhe na mente mas, mais do que  isso, ela viu constantemente 
o rosto de Freeman, ouviu-o a chorar. ouviu  as coisas que Sharon lhe dissera em Green Hill. as vezes que caminharam  at Yolan. As recordaes fizeram-na chorar 
e ela limpou, em  vo, uma e outra vez as lgrimas. Deu consigo a pensar  constantemente na criana que Sharon dera  luz anos antes,  imaginando onde poderia estar, 
ou o que poderia ter-lhe acontecido.  Perguntou a si prpria se Freeman tambm teria pensado nele. J  no tinham mais ningum.
Ao mesmo tempo, continuou a pensar nas palavras de Miriam. Este pas  precisa de ti. Tentou expor a ideia  me, antes de regressar  s aulas, mas Jean pareceu horrorizada.
- Curso de Direito? No andas na escola h tempo suficiente? Vais  l ficar para o resto da vida?
- S se me fizer bem.
- Porque no arranjas um emprego? Talvez assim conheas  algum.
- Oh, por amor de Deus, esquea. - A me s pensava naquilo:  conhecer algum. assentar. casar. ter filhos. Mas Harry tambm  no gostou muito da ideia quando ela 
a exps, na semana  seguinte.
148
- Credo, porqu?
- Porque no? Talvez seja interessante e talvez eu seja boa nisso. -  Sentia-se cada vez mais entusiasmada e parecia-lhe ser o passo certo.  Fazia sentido e criava-lhe 
um objectivo na vida. - Vou concorrer para  Boalt, em Berkeley. -J tinha decidido. Havia outras duas faculdades  para onde ia tambm concorrer, mas Boalt era a 
preferida.
Harry olhou para ela.
- Ests a falar a srio?
- Sim.
- Acho que s doida.
- Queres vir?
- Raios, no! - Sorriu. - J te disse. Quero divertir-me...
- Isso  uma perda de tempo.
- Mal posso esperar.
Ela tambm. Em Maio, recebeu a resposta. Tinha sido asceite em Boalt.  Davam-lhe uma bolsa parcial e ela j tinha
o restante.
- Vou a caminho. - Sorriu para Harry, enquanto se sentavam na relva,  junto ao seu dormitrio.
- Tan, tens a certeza?
- Nunca tive tanta certeza em toda a minha vida. Os dois trocaram um  longo sorriso. Em breve, cada um seguiria o seu caminho. Em Junho,  assistiu  formatura dele 
e chorou copiosamente pelo amigo, por si,  por Sharon Blake que j no existia, por John F. Kennedy, que fora  assassinado sete meses antes, por todos os que tinha 
conhecido e por  aqueles que nunca iria conhecer. Chegava ao fim uma poca, para  ambos. E tambm chorou na sua prpria formatura. Assim como Jean  Roberts, que 
viera com Arthur Durning.         arry sentou-se na ltima  fila, fingindo estar a fazer conquistas entre as raparigas caloiras.
Contudo, no tirava os olhos de Tana; o seu corao gritava de  orgulho por ela e depois entristeceu quando se lenbrou que iam seguir  caminhos diferentes. Sabia 
que, inevitavelmente, os seus caminhos iriam  cruzar-se de novo. Ele trataria disso. Mas, para ela, ainda era muito  cedo. E, do fundo do corao, desejou que fosse 
feliz e se  sentisse bem e
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segura na Califrnia. Ficava nervoso s de sab-la to longe  de si. Mas tinha de a deixar partir por agora. por agora. 
As lgrimas encheram-lhe os olhos quando a viu descer as escadas com  o diploma na mo. Parecia to bonita e to jovem, com aqueles  enormes olhos verdes, aquele 
cabelo muito brilhante. e aqueles lbios  que ele to desesperadamente
ansiava por beijar e que tivera ao seu lado desde h quatro anos. Os  mesmos lbios roaram a sua face, quando a felicitou de novo e,  por um instante, somente um 
instante, sentiu-a abraar-se a si, de  tal forma que quase lhe cortou a respirao.
- Obrigada, Harry. - Tinha os olhos cheios de lgrimas.
- Porqu? - Teve de lutar contra as suas prprias lgrimas.
- Por tudo. - Ento, os outros aproximaram-se e o momento passou.
Comeavam as suas vidas separadas e Harry quase sentiu que a  arrancavam fisicamente do seu lado.

PARTE II

A VIDA COMEA

CAPTULO 7
Desta vez, o percurso para o aeroporto pareceu interminvel. Tana  apanhou um txi e Jean insistiu em acompanh-la. Falaram pouco,  fizeram vrias pausas, disseram 
palavras como uma metralhadora a  disparar contra o inimigo que se escondeu no meio do mato e, finalmente,  ali estavam eles. Jean insistiu em pagar o txi, como 
se isso fosse a  ltima hiptese de fazer qualquer coisa pela filha, pois nunca  mais teria outra, e era fcil ver que ela tentava lutar contra as  lgrimas quando 
Tana registou a bagagem.
- S trouxeste isto, Tana? - Virou-se nervosa para a filha e Tana  anuiu, sorrindo. Tambm fora uma manh difcil para si. J  nenhuma delas fingia. No regressaria 
mais a casa, pelo menos durante  muito, muito tempo. Mas se conseguisse permanecer em Boalt,  provavelmente nunca mais voltaria a viver em casa. Nunca tivera de 
enfrentar isso antes, quando fora para Green Hill ou para a Universidade  de Boston, e sentia-se agora preparada para partir. Porm, notava-se  facilmente o pnico 
no rosto de Jean. Era a mesma expresso que  ela colocara vinte e trs anos antes, quando Andy Roberts partira  para a guerra. Aquela expresso que surge quando 
se sabe que nada  voltar a ser como antes. - No te esqueas de me ligar logo   noite, est bem, querida?
- No, me. No me esqueo. Mas no lhe prometo ligar  constantemente. - Tana sorriu. - Se tudo o que me disseram for verdade,  no sairei c para fora durante os 
prximos seis meses. - J  a tinha avisado. que, nesse ano, no viria a casa pelo Natal. De  qualquer modo, a viagem era demasiado cara. Jean teve de se resignar. 
Esperava que Arthur lhe pagasse uma passagem mas, se assim fosse, no  poderia passar o Natal com ele. A vida nem sempre era fcil. Para  alguns, nunca era.
As duas tomaram uma chvena de ch e ficaram a ver os avies a  levantar voo, enquanto Tana esperava que anunciassem o seu. Deu com a  me a olhar para ela, mais 
de uma vez. Os vinte e dois anos a cuidar  dela estavam oficialmente a
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chegar ao fim, e esse era um momento dificil para ambas.
Subitamente, Jean pegou-lhe na mo e perguntou com os
      olhos fixos nos dela.
-  isto o que realmente queres, Tana?
- Sim, me,  - respondeu Tana, numa voz calma.
 - Tens a certeza?
      Tana sorriu.
- Tenho. Sei que acha estranho, mas  mesmo o que  eu
quero. Nunca tive tanta certeza de nada, por mais difcil que
fosse.
Jean franziu as sobrancelhas e abanou lentamente a cabea
      antes de olhar de novo para Tana. Era um momento  estranho para se falar daquilo, minutos antes de ela partir, num
      local estranho, com milhares de pessoas  sua volta; mas era ali que  estavam e era o que Jean sentia. Voltou a olhar para os olhos da  filha.
      - Parece mais um curso para um homem. Nunca pensei.
      - Eu sei. - Tana ficou triste. - Queria que eu fosse
      como a Ann. - Ela estava a viver em Greenwich, perto do
pai, e acabara de ter o primeiro filho. O marido era  agora
      scio de pleno direito da Sherman & Sterling.  Ele tinha
um Porsche e ela um Mercedes. Era o sonho de todas as  mes.
      Isso no  para mim. Nunca foi,  me.
         - Mas porque no, querida? - No  compreendia.
Talvez tivesse errado em qualquer coisa. Talvez fosse por
sua culpa: Mas Tana abanou a cabea.
- Talvez eu precise de mais do que isso. Talvez precise
de ser responsvel por mim prpria e no o meu marido.
No sei, mas acho que nunca seria feliz assim.
- Acho que o Harry linslow est apaixonado por ti,
Tan. - A voz soou meiga, mas Tana no quis ouvir as
suas palavras.
- Est enganada, me. - Voltavam a falar no assunto.
Queremo-nos muito um ao outro, como amigos, mas
no est apaixonado por mim, nem eu estou apaixonada
por ele. - No era assim que ela o queria. Queria-o como a
um irmo, um amigo. Jean anuiu e nada respondeu.
Anunciaram o voo de Tana. Era como se a me estivesse
a fazer a ltima tentativa para mudar as ideias da filha, 
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mas nada a faria mudar, nenhum estilo de vida, nenhum homem, nenhum  presente ansiado, nem nada a mudaria nunca. Tana olhou intensamente para  a me e deu-lhe um 
abrao muito frte.
- Me, isto  o que eu quero. - Sussurrou-lhe ao ouvido: -  Juro-lhe. - Foi como se partisse para outro continente, quando se  despediu; como se partisse para um 
mundo diferente, ou para uma vida  diferente e, de certo modo, assim era.
A me parecia to desolada que lhe despedaava o corao.  As lgrimas de Jean corriam descontroladas pelas faces, quando Tana  lhe acenou. Ao entrar no avio, gritou: 
- Telefono-lhe logo  noite! 
- Mas nunca mais ser a mesma coisa - disse Jean baixinho, enquanto  via as portas a fecharem-se e a escada a ser retirada. Por fim, o  pssaro gigante percorreu 
a pista e levantou voo. Algum tempo depois,  no passava de um ponto no cu e, sentindo-se muito pequena e  sozinha, saiu para a rua, chamou um txi e regressou 
ao  escritrio, onde Arthur necessitava dela. Pelo menos, algum ainda  necessitava dela, mas- nessa noite teve medo de ir para casa. E nos anos  seguintes esse 
medo manteve-se.

CAPTULO 8
Tana apanhou um avio para Oakland, que lhe pareceu
um local pequeno e agradvel, quando l chegou. Mais pequeno do  que Boston ou Nova Iorque, mas muito maior do
que Yolan, que nem sequer tinha aeroporto. Tomou um txi
para o complexo universitrio de Berkeley, juntamente com
a sua bagagem, instalou-se no quarto que lhe fora alugado
como parte da sua bolsa, desfez as malas e olhou em redor: 
Tudo lhe pareceu diferente, estranho e novo. Estava um dia
de sol bonito e quente e as pessoas pareciam descontradas,
com calas de ganga ou de bombazina e vestidos largos.
      Via-se mais de um cafet, muitos  cales e T-shirts, sandlias, sapatos de tnis, mocassinas  e ps descalos. Ao contrrio da Universidade de Boston, no 
se viam as princesas judias de Nova Iorque, com as suas ls e  caxemiras caras.
Aqui era estritamente vem como ests, e tudo
menos elegante. Mas tambm havia entusiasmo, e ela sentiu-se animada  quando olhou em volta. Foi uma animao
que se manteve nela, mesmo depois de as aulas comearem,
      continuando no ms seguinte, apesar de correr  diariamente de uma aula para outra e para o quarto para estudar  durante
toda a tarde e toda a noite. O nico outro lugar  que
frequentava era a biblioteca. Sempre que podia comia no
quarto, ou ento no percurso entre uma e outra aula. No final do  primeiro ms, tinha perdido trs quilos, que no precisava
de perder. A nica coisa boa que o horrio tinha era que
no a deixava sentir tanta falta de Harry como receara. Durante
trs anos, tinham vivido quase colados um ao outro, apesar
de frequentarem escolas diferentes; agora, de sbito, ele
no estava ali, embora lhe telefonasse nas horas vagas.
No dia 5de Outubro, estava ela no quarto, quando algum
bateu  porta e a informou que tinha uma chamada. Calculou
que fosse a me de novo e no lhe apeteceu descer as
escadas. No dia seguinte, tinha um teste sobre a lei de contratos e iria  entregar um trabalho noutra cadeira.
- Pergunta quem . Posso voltar a ligar?
156
- Est bem,  s um segundo. - A colega regressou pouco depois.  -  de Nova Iorque.
Outra vez a me.
- Eu telefono-lhe depois.
- Ele diz que no podes. - Ele? Harry? Tana sorriu. Por ele, at  interromperia o trabalho.
- Vouj. - Tirou umas calas de ganga amarrotadas de cima de uma  cadeira e vestiu-as correndo para o telefone. Estou?
- Que raio ests tu a fazer? Ests com algum rapaz no dcimo  quarto andar? J aqui estou h uma hora, Tan. Pareceu aborrecido e  tambm bbedo ao seu ouvido experiente. 
Conhecia-o bem.
- Desculpa, estava no meu quarto a estudar e pensei que era a minha  me.
- No tiveste essa sorte. - Pareceu estranhamente srio.
- Ests em Nova Iorque? - Sorriu, satisfeita por voltar a  ouvi-lo.
- Sim.
- Pensei que s regressarias no prximo ms.
- E assim era. Mas vim ver o meu tio. Aparentemente, julga que precisa  da minha ajuda.
- Que tio? - Tana ficou confusa. Harry nunca mencionara antes a  existncia de um tio.
- O Tio Sam. Lembras-te dele, o tipo do cartaz, de ridculo fato  vermelho e azul e grandes barbas brancas? - Estava decididamente  bbedo e ela desatou a rir, mas 
o riso desvaneceu-se-lhe nos  lbios. Ele falava a srio. Oh, meuDeus...
- Que raio queres tu dizer?
- Fui recrutado, Tan.
- Merda! - Fechou os olhos. S se ouvia falar daquilo.
Vietname. Vietname. Vietname. Todos tinham qualquer coisa a dizer.  Dem cabo deles. fujam deles. lembrem-se do que aconteceu aos  Franceses. Vo em frente. Fiquem 
em casa. Aco policial.  Guerra. Era impossvel saber o que se passava, mas o que quer que  fosse no era lom. Por que raio regressaste? Porque no ficaste  onde 
estavas?
157
- No quis fazer isso. O meu pai at podia pagar para
eu no ir, mas no sei se conseguiria. Existem coisas que
nem o dinheiro dos linslow pode comprar. Mas isso no
      faz o meu gnero, Tan. No sei, mas  secretamente talvez eu queira ir para l e sentir-me til, durante  algum tempo.
- s doido. Meu Deus... s pior do que isso.  Podes ser
morto. No percebes isso? Harry, volta para Frana. -J
      estava a gritar com ele, ali naquele amplo  corredor, a gritar para Harry em Nova Iorque. - Porque no vais para  o Canad, ou ds um tiro no p... Faz qualquer 
coisa, resiste  
chamada. Estamos em mil novecentos e sessenta e  quatro, 
no em mil novecentos e quarenta e um. No sejas to nobre,  pois no h nada de nobre nisso, seu idiota. Volta para 
l. - Subitamente, os seus olhos encheram-se de lgrimas e
temeu perguntar o que queria saber. Mas era preciso. Tinha
de saber. - Para onde  que eles vo mandar-te?
      - So Francisco. - Tana sentiu uma dor no  corao.
      Primeiro. Durante cerca de cinco horas. Queres vir ter comigo ao  aeroporto, Tan? Podamos almoar ou comer qualquer coisa. Tenho de  ir a um lugar chamado 
Fort Ord nessa
      noite, por volta das dez horas, e chego s trs. Algum
disse que fica a duas horas de carro a partir de  So Francisco... - A voz comeou a esmorecer, pois ambos  pensavam
      no mesmo.
- E depois? - perguntou Tana com voz rouca. 
- Vietname, julgo. Lindo, hein?
Subitamente, ela ficou zangada.
- No, no  nada lindo, seu parvalho. Devias ter 
vindo para a Faculdade de Direito comigo. Mas no, preferiste 
brincar e ter relaes em todas as casas de prostitutas
de Frana e, agora, olha para ti, vais para o Vietname para
que te rebentem os tomates... - As lgrimas rolavam pela
cara abaixo e ningum no corredor se atreveu a passar perto.
-De qualquer modo; ests a tornar tudo intrigante.
- s um parvo.
- E que mais h de novo? J te apaixonaste?
- E quem tem tempo para isso, se tudo o que fao  estudar?
A que horas chega o teu avio?
- Amanh, s trs horas.
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- Estarei l.
- Obrigado. - Pareceu de novo to jovem ao dizer aquelas ltimas  palavras.
Quando o viu no dia seguinte, achou-o plido e cansado. No tinha  to bom aspecto como quando o vira em Junho, e aquela breve visita  foi nervosa e muito tensa. 
No sabia que
fazer com ele. Cinco horas no era muito tempo. Levou-o at ao seu  quarto em Berkeley e, depois, almoaram em Chinatown, deram um  passeio e Harry no parou de 
olhar
para o relgio. Tinha um autocarro para apanhar. Afinal, decidira  no alugar um carro para ir at Fort Ord, mas isso encurtou o  tempo para estar com ela. No se 
riram tanto quanto o habitual e  ambos passaram a tarde preocupados.
- Harry, porque ests tu a fazer isto? Podias ter pago para no  ir.
- No faz o meu gnero, Tan. J devias conhecer-me. E talvez,  secretamente, eu penso que estou a dar o passo certo. H em mim um  lado patritico que eu no sabia 
que tinha.
Tana sentiu um aperto no corao.
- Por amor de Deus, isso no  patriotismo! A guerra         no   nossa. - Sentiu-se horrorizada por ele poder no ir e ter  escolhido ir. Era uma faceta de Harry 
que ela desconhecia. O Harry de  vida fcil crescera. Tana viu nele um ho mem que nunca antes tinha  visto. Era teimoso e decidido e, embora o que ia fazer o assustasse, 
era  claramente o que queria.
- Penso que em breve ser a nossa guerra, Tan.
- Mas porqu tu?
Ficaram calados durante algum tempo, e o dia passou a correr. Quando se  despediram, abraou-se fortemente a ele e
f-lo prometer que lhe telefonava, sempre que fosse possvel. Mas  isso s aconteceu seis semanas mais tarde, quando terminou a recruta.  Planeou voltar a So Francisco 
para a ver mas, em vez de ir para o  Norte, foi enviado para o Sul.
- Vou para So Diego, esta noite. - Era sbado. para Honolulu no  incio da semana seguinte.
Como ela tinha exames, no podia ir a So Diego passar um ou dois  dias.
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- Raios! Vais ficar muito tempo em Honolulu?
- Aparentemente no. - Tana sentiu que ele lhe dizia o
que ela queria saber.
      - O que  que isso quer dizer?
      - Quer dizer que serei mandado para Saigo at ao fim
da prxima semana. - A voz soou fria e dura, quase  como
         ao, e nem sequer parecia Harry a falar. Ela perguntou a si  prpria como lhe teria acontecido aquilo, e ele fizera a mesma  pergunta, diariamente, durante 
seis semanas. S sorte, 
julgo, fora a resposta que dera na brincadeira aos amigos; 
mas nada daquilo era para brincar, o ar estava de cortar  faca  quando souberam para onde iriam. Ningum se atrevera
a fazer comentrios, muito menos aqueles que haviam tido
sorte, com medo de que os outros no a tivessem tido: 
E Harry fora um dos pouco afortunados. - A vida 
uma merda, Tan, mas tem de ser.
       - O teu pai j sabe?
- Telefonei-lhe ontem  noite. Ningum sabe onde  est.
Em Paris, pensam que est em Roma. Em Roma, julgam
      que est em Nova Iorque. Liguei para a  frica do Sul e, depois, decidi mand-lo  fava. Mais cedo ou  mais tarde, ele
      h-de saber onde estou. - Por que raio no tinha ele um
pai que pudesse ser contactado? At Tana lhe teria  ligado, 
mas sempre achara que ele no era o tipo de homem que gostaria 
de conhecer. - Escrevi-lhe para a morada de Londres e deixei um recado  no Pierre, em Nova Iorque.  tudo o
que posso fazer.
      - Provavelmente  mais do que ele merece.  Harry,
posso fazer alguma coisa?
- Rezar. - Pareceu falar a srio e ela ficou estupefacta.
Era impossvel. Harry, era o seu melhor amigo, o seu
irmo, praticamente seu gmeo, e iam mand-lo para o Vietname.  Teve uma sensao de pnico que nunca antes sentira
e no podia fazer nada.
- Telefonas-me outra vez antes de partires?... E tambm de  Honolulu... - Havia lgrimas nos seus olhos.
E se lhe acontecesse alguma coisa? Mas nada iria acontecer-lhe, disse  entredentes, e nem sequer permitiu a si prpria pensar o  contrrio. Harry linslow era invencvel 
e 
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pertencia-lhe. Era dono de um pedao do seu corao. Porm,  sentiu-se perdida nos dias imediatos, esperando constantemente pelos  seus telefonemas. Ele fez dois 
de So Diego, antes de partir.
- Desculpa no te ter telefonado logo, mas estava ocupado a ter  relaes sexuais. Provavelmente apanhei gonorreia, mas no faz  mal. 
Estava quase sempre bbedo, e ainda mais no Havai. Tambm lhe  telefonou duas vezes dali; mas, depois disso, partiu para o silncio,  para as selvas e o abismo do 
Vietname. Ela imaginava-o constantemente em  perigo mas, mais tarde, comeou a receber cartas chocantes que  descreviam a vida em Saigo, as prostitutas, as drogas, 
os hotis  outrora belos, as raparigas requintadas, o uso constante da lngua  francesa e ela comeou a descontrair-se. Para o velho e querido  Harry, nada mudaria 
nunca. Desde Cambridge a Saigo, era sempre o  mesmo. Tana conseguiu enfrentar os exames, o Dia de Aco de  Graas e os primeiros dois dias das frias de Natal, 
que passou no  seu quarto com uma pilha de livros com dois metros de altura, quando  algum bateu  porta, s sete horas de uma noite.
- Telefone para ti.
A me telefonava-lhe muito, e Tana sabia porqu, embora nenhuma  delas o admitisse. As frias eram dificeis para Jean. Arthur nunca  passava muito tempo com ela, 
apesar de ela sempre ter esperado que isso  acontecesse. Havia sempre desculpas, motivos e festas para onde no a  podia levar. Tana suspeitou que tambm havia provavelmente 
outras mu  lheres, mas agora havia Ann e o marido, o beb e talvez Billy  tambm l estivesse; e Jean no era da familia, por mais anos  que andasse por ali.
- Vou j - respondeu Tana, vestindo o roupo e dirigindo-se para o  telefone.
O corredor estava frio e sabia que l fora havia nevoeiro. Era raro  haver nevoeiro naquela zona do Leste mas, por vezes, surgia nas noites  particularmente frias.
- Estou? - Esperou ouvir a voz da me e ficou abismada quando, pelo  contrrio, ouviu a de Harry. Parecia rouco e muito cansado, como se  no tivesse dormido toda 
a noite, 
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o que era compreensvel, se estivesse ali na cidade. A voz dele soou  estranhamente perto. - Harry?. - As lgrimas encheram-lhe  instantaneamente os olhos. - Harry! 
s tu?
- Raios, sim, Tan! - resmungou, e ela quase sentiu a barba dele a  arranh-la.
- Onde ests? 
Houve apenas uma ligira pausa.
- Aqui. Em So Francisco. 
- Quando chegaste? Bolas, se soubesse, teria ido esperar-te. - Que  presente de Natal, ter Harry de volta! 
- Acabei de chegar. - Era mentira, mas era mais fcil
      dizer aquilo de que explicar porque  que  s agora lhe telefonava.
      - No ficaste muito tempo por l, graas a Deus. 
Sentia-se to grata por ouvir a voz dele que no  conseguia
deixar de chorar. Sorria e chorava ao mesmo tempo e, do
      outro lado, ele tambm. Nunca pensara que  voltaria a ouvir a voz dela e amava-a ainda mais do que antes. J nem  sabia se conseguia escond-lo, agora. Mas 
teria de o fazer, por amor  a ela e a si prprio. - Porque te deixaram eles regressar to  cedo?
      - Penso que lhes dei muito que fazer. A comida no
      prestava e as raparigas tinham piolhos. Merda, apanhei chatos duas vezes  e a pior crise de gonorreia da minha vida...
Tentou rir, mas sentiu dores.
- Seu patife! Nunca mais mudas?
- No, se puder escolher.
- Ento onde ests tu agora?
Houve nova pausa.
- Esto a limpar-me de novo no Letterman.
- No hospital?
- Sim.
- Por causa da gonorreia? - perguntou ela to alto
que duas raparigas deram meia volta e desataram a rir. - Sabes,
tu s impossvel. s a pior pessoa que conheo, Harry 
Linslow, o Quarto, ou l quem raio s. Posso ir a visitar-te,  
ou tambm apanho? - Ainda estava a rir, e ele continuava a
parecer cansado e rouco.
- S no vs  minha casa de banho.
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-No te preocupes que eu no vou. Talvez nem te aperte a mo, a  no ser que esteja desinfectada. S Deus sabe onde poder ter  andado. - Ele sorriu. Era to bom 
voltar a ouvir a voz dela. Tana  olhou para o relgio e perguntou: Posso ir a agora?
- No tens nada melhor para fazer num sbado  noite?
- Estava a planear fazer amor com um monte de livros.
- Pelo que vejo, continuas to divertida como antigamente.
- Pois, mas sou mais inteligente do que tu, seu parvalho, e  ningum me mandou para o Vietemame. - Houve um silncio estranho,  e Harry no sorriu quando lhe respondeu.
- Graas a Deus, Tan. - Achou esquisita a voz dele e sentiu um  calafrio a subir-lhe pela espinha. - Queres mesmo c vir esta  noite?
-Raios, sim, achaste que eu no iria querer? S no quero  apanhar gonorreia,  tudo.
Ele sorriu.
- Vou portar-me bem. - Mas tinha de lhe dizer qualquer coisa antes de  ela chegar. No era justo. - Tan. - Parecia que no conseguia  dizer mais nada. Ainda no 
contara
a ningum. Nem sequer falara com o pai. Ningum tinha conseguido  localiz- lo em nenhum stio, embora Harry soubesse que ele  estaria em Gstaad, no final da semana. 
Passava o Natal sempre ali, quer  Harry l estivesse quer no. A Sua significava Natal para  ele. - Tan. Apanhei um pouco
mais do que gonorreia. 
Um arrepio estranho percorreu-lhe a espinha e ela fechou os olhos.
- Ai sim, idiota? Mais o qu? - Quis reprimir as lgrimas,  faz-lo rir, para que ele se sentisse bem; mas j era tarde. Para  interromper tanto a verdade como as 
palavras. 
- Levei alguns tiros. - Tana percebeu que a voz lhe
faltava e sentiu uma dor tremenda no peito, enquanto lutava para no  chorar.
- Ai sim? Porque havias tu de fazer uma coisa dessas? - lutava contra as  lgrimas e ele tambm.
-No tinha mais nada para fazer, acho. As raparigas
163
eram realmente selvagens... - A voz tornou-se triste e suave. -  Sobretudo, comparadas contigo, Tan.
-Jesus, devem ter-te dado um tiro nos miolos! - Ambos se riram  ligeiramente e ela permaneceu ali, descala, sentindo que todo o seu  corpo se transformava em gelo. 
        Letterman. Certo?
- Sim.
      - Estarei a em meia hora.
- No tenhas pressa. No vou sair.
      E no sairia durante algum tempo. Tana  porm, no
sabia nada do que se passava quando vestiu as  calas de ganga e 
calou os primeiros sapatos que encontrou, vestiu uma
camisola de gola alta, passou uma escova pelo cabelo e apanhou o casaco  cor de ervilha que estava aos ps da cama.
Tinha de ir v-lo agora, de ver o que lhe acontecera... Levara
alguns tiros... Era s o que conseguia ouvir vezes sem conta
      na sua mente, quando apanhou o autocarro para a  cidade e
      depois um txi, para a levar ao Hospital Letterman. 
      Tinha levado o dobro do tempo que dissera a Harry,
      mas fora o mais depressa possvel; cinquenta e cinco
minutos depois de ter desligado, entrou no hospital e  perguntou
onde ficava o quarto de Harry. A mulher da recepo
perguntou a Tana em que seco estava ele e ela sentiu
uma enorme vontade de lhe responder que estava na seco de
      gonorreia, mas agora no lhe apetecia brincar  e menos
vontade teve quando percorreu os corredores da  seco de
neurocirurgia, rezando para que ele estivesse bem. Tinha o 
rosto to plido que mais parecia cinzento; mas tambm o
amigo assim estava, quando Tana entrou no quarto. Tinha uma mesa ao lado  e estava deitado de costas com um espelho
colocado por cima da cabea. Havia suportes e tubos, 
como uma enfermeira a vigi-lo. Primeiro, pensou
que estava paralisado. Nada nele se movia. Ento, viu-o
mexer uma mo e as lgrimas encheram-lhe os olhos... mas
acertara. Harry estava paralisado da cintura para baixo;
tinha levado um tiro na coluna, como lhe explicou nessa
noite, com os olhos rasos de lgrimas. Finalmente, podia
falar com ela, chorar com ela, dizer-lhe como se sentia: um 
pedao de lixo. Queria morrer. Apetecia-lhe morrer desde
que o tinham trazido de volta.
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- Assim,  tudo. - Mal conseguia falar, e as lgrimas escorreram  pelos lados da face, molhando o pescoo, at aos lenis. -  Daqui em diante, vou andar de cadeira 
de rodas. - Soluou  copiosamente. Pensara que nunca mais voltaria a v-la e, subitamente,  ali estava ela, to bela, to bondosa e to loura. como sempre.  Ali, 
tudo estava na mesma. Ali, ningum sabia do Vietname, de  Saigo, de Da Nang ou de vietcongues, que nunca eram vistos.  Disparavam a partir do seu esconderijo numa 
rvore e talvez tivessem  apenas nove anos, ou parecessem dessa idade. Mas ali ningum queria  saber daquilo.
Tana olhou para Harry, tentando no chorar. Sentia-se grata por ele  estar vivo. Com base na histria que ele lhe contara, de que estivera  com a cara metida na 
lama; sob chuvas torrenciais, no meio da selva  durante cinco dias, era obviamente um milagre que ainda estivesse vivo.  E o que  que interessava se ele nunca mais 
pudesse andar? Estava  vivo, no estava? E o que Miriam Blake vira nela h tanto tempo  comeava agora a subir  superficie.
-  o que acontece quando se anda com prostitutas, seu parvalho.  Agora, podes ficar a deitado se quiseres, durante algum tempo, mas  quero que saibas desde j 
que no estou para aturar isto.  Percebeste? - Levantou-se e ambos foram incapazes de parar as  lgrimas, mas pegou-lhe uma mo e apertou-a com fora. - Vais  levantar 
o rabo dessa cama e fazer qualquer coisa. Ouviste bem? - Ele  olhou incrdulo para ela, e o pior de tudo  que Tana falava  srio. - Ouviste bem? - O corpo tremia, 
e o corao  alegrava-se.
- Sabes que s doida. Sabes disso, no , Tan?
- E tu s um filho da me preguioso. Por isso, no te  entusiasmes muito com esta tua vida, deitado de costas. 
Porque no vai durar muito tempo. Percebeste, parvalho?
- Sim, minha senhora. 
Fez-lhe continncia e, alguns minutos depois, entrou a enfermeira  para lhe dar uma injeco contra as dores. Tana ficou a v-lo  adormecer, segurando-lhe na mo, 
enquanto as lgrimas lhe corriam  pela cara abaixo. Rezou e agradeceu aos cus. Ficou a v-lo  durante horas, com a mo
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dele na sua e, por fim, beijou-lhe a face e os olhos e saiu do hospital.  J passava da meia-noite e, enquanto seguia no autocarro de regresso  a Berkeley, s tinha 
um nico pensamento: Graas a Deus.  Graas a Deus estava vivo. Graas a Deus no morrera naquela  selva abandonada por Deus, onde estava o inferno. Agora, o Vietname 
tinha um novo significado para ela. Era um lugar para onde as pessoas  iam para ser mortas. No era um lugar sobre o qual se ouvia falar, ou  se conversava nos intervalos 
das aulas, com professores e amigos. Agora,  era real para ela. Sabia exactamente o que significava. Significava que  Harry linslow nunca mais voltaria a andar. 
Quando, nessa noite, desceu  do autocarro em Berkeley, as lgrimas ainda a correrem pelas faces,  meteu as mos nos bolsos e dirigiu-se ao seu quarto, sabendo que 
nenhum deles voltaria a ser o mesmo.

CAPTULO 9
Tana passou os dois dias seguintes sentada ao lado dele, sem se mexer,  excepto para ir a casa dormir algumas horas, tomar banho, mudar de roupa  e regressar novamente 
para lhe pegar na mo e, quando estava  acordado, conversar com ele sobre os anos que Harry passara em Harvard e  ela na niversidade de Boston, na sua bicicleta 
de dois lugares, nas  frias em Cape Cod. Estava quase sempre sob efeito de calmantes, mas  havia momentos em que ficava to lcido que custava olhar para ele  e 
perceber o que lhe passava pela mente. No queria ficar o resto da  vida paralisado. Queria morrer, dissera-o vrias vezes a Tana. E ela  gritara-lhe e chamara-lhe 
filho da me. Mas tambm temia  deix-lo  noite, por recear que ele fizesse alguma coisa. Tana  alertou as enfermeiras sobre o que estava a passar-se, mas elas 
j  estavam habituaadas a isso e no se impressionaram muito.  Mantinham-no sob vigilncia, mas havia outros em piores  condies, como aquele rapaz do fundo do 
corredor que perdera os  dois braos e todo o rosto, quando um garoto de seis anos lhe  entregara uma granada de mo.
Na manh da vspera de Natal, a me telefonou-lhe pouco antes  de ela sair para o hospital. Eram dez horas em Nova Iorque e ela tinha  ido trabalhar algumas horas 
e decidiu telefonar a Tana para saber como  ela estava. Esperou at ao ltimo minuto que Tana mudasse de  ideias e viesse a casa passar o Natal com ela, mas Tana 
avisara-a  durante vrios meses que isso no iria ser possvel. Tinha  bastante que fazer. Avisara-a tambm que no era necessrio que  Jean viesse ter consigo. 
Contudo, parecia uma forma deprimente de passar  as frias de Natal, quase to deprimente quanto a forma como ela  prpria as passava. Arthur estava em Palm Beach 
com Ann, Billy, o  genro e o beb, e no inclura Jean. o que ela compreendeu que  isso teria sido embaraoso para ele.
- Ento o que ests a fazer, querida? - Jean no lhe telefonava  h duas semanas. Sentia-se demasiado deprimida
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para telefonar e no queria que Tana o percebesse ao telefone. Pelo  menos, quando Arthur se encontrava em Nova Iorque a passar frias,  havia uma certa esperana 
de que ele a
      visitasse durante algumas horas; mas, nesse ano,  nem sequer tinha essa esperana, e Tana estava longe Ests a  estudar tanto quanto pensavas?
      - Sim... eu... no... - Ainda estava meio a dormir. Tinha ficado com  Harry at s quatro horas. Na noite anterior, 
a febre dele subira subitamente e ela temera  deix-lo sozinho; mas, s quatro da manh, as enfermeiras  insistiram
para que fosse para casa dormir. Ia ser uma escalada dificil para ele e,  se ela se esgotasse agora, no poderia ajud-lo mais 
tarde, quando ele mais precisasse de si. - No tenho estudado. Pelo  menos, no nos ltimos trs dias. - Quase
resmungou de fadiga, quando se sentou na cadeira de costas
direitas que tinham colocado junto ao telefone. - O
Harry regressou do Vietname. - Os olhos fecharam-se quando
pensou naquilo. Era a primeira vez que dizia a algum, e
a ideia do que tinha para dizer deixou-a incomodada.
- Tens sado com ele? - Jean pareceu, instantaneamente, aborrecida. -  Pensei que tinhas de estudar. Se soubesse 
      que podias dispensar algum tempo para te  divertires,
no estaria aqui sentada a passar as frias de  Natal sozinha.
      Se tens tempo para te divertires com ele, podias  no mnimo...
      - Pare! - Subitamente, Tana deu um grito agudo
no corredor vazio. - Pare! Ele est no Letterman.  Ningum
est a divertir-se, por amor de Deus! - Fez-se silncio no
      crebro de Jean. Nunca tinha ouvido Tana a  falar assim. Sentia na sua voz uma espcie de desespero nervoso e  assustado.
- O que  o Letterman? - Imaginou que fosse um
hotel, mas algo lhe disse imediatamente que estava enganada.
- O hospital militar daqui. Levou um tiro na coluna: 
Comeou a inspirar profundamente para no desatar a
chorar, mas no resultou. Nada resultava. Chorava sempre que
no estava com ele. No conseguia acreditar no que tinha  acontecido. Quase se deixou cair na cadeira, como
uma criancinha. - Ele agora  um paraplgico, me...
Talvez nem consiga viver... Ficou com uma febre terrvel, ontem
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 noite. - Permaneceu ali sentada, a chorar, tremendo da
cabea aos ps e incapaz de parar, mas tinha de deitar tudo
para fora.
Jean olhou chocada para a parede do seu gabinete, a pensar no rapaz que  vira tantas vezes. Era to seguro de si, quase jovial, estava sempre  a rir, era divertido, 
esperto e irreverente e deixava-a quase sempre  incomodada; tinha agora de agradecer a Deus por Tana no se ter  casado com ele. Imaginou a vida que ela teria.
- Oh, querida... lamento tanto...
- Eu tambm. - Soou exactamente como quando era
criana e perdera o co e isso entristecia o corao de  Jean. - E no posso fazer nada, excepto ficar ali sentada a olhar.  
-No deves ficar l. Isso deixa-te muito deprimida.
- Tenho de estar l. No compreende? - A voz soou
dura. - Sou tudo o que ele tem.
- E a familia dele?
- O pai ainda no apareceu e, provavelmente, nunca ir        
aparecer, o filho da me, e o Harry ali est deitado, com a
vida por um fio.
- Bom, no podes fazer nada. Penso que no devias ver essas  coisas, Tan.         
- Ai, no? - A voz soou agora agressiva. - O que 
que devo ver, me? Jantares no East Side ou seres em
Greenwich com o cl Durning? Esse  o maior disparate que
alguma vez ouvi. O meu melhor amigo acabou de ser corrio a tiro do  Vietname, e a me acha que no devo fazer o
que fao. O que acha que lhe deve acontecer, me? Devo
risc-lo da minha lista porque j no pode danar?
- No sejas to cnica, Tana - retorquiu Jean Roberts
com firmeza.        
-E porque no? Em que espcie de mundo vivemos ns? O que h  de errado com todos? Porque ser que no
sabem o que se passa no Vietname? - Para no mencionar
Sharon e Richard Blake, bem como John Kennedy e tudo o        
mais que estava de errado no mundo.
- No est nas tuas mos nem nas minhas.
- Porque  que ningum se preocupa com o que pensamos... Com o que  eu penso... com o que o Harry pensa...
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Porque  que ningum lhe perguntou antes de ele partir?Estava de  novo a soluar e no conseguiu continuar.
- Acalma-te. - Jean esperou um momento e depois prosseguiu: - Acho que  deves vir passar as frias a casa, Tan, em especial se as vais passar   volta do hospital 
com esse rapaz.
- No posso ir a casa, agora. - A voz soou to dura que os olhos  de Jean encheram-se, subitamente, de lgrimas.
- Porque no? - Parecia uma criana a fazer a pergunta.
- No quero deixar o Harry agora.
- Como  que ele pode significar assim tanto para ti. -          Mais do  que eu. 
- Mas significa! No vai passar o Natal com o Arthur? Tana assoou o  nariz e limpou os olhos, mas Jean, do seu lado abanou a cabea.
- Este ano, no, Tan. Ele vai para Palm Beach com os filhos.
- E no a convidou? - perguntou ela, abismada.
 realmente um consumado filho da me egosta, talvez secundado  apenas pelo pai de Harry.
- Seria embaraoso para ele.
      - Porqu? A mulher dele j morreu h  oito anos e
a vossa relao no  segredo para  ningum. Porque  que
no a convidou?
- No tem importncia. Seja como for, tenho de 
trabalhar. 
- Sim. Ficava furiosa s de pensar no servilismo
da me e na sua devoo. - Sim, trabalhar para ele. Por no  no lhe diz para se afogar no lago um destes dias, me?
Um dia a me podia assim encontrar algum e, aos quarenta e cinco  anos, ningum a trataria pior do que Arthur.
- Tana, isso no  verdade! - Ficou imediatamente
furiosa.
- No? Ento porque  que passa o Natal sozinha?
      A resposta de Jean foi rpida e mordaz.
- Porque a minha filha no vem a casa.
Tana sentiu vontade de desligar-lhe o telefone na cara.
- No me venha com essa, me.
- No fales comigo assim. E  verdade, no ?
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Queres que ele estja perto de mim para que no sintas qualquer  responsabilidade. Bem, as coisas nem sempre resultam assim. Podes  escolher no vir a casa, mas 
no podes fingir que  a  deciso certa.
- Estou no curso de Direito, me. Tenho vinte e dois anos. J sou  adulta. J no posso estar sempre ao seu lado.
- Bem, nem ele. E as responsabilidades dele so muito mais  importantes do que as tuas. - Chorava baixinho e Tana abanou a  cabea.
A voz soou calma, quando voltou a falar.
-  com ele que deve estar furiosa, me, no comigo. Lamento  no poder estar ao seu lado, mas no posso mesmo.
- Eu compreendo.
- No, no compreende. E lamento isso tambm. 
Jean suspirou.
- Acho que no h nada a fazer agora. E suponho que ests a dar  o passo certo. - Fungou. - Mas, por favor, querida, no passes todo o  tempo no hospital.  demasiado 
deprimente e no ajudas em nada o  rapaz. Ele h-de conseguir vencer sozinho. - Aquela maneira de pensar  deixou Tana incomodada, mas no a contradisse.
- Sim, me.
Cada uma delas tinha a sua prpria maneira de pensar e enhuma iria  mudar. J no valia a pena. Cada uma seguia o
seu caminho e Jean sabia-o tambm. Pensou na sorte que Arthur tinha  por os filhos ainda passarem tanto tempo perto
dele. Ann queria sempre a ajuda dele, tanto financeira como de outro  tipo; o marido quase beijava os ps de Arthur e at vivia em casa.  Era maravilhoso para ele, 
pensou quando desligou. Significava que  realmente nunca tinha tempo para ela. Entre as obrigaes  empresariais, os velhos amigos e os que tinham sido demasiado 
chegados a  Marie para a aceitarem
segundo ele, e Billy e Ann, mal havia tempo para ela. Contudo, ainda  havia algo muito especial entre eles, e Jean sabia que haveria  sempre.
Tinham valido a pena todas as horas que passara sozinha,  espera  dele. Pelo menos, foi o que disse a si mesma quando arrumo a  secretria e se dirigiu ao seu 
apartamento, para
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olhar para o quarto vazio de Tana. Agora estava to dolorosamente  arrumado; to vazio e deserto. To diferente do
quarto onde ela vivia, em Berkeley, onde tudo estava espalhado pelo  cho.
Tana reuniu rapidamente as suas coisas, ansiosa por regressar para junto  de Harry. Ligou para o hospital, depois
de ter falado com a me, e foi informada de que a febre voltara a  subir. Ele estava a dormir e acabara de levar uma injeco, mas  Tana quis voltar para o seu lado, 
antes de ele 
tornar a acordar. Enquanto passava um pente pelo cabelo 
vestia umas calas de ganga, pensou nas coisas que a me lhe
dissera. No era justo que Jean a culpasse da sua solido.
Que direito tinha ela de esperar que Tana estivesse sempre
ao seu lado? Era a forma de a me absolver Arthur das suas
responsabilidades. Durante dezasseis anos, tinha-o desculpado a Tana, a  si prpria, aos amigos, s colegas de trabalho.
Quantas desculpas se podiam arranjar quele homem?
Tana tirou o casaco do cabide e desceu as escadas a correr. Levou meia  hora a atravessar a Bay Bridge de autocarro
e mais vinte minutos a chegar ao Letterman. O trnsito estava pior do  que nos ltimos dias, mas era a manh da vspera
de Natal e ela j o esperava. Evitou pensar na me quando
desceu do autocarro. Pelo menos, podia cuidar de si sozinha,
ao contrrio de Harry, nesse momento. Era s no que conseguia  pensar, quando subiu at ao quarto dele no terceiro
andar e entrou lentamente. Harry ainda dormia, e as cortinas 
encontravam-se corridas. L fora estava um dia de Inverno
cheio de sol, mas nem um pouco daquela luz brilhante e
      festiva entrava ali. Tudo estava escuro,  silencioso e sombrio.
Sentou-se numa cadeira ao lado da cama e ficou a  olhar
para o rosto dele. Estava a dormir profundamente, num sono
pesado e sob sedativos, e no se mexeu durante duas horas.
por fim, apenas para esticar um pouco as pernas, ela sai
para o corredor e caminhou para a frente e para trs, tentando 
no espreitar para os quartos, ou ver as hediondas mquinas
espalhadas por todo o lado, os rostos preocupados dos
que vinham ver os filhos ou o que sobrava deles, as ligaduras, os meios  rostos, os membros cortados. Era quase
mais do que conseguia suportar; chegou ao fim do corredor
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e inspirou profundamente quando, de sbito, viu um homem que lhe  cortou literalmente a respirao. Era o homem mais alto e mais  bonito que j vira. Alto, de cabelo 
escuro, com brilhantes olhos  azuis, muito moreno, de ombros largos, pernas compridas e quase  interminveis, um fato escuro de corte impecvel e casaco de  plo 
de camelo dobrado sobre um brao. A camisa era to  perfeita e imaculada que mais parecia fazer parte de um cartaz  publicitrio. Tudo nele era belo, e magnificamente 
bem arrumado.  Trazia um anel com braso na mo esquerda e um olhar preocupado  nos olhos; fixou Tana, durante uma fraco de segundo, e ela fez o  mesmo.
Sabe onde fica a neurocirurgia?
Ela anuiu, sentindo-se inicialmente infantil e estpida, e depois  sorriu envergonhada.
- Sim,  ao fundo deste corredor. - Apontou para a direco de  onde tinha vindo; ele sorriu, mas apenas com a
boca e no com os olhos. Havia algo desesperadamente triste naquele  homem, como se tivesse perdido a nica coisa que lhe interessava; e  perdera, ou quase.
Tna deu consigo a pensar porque estaria ele ali. Deveria ter cerca  de cinquenta anos, embora parecesse jovem para a idade, e era sem  dvida o homem mais atraente 
que j vira. O cabelo escuro e  salpicado de cinza tornava-o ainda mais belo. Tana fez lentamente o  percurso de volta e viu-o a virar  esquerda, na direco da 
enfermaria da qual todos sofriam tanto. Voltou ento a pensar em  Harry e compreendeu que era melhor regressar. No se afastara muito  tempo; mas talvez ele tivesse 
acordado e ela tinha muitas coisas para  Lhe dizer, coisas em que pensara durante toda a noite, ideias que tivera  sobre o que podiam fazer agora. Diria o que sentia; 
no iria  deix-lo apenas ali deitado. Ele tinha toda a sua vida pela frente.  Duas das enfermeiras sorriram quando Tana passou por elas e entrou em  bicos de ps 
no quarto de Harry. O quarto ainda estava sombrio e  l fora o brilho do Sol comeava a desaparecer; viu imediatamente  que j acordara. Parecia entorpecido, mas 
reconheceu-a e sorriu.  Olharam-se nos olhos e ela sentiu-se subitamente estranha, quando entrou  no quarto, como se algo estivesse
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errado, ainda mais errado do que antes, se  que tal era possvel.  Percorreu o quarto com os olhos, como se procurasse uma pista, e viu-o  ali no canto, com um 
olhar triste, o bonito homem de cabelos grisalhos e  fato azul-escuro, e quase deu um salto. Nunca lhe ocorrera que. Agora,  de sbito, percebera. Harrison linslow 
III. o pai de Harry.  finalmente aparecera.
- Ol, Tan. - Harry parecia infeliz e desconfortvel. Era mais  fcil antes de o pai aparecer. Agora, tinha de enfrent-lo e   sua mgoa tambm. Era muito mais 
fcil ter Tana perto de si,  pois compreendia sempre o que ele sentia.
O pai nunca o fizera.
- Como te sentes? - Por um imstante, ambos ignoraram o homem mais velho,  como se quisessem primeiro dar foras um ao outro. Tana nem sequer  sabia o que lhe dizer.
- Estou bem. - Mas parecia muito menos do que isso e, ento, desviou  os olhos dela para o homem bem vestido. Pai, esta  a Tana Roberts, a  minha amiga. - O Linslo 
mais velho nada disse, mas estendeu a mo.  Olhou para ela como se fosse uma intrusa. Queria saber como Harry tinha  ido ali parar. No dia anterior, chegara a Londres 
vindo da frica do  Sul, recebera os telegramas que ali estavam  espera e voara,  imediatamente, para So Francisco; s quando l chegara   que percebera as implicaes 
que tudo aquilo possua. Ainda  estava em estado de choque. Antes de Tana entrar no quarto, Harry  contara-lhe que iria passar a vida numa cadeira de rodas. No 
perdera  muito tempo com pormenores, nem sequer suavizara as coisas. Nem tinha de  o fazer. Eram as suas pernas e, se j no iam trabalhar mais, era  um problema 
s seu, de mais ningum, e podia falar como lhe  apetecesse. Nem sequer mediu as palavras. este  o meu pai. Harrison  linslow. - A voz soou sarcstica. - O Terceiro. 
- Nada entre eles  mudara. Nem mesmo agora. O pai pareceu humilhado.
- Preferem ficar sozinhos? - Os olhos de Tana viraram-se de um para o  outro, e foi fcil perceber que Harry no queria, mas o pai  preferia que ficassem. - Vou 
tomar uma chvena de ch. - Olhou  cautelosamente para o lado dele. - Tambm quer uma?
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Ele hesitou e depois anuiu.
- Sim, obrigado. Quero.
Sorriu; era impossvel no notar como ele era belo, mesmo ali, no  hospital; no quarto do filho, a ouvir as ms notcias. Havia uma  profundidade incrvel nos olhos 
azuis, uma fora em redor da linha  bem traada do maxilar, algo tanto meigo como forte nas suas mos.  Era dificil v-lo como o vilo que Harry descrevera, mas 
tinha de  acreditar nas palavras do amigo. Contudo, comearam a instalar-se  algumas dvidas na sua mente quando se dirigiu  cafetaria para  trazer o ch. Regressou 
cerca de meia hora depois e ficou a pensar se  deveria sair e regressar no dia seguinte, ou mais tarde, nessa noite. De  qualquer modo, tinha muito que estudar; 
contudo, quando regressou,  reparou no olhar persistente de Harry, como se pedisse que o salvasse  das mos do pai. A enfermeira tambm reparou, quando entrou no 
quarto e, sem saber o que estava a causar a perturbao de Harry,  ou quem, pediu pouco depois que ambos se retirassem. Tana dobrou-se para  dar um beijo de despedida 
a Harry e este segredou-lhe ao ouvido: 
- Volta logo  noite. se puderes. 
- Est bem.
Deu-lhe um beijo na face e anotou mentalmente que deveria chamar  primeiro as enfermeiras. Afinal, era noite de Natal e pensou que talvez  ele no quisesse ficar 
sozinho. Imaginou tambm se ele e o pai  no teriam discutido. O pai olhou para ele por cima do ombro,  suspirou de tristeza quando deixaram o quarto e atravessou 
o corredor.  Caminhou cabisbaixo, como se estivesse a olhar para os sapatos bem  engraxados, e Tana temeu dizer fosse o que fosse. Sentia-se uma  desmazelada total, 
de mocassinas e calas de ganga, mas no  esperava encontrar ningum ali e muito menos o lendrio Harrison  Winslow III. Ficou ainda mais atrapalhada quando ele 
se voltou  subitamente para ela e perguntou: 
- Como  que ele lhe parece estar?
Tana respirou profundamente.
- No sei. Ainda  muito cedo. Acho que ele continua em estado de  choque.
Harrison Winslow concordou. Ele tambm estava. Tinha
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falado com o mdico, antes de subir, e no havia nada que
pudessem fazer. A medula espinal tinha ficado to danificada,  explicou o neurocirurgio, que ele nunca mais voltaria a
andar. Tinham conseguido fazer alguns progressos e realizariam mais  operaes nos prximos seis meses; havia certas
      coisas com as quais estavam satisfeitos. Tinham  dito o mesmo a Harry, mas ainda era muito cedo para ele se restabelecer.  A melhor notcia foi que ele poderia 
fazer amor com alguns cuidados,  pois essa parte do seu sistema nervoso ainda funcionava a um determinado  nvel e, embora a sensibilidade no fosse completa ou 
o controlo  total, no ficara incapacitado nesse aspecto.
- At pode constituir famlia - dissera o  mdico ao pai. 
No entanto, havia outras coisas que nunca mais poderia
fazer, tais como andar ou danar, correr ou esquiar... Os
olhos do pai encheram-se de lgrimas quando pensou naquilo.
 lembrou-se ento da rapariga que caminhava ao seu lado.
Era bonita; reparara nela quando a vira antes a caminhar pelo corredor e  sentiu-se atrado por aquele bonito rosto, 
enormes olhos verdes, a forma graciosa de se mover, surpreendendo-se por  v-la entrar no quarto do filho.
- Deduzo que voc e o Harry so muito amigos,
no so? - Era estranho que o filho nunca lhe tivesse falado
da rapariga, mas Harry nunca lhe contava nada.
- Sim, somos. Somos amigos h quatro anos.
Decidiu no forar nada enquanto estivessem no vestbulo do  Hospital Letterman. Mas precisava de saber o que teria
de enfrentar, e talvez aquele fosse o momento de descobrir
      at que ponto Harry estaria envolvido com  aquela rapariga.
      Seria outra relao amorosa casual, um amor secreto, ou
talvez uma esposa secreta? Tambm tinha de pensar  na situao
financeira de Harry, mesmo que o rapaz ainda no fosse
suficientemente sofisticado para se proteger a si prprio.
- Est apaixonada por ele? - Os olhos penetraram
nos de Tana e ela ficou momentaneamente estupefacta: 
- Eu... no... Eu... quero dizer... - No saba bem o
porqu da pergunta. - Gosto muito dele... mas ns...
no estou envolvida com ele fisicamente, se  isso que quer
saber. - Corou at  raiz dos cabelos e ele sorriu.
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- Peo desculpa por ter perguntado uma coisa destas, mas, se conhece  bem o Harry, sabe como ele . Nunca sei que raio se passa e presumo  que, um dia destes, chegarei 
para descobrir que tem esposa e trs  filhos. - Tana deu uma gargalhada. Era pouco provvel, mas no  impossvel. Era mais provvel a existncia de trs amantes. 
Subitamente, Tana percebeu que lhe era difcil antipatizar com ele,  tanto quanto Harry gostaria; na verdade, sentia quase uma espcie de  simpatia.
Era obviamente poderoso e no temia perguntar o que queria saber.  Olhou para ela, depois para o relgio e, em seguida, para a limusina  que o esperava l fora.
- Posso convid-la para tomar um caf comigo em qualquer lado.  Talvez no meu hotel? Estou no Stanford Court, mas posso mandar o  motorista lev-la depois para onde 
quiser. Est bem para si?
Na realidade, pareceu-lhe vagamente uma traio, mas no soube  o que responder. O pobre homem tambm acabara de passar um mau bocado  e tinha vindo de muito longe.
- Eu. tenho realmente de regressar. tenho mesmo muito que estudar. -  Corou e ele pareceu ficar magoado. Subitamente, sentiu pena dele. Apesar  de to elegante e 
atraente, parecia haver nele algo de vulnervel.  - Desculpe, no quis parecer mal-educada.  s que. 
- Eu sei. - Olhou-a com um sorriso to triste que derreteu o  corao dela. - Ele disse-lhe que sou um patife. Mas   vspera de Natal, como sabe. Talvez nos faa 
bem ficar a conversar  um bocado. Tive um choque tremendo e voc tambm deve ter tido. -  Ela concordou, tristemente, e
seguiu-o at ao carro.
O motorista abriu a porta; ela entrou e Harrison Linslow sentou-se ao  seu lado, no banco de veludo cinzento. Parecia pensativo, enquanto  atravessavam a cidade. 
Chegaram rapidamente a Nob Hill e dirigiram-se  para o lado oriental, virando de repente para o trio do Stanford  Court. - O Harry e eu temos tido um mau relacionamento 
ao longo dos  anos. De certo modo, nunca conseguimos conversar um com o outro. - Era  quase como se estivesse a falar consigo prprio, enquanto ela olhava  para 
ele. No lhe
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parecia to impiedoso quanto Harry descrevera. Na verdade, no lhe  parecia nada impiedoso. Parecia solitrio e triste; sobretudo,  solitrio. Ento, Harrison olhou 
intensamente para Tana. - Voc   uma rapariga muito bonita. tambm por dentro, suspeito. O Harry  tem sorte em t-la como amiga. O que havia de mais estranho nela 
era  algo de que Harry no poderia realmente ter-se apercebido. Era muito  parecida com a me dele na mesma idade. Era estranho. Harrison viu-a  sair, suavemente, 
do carro e seguiu-a para o hotel. Foram para o  Restaurante Potpourri e ocuparam uma mesa num compartimmento. Ele  parecia estar constantemente a olhar para Tana 
como se quisesse  compreender quem ela era e o que significava para o filho. Achou dificil  acreditar que era apenas uma amiga, como afirmara; contudo, ela  insistira 
que assim era, quando conversaram, e no tinha motivos para  lhe mentir.
Tana sorriu.
- A minha me tambm pensa como o senhor, Mister linslow. Est  sempre a dizer-me que rapazes e raparigas no podem ser amigos, e eu  respondo-lhe que est errada. 
 exactamente isso que eu e o Harry  somos. Ele  o meu melhor amigo.  como um irmo para mim. Os  olhos encheram-se de lgrimas e ela desviou o olhar, a pensar 
no que  lhe tinha acontecido. - Farei tudo o que puder para o ajudar a  recompor-se de novo. - Olhou para Harrison linslow com uma expresso  de desafio, no zangada 
com ele, mas com o que o destino fizera ao  filho. - Isso pode ter a certeza. No vou deix-lo ficar para ali  com o rabo no colcho. - Corou com a palavra, mas 
continuou:
- Vou obrig-lo a levantar-se, a mexer-se e a ter de novo interesse  pela vida. - Ento, olhou de um modo estranho para ele. - Tenho uma  ideia, mas devo falar primeiro 
com o Harry.
Harrison ficou intrigado. Afinal, talvez ela tivesse um caso com o  rapaz, mas no achou que isso agora fosse assim to mau. Alm  de ser bonita, era obviamente 
muito inteligente, e tinha bastante brio.  Quando falava, os olhos iluminavam-se como chamas verdes e ele percebeu  que ela ia fazer aquilo que dissera.
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- Que espcie de ideia? - Estava intrigado; se no estivesse  to preocupado com o filho, ter-se-ia sentido divertido.
Ela hesitou. Provavelmente, ele pensaria que ela era doida, em  particular se era to pouco ambicioso quanto Harry lhe contara.
- No sei. Talvez lhe parea uma loucura, mas pensei. No sei.  - Era embaraoso ter de o admitir a ele. Pensei que talvez o  convencesse a ir comigo para a Faculdade 
de Direito. Mesmo que nunca  utilize o canudo, seria bom para ele, em especial agora.
- Est a falar a srio? - Comearam a desenhar-se linhas de  riso junto aos olhos de Harrison Winslow. - Facul dade de Direito? O meu  filho? - Bateu-lhe na mo 
com um sorriso; ela era uma garota  espantosa, uma pequena bola de fogo, mas nunca a contrariaria, incluindo  naquilo. - Se conseguir convenc-lo, em especial agora. 
- O rosto  ficou rapidamente srio. - Bem. A meus olhos, tornar-se- ainda  mais notvel do que aquilo que penso.
- Abordarei o assunto quando ele estiver suficientemente bem para me  ouvir.
- Temo que isso ainda leve algum tempo. - Ambos assentiram com a  cabea e, no silncio, ouviram algum l fora a cantar  cnticos de Natal; ento, subitamente, 
Tana falou para ele.
- Porque o v to poucas vezes? - Tinha de lhe perguntar, no  perdia nada; se ele se zangasse, podia sempre ir-se embora. No lhe  podia fazer nada mas, na verdade, 
no
lhe pareceu aborrecido quando olhou para ela.
- Sinceramente? Porque o Harry e eu temos sido uma causa perdida at  agora. Tentei tudo durante muito, muito
tempo, mas nunca consegui nada. Odeia-me desde muito pequeno, e as  coisas s pioraram ao longo dos anos. Aps algum tempo, percebi  que no ganhava nada em criar 
novas
dificuldades. O mundo  grande, eu tenho muito que fazer, ele tm a  sua prpria vida. - Os olhos encheram-se de lgrimas e desviou o  olhar. - Ou, pelo menos, teve, 
at agora. Tana passou o brao por  cima da mesa e tocou-lhe na mo.
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- Ele vai voltar a ter. Prometo-lhe... se ele viver... Oh, 
meu Deus... se ele viver... Por favor, meu Deus, no o deixes morrer.  - As lgrimas tambm lhe encheram os olhos e
ela limpou-as com a mo. - Ele  maravilhoso, Mister
linslow,  o melhor amigo que j tive.
      - Gostava de poder dizer o mesmo. - Ficou  triste. Agora somos quase estranhos. Hoje, senti-me como um
      intruso no quarto dele.
      - Talvez porque eu estava l. Devia t-los deixado sozinhos. 
-J no faria qualquer diferena. As coisas  foram longe
de mais, durante muito tempo. Agora somos estranhos: 
- No tm de ser. - Falou-lhe como se j o conhecesse
e, de certo modo, ele j no a impressionava tanto, por muito 
experiente, corts, belo ou sofisticado que fosse. Era apenas
outro ser humano, com um problema devastador nas mos e
um filho muito doente. - Agora, pode tentar ser amigo
dele.
Harrison linslow abanou a cabea e, aps um momento, sorriu. Achou  que Tana era notavelmente bonita e, 
de sbito, tornou a perguntar a si prprio qual seria exactamente  a histria entre Harry e aquela rapariga. O filho fora,  sua  maneira, demasiado libertino para 
deixar passar
uma oportunidade como essa, a no ser que gostasse dela mais
do que ela prpria sabia... Talvez fosse isso... Talvez Harry 
estivesse apaixonado por ela... Tinha de estar... No podia
haver aquilo que ela afirmava existir entre eles. Parecia-lhe  impossvel.
-  muito tarde, minha amiga. Demasiado tarde. Aos seus olhos, os  meus pecados so imperdoveis. - parou. - Suponho que eu sentiria  o mesmo se estivesse no lugar 
dele. - Olhou firmemente para ela. - Ele  pensa que matei a me, sabe? Ela suicidou-se quando ele tinha trs  anos.
- Eu sei.
E o olhar dele foi arrasador, repleto da dor que existia na sua alma. O  amor por ela nunca morrera, amor pelo filho deles.
- Estava a morrer de cancro e no quis que ningum soubesse.  Acabaria por desfigur-la, e ela no conseguia
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tolerar isso. J tinha feito duas operaes, antes de morrer.   - Quase parou, mas prosseguiu: - Foi terrvel para ela. para todos  ns. Nessa altura, o Harry soube 
que ela estava doente, mas agora  no se lembra. De qualquer modo, j no interessa. Ela no  conseguia viver com as operaes e com as dores e eu no  suportava 
v-la a sofrer. O que ela fez foi terrvel, mas eu  compreendi sempre. Era to jovem e to bonita. Na verdade, era  muito parecida consigo e quase uma criana. - 
No se envergonhou  das lgrimas nos olhos e Tana olhou-o, comovida.
- Porque  que o Harry no sabe disso?
- Ela fez-me prometer que eu nunca o diria. - Encostou-se  parede de  madeira do compartimento, como se lhe tivessem dado um murro. A  sensao de desespero devido 
 morte dela nunca desaparecera  realmente. Tentara fugir durante anos, no princpio com Harry, depois  com mulheres, raparigas, qualquer uma e, por fim, sozinho. 
Tinha  cinquenta e dois anos e descobrira que pouco havia para onde fugir e que  j no tinha foras para isso. As memrias estavam ali: o  pesar, a perda. e talvez 
agora perdesse Harry, tambm. No  conseguiu suportar a ideia quando olhou para aquela adorvel  rapariga, to cheia de vida, to cheia de esperana. Era quase  
impossvel explicar-lhe tudo, pois tinha acontecido h muitos  anos. - Naquela poca, as pessoas pensavam de outra maneira em  relao ao cancro. Era quase como 
se tivessem de sentir vergonha.  Na altura, eu no concordei, mas ela exigiu que o Harry no  soubesse. Deixou-me uma carta muito longa. Tomou uma dose excessiva 
de  comprimidos, quando fui passar uma noite a Boston para visitar minha  tia-av. Quis que o Harry pensasse nela como uma mulher caprichosa,  bonita e romntica, 
mas nunca em algum cheio de doenas, e  assim foi. Foi uma herona para ele: - Sorriu tristemente para Tana.  - E foi para mim. Foi uma maneira triste de morrer 
mas, de outro modo,  teria sido muito pior. Nunca a acusei pelo que fez.
- E deixou-o pensar que foi por sua culpa! - Sentia-se
hoorrorizada, e os seus olhos verdes salientavam-se no rosto:  - Nunca  julguei que ele pensaria assim e, quando compreendi, j era muito  tarde. Corri por todo 
o mundo, quando
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ele era criana, como se pudesse fugir da dor causada pela
perda dela. Mas as coisas no funcionaram assim. A dor segue-nos,  como um co sarnoso, sempre no lado de fora do
quarto  espera que acordemos, batendo  porta com a pata, 
      rosnando aos nossos ps, independentemente de  estarmos ou
no bem vestidos, atraentes e ocupados, ou do  nmero de
amigos  nossa volta. Est sempre ali, a morder-nos os  calcanhares, a roer-nos a bainha das calas... E foi assim...
      Quando o Harry fez oito ou nove anos, tirou as  suas prprias concluses acerca de mim e, durante algum tempo,  
sentiu tanto dio que tive de p-lo num  colgio interno. Depois ele decidiu continuar l, e eu, ento,  fiquei sem nada.
Por isso, fugi ainda mais do que antes... e... - Encolheu  filosoficamente os ombros. Ela morreu h quase vinte anos, 
eis-nos aqui... Ela morreu em Janeiro... - Por um momento, olhou para o  vazio e, depois, voltou a centrar-se em
Tana, mas isso no o ajudou. Era to parecida com ela que 
era como voltar ao passado. - E agora o Harry est metido
neste terrvel sarilho... A vida  to dura e to  estranha,
no ?
Ela anuiu, pois pouco tinha para dizer. Ele dera-lhe muito que  pensar.
- Acho que devia conversar com ele.
- Sobre o qu?
- Sobre a forma como a me morreu.
- No posso fazer isso. Eu fiz-lhe uma promessa...
para mim... No servia de nada dizer-lhe agora...
- Ento porque me contou?! 
      Ficou abismada consigo prpria, com a ira na  sua voz, com o que sentia, com o desperdcio que as pessoas permitiam  nas suas vidas, os momentos perdidos em 
que
podiam ter-se amado um ao outro, tal como aquele homem  e
o filho. Haviam perdido tantos anos que podiam ter partilhado
juntos! E Harry precisava dele agora. Precisava deles.
Harrison olhou para ela.
- Suponho que no devia ter-lhe contado tudo isto.
Mas precisava de conversar com algum... e voc... est
perto dele. Quis que soubesse que amo o meu filho.
Tana sentiu um n na garganta do tamanho do
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mundo e ficou sem saber ao certo se tinha vontade de lhe dar uma  bofetada ou um beijo, ou talvez as duas coisas. Nunca antes se sentira  assim em relao a nenhum 
homem.
- Por que raio no lhe diz o senhor?
- No serviria de nada.
- Talvez sirva. Talvez seja este o momento. Olhou, pensativamente, para  ela e depois para as mos; por fim, voltou a olhar para os olhos  verdes de Tana.
-Talvez seja. Mas no o conheo... No saberia por onde  comear. 
- Pelo princpio, Mister Winslow. Tal como me contou.
- Sorriu para ela e, subitamente, pareceu muito cansado.
- O que  que a torna to esperta, garotinha? Ela sorriu-lhe e  sentiu um calor incrvel a emanar dele. Era muito parecido com Harry  em muitos aspectos e contudo 
mais caloroso; com uma ponta de  embarao, compreendeu que se sentia atrada por ele. Era como se  todos os sentidos que tinham passado anos adormecidos, desde a 
violao, tivessem despertado de novo.
- Em que  que estava a pensar ainda h momentos? Corou  intensamente e abanou a cabea.
- Em algo que nada tinha a ver com tudo isto. Desculpe. estou cansada.  No durmo h j alguns dias. 
- Vou lev-la a casa para que possa descansar. - Pediu a conta e,  quando a trouxeram, olhou para ela com um sorriso meigo; Tana sentiu  saudades do pai que nunca 
tivera e que nem conhecera. Desejou que Andy  Roberts tivesse sido no como Arthur Durning, que entrava e saa  da vida da me como bem lhe apetecia. Aquele homem 
era muito menos  egost do que Harry a fizera crer. Tinha gasto muitas energias a  odiar aquele homem ao longo dos anos, e Tana percebeu imediatamente que  ele 
estava errado, completamente errado, e perguntou a si prpria se  Harrison estaria certo, se j seria demasiado tarde. - Obrigado por  ter conversado comigo, Tana. 
O Harry tem sorte por t-la como  amiga.
- Eu  que tenho sorte por t-lo a ele.
Harrison colocou uma nota de vinte dlares por baixo do carto e  olhou de novo para ela.
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-  filha nica? - Tinha suspeitado disso, e Tana anuiu com um  sorriso.
- Sim. E nunca conheci o meu pai. Morreu antes de eu nascer, na guerra.  - Era algo que j tinha dito dez mil vezes na sua vida, mas agora  parecia ter outro significado. 
Tudo tinha, e ela no compreendeu o  que isso significava, ou o por qu. Qualquer coisa estranha estava a  acontecer-lhe, ao sentar-se com aquele homem, e pensou 
se seria apenas  por se sentir to cansada. Deixou-o acompanh-la at ao carro e  ficou surpreendida quando ele se sentou ao seu lado, em vez de deixar  que o motorista 
a levasse a casa.
- Eu levo-a.
- Na verdade, no  preciso que o faa.
- No tenho mais nada para fazer. Vim aqui para ver Harry e penso que   melhor deix-lo descansar umas horas. Concordou com ele e  conversaram enquanto atravessavam 
a ponte. Contou-lhe que nunca tinha  estado em So Francisco e que achava a cidade atraente; mas parecia  distrado enquanto conduzia. Tana concluiu que devia estar 
a pensar  no filho, mas na verdade pensava nela; apertou-lhe a mo, quando  chegaram. - Voltarei a v-la no hospital. Se precisar de boleia,   s ligar para o hotel 
e mandarei um carro. - Ela contara-lhe que  apanhava o autocarro, e isso deixou-o preocupado. Afinal de contas, ela  era jovem e bonita e tudo podia acontecer-lhe.
- Obrigada por tudo, Mister linslow.
- Harrison. - Sorriu-lhe e pareceu exactamente igual a
Harry quando sorria, no to malicioso, mas tambm ali havia um  certo fulgor. - V-la-ei em breve. Agora, descanse.
Acenou-lhe, e a limusina desapareceu, enquanto ela subia lentamente as  escadas, a pensar em tudo o que ele lhe contara. Como a vida era to  injusta, s vezes. 
Adormeceu a pensar em Harrison. e Harry. e no  Vietname. e na me que se tinha suicidado e que, nos sonhos de Tana,  no tinha rosto. Quando acordou, ainda estava 
escuro; sentou-se de  rompante na cama e mal conseguiu respirar no pequeno quarto. Olhou para  o relgio, pois j eram nove horas, e interrogou-se sobre como  estaria 
Harry. Dirigiu-se  cabine telefnica, ligou e foi  informada que a febre tinha descido; ele
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estivera um tempo acordado e agora encontrava-se de novo a dormir, mas  no iria dormir a noite toda. Ainda no lhe tinham dado o sedativo  e talvez no lhe dessem 
durante algum tempo; subitamente, quando Tana  ouviu cnticos de Natal l fora, percebeu que era noite de Natal e  que Harry precisava dela. Tomou um duche rpido 
e decidiu vestir-se  para ele. Colocou um bonito vestido de malha branca, com sapatos de  salto alto; vestiu um casaco vermelho e um cachecol que no usava  desde 
o Inverno anterior em Nova Iorque e que julgara que nunca usaria  ali. Mas, de certo modo, tudo aquilo tinha um ar natalcio e ela  achou que isso talvez fosse importante 
para ele. Perfumou-se um pouco,  escovou o cabelo e voltou para a cidade de autocarro, pensando de novo  no pai de Harry. Eram dez e meia da noite quando chegou 
ao Letterman.  Sentia-se no ar uma sonolenta atmosfera festiva. Pequenas rvores com  luzes a piscar, um Pai Natal em plstico aqui e ali. Mas ningum  parecia estar 
com um esprito particularmente festivo, pois  passavam-se ali demasidas coisas desesperadamente srias. Quando  chegou ao quarto dele, bateu ao de leve e entrou 
em bicos de ps,  esperando que ele estivesse a dormir; pelo contrrio, ali estava ele  deitado, a olhar para a parede, com os olhos rasos de lgrimas.  Tentou falar, 
quando a viu, mas nem sequer sorriu.
- Estou a morrer, no estou?
Tana ficou chocada com as palavras dele, o tom de voz, o olhar sem vida  nos seus olhos; ento, franziu a testa e aproximou-se da cama.
- A no ser que queiras morrer. - Sabia que tinha de ser dura. - Tudo  depende de ti. - Permaneceu muito perto dele, olhou-o nos olhos e ele  no tentou segurar-lhe 
na mo.
- Que coisa mais parva para se dizer. No foi minha inteno  levar um tiro no rabo.
- Claro que foi. - A voz soou indiferente e, por momentos, ele pareceu  aborrecido.
- Que raio quer isso dizer?
- Que podias ter ido para a faculdade. Mas, pelo contrrio, decidiste  brincar. E tiveste azar. Jogaste e perdeste.
- Sim. S que no perdi dez dlares, mas sim as pernas. No  foram exactamente uns trocos.
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- C para mim, parece-me que elas ainda a esto. Olhou para os  membros inteis e ele quase rosnou.
- No sejas parva. Para que servem agora?
- Tens as pernas e ests vivo... e h muita coisa que ainda podes  fazer. E... segundo as enfermeiras... ainda o consegues pr em  p... - Nunca lhe falara to duramente 
e era
um discurso cruel para uma noite de Natal, mas sabia que
estava na hora de comear a empurr-lo, em especial se ele
achava que ia morrer. - Raios, olha para o lado positivo: 
talvez voltes a apanhar gonorreia.
      - Pes-me maldisposto. Olhou para o outro  lado  
sem pensar, ela agarrou-lhe num brao e ele virou a  cara
para olhar de novo para ela.
-Olha, raios, tu  que me pes maldisposta! Metade
dos rapazes do teu peloto morreu e tu ests vivo. Por isso
no fiques para a deitado a lamentar o que no tens.
Cuida antes no que tens. A tua vida no acabo, a no ser
que queiras que acabe, e eu no quero que acabe. - Os olhos
encheram-se de lgrimas. - Quero que mexas esse teu
peso morto, nem que eu tenha de te arrastar pelos cabelos nos  prximos dez anos, s para te obrigar a levantar e a viver
de novo. Percebeste? - As lgrimas corriam pela cara
abaixo. - No irei deixar-te em paz. Nunca! Compreendes
bem? - E lentamente, muito lentamente... viu um sorriso
a surgir-lhe nos olhos. 
- Tu s doida, sabes, Tan?
- Sim, bem, talvez seja, mas irs descobrir o quanto
sou doida se no comeares a tornar a vida mais fcil a ns  os dois, fazendo qualquer coisa por ti. - Limpou
as lgrimas das faces e Harry sorriu para ela; pela primeira
vez em dias, parecia o Harry que ela conhecia.
- Sabes o que ?
- O qu? - perguntou, confusa. Haviam sido
os dias mais terrveis da sua vida e nunca se sentira to esgotada  como agora.
-  aquela energia sexual que tens enclausurada: que te d todo  esse vigor que colocas em tudo. Portanto transforma-te numa verdadeira  chata! 
- Obrigada.
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- De nada. - Sorriu e fechou os olhos por um minuto; depois, abriu-os de  novo. - Porque ests to bem vestida? Vais a algum lado?
- Sim. Para aqui. Para te ver.  noite de Natal. O olhar tornou-se  mais meigo e Tana sorriu para ele. - Bem-vindo  raa  hmana.
- Gostei de ouvir o que disseste antes. - Ainda estava a sorrir, e Tana  percebeu que a mar tinha mudado. Se ele se agarrasse  vida,  ficaria relativamente bem. 
Fora isso que dissera o  neurocirurgio.
- O que foi que eu disse. Referes-te ao pontap no rabo e a fazeres  qualquer coisa por ti? J no era sem tempo! Pareceu  satisfeita.
- No, sobre conseguir p-lo em p. e voltar a ter  gonorreia.
- Merda. - Olhou para ele com ar de desprezo; uma das enfermeiras entrou  e eles desataram a rir. Subitamente, por apenas um minuto, era como  antigamente; ento, 
o pai de Harry entrou no quarto e ambos pareciam  garotos nervosos. O riso parou e Harrison linslow sorriu. Queria  desesperadamente tornar-se amigo do filho e j 
sabia o quanto gostava  da rapariga.
- No quero estragar a vossa diverso. O que foi tudo isso?
Tana corou. Era dificil conversr com algum to sofisticado.  mas afinal ela tinha conversado toda a tarde com ele.
-O seu filho estava a ser malcriado, como sempre.
- Isso no  novidade. - Harrison sentou-se numa das cmodas  cadeiras do quarto e olhou para os dois. - Embora tivesse pensado que na  noite de Natal ele podia 
esforar-se por ser um pouco mais  educado.
- Na verdade, ele estava a falar das enfermeiras e. Harry corou e  comeou a opor-se, Tana deu uma gargalhada e, subitamente, at o  pai de Harry se riu. Sentiu-se 
algo muito subtil no quarto, e nenhum  deles pareceu estar totalmente  vontade, mas conversaram durante  meia hora; depois Harry comeou a ficar cansado e Tana 
levantou-se.  Vim s para te dar um beijo de Natal. Nem sequer pensei que estarias  acordado.
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- Nem eu. - Harrison Winslow tambm se levantou. Voltaremos  amanh, filho. - Viu Harry a olhar para ela e julgou ter percebido.  Tana no sabia o que Harry sentia 
por ela e, por algum motivo, ele  escondia-o, e Harrison no compreendia porqu. Havia ali um  mistrio que, para ele, no fazia sentido. Olhou de novo para o  filho. 
- Precisas de alguma coisa, antes de sairmos?
Harry pareceu triste durante um longo momento e depois abanou a  cabea. Precisava de uma coisa, mas no era nada que eles pudessem  dar-lhe. A ddiva das suas pernas. 
O pai compreendeu e afagou-lhe  suavemente o brao.
- Vemo-nos amanh, filho.
- Boa noite. - O cumprimento de Harry para o pai no foi caloroso,  mas os olhos iluminaram-se quando olhou para a amiga. - Porta-te bem,  Tan.
- Porqu? Tu no te portas. - Sorriu e deu-lhe um bei jo, enquanto  murmurou: - Feliz Natal, parvalho. - Ele deu uma gargalhada e ela  seguiu o pai at ao corredor.
- Achei-o melhor. E o senhor? - Estavam a ficar amigos,  conta do  desastre que se abatera sobre o filho.
- Tambm. Creio que o pior j passou. Agora, vai
ser apenas uma longa e lenta recuperao. - Harrison concordou e  ambos tornaram a apanhar o elevador para baixo. Havia agora uma certa  familiaridade nisso, como 
se eles j o tivessem feito uma dzia de  vezes, quando na verdade fora apenas uma. Mas a conversa dessa tarde  tinha-os aproximado bastante; Harrison segurou na 
porta. Ela viu que a  mesma limusina prateada estava ali.
- Quer ir comer qualquer coisa?
Comeou por negar, mas depois compreendeu que 
no havia jantado. Tinha pensado ir  Missa do Galo, mas no  lhe apetecia ir sozinha: Olhou para Harrison, imaginando se tambm  teria algum significado para ele, 
em particular agora.
- Talvez. Est interessado em ir depois  Missa do Galo?
Olhou-a muito srio, enquanto concordava com a cabea,  Tana  voltou a ficar estupefacta com a beleza dele. Foram comer um hamburger  rpido e conversaram sobre
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Harry e sobre os tempos de Cambridge. Contou a Harrison algumas das  coisas mais escandalosas que tinham feito, e ele deu uma gargalhada,  ainda confuso com o estranho 
relacionamento deles. Tal como Jean, no  conseguia perceber muito bem. Depois, foram assistir  Missa do Galo,  e as lgrimas correram pelas faces de Tana quando 
cantaram Silent  Night; pensava em Sharon, a sua amiga querida, e em Harry e na sorte que  tinha por estar vivo; quando olhou para o pai dele, ali orgulhosamente 
de p ao seu lado, viu que tambm chorava. Assoou discretamente o  nariz, sentaram-se, e, quando a levou depois de volta a Berkeley, Tana  reparou que se sentia 
bem ao lado dele. Quase adormeceu no percurso.  Sentia-se muito cansada.
- O que vai fazer amanh?
- Vou ver o Harry, penso. Num destes dias, tenho de estudar muito. -  Esquecera-se completamente dos estudos nos ltimos dias.
- Posso convid-la para almoar, antes de ir para o hospital?
Ela sentiu-se comovida com o convite e aceitou, preocupando-se de  imediato com o que devia vestir assim que saiu do carro; mas nem sequer  teve tempo para pensar 
nisso quando entrou no quarto. Estava to  exausta que se despiu  pressa, deixou a roupa cada no cho,  enfiou-se na cama e ficou, instantaneamente, morta para 
o mundo. Ao  contrrio da me em Nova Iorque, que ficara acordada e sentada  sozinha a chorar toda a noite. Tana no lhe telefonara, nem  to-pouco Arthur, de Palm 
Beach; passara toda a noite a lutar contra  o lado escuro da sua alma, pensando em algo que nnca pensara ter  coragem para fazer.
Fora  Missa do Galo, como ela e Tana costumavam fazer, e regressou a  casa  uma e meia, onde vira um pouco de televiso. Cerca das duas  horas, abateu-se sobre 
ela a solido mais desesperada que alguma vez  sentira. Ficou pregada  cadeira,         incapaz de se mover e quase  incapaz de respirar. E, pela primeira vez na 
vda, comeou a  pensar em suicidar-se; por volta das trs horas, era quase  impossvel resistir. Meia hora depois, foi  casa de banho e tirou  um frasco de 
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comprimidos para dormir que nunca tomava; a tremer, obrigou-se a  pous-lo. Sentia uma enorme vontade de tom-los mas, ao
mesmo tempo, no queria dar esse passo. Quis que algum
a interrompesse, que lhe dissesse que tudo ficaria bem. Mas
quem poderia dizer-lhe isso, agora? Tana tinha-se ido embora e talvez  nunca mais voltasse a viver ali em casa, e Arthur
tinha a sua prpria vida; s a inclua quando isso lhe convinha  e nunca quando ela precisava dele. Tana tinha razo, 
mas custava-lhe muito ter de admitir isso. Pelo contrrio, 
defendia tudo o que ele fazia, bem como os seus miserveis
      filhos egostas, aquela cadela da Ann, que  era sempre to
malcriada para si, e Billy, que fora to doce  quando rapaz, 
mas que agora... parecia estar sempre bbedo. Jean perguntou a si  prpria se Tana teria razo ao dizer que ele no era o
tipo de jovem que ela sempre julgara ser, mas se isso era
verdade... A memria do que Tana lhe dissera h quatro        anos  esmagou-a completamente. E se aquilo fosse verdade... Se ele tivesse...  se ela no tivesse acreditado... 
Era
quase mais do que conseguia suportar... Era como se toda
a sua vida se tivesse abatido sobre si, nessa noite. No podia
suport-lo. Manteve-se sentada a olhar ansiosamente para
os comprimidos que tinha na mo. Parecia a nica coisa a fazer
      e imaginou o que Tana pensaria quando lhe  ligassem para
a Califrnia para lhe comunicarem o sucedido.  Imaginou
      quem encontraria o seu corpo... Talvez o  segurana...
Uma das suas colegas... Se esperassem que Arthur a  encontrasse,
poderia levar semanas. Era ainda mais deprimente compreender que nem  sequer tinha ningum que a descobrisse logo. Pensou em escrever um  bilhete a Tana, mas isso 
pareceu-lhe demasiado melodramtico e pouco  havia para dizer, excepto o quanto amava a filha e o quanto lutara por  ela.
Chorou ao lembrar-se de Tana a crescer, do pequeno apartamento que  partilharam, do primeiro encontro com Arthur,
esperando que ele se casasse consigo... Toda a sua vida
pareceu passar-lhe diante dos olhos, enquanto segurava no
frasco de comprimidos para dormir; e a noite passou, cheia de
angstia. Nem sequer sabia que horas eram quando o telefone
finalmente tocou. Eram cinco da manh, e Jean engasgou-se
quando olhou para o relgio. Perguntou a si prpria se seria
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Tana, pois talvez o amigo tivesse morrido... Com a mo
trmula, levantou o telefone e, no incio, no reconheceu a
voz que se identificava como John.
- John?
-John York. O marido de Ann. Estamos em Palm
Beach.
- Oh, claro. - Mas ainda estava abismada, e as emoes da noite  tinham-na esgotado. Pousou suavemente o
frasco de comprimidos, pois podia tratar deles mais tarde.
No conseguia compreender porque lhe ligariam eles, mas
John foi rpido a explicar.
-  o Arthur. A Ann achou melhor eu telefonar-lhe.
Teve um ataque cardaco.
- Meu Deus! - Sentiu o corao a bater depressa e, subitamente,  desatou a chorar ao telefone. - Ele est bem?
Ele... est...
-J est bem. Mas foi bastante mau durante algum
tempo. Acontece h algumas horas, e ainda corre perigo.
Por isso, a Ann achou que era melhor eu telefonar.         
- Oh, meu Deus... Oh, meu Deus... - E tinha ela estado a pensar acabar  com a vida e Arthur quase morrera.         
 se ela tivesse... Quase estremeceu com a ideia. - Onde        
est ele agora?
- No Mercy Hospital. A Ann achou que talvez quisesse vir para c.          
- Claro. - Deu um salto, ainda a segurar no telefone, pegou num lpis  e num bloco, derrubou o frasco de comprimidos e, quando estes caram  para o cho, ficou a 
olhar para eles. Estava de novo em si. Era  incrvel pensar no que podia        
ter feito e, agora, ele precisava dela. Graas a Deus que no
o fizera, apesar de tudo. - D-me os pormenores, John.
Apanharei o prximo avio. - Escreveu o nome e o endereo do  hospital, anotou o nmero do quarto, perguntou se
precisavam de alguma coisa e, um minuto depois, pousou o
telefone, fechou os olhos e pensou nele. Quando os abriu, as
lgrimas corriam-lhe pelas faces, ao pensar em Arthur e no
que poderia ter acontecido.

CAPTULO 10
No dia seguinte, ao meio-dia, Harrison linslow mandou um carro a  Berkeley para ir buscar Tana, e os dois foram almoar ao Trader  Vic's. A atmosfera era alegre 
e a comida era boa; tinham-lhe dito no  hotel que era um lugar conceituado. Gostou da companhia dela, quase  tanto quanto
da conversa que voltaram a ter sobre Harry e outras coisas.
Ficou impressionado com a sua inteligncia, e Tana falou-lhe
      de Freeman Blake, da sua amiga que tinha  falecido e de
Miriam, que a incentivara a ir para a Faculdade de  Direito.
      - Espero apenas conseguir sobreviver.  ainda  mais 
dificil do que pensei - disse com um sorriso.
- E pensa realmente que o Harry seria capaz de fazer
alguma coisa desse gnero?
-  capaz de fazer tudo o que quiser. O problema 
que ele prefere divertir-se. - Corou e ele deu uma gargalhada.
- Concordo consigo. Ele gosta mesmo de se divertir.
Pensa que  congnito. Mas, na realidade, eu levava a 
vida muito mais a srio do que ele, na minha juventude, e o
meu pai era um homem muito erudito. Chegou mesmo a escrever dois livros  sobre filosofia.
Conversaram um bocado e foi o interldio mais agradvel que Tana  tinha desde h muito, muito tempo. Por
fim olhou, comprometida, para o relgio e ambos saram  apressadamente para o hospital, levando um saco de bolinhos da sorte  para Harry. Tana insistiu em levar-lhe 
uma bebida.
Levaram-lhe um enorme cocktail com uma gardnia a flutuar.
ele deu um longo gole e sorriu.
- Feliz Natal para vocs tambm. - Mas Tana
percebeu que ele no tinha ficado muito satisfeito por ela e
o pai se terem tornado amigos; por fim, quando o pai saiu e
desceu para fazer um telefonema, Harry olhou para ela.
- Porque ests tu to satisfeita? - Era bom que
ele se zangasse, e ela no se importava. Isso ajudaria a traz-lo  de volta  vida. - Sabes o que sinto por ele, Tan. No quero que  ele te iluda.
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- No me ilude. Ele no estaria aqui, se no gostasse de ti.  No sejas assim to teimoso e d-lhe uma oportunidade.
- Por amor de Deus. - Teria sado do quarto e batido com a porta, se  pudesse. - Tudo isso no passa de um monte de merda.  isso que  ele te tem dito?
Tana no podia contar-lhe tudo o que Harrison lhe dissera, pois sabia  que ele no queria que ela o dissesse, mas agora tambm j  sabia o que ele sentia pelo filho 
e estava convencida da sua  sinceridade. Gostava cada vez mais dele e desejou que Harry tentasse ser  um pouco mais aberto com o pai.
- um homem decente. D-lhe uma oportunidade.
-  um filho da me e eu odeio-o.
Nesse momento, Harrison linslow entrou no quarto a tempo de ouvir as  palavras de Harry; Tana empalideceu. Os trs olharam-se entre si e  Harrison foi rpido a acalm-la.
- No  a primeira vez que oio isto. E tenho a certeza de que  no ser a ltima.
Harry virou-se na cama para lhe perguntar aos gritos: 
- Por que raio no bateste  porta?
- Incomoda-te que eu tenha ouvido? E depois? J me tinhas dito antes,  cara a cara. Ests a ficar mais discreto agora? Ou menos corajoso? -  Havia provocao na 
voz do homem mais velho e fogo nos olhos de  Harry.
- Sei o que penso. Nunca estiveste presente quando mais precisei de ti.  Estavas sempre num maldito lugar qualquer, com uma rapariga qualquer,  numas termas quaisquer, 
ou no cimo de uma montanha qualquer com os teus  amigos... - Virou-lhe as costas. - No quero falar disso. - Sim,  queres. - Puxou uma cadeira e sentou-se. eu tambm. 
Tens razo, eu  no estive presente, mas tu tambm no. Estavas nos colgios  internos onde preferiste ficar, e eras um garotinho impossvel sempre  que te punha 
olhos em cima.
- Porque no haveria eu de ser assim?
- Foi a deciso que tomaste. E nunca me deste uma oportunidade, desde  a morte da tua me. Quando tinhas cerca de seis anos, percebi que me  odiavas. Nessa altura, 
consegui aceitar. Mas sabes, na tua idade, Harry,  julguei que
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serias um pouco mais inteligente, ou pelo menos mais piedoso. Sabes, na  realidade no sou to mau quanto gostarias de pensar.
Tana tentou passar despercebida, pois era embaraoso ficar ali, mas  nenhum deles parecia incomodado com a sua presena. Enquanto ouvia,  percebeu que tinha voltado 
a es quecer-se de telefonar  me.  Anotou mentalmente que teria de o fazer assim que deixasse o  hspital, talvez mesmo de um dos telefones do andar inferior, mas 
agora no podia sair do quarto, onde acontecia a Terceira Guerra  Mundial.
Harry olhou furioso para o pai.
- Seja como for, por que raio vieste at aqui?
- Porque s meu filho. O nico que tenho. Queres que eu saia? -  Harrison linslow levantou-se calmamente e disse em voz baixa: - Sairei  assim que quiseres. No 
vou discutir contigo, mas tambm no  vou permitir que continues a pensar que no quero saber de ti para  nada. Isso  um conto de fadas muito bonito, um pobre rapazinho 
rico  e tudo o resto, mas, segundo as palavras da tua amiga aqui, um  disparate. Acontece que eu te amo muito. - A voz comeou a falhar,  mas mesmo assim continuou, 
lutando contra as emoes e as  palavras; Tana sentiu-se comovida. amo-te muito, muito, Harry. Amei-te  sempre e amar-te-ei sempre. - Ento, aproximou-se dele, inclinou-se 
e  deu-lhe suavemente um beijo no cimo da cabea, depois, retirou-se do  quarto, enquanto Harry desviava a cara e fechava os olhos. Quando os  abriu, viu Tana ali, 
com as lgrimas a correrem pelas faces devido ao  que acabara de ouvir.
- Sai imediatamente daqui. - Ela anuiu e saiu. Ao fechar suavemente a  porta, ouviu os soluos que vinham da direco da cama de  Harry. Mas ele agora precisava 
de estar sozinho. Respeitou isso, pois as  lgrimas far-lhe-iam bem.
Harrison esperou l fora; estava mais composto e aliviado quando  sorriu para ela.
- Ele est bem?
- Agora, ir ficar. Estava a precisar de ouvir tudo o que lhe  disse.
- Era necessrio. Eu tambm me sinto melhor agora. - Com aquilo,  agarrou no brao de Tana e desceram de
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brao dado. Era como se fossem amigos desde sempre. Harrison olhou  para ela com um sorriso largo.
- Para onde vai agora, jovem senhora?
- Para casa, acho. Ainda tenho muito que estudar.
- Isso  disparate. - Imitou-a e ambos deram uma gargalhada. - Que  tal fazer gazeta e ir ao cinema com um velho? O meu filho acabou de  correr comigo do quarto 
e no conheo ningum nesta cidade.  Alm disso,  Natal. Por amor de Deus. Ento, Tan? - Tinha  aprendido o nome com o filho e ela sorriu, com vontade de lhe responder 
que tinha de regressar a casa mas, por algum motivo, no foi capaz;  queria estar com ele.
- Devia mesmo ir para casa. - Mas no convenceu nenhum deles, e  Harrison parecia alegre quando entraram na limusina.
- ptimo. Agora que j afastou isso do caminho, onde podemos  ir?
Tana riu-se como uma garotinha e ele pediu ao motorista
para os levar a passear. Por fim, compraram um jornal, escolheram um  filme de que ambos gostavam, comeram pipocas at no poderem mais  e depois foram ao L'Etoile 
para uma refeio ligeira, com bebidas  no bar. Tana sentia-se esfomiada s por estar com ele. Tentou  recordar-se do grande
grosseiro que ele era, segundo Harry, mas j no  acreditava
nisso e nunca se sentira to feliz em toda a sua vida. Quando
ele a levou de volta a Berkeley, a abraou e beijou to  naturalmente, foi como se ambos tivessem passado a vida  espera  daquele momento. Harrison olhou depois 
para ela, afagou-lhe os lbios  com a ponta dos dedos, perguntando a si prprio se deveria lamentar o  que acabara de fazer, mas sentindo-se mais novo e feliz do 
que nunca,  desde h muitos anos.
- Tana, nunca conheci ningum como tu, meu amor. - abraou-a com  fora e ela sentiu um calor e uma segurana com que nem se  atrevera antes a sonhr; ento, ele 
voltou a beij-la. Queria  torn-la sua para sempre, mas tambm se perguntava se no  estaria meio louco. Ela era a amiga de Harry. a sua garota. mas ambos  insistiam 
que eram apenas amigos; contudo, pressentia algo diferente  disso, pelo enos da parte de Harry. Olhou intensamente para ela.
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Diz-me a verdade sobre uma coisa, Tan. Ests apaixonada pelo meu  filho?
Lentamente, ela abanou a cabea. O motorista da limusi na parecia ter  desaparecido. Na verdade, tinha sado para fazer uma caminhada  discreta. Estavam estacionados 
 porta da casa de Tana.
- No. Nunca me apaixonei por ningum. at agora. - Eram  palavras corajosas para ela, mas decidiu contar-lhe logo a verdade. Ele  tinha sido sincero consigo desde 
que se haviam conhecido. - Fui violada  h quatro anos e meio. Foi como se tivesse parado tudo para mim. Como  se o meu relgio emocional tivesse parado. E nunca 
mais trabalhou,  desde ento. No sa com ningum nos primeiros dois anos a  seguir a isso. Mais tarde, o Harry obrigou-me a sair vrias vezes com  um amigo. Mas 
no foi nada de especial e aqui no saio com  ningum. Tudo o que fao  estudar. - Sorriu ternamente para  ele. Sentia-se perdidamente apaixonada pelo pai do seu 
melhor amigo.
- O Harry sabe?
- Que fui violada? - Ela anuiu. - Sim. Acabei por
lhe dizer. Achava-me esquisita e, um dia, eu disse-lhe porqu. Na  verdade, vimos o fulano numa festa e ele percebeu quem era.
- Foi algum que conhecias? - Harrison pareceu chocado.
- O filho do patro da minha me. Amante e patro, na
verdade. Foi horrvel. No. - Abanou a cabea. pior, muito pior  do que isso.
Ele voltou a abra-la e agora compreendia melhor as coisas.  Interrogou-se sobre se seria por isso que Harry no tentara ser mais  do que um amigo. Pressentiu instintivamente 
que o desejo estava ali,  mesmo que ela no soubesse o que ia na sua mente. Mas tambm sabia  o que sentia pela rapariga. Nunca estivera to atrado por  ningum 
que conhecera antes da sua mulher, h vinte e seis anos;  ento comeou a pensar na diferena de idades, interrogando-se  sobre se isso iria incomod-la. Era exactamente 
trinta anos mais  velho do que Tana e haveria quem ficasse chocado. Mas, mais importante,  ela ficaria?
- E depois? - respondeu Tana, quando ele deu voz aos
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seus receios. - Quem se importa com os outros? - Desta vez, foi ela que  o beijou, sentindo qualquer coisa a ganhar vida dentro de si, uma  paixo e desejo que s 
ele podia satisfazer.
Durante a noite, deu voltas e reviravoltas a pensar nele, tal como ele  nela. Telefonou-lhe s sete horas do dia seguinte e ele j estava  acordado e, ao mesmo tempo, 
surpreendido com o telefonema. Mas teria  ficado ainda mais, se soubesse o que ela sentia por ele.
- O que fazes acordada a esta hora, pequenina?
- Penso em ti.
Sentiu-se vaidoso, comovido e encantado, apaixonado e um milho de  outras coisas. Porm, havia muito mais do que isso. Tana confiava  naquele homem como nunca antes 
confiara em mais nenhum, nem mesmo no  filho, e ele representava muitas outras coisas, incluindo o pai que  nunca conhecera. Era todos os homens num s e, se Harrison 
pudesse  saber, talvez ficasse assustado por ela esperar demasiado dele.  Visitaram Harry, reuniram-se ao almoo, jantaram juntos nessa noite e  ele sentiu uma necessidade 
avassaladora de fazer amor com ela, mas algo  lhe disse que no podia, que era perigoso, que formaria um elo  duradouro e isso estava errado. Durante as duas semanas 
seguintes,  encontraram-se, passearam a p, beijaram-se e tocaram-se, e os  sentimentos e necessidades que tinham um pelo outro cresceram. Visitaram  Harry separadamente, 
por recearem que ele descobrisse. Por fim, um dia,  Harrison sentou-se ao lado do filho. O assunto tinha de ser abordado,  pois estava a tornar-se duro para ambos 
e no queria magoar a  rapariga. Contudo, mais do que isso, queria oferecer-lhe algo que no  oferecera a ningum durante anos: o seu corao e a sua vida.  Queria 
casar-se com ela e agora tinha de saber o que Harry sentia, antes  que fosse tarde de mais, antes que todos eles se magoassem, em especial  a nica pessoa com quem 
mais se preocupava: o seu filho. Teria  sacrificado tudo por Harry, em especial agora, at mesmo a rapariga  que amava; por isso, tinha de saber.
- Quero fazer-te uma pergunta. Sinceramente. E quero que me respondas. -  Nas duas ltimas semanas, nascera
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uma ligeira paz entre os dois homens, graas aos esforos de
Tana, e Harrison estava a gostar do resultado.
- Sobre o qu? - Harry olhou para ele, desconfiado.
- O que h entre ti e aquela rapariga encantadora? Fez um esforo  enorme para se manter sereno, os olhos calmos, e rezou para que o filho  no notasse nada, em 
particular o quanto amava a rapariga, embora  no imaginasse como 
Harry poderia no notar. Parecia-lhe que tinha na testa um
letreiro luminoso.
- A Tana? - Harry encolheu os ombros.
-J te disse, quero que me respondas. - Agora, toda
a sua vida dependia disso, e tambm a dela.
- Porqu? O que  que tens com isso? - Harry estava
inquieto e passara o dia com dores no pescoo. -J te disse
que ela  minha amiga.
- Conheo-te melhor do que isso, quer queiras
quer no.
- E depois?  tudo o que existe. Nunca dormi com
ela. - Mas isso j ele sabia, embora no o tivesse dito a
Harry.
- Isso no significa nada. Pode estar relacionado
com ela e no contigo. - No havia qualquer brincadeira
no seu olhar, nem nas palavras. No era um assunto para brincadeiras,  mas Harry deu uma gargalhada.
- L isso  verdade, pode. - Subitamente, encostou-se
s almofadas e olhou para o tecto, sentindo uma estranha
aproximao ao pai que nunca antes sentira. - No
sei, pai... Fiquei doido por ela quando nos conhecemos, 
mas ela era mais fechada do que uma pedra... Ainda . - Ento  falou-lhe da violao e Harrison fingiu estar a ouvir pela
primeira vez. - Nunca conheci ningum como ela. Julgo que sempre  soube que estava apaixonado, mas receei estragar
tudo, se lhe dissesse. Assim, ela no foge de mim. De 
outro modo, talvez. - Os olhos encheram-se subitamente
de lgrimas. - No suportaria perd-la. Preciso muito dela.
Harrison sentiu o corao pesado como uma rocha;
agora tinha de pensar no filho. Era tudo o que lhe interessava, tudo o  que da em diante passaria a interessar-lhe.
Tinha-o finalmente encontrado e no queria perd-lo de 
novo. Nem mesmo por Tana, a quem amava to desesperadamente.
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Porm, as palavras de Harry tinham-no queimado como fogo. Preciso  muito dela. O mais engraado era que o Winslow mais velho tambm  precisava dela, mas no como 
Harry, e no podia tir-la dele,  no agora. 
- Um destes dias, talvez devesses ser suficientemente corajoso para lhe  dizeres isso. Talvez ela tambm precise de ti. - Harrison acabara de  perceber quo s e 
isolada Tana tinha vivido e nem mesmo Harry  percebera isso completamente.
- E se eu perder?
- No podes viver assim, filho. Com medo de perder, com medo de  viver, com medo de morrer. Assim, nunca hs-de vencer. Ela sabe-o  melhor do que ningum.  a tal 
lio que podes aprender com  ela. - E havia tantas outras que tambm ele aprendera com ela.  Lies que agora teria de abandonar.
- Tem mais coragem do que toda a gente que eu conheo... excepto em  relao a homens. - Harry abanou a cabea. - Assusta-me  bastante, no que se refere a isso.
- D-lhe tempo. Muito tempo. - Tentou manter a voz forte. No  podia deixar que Harry percebesse. - E muito amor.
Harry ficou calado durante um longo perodo, procurando os olhos do  pai. Nas ltimas duas semanas e meia, tinham comeado a  descobrir-se um ao outro, como nunca 
antes o tinham feito.
-Achas que alguma vez ela se apaixonar por mim?
- Possivelmente. - Harrison sentiu o corao despedaar-se de  novo. - Tens muitas outras coisas em que pensar, neste preciso momento.  Mas assim que estiveres bem... 
Evitou dizer de p. - Assim que  estiveres fora daqui, podes pensar nessas coisas. - Ambos sabiam que,  sexualmente, ele no estava completamente debilitado. O mdico 
dissera a ambos que, com um pouco de criatividade, um dia Harry poderia  ter de novo uma vida sexual quase normal, poderia engravidar a esposa,  se assim o quisesse, 
o que no o excitava muito, pelo menos por  agora; mas Harrison sabia que um dia isso poderia significar muito para  ele. Teria adorado ter um filho de Tana. Esse 
mesmo pensamento quase o  fez chorar.
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Continuaram a conversar mais algum tempo e, finalmente, Harrison foi-se  embora. Devia ir jantar com Tana nessa noite mas, em vez disso, cancelou  o encontro. Explicou-lhe 
ao telefone que acabara de receber um monte de  telegramas e tinha de responder a todos. Contudo, encontraram-se no dia  seguinte  hora do almoo e Harrison foi 
sincero com ela. Era o  pior dia da sua vida, desde que a mulher falecera. Os olhos e o rosto  estavam tristes. Assim que se encontrou com ele no restaurante, Tana 
percebeu que no trazia boas notcias e sentiu o corao  parar por momentos quando ele comeou a falar, assim que se sentaram.  Percebeu imediatamente que ia dizer 
algo que ela no queria  ouvir.
- Falei ontem com o Harry. - Lutou contra as emoes que o  assaltavam. - Tive de o fazer, por ns os dois.
- Sobre ns? - perguntou, estupefacta. Ainda era mui to cedo. Ainda  nada tinha acontecido. Era um romance inocente. Mas Harrison abanou a  cabea.
- Sobre ele e o que sente por ti. Eu tinha de saber, antes de  avanarmos mais com isto. - Pegou-lhe na mo, olhou intensamente  para ela, e Tana sentiu o corao 
derreter-se de novo. - Tana,  quero que saibas desde j que estou apaixonado por ti. S amei uma  mulher na minha vida como julgo amar-te, e essa foi a minha mulher. 
Mas,  tambm tenho um filho e nunca o magoaria por nada neste mundo, por  mais filho da me que ele julgue que sou, e fui muitas vezes. Teria  casado contigo. mas 
nunca sem saber qual a posio de Harry. -  No escondeu nada dela. - Est apaixonado por ti, Tan.
- O qu? - Ficou abismada. - No est nada! 
- Est. Mas teme bastante que te assustes e fujas. Ele falou-me da  violao e da tua reaco em relao a sadas com  outros homens. Escondeu-se durante muitos 
anos, mas eu no tenho  qualquer dvida. Esteve todos estes anos apaixonado por ti. Ele  admitiu-o. - Os olhos de Harrison estavam cheios de lgrimas. - Oh,  meu 
Deus! - exclamou, chocada. - Mas eu estou. Penso. penso que nunca  poderia. 
- Tambm suspeitei disso. Mas isso  entre ti e ele, se alguma vez  ele conseguir ter a coragem de te dizer, ters enfrent-lo  sozinha. Tudo o que quis saber foi 
o que el
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sentia. Sei o que sentes agora. Soube-o antes de falar com ele. - Os  olhos dela encheram-se de lgrimas e, subitamente, os dele tambm,  quando lhe apertou ainda 
mais a mo. Querida, amo-te mais do que   prpria vida, mas se partir contigo agora, se  que o desejarias  fazer comigo, isso mataria o meu filho. Despedaar-lhe-ia 
o  corao e, talvez, destrusse algo de que ele precisa muito  neste momento. No posso fazer-lhe isso. Nem tu. Na verdade, penso  que nunca o farias.
Tana chorava copiosamente, e ele puxou-a para os braos, enquanto os  olhos se enchiam de lgrimas. No tinham nada para esconder ali,  ou em qualquer outro lugar; 
s diante do filho. Mas aquela era a  partida mais cruel que a vida pregara a Tana, at agora: o primeiro  homem que amava no podia am-la por causa do filho. o 
qual era o  seu melhor amigo e de quem gostava muito, mas no dessa forma.  Tambm no queria fazer nada que pudesse magoar Harry, mas estava  demasiado apaixonada 
por Harrison. Foi uma noite penosa e cheia de  lgrimas e lamentaes. Queria dormir com ele, mas ele no  lhe permitia que ela fizesse isso a si prpria.
- A primeira vez que isso acontecer contigo - prosseguiu ele -, depois  daquela terrvel experincia, deve ser com o homem certo. - Foi  meigo, carinhoso e abraou-a 
enquanto chorava, quase chorando  tambm.
A semana seguinte foi a mais dolorosa da vida de Tana; por fim, ele  acabou por partir de novo para Londres, e Tana sentiu-se como se tivesse  sido abandonada na 
praia. Estava sozinha com os seus estudos, com Harry  de novo. Foi todos os dias ao hospital, levou os livros consigo e estava  cansada, plida e taciturna.
- Ena, que prazer d olhar para ti. Que raio se passa contigo?  Ests doente? - Pouco faltou, por causa de Harrison, mas sabia que  ele tinha razo, por mais doloroso 
que fosse.
Ambos tinham tomado a deciso certa por algum que gostavam. Agora  era impiedosa com ele, obrigando-o a fazer o que as enfermeiras pediam,  estimulando-o, insultando-o, 
lisonjeando-o e encorajando-o, quando era  preciso. Era 
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incansvel e dedicada para alm do imaginvel e, quando Harison  telefonava do outro lado do mundo, por vezes falava com ele e sentia de  novo o corao a saltar, 
mas ele no tinha partido por querer.  Era um sacrifcio que fazia pelo filho, e Tana teve de concordar.  No lhe dera a escolher. Nem a ele, embora soubesse que 
nunca iria  recuperar do que sentia por ela. Apenas esperou que ela o conseguisse.  Tinha toda uma vida  sua frente e, talvez, o homem certo.

CAPTULO 11
O sol entrava no quarto enquanto Harry, deitado na cama, tentava ler um  livro. J tinha passado uma hora na piscina e duas de terapia e  sentia-se farto dos seus 
horrios. Tudo era igual, to  monotonamente igual que ele j no conseguia suportar. Olhou para  o relgio, pois sabia que Tana estaria ali em breve. J se  encontrava 
no Letterman h mais de quatro meses, e ela vinha v-lo  diariamente, trazendo consigo uma quantidade de papis e  apontamentos, bem como uma montanha de livros. 
Ainda mal tinha  comeado a pensar nela, quando a porta se abriu e Tana entrou. Tinha  perdido peso nos ltimos meses. Trabalhava de mais na escola e  esgotava- 
se a correr para a frente e para trs, entre Berkeley e o  hospital. O pai dele tinha-se oferecido para lhe comprar um carro, mas  ela recusara- se at a pensar 
no assunto.
-Ol, garoto, passa-se alguma coisa, ou ests a ser malcriado? -  perguntou com um sorriso, e ele deu uma gargalhada.
- s mesmo terrvel, Tan. - Mas, pelo menos, j no estava  to sensvel a tudo. Cinco semanas antes, conseguira fazer amor  com uma enfermeira-estudante, um tanto 
criativamente como dissera ao  terapeuta, mas, com alguma imaginao aqui e ali, as coisas tinham  corrido razoavelmente bem para ambos e ele nem quisera saber se 
ela  j era comprometida. No era amor verdadeiro o que tinha em mente  e no tencionava tentar a sorte com Tan. Ela significava mais, muito  mais para ele, como 
dissera ao pai, e j tinha problemas suficientes.  - O que vais fazer hoje?
Tana suspirou e sentou-se com um sorriso triste.
- O que  que eu fao sempre? Estudo toda a noite, entrego  trabalhos e fao exames. Cus, talvez no consiga sobreviver a  mais dois anos assim.
- Claro que consegues - retorquiu Harry com um sorriso. Ela era a luz da  sua vida e ter-se-ia sentido perdido sem as suas visitas dirias.
- O que te d tanta certeza? - Por vezes ela prpria 
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duvidava mas, de certo modo, continuava sempre. Sempre. No se  permitia parar. No era capaz de desapontar Harry, nem conseguia  desligar-se da escola.
- s mais corajosa do que toda a gente que eu conheo.
Hs-de vencer, Tan. - Era algo que agora davam um ao outro: coragem e  f. Quando ele ficava deprimido, ela levantava-se e zangava-se at  ele sentir vontade de 
chorar. Contudo, obrigava-o a tentar tudo o que  era suposto fazer e, quando ela achava que no conseguia passar mais  um dia em Boalt, ele fazia-lhe as perguntas 
para o exame e acordava-a  depois de ela dormir um pouco e sublinhava-lhe os livros. Mas, agora  sorriu-lhe, subitamente. - Alm do mais, o curso de Direito no 
 assim to difcil. Tenho lido alguns dos livros que deixas  aqui.
Ela sorriu. Era isso que tinha em mente. Contudo, mostrou-se indiferente  quando se virou para ele.
- Ai, sim? Ento porque no tentas?
- Porque hei-de eu queimar as pestanas?
- Que mais tens tu para fazer? A no ser ficar a sentado e  beliscar as enfermeiras? E quanto tempo ir isso durar. Em Junho,  vo correr contigo daqui para fora.
- Ainda no se sabe ao certo.
Ficou nervoso com a ideia. No sabia bem se j estava apto a  regressar a casa. E a qual casa? O pai estava sempre a viajar e agora  j no podia acompanh-lo, mesmo 
que qui sesse. Podia ir para  um hotel, claro, e havia o apartamento no Pierre em Nova Iorque, mas  isso parecia-lhe terrivelmente solitrio.
- No pareces muito animado com a ideia de regressar a casa.
Tana olhou para ele. Alguns dias antes, falara com Harrison, que estava  em Genebra, e tinham abordado o assunto. Ele ligava-lhe pelo menos uma  vez por semana para 
saber como estava Harry, e Tana sabia que ele ainda  sentia o mesmo por ela, tal como ela por ele, mas tinham tomado a  deciso e j no podiam voltar atrs. Harrison 
linslow nunca  trairia o filho. E Tana compreendia-o.
- No tenho um lar para onde ir, Tan. - Ela j tinha pen sado  nisso, mas no muito seriamente; contudo, tinha uma ideia. Talvez  tivesse chegado o momento de conversar 
com ele.
204
- Que tal vires viver comigo?
- Naquele teu quarto horrvel? - Deu uma gargalhada e pareceu  horrorizado ao mesmo tempo. - Ficar reduzido a uma cadeira de rodas  j  suficientemente mau. Alm 
disso, onde iria eu dormir? No  cho?
- No, estpido. - Desatou a rir com a careta que ele fez. -  Podamos alugar uma casa, desde que a renda fosse razovel para eu  poder pagar tambm a minha parte.
- E onde? - A ideia ainda era algo vaga, mas atraa-o.
- No sei. Talvez em Haight-Ashbury? - O movimento hippie tomara  conta daquela zona, e ela tinha dado um passeio por l muito  recentemente. Mas estava a espica-lo. 
A menos que vestissem  tnicas graciosas e estivessem permanentemente sob efeito de LSD,  teria sido impossvel tolerar viver ali. - A srio, podamos  encontrar 
um stio, se procurssemos.
- Teria de ser um rs-do-cho. - Olhou pensativo para a cadeira de  rodas encostada aos ps da cama.
- Eu sei. Mas tambm tenho outra ideia. - Decidiu atirar-lhe com tudo  de uma s vez.
- O qu mais? - Encostou-se s almofadas e olhou, feliz, para ela.  Apesar de aqueles meses terem sido difceis, dera-lhes algo muito  especial para partilhar e 
estavam to unidos como nenhum dos dois  alguma vez pensara que dois seres pudessem ficar. - Sabes, nunca me  ds um minuto de paz: Tens sempre o raio de um estratagema 
ou plano.  Deixas-me exausto, Tan. - Mas no era uma queixa.
- Faz-te bem. Sabes disso. - Sabia, mas nunca lhe daria a  satisfao de o admitir.
- Ento, qual  a tua ideia?
- Que tal concorreres para Boalt? - Susteve a respira o e ele  olhou- a, estupefacto.
- Eu? Ests doida? Que raio iria eu fazer ali?
- Provavelmente copiar mas, se no o conseguisses, po dias passar as  noites a estudar tanto quanto eu. Terias algo que fazer, para alm de  meteres o dedo no nariz. 
- Que imagem to encantadora que tens de mim, minha querida. -  Fez-lhe uma vnia da cama e ela riu. - Por amor de Deus, porque irei  eu torturar-me no curso de 
Direito? No preciso de fazer nada assim  to pateta.
205
- Serias bom nisso. - Olhou seriamente para ele, e Harry sentiu vontade  de discutir com ela, mas o pior  que
gostou da ideia.
- Ests a tentar arruinar a minha vida.
- Sim. - Sorriu. - Vais concorrer?
- Provavelmente no conseguirei entrar. As minhas notas nunca foram  to boas quanto as tuas.
-J perguntei, e podes concorrer como veterano. Talvez te abram uma  excepo. - Disse-o de uma forma cau telosa, mas ele acabou por se  sentir aborrecido.
- No te preocupes com isso. Se tu entraste, eu tambm entrarei. -  E o mais estranho foi que ele, subitamente, teve vontade de entrar.  Perguntou a si prprio se 
no o desejaria j h muito.  Talvez se sentisse posto de parte com tudo aquilo que ela estudava,  enquanto ele nada mais tinha para fazer a no ser deitar-se e 
ver as  mudanas de turno das enfermeiras.
No dia seguinte, ela trouxe- lhe os formulrios e ambos matutaram  interminavelmente neles; por fim, enviaram-nos. Por essa altura, Tana  j andava a ver apartamentos 
para eles. Teria de ser o apartamento  certo e algo que se adequasse a Harry.
Tinha acabado de ver dois de que gostara, quando a me lhe telefonou  numa tarde dos finais de Maio. No era habitual j estar em casa,  mas tinha de tratar de alguns 
assuntos e sabia que Harry estava bem. Uma  das raparigas do fundo do corredor bateu-lhe  porta. Deduziu que era  Harry a querer saber como eram os apartamentos. 
Um deles ficava no  Piedmont e, presunoso como ele era, sabia que iria gostar mais  daquele, mas quis ter a certeza de que poderia pag-lo. No tinha  as posses 
dele, embora tivesse arranjado um emprego para esse Vero.  Talvez depois disso. 
- Est l? - Ouviu-se o rudo de chamada de longa distncia,  e o corao dela parou. Interrogou- se sobre se seria Harrison  linslow a ligar-lhe de novo. Harry 
nunca percebera o que se tinha  passado entre eles ou, mais importante, o que poderia ter-se passado e o  sacrificio que eles haviam feito. - Estou?
- Tana? - Era Jean.
206
- Oh, ol, me.
- Passa-se alguma coisa? - Parecia estranha, no incio.
- No. Pensei que fosse outra pessoa. O que foi? Era uma hora  invulgar para a me ligar. Talvez Arthur tivesse tido outro ataque  cardaco. Ficara em Palm Beach 
durante trs meses e Jean  permanecera ao seu lado. Ann, John e Billy tinham regressado a Nova  Iorque, e Jean ficara l para o ajudar a recuperar a sade, mesmo 
depois de ter sado do hospital. S se encontravam em Nova Iorque  h dois meses e ela devia ter estado muito ocupada, pois agora Tana  quase nunca recebia notcias.
- No tinha a certeza se estarias a a esta hora. - Parecia  nervosa, como se no soubesse bem o que dizer.
- Normalmente estou no hospital, mas tive coisas para fazer aqui.
- Como est o teu amigo?
- Melhor. Sai daqui a cerca de um ms. Eu acabei de ver alguns  apartamentos para ele. - Ainda no lhe tinha dito que estavam a  pensar ir viver juntos. Fazia sentido 
para ela, mas sabia que no o  faria para Jean.
- Ele consegue viver sozinho? - perguntou a me, surpreendida.
-Provavelmente, se assim tiver de ser, mas penso que no.
- Isso  bom. - No percebeu o que aquilo significava, pois tinha  outras coisas em que pensar. - Quero dizer-te uma coisa, querida.
- O qu?
No sabia bem como Tana iria reagir, mas no podia fugir por mais  tempo ao assunto.
- O Arthur e eu vamo-nos casar. - Susteve a respirao do seu lado  e Tana olhou para o bocal.
- Vocs vo o qu?
- Casar. Eu. Ele acha que estamos velhos. que fomos uns tolos durante  tempo suficiente. - Repetiu algumas das palavras que ele lhe dissera  h apenas alguns dias, 
        chorando furiosamente e, ao mesmo tempo,  temendo o que ela pudesse dizer. Sabia que ela no gostava de Arthur,  mas talvez agora. 
207
- A me no foi tola esse tempo todo. Ele foi. J devia ter-se  casado consigo h, pelo menos, quinze anos. - Franziu a testa por um  momento, a matutar no que Jean 
lhe dissera. -  isso que quer mesmo  fazer, me? Ele j no  novo e est doente. Quase  guardou o pior para si. - Era duro mas verdadeiro pois, at ter o  ataque 
cardaco, nem sequer quisera casar com ela. Nunca pensara  nisso durante anos; na realidade, nunca o fizera desde que a mulher  regressara do hospital, h dezasseis 
anos. Mas, subitamente, tudo  mudara, e ele apercebera-se da sua mortalidade. - Tem a certeza?
- Sim, Tana, tenho. - De sbito, a me parecia estranhamente  calma. Fora por aquilo que esperara quase vinte anos e nunca desistira  por nada, nem mesmo pela sua 
nica filha. Tana agora tinha a sua  prpria vida, e ela no tinha nada, sem Arthur. Sentia-se grata  por ele, finalmente, se casar consigo. Teriam uma vida confortvel 
e  calma e ela, por fim, podia descansar. Todos aqueles anos de solido  e preocupaes, de ser que vir, ser que passar por  aqui, devria lavar o cabelo para 
o caso de. e ele no aparecia  durante duas semanas, at Tana ficar com gripe e ela prpria se  constipar. Tudo terminava agora e a vida real estava prestes a  comear. 
Finalmente. Merecia ter alguma coisa boa na vida. 
- A certeza absoluta.
-Est bem, ento. - Tana no parecia entusiasmada. - Acho que  devia dar-te os parabns, ou algo do gnero. - Mas, de certa  forma, no lhe apeteceu. Parecia-lhe 
uma vida burguesa bastante  aborrecida e, depois de todos aqueles anos a ver Jean sentada   espera dele, teria gostado de a ver mand-lo para o inferno. Mas essa 
era a maneira de pensar de uma jovem e no de Jean. - Quando  o  casamento?
- Em Julho. Tu vens, querida? - Pareceu de novo
nervosa.
Tana j tinha planeado ir passar um ms a casa. J tratara de  tudo em relao ao emprego de Vero. Estava a trabalhar num  escritrio de advogados da cidade, e 
eles compreenderam, ou foi o que  lhe disseram.
- Vou tentar. - Ento, teve uma ideia. - O Harry pode ir?
208
- Nnma cadeira de rodas? - A me pareceu horrorizada, e algo  endureceu, instantaneamente, no olhar de Tana.
- Obviamente. Ele no tem outra hiptese.
- Bem, no sei. Penso que seria embaraoso para ele. quero dizer,  toda aquela gente, e. terei de pedir a opinio do Arthur. 
- No se preocupe. - As narinas de Tana dilataram-se, e ela sentiu  vontade de estrangular algum, sobretudo Jean. De qualquer modo,  no vou poder ir.
As lgrimas saltaram imediatamente dos olhos de Jean. Sabia o que  tinha acabado de fazer, mas porque seria Tana to dificil? Era  teimosa em relao a tudo.
- Tana, no faas isso, por favor. que. Porque tens de o arrastar  contigo.
- Porque est h seis meses deitado num hospital e no v  mais ningum seno eu e talvez fosse bom para ele. Ser que  isso lhe ocorreu? Para no mencionar o facto 
de isto no tr  acontecido num acidente de automvel. Aconteceu por defender o  maldito pas onde, seja como for, no temos o direito de viver, e  o mnimo que 
se pode fazer por ele agora  mostrar-lhe alguma  gratido e cortesia. - Estava cega de raiva e Jean ficou  aterrorizada.
- Claro. eu compreendo. No h razo para ele no vir... - E  depois, sem mais nem menos, continuou. OJhn e a Ann vo ter outro  filho, sabes?
- Que raio tem isso a ver com tudo o resto? - Tana estva lvida.  No valia a pena conversar com ela. J no viam as coisas da  mesma maneira. Tana quase desistiu.
- Bem, podias pensar nisso num destes dias. J no s muito  nova, querida. Tens quase vinte e trs anos.
- Estou a estudar Direito, me. Faz ideia do que isso significa? O  quanto trabalho dia e noite? Faz ideia do ridculo que seria eu  pensar agora em casamento e 
bebs?
- Sabes, ser sempre assim, se passares todo o teu tempo com ele. -  Tornava a implicar com Harry.
- De modo algum. - Os olhos faiscavam, mas a me no podia  v-la. - Sabe. ele ainda consegue p-lo de p! 
- Tana! - Jean ficou estarrecida com a vulgaridade de Tana. - Que coisa  mais horrvel de dizer.
209
- Mas era isso que queria saber, no era? Bem, pode ficar descansada,  me, ele ainda funciona. Soube que teve relaes com uma  enfermeira h alguns dias atrs, 
e ela disse que foi ptimo. -  Estava a reagir como um co que se recusa a largar a presa, e a  me ali estava pendurada pelo pescoo, incapaz de escapar. -  Sente-se 
melhor agra?
- Tana Roberts, aconteceu alguma coisa por a. - Numa fraco  de segundos, Tana pensou nas horas estafantes que passava a estudar, no  amor que sentia por Harrison, 
sem qualquer proveito, no sofrimento  profundo por ver Harry regressar invlido do Vietname. A me tinha  razo. Tinha acontecido alguma coisa. Na verdade, muita 
coisa.
- Penso que cresci. Nem sempre  muito bonito, no ,  me?
- No tem de ser feio ou malcriado, excepto na Calif nia, suponho  eu. A na faculdade devem ser todos uns selvagens.
Tana deu uma gargalhada. As duas viviam em mundos
diferentes.
- Acho que sim. De qualquer modo, parabns, me.
Subitamente ocorreu-lhe que ela e Billy iriam ser agora meios-irmos  e a ideia quase a fez sentir-se mal. Ele iria estar no casamento e isso  era quase mais do 
que podia suportar. - Tentarei estar em casa a  tempo.
- Est bem. - Jean suspirou, pois era exaustivo conversar com ela. -  E traz o Harry, se quiseres.
- Perguntar-lhe-ei se quer ir. Mas primeiro tenho 
que o tirar do hospital e temos de mudar. - Tropeou naquilo e do  outro lado houve um silncio ensurdecedor. Aquilo era realmente de  mais.
- Vais viver com ele? 
Tana respirou fundo.
- Sim, vou. Ele no consegue viver sozinho.
- O pai que contrate uma enfermeira. Ou ser que vo pagar-te um  salrio? - Quando queria, sabia ser to dura quanto Tana, mas a  filha continuou, impvida, para 
com ela.
- De modo algum. Vou dividir a renda com ele: 
- Deves estar louca. O mnimo que ele podia fazer era casar-se  contigo, mas eu nunca o permitiria.
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- No, no permitiria. - Tana soou estranhamente calma. - No,  se eu quisesse casar com ele, mas no quero. Por isso, acalme-se.  Me. Sei que isto  duro para 
si, mas tenho de viver a vida   minha maneira. Acha que pode tentar apenas aceitar isso? - Houve uma  longa pausa e Tana sorriu. - Eu sei que no  fcil. - E  
depois, subitamente, ouviu Jean a chorar do outro lado.
- No vs que ests a estragar a minha vida?
- Como? Por ajudar um amigo? Que mal existe nisso?
- Porque acordars na prxima semana e ters quarenta anos e  tudo ter terminado, Tan. Ters desperdiado a tua juventude,  tal como eu o fiz, mas pelo menos a 
minha no
foi um desperdcio total pois eu tive-te.
 - Talvez, um dia, eu tambm tenha filhos. Mas, neste omento, no  penso nisso. Estou a seguir o curso de Direito para ter uma carreira e  fazer algo de til com 
a minha vida.
Depois disso, pensarei em tudo o resto. Como a Ann. - Era uma indirecta,  mas amigvel, e Jean no percebeu.
- No podes ter um marido e uma carreira.
- Porque no? Quem lhe disse isso?
-  verdade, s isso.
- Que disparate.
- No, no , pois se continuares com esse Winslow o tempo  suficiente, acabars por casar com ele. E agora ele  deficiente.  No precisas de um sofrimento como 
esse. encontra outra pessoa, um  rapaz normal.
- Porqu? - Tana enterneceu-se. - Ele tambm  normal. Na  verdade, ainda mais do que a maioria.
- Mal conheces outros rapazes. Nunca sais. - Graas ao seu querido  enteado, me. 
Na realidade, nos ltimos tempos, era devido ao curso. Desde que  conhecera Harrison, comeara a pensar de outro modo em relao  aos homens; em certos aspectos, 
confiava e abria-se mais e, no entanto,  ningum chegara ao seu corao como ele. Fora muito bom para  ela. Teria sido maravilhoso encontrar algum como ele. Mas, 
agora,  nunca tinha tempo para sair com ningum. Entre as idas dirias ao  hospital e a preparao para os exames. todos se queixavam disso.  O curso de Direito 
era suficiente para destruir qualquer
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possvel relao, e comear uma nova era quase  impossvel.
- Espere somente mais dois anos, me. Nessa altura, serei advogada e  ter orgulho em mim. Pelo menos, espero que tenha. - Mas, naquele  momento, nenhuma delas estava 
completamente certa disso. 
- S quero que tenhas uma vida normal.
- E o que  normal? A sua vida foi normal, me?
- Comeou por ser. No foi por minha culpa que o t pai foi morto e  as coisas mudaram depois disso.
- Talvez no, mas foi por sua culpa que esperou quase vinte anos que  o Arthur Durning se casasse consigo. - E a verdade era que, se no  tivesse tido o ataque cardaco, 
talvez nunca se casasse com ela. - A  escolha foi sua. Eu tambm tenho o direito de fazer as minhas  escolhas.
- Talvez tenhas razo, Tan.
No compreendia muito bem a rapariga e j nem sequer
fingia compreender: Ann Durning parecia ser muito normal para ela.  Queria o que todas as outras raparigas queriam: um marido, uma casa,  duas crianas, roupas bonitas; 
se cometera um erro, fora  suficientemente inteligente para fazer melhor na segunda vez. O marido  acabara de lhe comprar um belssimo anel de safiras Cartier, e 
era  isso que queria para a sua filha; Tana, porm, no queria saber de  nada daquilo.
-Telefonar-lhe-ei em breve, me. E d tamb
os meus parabns ao Arthur. Neste caso, ele  que  o  felizardo, mas espero que a me tambm seja feliz.
- Claro que serei. - Mas no lhe pareceu, quando desligou.
Tana tinha-a enervado de mais e ela contou a Arthur, mas ele apenas lhe  pediu que se acalmasse. A vida era demasiado curta para deixar que os  filhos dessem cabo 
de tudo. Ele nunca deixara. Alm disso, tinham  outras coisas para pensar. Jean ia redecorar a casa de Greenwich e ele  compraria um condomnio fechado em Palm Beach, 
assim como um pequeno  apartamento na cidade. Venderiam o apartamento que ela tinha na cidade.  Tana ficou boquiaberta quando soube disso.
212
- Raios, eu j no tenho uma casa! - Estava chocada quando contou  a Harry, mas ele no pareceu impressiondo.
- Eu no tive uma durante muitos anos.
- Respondeu-me que haveria sempre um quarto para mim, onde quer que  vivessem. Consegues imaginar-me a passar uma noite na casa de Greenwich,  depois do que aconteceu 
ali? Terei pesadelos, s de pensar nisso.  Nunca irei para l. - Aquilo deixou-a mais deprimida do que quis  admitir a Harry. Sabia que o que Jean queria era casar 
com Arthur mas,  de certa forma, isso parecia-lhe muito deprimente. Era uma coisa to  classe mdia, to aborrecida e burguesa, disse para consigo. Mas o  que realmente 
a incomodava era que Jean ainda vivesse em funo de  Arthur, apesar de tudo o que passara  custa dele, ao longo de todos  aqueles anos. Contudo, quando contou 
aquilo a Harry, este ficou  aborrecido com ela.
- Sabes que te transformaste numa radical? Isso aborrece-me bastante,  Tan.
-J alguma vez te ocorreu que s mais da direita do que o que  devias? - perguntou, comeando a ficar zangada.
- Talvez seja, mas no h nada de errado nisso. H certas  coisas em que acredito, Tan, e no so radicais, nem esquerdistas  ou mesmo revolucionrias, mas penso 
que boas.
- E eu penso que s um pretensioso. - Havia nas suas palavras uma  veemncia pouco habitual, mas j tinham discordado sobre o  Vietname vrias vezes. - Como raio 
podes defender o que aqueles  estpidos esto l a fazer? Ele deu um salto e olhou para ela;  fez-se um silncio tenso no quarto.
- Porque fui um deles. Eis a razo.
-No foste nada. Foste um peo. No vs isso, seu  grandessssimo idiota? Eles usaram-te para combateres numa guerra que  no era nossa, num lugar onde no devamos 
estar.
A voz dele soou profundamente calma, quando olhou para ela.
-Talvez eu pense que devamos.
- Como podes tu dizer uma estupidez dessas? V o que aconteceu l!  
213
- Essa  que  a questo. - Inclinou-se para a frente na
cama e pareceu que a queria estrangular. - Se eu no defender isso.  se eu no acreditar na razo por que estava l, en to que  raio fui eu l fazer? - As lgrimas 
afloraram-lhe subitamente, aos  olhos, e ele continuou: - Que significado tem tudo aquilo, Tan?. Para  que lhes dei eu as minhas pernas, se no acreditar neles? 
Responde-  me! - A voz dele ouvia-se em todo o corredor. - Eu tenho de acreditar  neles, no  assim? Porque, se no o fizer, se acreditar  naquilo que fazes, ento, 
tudo aquilo foi uma farsa. Mais valia que  tivesse sido atropelado por um comboio, em Des Moines... Virou a cara e  comeou a chorar copiosamente, e ela sentiu-se 
muito mal. Depois, ele  voltou-se para ela, ainda furioso. Agora, desaparece do meu quarto, sua  cadela insensvel e radical! 
Ela saiu e chorou durante todo o percurso de regresso  escola. Sabia  que ele tinha razo. por ele. No podia ser como ela e, no  entanto, desde que Harry regressara 
do Vietname, algo comeava a  criar nela uma fria cega, uma nsie de raiva que nada fazia  desaparecer, nem possivelmente desapareceria nunca. Uma noite, falou 
ao  telefone com Harrison sobre aquilo, e ele atribuiu-o  juventude; no  entanto ela sabia que no era apenas isso, era algo mais. Estava  furiosa com todos, porque 
Harry tinha sido mutilado... o presidente dos  Estados Unidos tinha sido assassinado ano e meio antes. Como  que as  pessoas no viam o que estava a acontecer, 
o que tinham de fazer?.  Tana, porm, no queria magoar Harry com tudo aquilo.  Telefonou-lhe a pedir desculpas, mas ele no quis falar com ela. E,  pela primeira 
vez em seis meses e meio, desde que ele fora para  Letterman, no foi v-lo durante trs dias. Quanddo finalmente  apareceu, estendeu-lhe um ramo de oliveira atrs 
da porta e entrou no  quarto, com um ar envergonhado.
- O que queres? - perguntou Harry.
Tana tentou sorrir.
- Na realidade, a renda.
Ele tentou esconder um sorriso. J no estava zangado com ela.  Bom, ela tinha-se transformado numa radical. E depois? Era disso que se  tratava em Berkeley,
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havia de voltar ao normal, e ele estava intrigado com o que ela acabara  de dizer.
- Encontraste uma casa?
- Claro que sim. - Sorriu para ele. - Fica em Channing lay.  uma  pequena casa de dois quartos, com uma sala de estar e uma kitchenette.  tudo num nico piso. Por 
isso, ters de comportar-te o melhor  possvel ou, pelo menos, dizer s tuas amiguinhas para no  gritarem muito alto. - Ambos se riram, e Harry pareceu extasiado 
com as  notcias. - Vais ador- la! - Bateu palmas e descreveu-a em  pormenor.
Nesse fim-de-semana, o mdico permitiu que ela o levasse at  l. A ltima das operaes fora feita seis semanas antes e a  terapia ia bem. Tinham feito o possvel 
por ele. Estava na hora de ir  para casa. Harry e Tana assinaram o contrato, assim que ele a viu. O  senhorio no pareceu opor-se ao facto de terem nomes diferentes, 
e  nenhum deles se ofereceu para explicar. Tana e Harry apertaram a mo  com ar de satisfao, e ela levou-o de volta ao Letterman. Duas  semanas mais tarde, mudaram-se 
para l. Ele teve de organizar  transporte para a terapia, mas Tana prometeu lev-lo. Na semana  posterior aos exames, ele recebeu uma carta a felicitarem-no por 
ter  sido aceite em Boalt. Sentou-se na cadeira de rodas  espera que ela  entrasse, com as lgrimas a correren pela cara abaixo.
- Eles aceitaram-me, Tan. e a culpa  tua. - Abraaram-se,  beijaram-se. Nunca a amara tanto. Tudo o que ela sabia era que ele era o  seu amigo mais querido. Fez 
o jantar nessa noite, e Harry abriu uma  garrafa de champanhe Dom Perrignon.
- Onde arranjaste isso? - perguntou, abismada.
- Tenho estado a poup-la.
- Para qu? - Tinha-a poupado para outra coisa, mas achara que j  tinham acontecido suficientes coisas boas num s dia que merecessem  ser comemoradas.
- Para ti, sua parva. - Ela parecia no se recordar da razo dele.  Mas Harry amava isso nela. Estava to empenhada nos estudos, nos  exames, no emprego de Vero 
e nas suas polticas que no fazia  ideia do que se passava mesmo
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 frente do seu nariz, pelo menos em relao a ele; de qualquer  modo, ele ainda no se considerava pronto. Ainda deixava o tempo  passar, com medo de a perder.
-  bom. - Tana deu um grande gole no champanhe e sorriu para ele,  meio tonta, feliz e descontrada. Ambos adoravam a sua casinha e tudo  corria na perfeio; ento, 
lembrou-se que tinha algo para lhe  perguntar. J o quisera fazer antes, mas, com a pressa de mudar e  comprar mveis, esquecera-se do assunto. - Escuta, a propsito, 
detesto ter de te pedir isto. Sei que vai ser aborrecido. mas. 
- Meu Deus, o que foi agora? Primeiro, ela obriga-me a ir para o curso  de Direito e, agora, s Deus sabe que outra tortura tem em mente. -  Fingiu estar aterrorizado, 
mas Tana estava sinceramente soturna.
-  pior do que isso. A minha me vai casar-se daqui a duas  semanas. - J lhe tinha contado isso h muito tempo, mas no  lhe pedira para ir ao casamento com ela. 
- Vens comigo?
- Ao casamento da tua me? - Olhou surpreendido enquanto pousava o  copo. - Ser apropriado?
- No vejo porque no. - Hesitou e depois continuou,
com os olhos muito abertos. - Preciso de ti. l.
- Deduzo que o seu encantador enteado vai estar
presente.
- Provavelmente. E tudo aquilo  um tanto de mais para mim. Bem como  a feliz filha casada, com um filho e outro a caminho, e o Arthur  fingindo que ele e a minha 
me se apaixonaram apenas na semana  passada.
-  isso que ele diz? - Harry pareceu divertido, e encolheu os  ombros.
- Talvez. No sei. Tudo isso  muito duro para mim. No me  entra na cabea. 
Harry pensou no assunto, com os olhos fixos nela.
Ainda no tinha sado na cadeira de rodas e pensara ir  Europa  ter com o pai. Podia parar no caminho. O principal era ela. Nunca  poderia negar-lhe nada, depois 
de tudo o que fizera por ele.
- Claro, Tan, no me custa nada.
- De certeza que no te importas? - Olhou-o, grata, e Harry riu.
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- Claro que no. E tu tambm no. Pelo menos, podemos rir  juntos.
- Estou feliz por ela. S que. j no consigo fazer parte  daqueles jogos hipcritas.
- S tens de te portar bem, enquanto l estivermos. Podemos ir de  avio e eu seguirei para a Europa, no dia a seguir. Pensei reunir-me  ao meu pai no Sul de Frana, 
durante algum tempo.
Sabia bem ouvi-lo falar daquelas coisas, de novo. Era espantoso  compreender que, apenas h um ano, ele tinha dito que no iria  divertir-se para o resto da vida, 
e agora, graas a Deus, ia  divertir-se de novo, pelo menos durante um ou dois meses, antes de  iniciar o curso de Direito no Outono.
- No sei como  que conseguiste convencer-me. - prosseguiu  ele.
Ambos estavam felizes com isso. Tudo corria perfeitamente bem. Tinham  dividido as tarfas da casa. Tana fazia tudo o que ele no  pudesse, mas Harry era capaz de 
fazer aita muita coisa, desde a lavagem  da loia s camas, embora, naquela semana, quase se tivesse  estrangulado a aspirar; agora, a tarefa cabia a Tan. Sentiam-se 
bem  assim. Ela estava prestes a iniciar o emprego de Vero. Ambos  pensavam que a vida era fabulosa, no Vero de 65. Em Julho, Harry  enganou duas hospedeiras no 
voo para Nova Iorque, e Tana deixou-se ficar  sentada na cadeira, rindo-se dele, gozando cada minuto e agradecendo a  Deus que Harry Linslow IV estivesse vivo.

CAPTULO 12
O casamento foi simples e bem organizado. Jean levou um vestido de  chiffon cinzento, muito bonito, e comprou outro azul, muito claro, para  Tana vestir, caso ela 
no tivesse tido tempo para ir s compras.  No era certamente o tipo de coisa que ela teria comprado e ficou  hororizada quando viu a etiqueta do preo. A me tinha-o 
adquirido  na Bergdorf e era um presente de Arthur, claro, por isso Tana nada  pde dizer.
S os familiares estavam presentes na cerimnia, mas Tana  insistira em levar Harry consigo, para grande vergonha dele, uma vez que  chegaram da cidade na mesma 
limusine. Tana ficou com ele no Pierre.  Insistira com a me que no o podia deixar sozinho. E sentiu-se  aliviada por a me e Arthur partirem em lua-de-mel no dia 
seguinte;  afinal, no tinha de ficar em Nova Iorque por um perodo mais  longo. Teria recusado ficar na casa de Greenwich e sairia de Nova Iorque  quando Harry 
partisse. Ele ia para Nice, a fim de se encontrar com  Harrison em Saint Jean-Cap-Ferrat, e ela ia regressar a So  Francisco, para o emprego de Vero. Jean e Arthur 
pensavam ir  visit-la no Outono. A me olhava intensamente para Harry, sempre  que falava nisso, como se esperasse que ele j tivesse desaparecido  nessa altura; 
Tana acabou por se rir de tudo aquilo.
-  realmente terrvel, no ?
No entanto, o pior de tudo foi Billy, que conseguiu
sentar-se quase ao lado dela durante toda a tarde, bbedo sempre, e  fazer alguns comentrios hipcritas sobre o amigo no ser capaz  de o pr de p e ele poder 
ajudar quando ela quisesse,  lembrando-lhe que ela era um rabo bastante jeitoso; mas, assim que Tana  levantou o brao em direco  boca dele, viu um outro muito 
maior no queixo de Billy e este a dar um passo para trs, at cair  redondo na relva. Tana virou-se e viu Harry a sorrir na cadeira de  rodas, mesmo atrs de si. 
Tinha conseguido esticar-se para derrubar  Billy com um soco e sentia-se imensamente satisfeito consigo  prprio.
218
- Sabes, apeteceu-me fazer isto no ano passado. Sorriu para ela, mas a  me estava horrorizada com o comportamento deles. Assim que puderam,  Tana e Harry entraram 
na limusina e regressaram a Nova Iorque. Antes  disso, ouve uma despedida cheia de lgrimas entre Tana e Jean. Pelo  menos, Jean chorou e Tana ficou tensa. Arthur 
deu-lhe um beijo na face e  declarou que ela agora tambm era sua filha e no precisava de  mais bolsas de estudos. Mas Tana insistiu que no podia aceitar tal  
presente. Estava desejosa de se afastar de todos eles, em especial da  enjoada e grvida Ann, com a sua voz queixosa, as suas aparatosas  pedras preciosas e o seu 
enfadonho marido, que passou a tarde a fazer  olhinhos  mulher de outro.
- Credo, como  que eles conseguem viver assim?perguntou furiosa a  Harry no regresso a casa e ele deu-lhe uma palmadinha no joelho.
-Vamos l, um dia ir acontecer-te a mesma coisa, mida.
- Oh, vai-te foder! 
Ele deu uma gargalhada e regressaram ao Pierre. Os dois partiam no dia  seguinte e, nessa noite, ele levou-a ao 21. Todos ficaram felizes por  v-lo ali, embora 
tristes por o saberem agora numa cadeira de rodas.  E, em nome dos tempos antigos, beberam champanhe em excesso e estavam  bbedos quando regressaram ao hotel. Bbedos 
o suficiente para  Harry fazer algo que prometera a si prprio que s faria da a  um ou dois anos. J iam na segunda garrafa de Roederer depois de  terem passado 
o dia a beber, quando ele se virou para ela com um olhar  meigo, tocou-lhe no queixo e, inesperadamente, a beijou nos  lbios.
- Sabes que estive sempre apaixonado por ti? - No incio, Tana ficou  estupefacta mas, depois, pareceu que ia comear a chorar.
- Ests a brincar comigo.
- No estou, no.
A me dela teria razo? Teria Harrison?
- Mas isso  ridculo. No ests apaixonado por mim. Nunca  estiveste - retorquiu, meio bria.
- Oh sim, estou. Estive sempre. - Ela olhou para ele e arry pegou-lhe na  mo. - Casas-te comigo, Tan?
219
- s doido. - Retirou a mo, levantou-se e os olhos encheram-se  subitamente de lgrimas. No queria que ele estivesse apaixonado  por ela. Queria que fossem amigos 
para sempre, s amigos, nada mais  do que isso. E ele estava a estragar tudo. - Porque dizes isso?
- No consegues amar-me, Tan? - Agora, era ele quem parecia que ia  chorar e Tana sentiu-se mais sbria do que em toda a noite.
- No quero estragar o que temos.  demasiado precioso para mim.  Preciso demasiado de ti.
- Eu tambm preciso de ti. Essa  que  a questo. Se nos  casarmos, ento ficaremos juntos para sempre. - Mas ela no podia  casar-se com ele. ainda estava apaixonada 
por Harrison. era uma loucura  aquilo tudo. 
Deitou-se na cama e chorou, nessa noite; Harry nem chegou a deitar-se.  Estava  espera dela, quando Tana saiu do quarto na manh  seguinte, com aspecto cansado 
e plido e olheiras. Queria voltar a  ter o que tinham antes e ainda no era tarde. Isso significava tudo  para ele. Podia viver sem ser casado com ela, mas no 
suportava  perd-la.
- Lamento o que se passou ontem  noite, Tan.
- Eu tambm. - Sentou-se junto a ele na espaosa sala de visitas  do quarto. - E agora o que vai acontecer?
- Vamos atribuir o facto a uma noite de bebedeira. Foi um dia duro para  ambos. o casamento da tua me. a minha primeira sada social em  cadeira de rodas. nada 
especial. Podemos pr tudo para trs das  costas. Tenho certeza. - Rezava para que ela concordasse com ele; e,  certamente, Tana abanou a cabea enquanto o corao 
dele se  despedaava.
- O que foi que nos aconteceu? Tu realmente estiveste. apaixonado por  mim todo este tempo?
- Parte dele. s vezes, odeio a tua coragem. - A seguir riram e ela  sentiu um pouco do que havia antigamente; depois, colocou os braos  ao redor do pescoo dele. 
- Amar-te-ei sempre, Harry. Sempre. 
-  s isso que quero saber. - Teria desatado a chorar se no  se controlasse mas, em vez disso, chamaram o servio de quartos,  riram- se, e meteram-se um com o 
outro,
220
tentando desesperadamente recuperar o -vontade que tinham
antes.         
Quando, nessa tarde, viu o avio dele a levantar voo, 
Tana tinha os olhos rasos de lgrimas. Talvez nunca mais        
nada voltasse a ser o mesmo, mas estaria muito prximo.
Fariam por isso. Ambos tinham investido de mais um no
outro at ali para deixar que uma pequena coisa estragasse
tudo.         
Quando Harry chegou finalmente a Cap Ferrat com o        
 mtorista, o pai atravessou a relva a correr para ajudar o filho a  sair e a sentar-se na cadeira de rodas, apertando-lhe poderosamente o  brao e olhando para 
ele.         
- Ests bem, filho? - Havia algo nos olhos de Harry        
que o preocupava.
- Mais ou menos.
Parecia cansado. A viagem tinha sido longa, dois longos        
dias, e desta vez no se metera com as hospedeiras. Pensara        
 em Tana durante todo o percurso at Frana. Ela seria sempre o  seu primeiro grande amor, a mulher que o trouxera de
volta  vida. Sentimentos assim no podiam perder-se e, se
ela no queria casar-se com ele... no tinha outra  escolha.        
Tinha de aceitar. Pde ver nos olhos dela que o amor no        7
estava l. Por mais que doesse, sabia que agora era obrigado
a aceitar isso. Mas no ia ser fcil para ele. Tinha esperado  tanto tempo para lhe dizer o que sentia e, agora, tudo estava acabado.  Nunca mais voltaria a acontecer 
entre os dois.
A ideia dessa realidade fez com que as lgrimas lhe aflorassem aos  olhos e Harrison tomou os ombros do filho nas        
suas poderosas mos.         
- Como est a Tana? - perguntou Harrison, preocupado, e por um  momento, viu Harry hesitar; ento,         
compreendeu de imediato. Harry tinha tentado e perdido.
O pai ficou comovido.
- A Tana est bem... - Tentou sorrir. - Mas  difcil.
- Sorriu enigmaticamente e o pai compreendeu logo.
Sabia que isso aconteceria um dia.
-Ah, sim. - Sorriu, quando uma bonita rapariga
atravessou a relva, despertando a ateno de Harry que, por
um breve momento, afastou Tana da sua mente. Ento, os
221
olhos dos dois homens encontraram-se e Harry sorriu, lentamente. -  Hs- de conseguir superar isso, filho.
Por um instante, Harry voltou a sentir um n na garganta e, depois,  com uma forte gargalhada, murmurou: 
- Vou tentar.

CAPTULO 13
No Outono, quando Harry regressou da Europa, estava bastante bronzeado,  feliz e calmo. Tinha acompanhado o pai a todo o lado: ao Mnaco, a  Itlia, a Madrid por 
alguns dias, Paris, Nova Iorque. Fora de novo  uma vida atribulada, uma vida da qual se sentira to posto de parte  quando garoto mas, subitamente, havia nela um 
lugar reservado para  ele.
Mulheres belas, raparigas bonitas, galas, concertos e festas  interminveis, e reunies sociais. Na realidade, estava cansado  daquilo, quando finalmente entrou 
no avio em Nova Iorque e voou para  o Oeste. Tana foi esper-lo ao aeroporto de Oakland e parecia to  segura de si quanto antes. Tinha um aspecto saudvel e bronzeado, 
os  cabelos loiros a esvoaarem ao vento; adorara o emprego de Vero,  fora passar alguns dias a Malibu com amigos que fizera no emprego e  falava em ir ao Mxico 
durante as frias. Quando as aulas  comearam, passavam o tempo juntos e, contudo, afastados. Ela  deixava-o na biblioteca, pois as suas aulas eram diferentes das 
dele.  Agora, parecia fazer novos amigos. Com Harry fora do hospital, tinha  mais tempo livre, e os sobreviventes do primeiro ano de estudo  esforado pareciam andar 
sempre juntos. Era uma relao muito  mais saudvel do que antes e, por volta do Natal, sempre que via  Harry, ele estava sempre com a mesma rapariga: uma loura 
bonita e  baixinha da Austrlia, chamada Averil. Ela parecia ser a sombra de  Harry. J estava no ltimo ano do curso de arte, mas parecia muito  mais interessada 
em seguir Harry para todo o lado e ele no parecia  opor-se. Tana tentou parecer indiferente na primeira vez que viu Averil  sair do quarto dele num sbado de manh 
e, subitamente, os trs  desataram a rir.
- Isto significa que esto a correr comigo? - perguntou Tana, rindo  nervosa. 
- Raios, no, sua pateta! H espao para todos. - Perto do fim  do primeiro ano de Harry, ela j vivia com eles. Era na verdade  adorvel, partilhava as tarefas, 
era alegre, agradvel,
223
prestvel mas, por vezes, deixava Tana nervosa, em particular quando  tinha exames; contudo, no geral, o relacionamento deles resultava  perfeitamente.
Nesse Vero, Averil foi para a Europa com Harry, para conhecer  Harrison, e Tana voltou a trabalhar no mesmo escritrio de advogados.  Prometeu  me que iria para 
o Leste, mas procurou toda e qualquer  desculpa para no ir. No conseguiu arranjar nenhuma quando Arthur  teve outro ataque cardaco, desta vez ligeiro; a me levou-o 
para  o lago George para descansar e prometeu vir visitar Tana; no Outono.  Agora Tana sabia o que isso significava. Ela e Arthr tinham-na  visitado uma vez, no 
ano anterior, e fora um pesadelo. A me ficara  revoltada com a casa que partilhava e chocada por ela e Harry ainda  viverem debaixo do mesmo tecto; desta vez ficaria 
ainda pior, quando  descobrisse que havia ali mais uma rapariga. Tana riu-se do pensamento.  Obviamente, ela j no tinha soluo e a nica  consolao era que Ann 
voltara a divorciar-se, sem qualquer culpa.  Na verdade, John tivera o descaramento de a deixar e uma flagrante  relao amorosa com a sua melhor amiga. sim, nem 
tudo fora to  bom como se dizia. Pobre Ana! Tana riu-se do pensamento.
Nesse ano, passou o Vero sozinha. Gostava de Harry, tambm de  Averil, mas a sobrecarga de trabalho no curso era to grande que lhe  sabia bem estar sozinha de 
vez em quando. Ela e Harry parecia estarem  sempre a discutir poltica. Ele continuava a apoiar a guerra no  Vietname e ela ficava furiosa, sempre que o assunto 
era abordado,  enquanto Averil tentava desesperadamente manter a paz. Mas Harry e Tana  j se conheciam h bastante tempo. Aps seis anos no  achavam que tinham 
de ser educados, e os palavres que atiravam um ao  outro punham os cabelos em p a Averil, embora ele nunca lhe falasse  naqueles termos, nem ela a ele. Averil 
era uma alma muito mais meiga.  Tana j vivia sozinha h algum tempo e, aos vinte e quatro anos,  era teimosa, destemida e segura das suas ideias. Tinha uma vontade 
prpria muito forte, e os olhos no se envergonhavam de nada, nem  de ningum. Era curiosa com tudo o que a rodeava e tinha ideias bem  definidas e era suficientemente 
corajosa para
224
o dizer a qualquer um. Por vezes, isso metia-a em sarilhos, mas ela  no se importava. Gostava das discusses que
surgiam assim. Quando, nesse ano - felizmente o ltimo, 
pensou com um sorriso - se registou na escola, deu consigo na cafetaria  no meio de uma conversa acesa. Havia pelo
menos oito ou nove pessoas a falarem acaloradamente do
Vietname, como sempre, e ela foi rpida a meter-se na conversa como  era seu costume. Era um assunto que gostava
de debater, por causa de Harry,  claro, independentemente
da forma como ele pensava, mas ela tinha as suas prprias
ideias e, de qualquer modo, Harry no estava ali. Estava algures com  Averil, provavelmente, dando uma rapidinha antes das aulas, como Tana  dizia na brincadeira. 
Os dois pareciam passar a maior parte do tempo na  cama, a desafiar a
criatividade dele, o que parecia no causar qualquer problema. Tana  falou com veemncia do Vietname, sem pensar
especialmente em Harry nesse dia, e ficou surpreendida por
ter encontrado ainda algum mais radical do que ela. Ele tinha um  abundante cabelo negro encaracolado, sandlias, calas de ganga,  uma T-shirt azul-turquesa, olhos 
estranhamente azuis e um sorriso que  dilacerou qualquer coisa no ntimo        
dela. Quando se levantou, parecia que todos os seus msculos iam  saltar e tudo nele parecia estranhamente sensual; ela        
sentiu uma vontade quase irresistvel de estender a mo e  tocar-lhe no brao, ali suspenso to perto de si.         
- Vives aqui perto? - Ela abanou a cabea. - No me
lembro de te ter visto antes.
- Normalmente, estou na biblioteca. Terceiro ano de        
Direito.
-Ena. - Pareceu impressionado. - Isso  de mais.
- E tu?
- ltimo ano de Cincias Polticas, que mais havia
de ser?
Ambos se riram. De qualquer modo, ele tinha feito uma
boa opo; seguiu-a at  biblioteca, onde Tana lamentou  ter
de o deixar. Gostava das ideias dele e era magnificamente
belo; percebeu logo que Harry no iria concordar com ele.
Tinha ideias muito retrgradas para aqueles tempos, em especial com  Averiljunto dele. Mas isso no incomodou Tana.
225
Harry podia ter a cabea cheia de minhocas e at um par de cornos,  que ela gostava dele de qualquer maneira. Ele era
como um irmo e Averil aceitara isso. A maior parte das vezes,  evitava discutir poltica com eles. Isso tornava as coisas mais  fceis.
Alguns dias mais tarde, ficou intrigada ao ver o seu novo amigo a fazer  um discurso no complexo universitrio, sobre os mesmos temas que  tinham discutido. Foi 
um discurso exaltado e brilhante e ela disse-lho,  quando o viu mais tarde. Nessa altura, j sabia que o nome dele era  Yael McBee. Era um nome engraado, mas ele 
no era um homem  engraado. Era brilhante e intenso, e a sua fria atingia, quase  como um chicote, todos aqueles a quem pretendia. Ela admirou a sua  capacidade 
de comunicar com a multido e foi v-lo vrias  outras vezes nesse Outono, at que ele acabou por con vid-la  parajantar. Cada um pagou a sua parte e, depois, foram 
conversar para o  apartamento dele. Viviam ali pelo menos doze pessoas, algumas em  colches, e no tinha o aspecto limpo e bem arrumado da casinha  que Harry, Tana 
e Averil partilhavam. Na verdade, ter-se-ia sentido  envergonhada, se convidasse Yael a l ir. Era demasiado burgus,  demasiado doce, quase excessivamente estranho 
para ele. E ela gostava de  o visitar onde ele vivia. De qualquer modo agora sentia-se  desconfortvel em casa. Averil e Harry estavam sempre a fazer amor ou  a 
esconderem-se, indo para o quarto dele e fechando a porta. Ela  perguntava a si prpria como  que ele podia estudar alguma coisa  e, contudo, sabia que estudava 
devido s notas que tinha, que eram  surprendentemente boas. Mas era mais divertido estar com Yael os seus  amigos e, quando, no Natal, Harry foi para a Sua e 
Averil para  casa, Tana acabou por convidar Yael a ir visit-la. Pareceu-lhe  estranho v-lo naquela casinha arrumada, sem os seus amigos  estridentes por perto. 
Trazia uma camisola de gola alta verde-escura e  umas calas de gangaj toda coada. Tinha botas da trpa,  embora tivesse passado um ano na priso, por recusar 
alistar-se e ir  para o Vietenam. Fora enviado para uma cadeia do Sudoeste e posto em  liberdade um ano depois.
- Isso  incrvel! 
226
Sentia uma grande admirao por ele, pelos seus notveis olhos  negros, pela sua coragem de enfrentar todas as correntes imaginveis;  havia naquele homem qualquer 
coisa que se destacava, e ela no se  surpreendeu por ele se ter fascinado pelo comunismo, quando criana.  Tudo nele era intrigante e invulgar e, quando ele a tomou 
suavemente nos  braos e fez amor com ela na noite de Natal, tambm isso pareceu  intrigante. S uma vez teve de afastar Harrison linslow da mente e,  numa forma 
peculiar, ele tinha-a preparado para isto. No que tivesse  qualquer coisa em comum com Yael McBee. Yael conseguira abrir-lhe a  carne de uma maneira que ela nunca 
pensara ser possvel, atingindo-a  profundamente e conseguindo tudo o que ela queria e negara a si  prpria durante tanto tempo. Conseguira atingir-lhe a alma e 
fazer  despontar nela uma paixo e desejo que nunca suspeitara existir em si  prpria, dando-lhe algo que nunca imaginara que um homem lhe pudesse  dar, at se sentir 
dependente de tudo o que ele lhe dava. Era quase  sua escrava, quando Harry e Averil regressaram e, frequentemente, ficava  a dormir no apartamento de Yael, no colcho 
dele, toda enrolada e  cheia de frio, at ele pousar uma mo sobre ela; ento, a vida  tornava-se subitamente extica e tropical; havia manchas brilhantes  por todo 
o lado. J no conseguia viver sem ele. Depois do jantar,  sentavam-se na sala com os outros, a falar de poltica e a fumar  droga; subitamente, Tana sentiu-se mulher, 
uma mulher a florescer  completamente, vivendo atrevida aos ps do seu homem.
- Onde raio ests tu sempre, Tan? - perguntou-lhe arry. - Agora mal  te vemos.
- Tenho tido muito que estudar na biblioteca, por causa dos exames. -  S lhe faltavam cinco meses de aulas, at aos exames finais e  depois a prova oral, o que 
a assustava, mas, 
na realidade, passava a maior parte do tempo com Yael; no entanto, ainda  no falara dele a Harry, nem a Averil. No sabia o que lhes dizer.  Viviam em mundos to 
diferentes que era impossvel situ-los no  mesmo local, na mesma casa, na mesma escola.
- Tens algum romance ou algo do gnero, Tan? - J suspeitava  disso, por causa das suas ausncias. Achava-a 
227
estranha, quase entorpecida, como se tivesse entrado para um
culto hindu ou estivesse sempre a fumar droga, o que pensava ser  provvel.
S na Pscoa  que a viu com Yael e ficou logo horrorizado.  Esperou por ela depois das aulas e, como um pai zangado, ralhou-lhe.
- Que raio ests tu a fazer com aquele malvado? Sabes
quem ele ?
- Claro que sei... Conheo-o desde o incio do ano...
J calculara que ele no iria compreender e disse-lho.
- Sabes que reputao tem ele?  um radical violento, 
      um comunista, um desordeiro da pior espcie.  Vi-o ser preso no ano passado e disseram-me que j tinha sido preso  antes... por amor de Deus, Tan, acorda! 
- s um idiota estpido! - Gritavam um para o  outro
      junto  biblioteca principal e, de vez em  quanddo, algum
se virava, mas nenhum dos dois dava importncia. -  Esteve
preso porque no quis alistar-se, o que com certeza achas
pior que um homicdio premeditado, mas, mesmo que assim seja, eu  no.
      - Sei muito bem disso. Mas  melhor teres  cuidado
contigo, ou no ters de te preocupar com a  prova oral
de Junho. Ele far com que sejas presa e expulsa da escola 
      to depressa que nem te apercebes.
- No sabes do que ests a falar! 
Na semana seguinte, durante as frias da Pscoa, Yael
organizou uma grande manifestao junto ao edificio  administrativo, e duas dezenas de alunos foram levados para a
cadeia.
- Vs o que quero dizer? - Harry foi rpido a intervir. 
ela voltou a sair de casa.
Harry no compreendia nada. Mais do que isso: 
no compreendia o que Yael significava para ela. Felizmente
tinha conseguido evitar ser preso e ela ficou com ele a semana
seguinte. Tudo nele a excitava. Todos os seus sentidos
ficavam despertos, quando ele entrava no quarto, e tudo se
tornara bastante interessante na casa dele. Pareciam bastante
ocupados com as manifestaes marcadas para o final do
ano escolar, mas ela estava to aterrorizada com os exames
228
que teve de ficar na sua prpria casa, mais de uma vez, s para  poder estudar. Foi ali que Harry tentou conversar com ela, desta vez com  mais meiguice. Receava 
que lhe acontecesse alguma coisa e faria tudo  para o impedir, se pudesse, antes que fosse demasiado tarde.
- Por favor, Tan, por favor. escuta-me. Irs meter-te em sarilhos por  causa dele. Ests apaixonada?
Parecia desolado com a ideia, no porque ainda estivesse apaixonado  por ela, mas porque considerava aquilo um destino horrvel para Tana.  Odiava o rapaz, pois 
era um malcriado, grosseiro e egosta e, nos  ltimos seis meses, Harry tinha ouvido muita coisa a respeito dele na  escola. O tipo era violento e, mais cedo ou 
mais tarde, iria meter-se em  sarilhos. Harry s no queria que ele arrastasse Tana consigo,  quando tal acontecesse, e achava que as hipteses de tal vir a  acontecer 
eram grandes, se ela o permitisse. E ela parecia permitir.  Tinha uma paixo cega pelo homem. At mesmo a poltica dele a  excitava, mas Harry ficava maldisposto 
s de pensar nisso.
Tana insistiu que no estava apaixonada por ele; Harry, porm,  sabia que no era assim to simples para ela e que aquele era o  primeiro homem a quem ela se entregava 
de livre vontade; mantivera-se  to casta durante tanto tempo que, em certos aspectos, ojuzo que  fazia era prejudicial. Sabia que se o homem certo, ou o errado, 
como era  o caso, aparecesse  frente dela e a despertasse de uma forma  desconhecida, ela cairia aos seus ps; naquele caso, foi o que  acontecera. Estava hipnotizada 
por Yael, pela sua vida pouco ortodoxa e  pelos seus amigos. Estava fascinada por algo que nunca antes vira e, ao  mesmo tempo, ele tocava-a como se fosse um violino. 
Era uma  combinao difcil de derrotar. Ento, pouco antes dos  exames finais e aps uma relao de seis meses, Yael tomou o  assunto nas prprias mos e p-la 
 prova.
- Preciso de ti na prxima semana, Tan.
- Para qu - Olhou, distraidamente por cima do ombro. Ainda tinha de  ler mais duzentas pginas nessa noite.
-  s uma espcie de encontro. - disse ele, vago, fumando o  seu quinto cigarro de erva dessa noite. Em geral, 
229
isso no o afectava visivelmente mas, nos ltimos tempos, ele  andava cansado.
- Que espcie de encontro?
- Queremos marcar uma posio junto de quem est directamente  ligado.
Ela sorriu.
- E quem  essa pessoa?
- Penso que chegou a hora de levarmos as coisas directamente ao Governo.  Vamos at  casa do presidente da Cmara.
- Sers preso pela certa. - Mas a ideia no pareceu perturb-la  muito. J estava habituada a esse tipo de coisas.
Embora nunca tivesse sido presa com ele, apesar de todos os outros terem  sido.
- E depois? - perguntou ele, preocupado.
- Se eu estiver contigo e for presa, e ningum pagar a minha  fiana, falharei os exames.
- Oh, por amor de Deus, Tan, e depois? O que  que vais ser depois  disso? Uma advogada de meia-tigela para defender a sociedade, tal como  ela ? No presta, livra-te 
disso primeiro, e depois vai  trabalhar. Podes esperar um ano para fazeres os exames, Tan. Isto   mais importante. - Ela olhou para ele, horrorizada com o que acabara 
de  ouvir. Ele no
compreendia, se era capaz de dizer uma coisa daquelas. Quem era aquele  homem?
-Fazes ideia do quanto me esforcei para isto, Yael?
- Ser que no percebes que isso no tem qualquer  significado?
Foi a primeira discusso que tiveram, e ele pressionou-a durante  dias, mas ela acabou por no ir. Regressou  prpria casa para  estudar para os exames e, quando 
 noite viu as notcias, os olhos  quase lhe saltaram das rbitas. Tinham colocado uma bomba na casa do  presidente da Cmara e dois dos filhos quase haviam morrido. 
Mais  tarde foi dito que iriam ficar bem, mas um dos lados da casa foi  totalmente destrudo e a mulher tinha queimadurasdevido  uma das  bombas que explodira perto. 
E um grupo radical de estdantes de  Berkeley reivindicou o ataque.
Sete estudantes tinham sido presos, acusados de tentativa
230
de homicdio, agresso, posse de vrios tipos de armas e muitas  outras coisas; entre eles Yael McBee. E, se ela lhe tivesse dado  ouvidos, compreendeu com os joelhos 
a tremer, toda a sua vida teria  chegado ao fim... no apenas a escola, mas a sua liberdade durante  muitos e muitos anos. Estava mortalmente plida enquanto os 
viu na TV  a serem metidos em
carros-patrulha; Harry olhou para ela e nada disse. Aps algum tempo,  ela levantou-se e olhou para ele, grata por nada
ter dito. Num segundo, tudo o que sentia por Yael explodiu
em nada, como uma das suas bombas.
- Ele queria que eu l estivesse esta noite, Harry. Desatou a chorar.  - Tinhas razo. - Sentiu-se mal. Ele
quase lhe destrura a vida e ela vivera sob o feitio dele.
E para qu? Por umas horas de sexo? At que ponto estava        
ela doente? Sentiu-se mal, s de pensar naquilo. Nunca percebera  at que ponto se tinha entregue aos seus ideais e, agora,  aterrorizava-a a ideia de t-los sequer 
conhecido. Receava ser  chamada para interrogatrio. E acabou por ser, mas resultou em nada.  Era uma estudante que tinha dormido com
Yael McBee. No era a nica.
Tana fez os exames e passou na prova oral. Ofereceram-lhe emprego como  delegada do Ministrio Pblico, e a vida        
de adulta comeou ento. Os dias radicais faziam parte do        
passado, bem como a vida de estudante partilhada com Harry e Averil na  sua pequena casa. Alugou um apartamento em        
So Francisco e, aos poucos, mudou-se para l. Subitamente, tudo  se tornou doloroso para ela, tudo tinha terminado,         
chegado ao fim, acabado.         
- Ests muito animada - comentou Harry, entrando        
devagar no quarto, empurrando a cadeira de rodas, enquanto ela atirava  outro monte de livros para dentro de uma caixa. - Acho que agora devo  tratar-te por Senhora 
delegada. - Ela sorriu e olhou para ele. Ainda  estava abismada com o que acontecera a Yael McBee e quase com a sua  prpria reaco. Continuava deprimida por ter 
estado apaixonada  por ele. Agora, tudo aquilo parecia irreal. Ainda no tinham sido  julgados, mas sabia que ele e os amigos iriam ficar presos durante  muito, 
muito tempo.
- Sinto-me como se estivesse a fugir de casa.
231
- Sabes que podes voltar sempre que quiseres. Ainda aqui estaremos. -  Ento, ele olhou acanhado para ela.
Tana desatou a rir. Conheciam- se h demasiado tempo. - Que cara   essa? Que malandrice andas tu a preparar?
- Eu? Nada.
- Harry. - Aproximou-se dele, ameaadoramente, e Harry afastou-se,  dando uma gargalhada.
- A srio, Tan. Oh, gaita! - Foi de encontro  secretria e  ela, cuidadosamente, colocou as mos  vlta do seu pescoo.  Estava cada vez mais parecido com o pai, 
de quem s vezes ela ainda  sentia saudades. Teria sido muito mais
saudvel ter uma relao amorosa com ele do que Yael McBee. -  Est bem. est bem. A Ave e eu vamos casar-nos. - Por um momento,  Tana ficou abismada. Ann Dur ning 
acabara de se casar, pela terceira  vez, com um produtor de cinema de L. A. Este dera-lhe um Rolls Royce,  como presente de casamento, e um anel de diamantes de 
vinte quilates, do  qual Jean falara muito a Tana. Mas isso era algo que as pessoas como Ann  Durning faziam. De certa forma, nunca pensara que Harry viesse a  casar-se.
- Vo?
Ele sorriu.
- Pensei que depois de todo este tempo. Ela  uma rapariga  fantstica, Tan. 
- Eu sei disso, seu parvo - afirmou Tana, a sorrir. - tambm vivi com  ela.  que isso parece uma deciso de adultos. - Todos eles tinham  vinte e cinco anos, mas 
ainda no se sentia com idade suficiente para  casar e, por isso, no percebia porque o faziam eles. Talvez eles  pudessem fazer mais sexo, riu-se para consigo, 
e depois sorriu para  Harry e inclinou-se para lhe dar um beijo. 
- Parabns. Quando?
- Muito em breve.
Tana notou algo de esquisito nos olhos dele. Era, mesmo, tanto de  embarao como de orgulho.
- Harry Winslow. Ser que me queres dizer que... No. - Deu uma  valente gargalhada e Harry corou, o que raramente acontecia.
- Sim. Ela est grvida.
- Por amor de Deus! - Depois, ficou subitamente sria. - No  tm de casar, como sabes. Ela est a obrigar-te?
232
Ele deu uma gargalhada, e Tana achou que nunca o tinha visto to  feliz em toda a sua vida.
- No, eu  que a obriguei. Disse-lhe que a matava, se ela fizesse  um aborto.  o nosso filho e eu quero-o, e ela tambm.
- Meu Deus. - Tana sentou-se bruscamente na cama. - Casamento e familia.  Vocs no brincam em servio! 
- Pois no. - Parecia prestes a rebentar de orgulho quando a sua  pretendida entrou no quarto, com um sorriso envergonhado.
- O Harry est a contar-te aquilo que julgo? - Tana anuiu, olhando de  um para o outro. Sentia-se ali algo de muito pacfico e  satisfatrio. Imaginou qual seria 
a sensao de experimentar  aquele tipo de sentimento. Por um momento, quase os invejou. - Ele tem a  lngua muito comprida. Inclinou-se e beijou-o nos lbios e 
ele  deu-lhe uma palmadinha no traseiro; pouco depois, rodou a cadeira para  fora do quarto.
Iam casar na Austrlia, terra natal de Averil, e Tana foi convidada  para o casamento, claro. Depois disso, regressariam para a mesma casa  pequena, mas Harry j 
comeara a procurar uma em Piedmont, onde  viveriam at terminar os estudos: chegara a hora dos fundos dos  linslow comearem a entrar um pouco em aco. Harry queria 
que  agora Averil vivesse decentemente.
Nessa noite, falou com Tana.
- Sabes que, se no fosses tu, Tan, eu no estaria aqui. J o  tinha dito a Averil pelo menos dez mil vezes ao longo do ano e  acreditava nisso do fundo do corao.
- Isso no  verdade, Harry, e tu sabes disso. Fizeste tudo por  ti.
Ele agarrou-lhe no brao.
- Nunca o teria conseguido sem ti. D um pouco de crdito  tua  pessoa, Tan. O hospital, o curso de Direito, tudo isso. Nem sequer teria  conhecido a Ave, se no 
fosses tu.
Ela sorriu, comovida.
- E o beb, tambm  obra minha?
- Sua parva. 
233
Afagou os longos cabelos louros e regressou para junto da futura esposa,  que j dormia profundamente na cama onde o filho fora concebido. A  sua criatividade dava 
frutos e Tana sorriu pensativa nessa noite, quando  se deitou. Mas, de sbito, sentiu-se muito s. Vivera com ele  durante dois anos e com Averil metade desse tempo; 
ia ser estranho viver  sozinha, sem amigos, e eles iam ter a sua prpria vida. Tudo aquilo  parecia muito estranho. Porque  que todos queriam casar? Harry, a  me. 
Ann. O que  que havia de mgico nisso? Tudo o que Tana  desejara fora tirar o curso de Direito e, quando finalmente tivera uma  relao amorosa com algum, esse 
algum era um doido  selvagem que acabara na cadeia para o resto da vida. Era atordoante.  No sabia nenhuma das respostas, nessa altura, nem quando se  mudou.
Instalou-se num pequeno apartamento acolhedor em Pa cific Heights, com  vista para a baa, e levava quinze minutos a chegar  Cmara  Municipal no carro que adquirira 
em segunda mo. Tentou poupar tudo o  que pde para ir ao casamento de Harry e Averil, mas este insistiu em  oferecer-lhe a passagem. Foi pouco antes de comear 
o novo emprego, e  s ficou com eles, em Sydney, durante quatro dias. Ave parecia uma  bonequinha no vestido de organza branca, e ainda no se notava nada.  Os pais 
no faziam ideia de que havia um beb a caminho e at  Tana se esqueceu disso. Esqueceu tudo o resto, quando voltou a ver  Harrison Winslow a caminhar na sua direco.
- Ol, Tan. - Beijou-a suavemente no rosto e ela pensou que ia  derreter-se. Estava como sempre, atraente, bonito, sofisticado no mais  nfimo pormenor, mas o romance 
que fora interrompido tanto tempo  antes no estava destinado a renascer. Conversaram durante horas e,  uma noite, deram um longo passeio. Ele achou-a diferente 
e mais adulta  mas, na sua mente, Tana seria sempre a amiga de Harry e sabia que,  acontecesse o que acontecesse, para o filho, seria sempre sua e ele  respeitava 
isso.
Levou-a ao aeroporto, no dia da partida. Harry e Averil j tinham  partido em lua-de-mel. Ele beijou-a como o tinha feito h muito tempo  e toda a alma dela se abriu 
para Harrison. As lgrimas corriam-lhe  pelas faces quando entrou
234
no avio, e as hospedeiras no a incomodaram, interrogando-se  sobre quem seria aquele homem to belo e se ela seria a sua namorada  ou esposa; olharam-na com curiosidade. 
Era alta, muito loura, levava um  simples fato de linho bege, e tinha uma maneira de andar segura e um  porte orgulhoso. O que no sabiam  que, no ntimo, ela se 
sentia assustada e s. Tudo aquilo para onde regressava ia ser novo.  Emprego novo, casa nova e ningum com quem a partilhar. Subitamente,  compreendeu porque  
que pessoas como Ann Durning e sua me se  casavam. Era mais seguro do que andar por a sozinha; contudo, esse  era o nico caminho que conhecia, pensou, enquanto 
o avio se  dirigia para casa.

PARTE III

VIDA REAL

CAPTULO 14
O apartamento que Tana alugou tinha uma bela vista para a baa e um  pequeno jardim nas traseiras. Possua uma pequena casa de banho, uma  sala de estar, uma cozinha 
com paredes de tijolo e uma pequena porta  envidraada virada para o jardim, onde ela por vezes se sentava a  tomar banhos de sol. Inconscientemente, procurou um 
rs-do-cho  para que Harry, quando a fosse visitar, no tivesse problemas com a  cadeira de rodas. Sentiu-se bem a viver ali. Ficou surpreendida com a  velocidade 
com que se adaptou a viver sozinha. No princpio, Harry e  Averil iam visit-la com frequncia, pois tambm sentiam a sua  falta, e Tana ficou admirada com a rapidez 
com que Averil perdeu a forma  do corpo. Tinha-se transformado num belo balozinho e tudo aquilo lhe  parecia estranho. A sua prpria vida passava-se num mundo diferente. 
O mundo da acusao, do Ministrio blico, dos  assassnios, assaltos e violaes. Era s naquilo que  pensava durante todo o dia e a ideia de ter bebs parecia 
estar a  anos- luz de distncia, embora a me a tivesse informado que Ann  Durning estava outra vez grvida; no que Tana quisesse saber  disso. Tudo aquilo j tinha 
ficado muito para trs. Ter  notcias dos Durning j no a afectava, at a me o sabia  e, por isso, deixou de insistir. A me recebera o golpe final quando  soube 
que Harry se tinha casado com aquela outra rapariga. Pobre Tana,  todos aqueles anos a cuidar dele, para acabar por partir com mais  algum. - Que atitude mais feia. 
- No princpio, Tana ficou  cismada com as palavras dela, mas, depois comeou a rir-se delas.  Pareciam-lhe demasiado engraadas. A me nunca acreditara,  realmente, 
que eles fossem apenas amigos.
- Claro que no . So perfeitos um para o outro.
- Mas tu no te importas? - O que  que havia de sincero em todos  eles? Como  que pensavam actualmente? Ela tinha vinte e cinco anos;  quando iria assentar?
- Claro que no me importo. Disse-lhe isso h muitos anos, me.  O Harry e eu somos apenas amigos. Os melhores amigos. E eu estou muito  feliz por eles.
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Jean deixou passar bastante tempo antes de voltar a ligar-lhe, para lhe  falar da criana.
- E tu, Tan? Quando irs pensar em assentar? Tana suspirou. Que  ideia.
- No desiste nunca, me?
- Tu desististe, na tua idade? - Que ideia to depri mente.
- Claro que no. Nem sequer comecei a pensar nisso.
Tinha acabado de pr um fim  sua relao com Yael McB que  era a ltima pessoa com quem se podia pensar em assentar, e  to-pouco tinha tempo para pensar em romances, 
devido ao seu novo  emprego. Estava demasiado ocupada a aprender a ser delegada do  Ministrio Pblico. S ao fim de seis meses de trabalho   que teve tempo para 
sair com algum. Um detective mais antigo  convidou-a para sair e aceitou, por ser um tipo interessante, mas no  sentiu qualquer atraco verdadeira por ele. Depois 
disso, saiu  com dois ou trs advogados, pois a sua mente estava sempre no  trabalho e, em Fevereiro, teve o seu primeiro caso importante, coberto  pela imprensa 
nacional. Parecia que todos os olhos estavam postos em si  e esforou-se por agir correctamente. Tratava-se de um caso de  violao e assassnio. A violao de uma 
rapariga de  quinze anos, que fora levada pelo amante da me para uma casa  abandonada. Segundo as testemunhas, fora violada nove ou dez vezes,  completamente desfigurada 
e, por fim, assassinada; Tana queria que lhe  dessem a cmara de gs. Era um caso que a tocava de perto, embora  ningum soubesse disso; deu tudo de si, preparando-se 
e revendo os  testemunhos e as provas todas as noites. Ele era um homem atraente, de  cerca de trinta e cinco anos, bem-educado, bem vestido, cuja defesa  tentava 
utilizar todos os truques possveis. Ficava todas as noites  acordada at s duas da manh. Era quase como tentar passar de  novo na prova oral.
- Como vai isso, Tan? - Harry telefonou-lhe uma noite, j muito  tarde. Ela olhou para o relgio, surpreendida por ele ainda estar  acordado. Eram quase trs horas 
da manh.
- Bem. Aconteceu alguma coisa? A Averil est bem?
- Claro que sim. - Quase conseguiu v-lo radiante.
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Acabmos de ter um rapaz, Tan, com trs quilos e oitocentos  gramas! A Ave  a rapariga mais corajosa do mundo. Eu estava l e,  oh, Tan, foi to maravilhoso. a 
sua cabecinha a sair e, l estava  ele, a olhar para mim. Entregaram-mo primeiro. - Arfava, estava excitado  e parecia estar a rir e a chorar ao mesmo tempo. - A 
Ave acabou de  adormecer, por isso, pensei em telefonar-te. Estavas acordada?
- Claro que sim. Oh, Harry, estou to feliz por vocs os dois! -  Tambm havia lgrimas nos seus olhos e ela convidou-o para tomar  qualquer coisa.
Cinco minutos depois, ali estava ele e parecia cansado, nas mais feliz  do que nunca. Foi uma sensao estranha v-lo e ouvi-lo contar  tudo, como se tivesse sido 
o primeiro
beb a nascer. Quase os invejou e, no entanto, sentiu ao mesmo tempo  um terrvel vazio na alma, como se aquela parte dela no estivesse  ali, quase como se tivesse 
sido posta de lado. Era como estar a  ouviralgum a falar numa lngua estranha e admir-los  tremendamente, sem os compreender. Sentiu-se um pouco distante daquilo 
tudo; no entanto, pensou que era maravilhoso para eles.
Eram cinco da manh quando ele saiu; Tana no chegara a dormir  duas horas quando se levantou para se vestir para o tribunal e regressar  ao seu grande caso. O julgamento 
estendeu-se por mais de trs  semanas, e o jri esteve reunido durante nove dias, depois de Tana  ter argumentado, heroicamente, diante deles. Quando finalmente 
entraram,  ela tinha vencido. O ru foi acusado de todos os crimes e, embora o  juiz se tivesse recusado a aplicar a pena capital, foi condenado a  priso perptua; 
no seu ntimo, Tana ficou satisfeita. Queria  que ele pagasse pelo que tinha feito, embora a ida para a priso  no devolvesse a vida  rapariga.
Os jornais anunciaram que ela tinha defendido o caso brilhantemente, e  Harry brincou com ela quando Tana foi ver o beb em Piedmont,  chamando-lhe Madame Vedeta, 
fazendo-a passar um mu bocado.
- Est bem, est bem, j chega. Deixa-me ver este produto que  produziste, em vez de me dares cabo da cabea. Estava preparada para  se sentir aborrecida e ficou 
surpreendida ao descobrir como o beb  era amoroso. Tudo era 
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pequeno e perfeito, e ela hesitou quando Averil tentou entregar-lho. -  Oh, meu Deus... Tenho medo de o partir ao
meio...
      - No sejas tonta. - Harry retirou facilmente  o beb
das mos da mulher e colocou-o nos braos de  Tana. Ela
sentou-se a olhar para ele, admirada com a sua beleza e, 
quando o devolveu  me, pareceu-lhe ter perdido qualquer
coisa; olhou para os dois quase com inveja...
Depois de Tana ter partido, Harry dirigiu-se com ar vitorioso   mulher.
- Acho que a comovemos, Ave.
Na verdade, ela pensou muito neles nessa noite mas, na
semana seguinte, teve outro importante caso de violao entre
mos e, depois deste, dois grandes casos de homicdio. Passado  algum tempo, Harry telefonou-lhe, triunfante. No
s passara na prova oral, como lhe tinham oferecido um emprego, e ele  mal conseguia esperar para comear.
- Quem te contratou? - Sentia-se feliz por ele. Esforara-se bastante  por isso. Agora, ria-se.
- No vais acreditar nisto, Tan. Vou trabalhar como
defensor oficioso.
- Defensor oficioso? - repetiu ela, com uma gargalhada. - Queres dizer  que terei de julgar os meus casos contigo? - Foram almoar juntos  para comemorarem e s 
falaram
      de trabalho. Casamento e bebs eram a  ltima coisa que 
Tana tinha em mente.
      Quando deu por si, reparou que o resto do ano  voara
e outro j ia a meio: passara o tempo ajulgar  homicdios, 
violaes, assaltos e vrios outros crimes. S uma ou  duas
vezes  que deu consigo a trabalhar no mesmo caso de Harry, 
e almoavam juntos sempre que podiam. Ele j trabalhava
      como defensor oficioso h dois anos quando  lhe disse que
Averil estava outra vez grvida.
- To cedo? - Tana ficou admirada. Parecia que
Harrison linslow V tinha nascido momentos antes, mas
Harry sorriu.
- Faz dois anos no prximo ms, Tan.
- Meu Deus! Ser possvel?
No o via com frequncia mas, mesmo assim, 
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parecia-lhe impossvel. O beb j ia fazer dois anos. Era  incrvel. Ela prpria j tinha vinte e oito anos, o que no  era nada de extraordinrio, exceptuando o 
facto de o tempo ter voado.  Parecia que ainda na vspera tinha ido para Green Hill com Sharon  Blake e dado grandes passeios a p, em Yolan. Apenas na vspera, 
quando Sharon estava viva e Harry podia danar. 
Desta vez, Averil teve uma menina, com um rostinho rosado, uma boquinha  perfeita e enormes olhos em forma de amndoa. Era muito parecida com  o av e Tana sentiu 
um baque estranho no corao quando olhou  para ela mas, mais uma vez, era algo que ela prpria nunca poderia  ter. Disse-o a Harry, quando almoaram juntos na semana 
seguinte.
- Porque no, por amor de Deus? Tens apenas vinte e nove anos, ou  ters daqui a trs meses. - Olhou, ento, muito srio para  ela. - No percas isso, Tan.  a nica 
coisa que fiz que  realmente tem importncia para mim, a nica coisa pela qual  fao tudo. os meus filhos e a minha mulher.
Surpreendeu-a ouvi-lo dizer aquilo. Pensava que a carreira dele era mais  importante. Depois, ficou ainda mais abismada por ouvir que ele estava a  pensar desistir 
do cargo de defensor oficioso e abrir um escritrio  prprio.
- Ests a falar a srio? Porqu? 
- Porque no gosto de trabalhar para outros e estou farto de defender  esses vadios. Todos eles fizeram algo que teimam no terem feito, ou  pelo menos a maior parte 
deles. Estou farto disso. Chegou a hora de  mudar. Estava a pensar formar uma sociedade com um outro advogado que  conheo.
- Isso no ser aborrecido para ti? Direito civil vulgar? -  perguntou ela como se se tratasse de uma doena, e ele riu, abanando  a cabea.
- No. No preciso de tanta excitao quanto tu, Tan. No  seria capaz de fazer o que fazes todos os dias. No sobreviveria a  tanta correria. Admiro-te pelo que 
fazes, mas serei perfeitamente feliz  com um pequeno e confortvel escritrio, a Averil e os  midos.
Harry nunca quisera voar muito alto e era feliz com as coisas tal como  elas eram. Tana quase o invejou por isso.
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Havia algo mais profundo e furioso que ardia dentro dela. Era aquilo que  Miriam Blake lhe vira nos olhos dez anos
antes e ainda ali estava. Queria casos cada vez mais complicados e  condenaes; queria desafios cada vez mais dificeis, maiores e em  maior nmero. Ficou bastante 
lisonjeada quando, no ano seguinte, foi  nomeada para uma conferncia entre alguns advogados e o governador,  para falarem
de uma srie de assuntos que afectavam os processos criminais
em todo o estado. Havia meia dzia de advogados envolvidos, todos  homens, excepto Tana: dois eram de Los Angeles, dois de So  Francisco, um de Sacramento e um 
de So Jos. Foi a semana mais  interessante que alguma vez julgou viver. Os advogados, os juzes e  os polticos conferenciavam noite dentro e, quando Tana se metia 
na  cama todas as noites, estava to excitada com o que tinham conversado  que no conseguia adormecer nas duas horas seguintes. Ficava  acordada, a rever tudo mentalmente.
- Interessante, no ? - perguntou em voz baixa o advogado ao lado  de quem se sentara no segundo dia, enquanto ouviam o governador a  discutir um assunto sobre 
o qual j tinham discutido na noite  anterior. O governador tomou exactamente a mesma posio que a  dela e Tana teve vontade de de se levantar e aplaudir.
- Sim,  - murmurou. Ele era um dos advogados de Los Angeles. Alto,  atltico e de cabelos grisalhos. No dia seguinte, sentaram-se ao lado  um do outro  hora do 
almoo, e Tana ficou surpreendida ao  descobrir como ele era liberal. Era um homem interessante. Nascera em  Nova Iorque, estudara em Harvard e mudara-se para Los 
Angeles.
- Na verdade, vivi em Washington os ltimos anos a trabalhar para o  Governo, mas acabei de regressar aqui e estou satisfeito por ter vindo.  - Sorriu. Era desempenado, 
tinha um sorriso terno e ela gostou das suas  ideias quando voltaram a conversar nessa noite.
Por volta do final da semana, todos sentiam que se tinham tornado  amigos. Naquela semana houvera um debate de ideias fascinante.
Ele estava no Huntington. Antes de se retirar, 
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ofereceu-lhe uma bebida no L'toile. De todos os que ali se  encontravam, eles eram os nicos que tinham a mesma opinio e Tana  achou que ele fora uma companhia 
agradvel nas muitas reunies a  que tinham assistido. Era trabalhador e profissional e, a maior parte  das vezes, agradvel.
- Que tal  trabalhar no Ministrio Pblico? - Estava intrigado  com isso. Regra geral, as mulheres que conhecia no gostavam de  trabalhar l. Acabavam por ir para 
os tribunais de famlia, ou  outros, mas as delegadas do Ministrio Pblico eram raras em  qualquer lado, por razes bvias. Era um trabalho muito duro e  ningum 
lhes facilitava as coisas.
- Adoro aquilo. - Sorriu. - No me deixa tempo para mim prpria,  mas no faz mal. - Sorriu-lhe, passando ma mo pelo cabelo.  Ainda o usava comprido, mas apanhava-o 
em rabo-de-cavalo quando estava a  trabalhar. Vestia fatos e blusas quando estava no tribunal mas, em casa,  ainda usava calas de ganga. Nesse momento, envergava 
um fato de  flanela cinzenta, com camisa de seda cinzento-clara.
- Casada? - Levantou uma sobrancelha e olhou para a mo de Tana; ela  sorriu.
- Tambm no tenho tempo para isso.
Nos ltimos anos, passara pela sua vida uma mo-cheia de homens,  mas nenhum durara muito tempo. Ela acabava sempre por ignor-los,  preparando-se para os julgamentos, 
e nunca tinha tempo suficiente para  eles. No foram perdas que a tivessem afectado muito, embora Harry  insistisse que
acabaria por se arrepender um dia. Nessa altura, tratarei do assunto.  Quando? Quando tiveres noventa e cinco anos?
- O que fazias no Governo, Drew? - perguntou Tana. Ele chamava-se Drew  Lands e possua os olhos mais azuis qe ela j vira. Gostava da  sua maneira de sorrir e 
deu consigo a imaginar que idade teria ele,  adivinhando correctamente que ele teria cerca de quarenta e cinco  anos.
- Fui destacado por uns tempos para a Cmara do Comrcio. Tinha  morrido um funcionrio e fui preencher o lugar, at arranjarem uma  pessoa permanente. - Sorriu-lhe 
e Tana voltou a perceber que gostava da  forma como ele olhava. - Foi um trabalho temporrio muito  interessante. H
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qualquer coisa de exaltante em Washington. Tudo se concentra em redor do  Governo e das pessoas nele envolvidas.
Ali, se no trabalhares para o Governo, no s absolutamente  ningum. E a sensao de poder  irresistvel. Ali,   s o que interessa, a todos. - Sorriu- lhe e 
foi fcil perceber  que tinha feito parte daquilo.
- Deve ser difcil desistir disso. - Sentiu-se intrigada com o facto;  ela prpria j tinha pensado se estaria interessada na  poltica, mas achava que tal no se 
adaptaria to bem a ela  quanto o Direito.
-J era tempo. Fiquei feliz por regressar a Los Angeles. - Sorriu  abertamente e pousou de novo o usque; olhando para ela. -  quase  como voltar para casa. E tu, 
Tana? O que  para ti o lar? s uma  garota de So Francisco?
Ela abanou a cabea.
- Sou de Nova Iorque. Mas estou aqui desde que vim para Boalt. - Tinham  passado oito anos, desde que chegara, em 1964, e isso por si s era  incrvel. - J no 
consigo imaginar-me a viver num outro  stio. ou a fazer uma outra coisa qualquer. 
Gostava muito de trabalhar no Ministrio Pblico. havia sempre  algo excitante para ela e Tana crescera bastante nos seus cinco anos de  emprego. Mas isso era outra 
coisa: cinco anos como delegada. Era to  difcil acreditar nisso quanto no resto. Para onde correra o tempo,  enquanto trabalhava? Acordava-se subitamente e j 
tinham passado dez  anos. dez anos. ou cinco. ou. Tudo parecia o mesmo aps algum tempo.  Dez anos eram quase uma eternidade.
- Ainda agora estavas com um ar muito srio - comentou Drew e ambos  trocaram um sorriso.
Ela encolheu os ombros, filosoficamente.
- Estava a pensar em como o tempo passa a correr.  difcil  acreditar que j aqui estou h tanto tempo... no Ministrio  Pblico h cinco anos.
- Foi o que senti, em Washington. Os trs anos pareceram trs  semanas e, de repente, estava na hora de voltar para casa.
- Achas que algum dia irs regressar? 
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Ele sorriu, e havia ali qualquer coisa que ela no conseguia ler  muito bem.
- S por algum tempo. As minhas filhas ainda esto l. No  as quis tirar da escola, a meio do ano lectivo, e eu e a minha mulher  ainda no resolvemos onde iro 
ficar. Provavelmente, metade do ano  comigo e a outra metade com a me.  a nica soluo  justa para ns, embora possa ser difcil para elas, no incio.  Mas as 
crianas adaptam-se. - Sorriu- lhe. Era bvio que tinha  acabado de se divorciar.
- Que idade tm?
- Treze e nove anos. Ambas raparigas. So midas fantsticas, e  muito agarradas  Eileen, mas tambm gostam muito de mim e, na  verdde, so muito mais felizes 
em Los Angeles do que em  Washington. Aquilo ali no  grande coisa para as crianas e  ela tem uma vida bastante ocupada - adiantou.
- O que  que ela faz?
-  assistente do secretrio-geral da Organizao dos  Estdos Americanos e agora tem em vista um lugar na prpria  organizao. Isso tornar quase impossvel ficar 
com as  midas. Nessa altura, elas ficaro comigo. As coisas ainda  esto muito no ar. - Voltou a sorrir, mas desta vez um pouco mais  hesitante.
- H quanto tempo se divorciaram?
- Na realidade, estamos a tratar disso agora. Levmos algum tempo a  decidir enquanto estvamos em Washington, mas agora  definitivo.  Vou tratar dos papis assim 
que as coisas acalmarem. Ainda mal desfiz  as malas.
Ela sorriu-lhe, pensando no quo difcil deveria ser: filhas,  mulher, viajar quatro mil e quinhentos quilmetros, Washington, Los  Angeles. Mas tudo isso no parecia 
afect-lo muito. Tudo o que  dissera na conferncia fizera sentido. Dos seis advogados envolvidos,  fora ele quem mais a impressionara. Tambm a tinha impressionado 
a  sua liberalidade moderada. Desde a experincia que tivera com  Yael
cBee h cinco anos, o liberalismo de Tana tinha diminudo  consideravelmente. E os cinco anos no Ministrio Pblico  tornavam-na ainda menos liberal. De um momento 
para o outro, sentia-se  apoiante de leis cada vez mais duras, de 
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controlos cada vez mais rgidos, e todas as ideias liberais em que  acreditava durante tanto tempo deixavam de fazer sentido. De certa  forma, Drew Lands tornara-as 
mais aprazveis de novo; mesmo que as  posies actuais j no a atrassem, ele no alienava  ningum ao expressar os seus pontos de vista.
- Achei que expuseste muito bem as tuas ideias. - Ele ficou comovido e  satisfeito e ambos tomaram outra bebida. Ele deu-lhe uma boleia no seu  txi at casa dela 
e seguiu para o aeroporto, a fim de regressar a  Los Angeles.
- Posso telefonar-te? - perguntou, hesitante, como se temesse que  pudesse existir algum importante na vida dela. Contudo, nesse  momento, no havia ningum.
No ano anterior, houvera durante alguns meses um director criativo de  uma agncia de publicidade, mas ningum mais desde ento. Ele  estava sempre demasiado ocupado, 
demasiado esgotado, e ela tambm. A  relao terminou to depressa quanto comeara. Sentia-se  tentada a dizer a todos que era casada com o seu trabalho, e que era 
a  outra mulher do Ministrio Pblico, o que fazia rir os colegas.  Mas agora, era quase verdade. Drew olhou esperanado para ela e Tana  anuiu com um sorriso.
- Claro. Gostaria muito. - S Deus sabia quando  que ele voltaria  a estar na cidade. E, de qualquer modo, ia julgar um importante caso de  homicdio qualificado 
durante os dois meses seguintes.
No entanto, ele deixou-a boquiaberta ao telefonar-lhe
no dia seguinte, quando entrou no seu gabinete, bebendo caf e  tomando notas para se preparar para o caso. A imprensa ia dar grande  cobertura ao acontecimento, 
e Tana no queria fazer m figura.  No pensava em mais nada seno no caso quando pegou no telefone e  gritou: 
- Sim?
- Miss Roberts, por favor. - Ele nunca se surpreendia com a falta de  educao dos empregados do Ministrio Pblico.
-  a prpria - respondeu ela, divertida. Estava to cansada  que se sentia aturdida. Eram quase cinco horas e no sara da  secretria durante todo o dia. Nem mesmo 
para almoar. No  ingerira nada desde o jantar da vspera, excepto alguns litros de  caf.
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- No parecias tu. - A voz dele foi quase uma carcia
e, no incio, ela ficou abismada, a pensar se no seria algum  a brincar.
- Quem fala?
- Drew Lands.
- Ah... desculpa... Estava to compenetrada no trabalho que no  reconheci logo a tua voz. Como ests?
- Bem. Pensei em telefonar-te para saber como tu ests,         
acima de tudo.
- Estou a preparar um importante caso de homicdio
que comea na prxima semana.         
- Isso parece divertido - observou ele com sarcasmo, e
ambos se riram. - E o que fazes nas horas vagas?        
- Trabalho.         
-J calculava. No sabes que isso faz mal  sade?        
- Preocupar-me-ei com isso quando me reformar. Entretanto, no tenho  tempo.         . 
- E neste fim-de-semana? No podes fazer uma pausa?        
- No sei... Eu... - Normalmente, trabalhava durante         
os fins-de-semana, em especial agora. E a conferncia ocupara-lhe a  semana que podia ter passado a preparar-se para o julgamento. - Eu tenho  mesmo...         
- Vamos l, podes interromper umas horas. Pensei em
pedir emprestado um iate a um amigo de Belvedere. At podes trazer o  trabalho contigo, embora seja um sacrilgio. -        
Estava-se nos finais de Outubro e o tempo parecia perfeito        
para uma tarde na baa: quente e soalheiro, com cu muito        
azul. Era a melhor poca do ano, e So Francisco era uma
cidade lrica. Sentia-se tentada a aceitar, mas no queria deixar  trabalho por fazer.         
- Tenho mesmo de preparar...         
- Jantar, ento... Almoo. - Ambos desataram a
rir. J h muito tempo que ningum era to persistente, e  isso era agradvel.         
- Gostava muito, Drew.         
- Ento, anda. Prometo que no te tomarei mais tempo
que o necessrio. O que  mais fcil para ti?
- Esse passeio de barco na baa soou-me bastante bem.
Talvez faa gazeta durante todo o dia. - A imagem de tentar
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desfolhar papis importantes ao sabor do vento no a atraa,  mas um passeio pela baa com Drew, sim.
- Estarei a, ento. Domingo? Parece-te bem?
- Perfeitamente.
- Vou buscar-te s nove. Vem agasalhada para o caso de haver  vento.
- Sim; senhor. - Sorriu para consigo, desligou e voltou para o  trabalho.
No domingo de manh, s nove horas em ponto, Drew Lands chegou, de  calas de ganga branca, sapatos de tnis, camisa vermelha e parka  amarela debaixo do brao. 
O rosto j parecia bronzeado, o cabelo  brilhava como prata ao sol e os olhos danavam. Ela seguiu-o at  ao carro. Conduzia um Porsche prateado que trouxera de 
L. A. na  sexta-feira  noite, segundo ele. Levou-a at ao Saint Francis  Yacht Club, onde o barco estava ancorado e, meia hora depois, j se  encontravam em plena 
baa. Ele era um marinheiro excelente, e ela  deitou-se alegremente no convs, tomando banhos de sol, evitando  pensar no seu caso de homicdio e subitamente feliz 
por t-lo  deixado convenc-la a tirar um dia de folga.
- O sol sabe bem, no sabe? - perguntou com voz grave; estava sentado  perto dela, no convs, quando Tana abriu os olhos.
- Sabe, sim. De certa forma, tudo o resto parece de repente no ter  importncia. Tudo aquilo atrs de que se corre, todos os  pormenores que pareciam antes to 
grandiosos, subitamente, puf.  desaparecem. - Sorriu-lhe, perguntando a si prpria se ele sentira  muita falta das filhas, e foi como se ele lhe tivesse lido a mente.
- Um destes dias, gostaria que conhecesses as minhas filhas, Tana. Elas  vo ficar loucas por ti.
- No tenho a certeza disso. - Pareceu hesitante e
riu envergonhada. - No percebo muito de midas pequenas, lamento  dizer.
- Alguma vez pensaste em ter os teus prprios filhos?
- perguntou.
Ele era um homem com quem podia ser sincera; por isso, abanou a  cabea.
- No, no pensei. Nunca senti esse desejo, nem tempo, j para  no falar nas circunstncias certas.
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Ele riu.
- Isso realmente cobre quase tudo, no ?
- Sim. E tu? - Sentia-se jovial e despreocupada com ele. - Queres  mais?
Ele abanou a cabea, e ela compreendeu que aquele era o tipo de homem  com quem desejaria viver um dia. Tinha trinta anos e j era muito  tarde para ter filhos.
- De qualquer modo, no posso, pelo menos at passar primeiro por  uma srie de sarilhos. Quando a Julie nasceu, a Eileen e eu decidimos  que chegava. Fiz uma vasectomia. 
Disse-o to abertamente que a chocou  um pouco. Mas o que havia de errado em no querer mais filhos? Ela  no queria ter nenhum, nem tinha nenhum.
- Isso resolve o problema, no ?
- Sim. - Ele sorriu maliciosamente. - Em mais de
um aspecto.         
Ento, ela falou-lhe de Harry, dos seus dois filhos, de        
Averil... e de quando Harry regressara do Vietname, do ano        
incrvel a v-lo lutar pela vida, a ser submetido a  operaes, e a coragem que ele tinha tido.         
- Isso mudou a minha vida, em muitos aspectos. Acho
que nunca mais voltei a ser a mesma, depois disso... -        
Olhou, pensativa, para a gua e ele ficou a ver o sol a danar nos  seus cabelos louros. - Foi como se tudo passasse a ter        
muito mais valor. No podamos tomar nada como garantido, depois  disso. - Suspirou e olhou para ele. - J me tinha sentido assim uma  vez.         
- Quando foi isso? - Olhou-a com meiguice, e Tana
imaginou como seria ser beijada por ele.         
- Quando morreu a minha companheira de quarto do
colgio. Fomos juntas para Green Hill - respondeu, acrescentando: -  No Sul.
Ele sorriu.
- Sei onde .
- Ah. - Devolveu-Lhe um sorriso. - Chamava-se Sharon Blake... Era filha  do Freeman Blake, e morreu h nove
anos numa marcha com Martin Luther King... Ela e o Harry
mudaram a minha vida, mais do que qualquer outra pessoa.
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- s uma rapariga sria, no s?
- Bastante, acho. Talvez intensa, seja a palavra mais certa.Trabalho de  mais e penso de mais. Muitas vezes, tenho dificuldade em desligar-me de  tudo isso.
Ele j se tinha apercebido desse aspecto de Tana, mas no se  importou. A mulher tambm tinha sido assim e isso no o  incomodara. No fora ele quem quisera acabar 
com tudo. Fora ela.  Tinha uma relao amorosa com o patro, em Washington, e  quisera uma folga; por isso, ele dera-lha e regressara a casa, mas  no quis entrar 
em pormenores sobre isso.
-J alguma vez viveste com algum? Maritalmente, quero dizer,  no com o teu amigo, o veterano do Vietname.
Era esquisito ouvir Harry ser referido daquela maneira; era to  impessoal.
- No, nunca tive esse tipo de relacionamento.
- Provavelmente, seria bom para ti. Uma convivncia sem ter de se dar  o n.
- Isso soa-me bem.
- A mim tambm. - Voltou a olhar, pensativo; depois, dirigiu-lhe um  sorriso arrapazado. -  pena no vivermos na mesma cidade. - Era  algo de estranho para ser 
dito to cedo, mas com ele tudo acontecia  rapidamente. No fim, acabou por se mostrar to intenso quanto  ela.
Convidou-a duas vezes para jantar nessa semana, foi
a Los Angeles e regressou a So Francisco. Na semana seguinte, voltou  a lev-la para um passeio de barco, apesar de Tana estar  completamente imersa no seu caso 
de homicdio e ansiosa que chegasse  ao fim. Contudo, ele tinha o dom de a acalmar e tornava-lhe as coisas  mais fceis, o que a deixava admirada. Depois daquele 
segundo dia na  baa, no barco dum amigo, ele levou-a a casa e fizeram amor diante da  lareira que havia na sala de estar. Foi suave, romntico e depois,  foi ele 
quem lhe fez o jantar. Passou ali a noite e no se sentiu  perturbada por isso. Levantou-se s seis horas, tomou um duche,  vestiu-se, levou-lhe o pequeno-almoo 
 cama e partiu de txi  para o aeroporto s sete e um quarto. Apanhou o avio das oito  horas para Los Angeles e, s nove e vinte e cinco, j estava no  escritrio, 
com um aspecto 
252
impecvel. No espao de poucas semanas, ele estabelecera um
horrio regular, quase sem lhe pedir, mas tudo acontecera
to facilmente e tornara a vida dela to mais feliz que, de  sbito, ela sentia que toda a sua vida melhorara. Foi v-la duas  vezes ao tribunal e ela venceu o caso. 
Ele estava l, quando o  veredicto foi lido, e convidou-a para irem comemorar. Nesse dia,  ofereceu-lhe uma bonita pulseira de ouro, que comprara na Tiffany, em 
Los Angeles, e nesse fim-de-semana ela foi visit-lo a Los Angeles.  Na sexta-feira e no sbado  noite jantaram no Bistro e no Ma  Maison e passaram os dias a
fazer compras no Rodeo Drive ou a apanhar banhos de sol
junto  piscina dele; e, no domingo  noite, depois de um        
jantar sossegado que ele prprio lhe fez no grelhador a carvo,  ela regressou sozinha a So Francisco. Deu consigo a pensar em Drew,  durante todo o trajecto at 
casa, e na velocidade com que se  envolvera com ele, o que a deixou um
tanto assustada; contudo, ele parecia estar muito decidido e
muito ansioso por estabelecer uma relao com ela. Tana
tambm se apercebeu da solido dele. A casa onde vivia era        
espectacular, moderna, ampla, cheia de objectos de arte muito caros e  dois quartos vazios para as filhas. Mas no havia        
ali mais ningum e ele parecia querer estar o tempo todo        
com ela. Por volta do Dia de Aco de Graas, ela j  estava        
habituada a que ele passasse metade da semana consigo em        
So Francisco; e, aps quase dois meses, j nem sequer  lhe        
parecia estranho: Foi na semana anterior ao feriado que ele, 
subitamente, se virou para ela e perguntou: 
- O que vais fazer na semana que vem, querida?
- No Dia de Aco de Graas? - Pareceu surpreendida.
Ainda no tinha pensado nisso. Tinha trs pequenos casos
em mos, que queria terminar, se os rus concordassem em
chegar a acordo. Isso facilitar-lhe-ia a vida, e nenhum deles
merecia, realmente, ser levado a tribunal. - No sei. Ainda
no pensei nisso. - H anos que no ia a casa. Os dias de
Aco de Graas com Arthur e Jean eram absolutamente  insuportveis. H vrios anos que Ann se tinha divorciado  de
novo e agora vivia em Greenwich; por isso, andava por ali
com os seus indisciplinados filhos. Billy ia e vinha, se no tivesse  nada melhor para fazer. Ainda no se casara. Arthur
253
estava cada vez mais rabugento devido  idade, a me cada vez mais  nervosa e agora parecia estar sempre a lamentar-se, principalmente sobre  o facto de Tana nunca 
se ter casado e provavelmente nunca vir a casar-  se. Uma vida perdida. era em geral o tema da conversa quando se  encontravam, e a que Tana s podia responder: 
Obrigada, me. A  alternativa era passar o Dia de Aco de Graas com Averil e  Harry mas, por mais que gostasse deles, os amigos de Piedmont eram  terrivelmente 
aborrecidos, com os seus filhos e grandes carrinhas. Tana  sentia-se sempre completamente deslocada junto deles e contente porque  assim era. Mostrava-se admirada 
por Harry conseguir tolerar aquilo. Ela  e Harrison tinham-se rido daquela vida. Ele pensava o mesmo que Tana e  raramente aparecia. Sabia que Harry era feliz, bem 
tratado e no  precisava dele; por isso, fazia a vida que gostava.
- Queres ir para Nova Iorque comigo? - Drew olhou; esperanoso, para  ela.
- Ests a falar a srio? Porqu? - Pareceu surpreendida.
O que havia para ele em Nova Iorque? Os pais j tinham morrido,  dissera ele, e as filhas estavam em Washington.
- Bem. - J tinha pensado naquilo h muito tempo.
Podias ir ver a tua famlia, eu podia ir a Washington para as minhas  filhas e, depois, encontrar-me contigo em Nova Iorque, onde podamos  divertir-nos um pouco. 
O que  que achas?
Pensou naquilo e, lentamente, anuiu com a cabea, o
cabelo a cair-lhe pelos ombros, como um leque.
-  uma possibilidade. - Sorriu-lhe. - Talvez mesmo
uma grande possibilidade, se deixares de fora a parte da minha  famlia. As frias com eles so o motivo por que as pessoas se  suicidam.
Ele deu uma gargalhada.
- No sejas to cnica, sua bruxa. - Prendeu-lhe subitamente  uma madeixa de cabelo e deu-lhe um beijo nos lbios. Era to  deliciosamente afectuoso; ela nunca conhecera 
nenhum homem como ele, e  havia partes dela que se abriam para ele como nunca se tinham aberto  para mais ningum. Estava admirada com a confiana que sentia  nele. 
- A srio, consegues afastar-te daqui?
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- Por acaso, neste momento, consigo. - E at isso era invulgar  nela.
- Ento? - As estrelas danavam nos olhos dele e Tana atirou-se  para os seus braos.
- Venceste. At irei visitar a minha me, como sacrificio.
- Irs para o cu por causa disso, tenho a certeza. Vou tratar de  tudo. Podemos apanhar o avio na prxima quarta-feira  noite.  Passas a quinta em Connecticut 
e eu encontro-me contigo em Nova Iorque  na sexta-feira  noite, com as midas, no. Vejamos. - Pareceu  pensativo e ela sorriu.
- Hotel Pierre? - Ela tencionava oferecer-se para pagar a sua parte, mas  ele abanou a cabea.
- No Carlyle. Sempre que posso, fico l, em especial com as  midas, pois aquilo ali  bom para elas. - Era tambm para onde  fora com Eilen nos ltimos nove anos, 
mas no disse isso a  Tana.
Ele tratou de tudo e, no sbado  noite, seguiram em avies  separados. Tana pensou por momentos na facilidade com que deixara que  ele lhe fizesse todos os planos. 
Era uma espcie de novidade para si,  pois nunca ningum lhe tinha feito isso antes e ele parecia  faz-lo to bem e to facilmente. J estava habituado.  Quando 
chegou a Nova Iorque  que compreendeu que estava realmente  ali. Fazia muito frio e no solo j se notavam vestgios das  primeiras neves. Seguiu de txi desde o 
Aeroporto John F. Kennedy  at Connecticut. Durante o percurso, pensou em Harry e no dia em que  ele dera um murro a Billy, acertando-lhe em cheio na cara. Lamentou 
que  ele j ali no estivesse. No lhe apetecia mesmo nada passar o  Dia de Aco de Graas com eles. Teria preferido ir para  Washington com Drew, mas no queria 
meter-se na sua celebrao  privada com as midas, depois de no as ver h dois meses.  Harry tinha-a convidado para Piedmont, como fazia todos os anos, mas ela 
explicara-lhe que naquele ano ia para Nova Iorque.
- Meu Deus, deves estar doente - comentou ele, rindo-se.
 - Ainda no. Mas estarei, quando chegar o momento de partir. At  j oio a minha me: uma vida perdida. 
255
- Por falar nisso, queria finalmente apresentar-te ao meu scio. -  Afinal, sempre abrira um escritrio seu e Tana nunca l fora para  conhecer a outra metade. Nunca 
tivera tempo e eles tambm j  andavam surpreendentemente ocupados. As coisas corriam bem para eles,  numa escala pequena mas agradvel. Era exactamente o que ambos 
queriam, e Harry ficava extasiado sempre que lhe falava disso.
- Talvez quando eu regressar.
- Isso  o que dizes sempre. Assim nunca mais o conheces, Tan, e ele   um rapaz to fantstico.
- Hum. Cheira-me a encontro marcado com um desconhecido. Estou certa? -  Soltou uma gargalhada, como faziam nos velhos tempos, e Harry tambm  se riu.
- s mesmo desconfiada. O que  que pensas? Que todos te querem  saltar para a cueca?
- Nada disso. Eu conheo-te bem. Se ele tiver menos de noventa e  cinco anos e nenhuma objeco ao casamento, queres junt-lo a  mim. No sabes j que sou um caso 
perdido, Linslow? Desiste, por  amor de Deus. Esquece, vou pedir  minha me para te telefonar de  Nova Iorque.
- No te incomodes, sua parva. Mas nem sabes o que perdes, desta vez.  Ele  maravilhoso e a Averil tambm pensa assim.
- Tenho a certeza disso. Junta-o a mais algum.
- Porqu? Vais casar?
- Talvez. - Brincou com ele, mas os seus ouvidos notaram logo qualquer  coisa, e ela arrependeu-se de o ter dito.
- Ai, sim? Com quem?
- Com o Frankenstein. Por amor de Deus, deixa-me
em paz.
- O raio  que te deixo. Andas com algum, no ? - No.  Sim! Quero dizer, no. Merda. Sim, 
no  srio. Est bem?  suficiente para ti?
- Raios, no! Quem  ele, Tan? Isso  srio?
- No.  apenas um tipo com quem saio, como tanta gente.   tudo. Um bom tipo. Um bom companheiro. Nada de especial.
- De onde  ele?
- De Los Angeles.
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- O que  que ele faz?
-  um violador. Conheci-o no tribunal.
- No tem graa. Tenta outra.
Sentia-se um animal encurralado e estava a comear a ficar aborrecida  com ele.
- Ele  advogado. Agora, larga-me da mo, raios! No
 nada de especial.
- Algo me diz que sim. - Conhecia-a bem. Drew era
diferente dos outros, mas ela ainda no queria admitir isso, 
muito menos a si prpria.
- Pronto, j satisfizeste a tua curiosidade, como sempre.
Agora, d um beijo  Averil por mim e eu ver-vos-ei quando  regressar de Nova Iorque.         
- O que vais fazer este ano, no Natal? - Estava meio a        
convidar e meio a intrometer-se, e ela sentiu vontade de lhe
desligar o telefone na cara.
- Vou para Sugar Bowl. Est bem assim?
- Sozinha?
- Harry! - Claro que no. Ia com Drew. J o tinham
decidido. Eileen ia levar as midas para Vermont e, por isso, 
ele ficava sozinho e as frias iam ser-lhe dificeis. Ambos assim o  julgaram. Mas Tana no ia contar nada daquilo a        ; 
Harry. - Adeus. Ver-te-ei em breve.         
- Espera... Quero falar-te mais de...
- No! - Acabara por lhe desligar o telefone.         
 medida que o txi se aproximava de Greenwich, sorria, a imaginar  o que pensaria ele de Drew. Suspeitou que        
podiam simpatizar um com o outro, embora Harry no lhe
desse uma boa classificao, razo por que queria  esperar        
mais algum tempo. Era raro apresentar-lhe qualquer dos
omens da sua vida. S os apresentava depois de decidir que
no queria saber deles para nada. Mas, desta vez era diferente.
Quando chegou, a me e Arthur estavam  sua espera, e ficou  estupefacta quando viu o quanto ele tinha envelhecido. A me tinha  apenas cinquenta e dois anos, ainda 
era nova, e Arthur j tinha  sessenta e seis e no estava a envelhecer graciosamente. Os anos de  tenso com a sua mulher alcolica tinham tido a sua  importncia, 
tal como a direco da 
257
Durning International, e tudo aquilo se notava agora. Tivera vrios  ataques cardacos e um enfarte ligeiro e parecia muito
velho e cheio de rugas; Jean estava muito nervosa a tomar
conta dele. Pareceu agarrar-se a Tana como a um salva-vidas
em mar tempestuoso e, quando Arthur se deitou nessa noite, a me foi  ao quarto dela e sentou-se aos ps da cama. Era
a primeira vez que Tana ficava naquela casa e fora-lhe dado
o quarto redecorado que a me lhe prometera. Dava muito
trabalho ficar na cidade, ou num hotel, e Tana sabia que a
me teria ficado magoada. Eles viam-na muito poucas vezes.         
Arthur apenas se deslocava a Palm Beach, ficando no seu        
condomnio fechado, e a me no gostava de o deixar ir  de        
avio para So Francisco; assim, s viam Tana quando ela ali  ia, o que era cada vez menos frequente.         
- Est tudo bem contigo, querida?        
- Sim. - Estava melhor do que isso, mas no quis contar nada a Jean.          
- Ainda bem. - Normalmente, esperava um dia para
comear a queixar-se da vida perdida de Tana, mas dessa        
vez no tinha muito tempo e, por isso, tinha de se despachar, como  Tana sabia. - O teu emprego vai bem?
-  maravilhoso. - Sorriu, e Jean pareceu ttriste. Deixava-a sempre  deprimida o facto de saber que a filha gostava do emprego tanto quanto  dizia. Isso significava 
que no 
ia desistir dele em breve. Secretamente, ainda pensava que
um dia Tana largaria tudo pelo homem certo; era dificil para        
Jean imaginar que ela no faria isso. Mas no conhecia  muito        
bem a filha. Nunca a conhecera realmente e agora ainda a        
conhecia menos.
- Conheceste outros homens? - A conversa era sempre a mesma e Tana  geralmente respondia que no, mas desta vez decidiu atirar   me um pequeno osso.          
- Um.         
As sobrancelhas de Jean levantaram-se.
-  srio?         
- Ainda no. - Tana riu. De qualquer modo, era
cruel brincar com ela. - E no te entusiasmes muito,          
penso que nunca ser. Ele  um bom homem e muito        
agradvel, mas penso que no passa disso. - Contudo, a alegria
258
nos olhos dela dizia que estava a mentir e Jean tambm reparou  nisso.
- H quanto tempo sais com ele?
- H dois meses.
- Porque no o trouxeste?
Tana respirou fundo e abraou os joelhos na cama de solteiro, os  olhos postos nos de Jean.
- Por acaso, est a visitar as filhas, em Washington. No lhe  disse que ia encontrar-se com ele em Nova Iorque, na noite seguinte.  Deixou que Jean pensasse que 
iria regressar ao Oeste. J era muito  bom ela ter ido a casa passar apenas um dia e isso dava-lhe liberdade  para passear  sua vontade por Nova Iorque, com Drew. 
No queria  obrig-lo a conhecer a sua famlia, em especial com Arthur e os  seus rebentos. - H quanto tempo est divorciado, Tana? - A me  pareceu-lhe m tanto 
vaga, e ela desviou o olhar. - H algum tempo  - mentiu, e subitamente o olhar da me caiu sobre ela. - H quanto  tempo? - Descanse, me. O divrcio est agora 
a correr. Eles  acabaram de assinar os papis. - H quanto tempo? - H alguns  meses. Por amor de Deus... Descanse! -  exactamente o que no  devias fazer. - Saiu 
dos ps da cama de Tana e comeou a caminhar  nervosamente, de um lado para o outro; depois, parou e olhou para Tana.  - outra coisa que no devias fazer  sair 
com ele. - Que  ridculo! Nem sequer conhece o homem. , - No preciso de conhecer,  Tana. - Falou num tom sereno e amargo. - Conheo a sndrome. O  homem nem sequer 
importa, s vezes. A no ser que j seja  divorciado, com os papis na mo, tudo claro para ele. - Essa   a coisa mais parva que j ouvi. No confia em ningum, 
no  , me? - Sou apenas muito mais velha do que tu, Tan. E,  sofisticada como julgas ser, sei melhor do que tu. Mesmo que ele saiba  que vai divorciar-se, mesmo 
que tenha a certeza absoluta disso, talvez  no o faa. Talvez goste tanto das filhas
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que no consiga divorciar-se da mulher. Daqui a seis meses, poder  voltar para ela, e tu ficars posta de lado, apaixonada por ele, sem  qualquer sada possvel 
e decidirs andar por ali durante dois  anos. cinco anos. dez. e depois, quando te aperceberes, ters  quarenta e cinco anos e, se tiveres sorte... Os olhos estavam 
hmidos. - Ento. ele ter o primeiro ataque cardaco e  precisar de ti, nessa altura. mas a mulher dele ainda estar viva  e, ento, nunca poders t-lo. H coisas 
contra as quais  no podes lutar. E, a maior parte das vezes, essa  uma delas.   um elo que ningum pode quebrar. Se ele prprio o quebrar, ou  j tiver quebrado, 
ento
melhor para vocs os dois. Mas antes que te magoes seriamente,  querida, gostaria que te afastasses disso. - Soou to compassiva e  to triste que Tana sentiu pena 
dela. A vida da me no tinha  sido muito divertida desde que ela e Arthur se tinham casado, mas  finalmente conquistara-o, depois de muitos, dificeis e desesperados 
anos. - No quero que
te acontea o mesmo, querida. Mereces melhor do que isso. Porque  no te afastas um tempo para ver o que acontece?
- A vida  muito curta para isso, me. No tenho muito tempo  para brincar s escondidas com ningum. Tenho muito mais coisas  para fazer. E que diferena  que 
isso faz? Seja como for, no  quero casar-me.
Jean suspirou e voltou a sentar-se.
- No compreendo porqu. O que  que tens contra o  casamento?
- Nada. Faz sentido, se se quiser ter filhos, julgo; 
se no se tiver uma carreira prpria. Mas eu tenho. Possuo  demasiadas coisas na vida para ficar dependente de algum e estou  velha para ter filhos agora. Tenho 
trinta anos e gosto 
de viver como vivo. Nunca viveria a minha vida ao contrrio por causa  de algum. - Pensou na casa de Harry e
Averil, que parecia receber diariamente a visita de uma delegao  de demolio. - Isso no  para mim.
Jean no conseguiu evitar pensar se no seria por qualquer coisa  que ela lhe tivesse feito, mas era uma mistura de tudo: saber que Arthur  tinha trado Marie, o 
ver o quanto a me sofrera durante tanto  tempo e no querer isso para si; e queria a sua carreira, a sua  independncia, a sua vida
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prpria. No queria um marido nem filhos, tinha a certeza disso.  H anos que tinha.
- Ests a perder tanta coisa - observou Jean com tristeza. O que  seria que ela no dera quela criana para que pensasse  assim?
- Eu no vejo as coisas dessa maneira, me. - Procurou os olhos da  me, porjulgar ter visto qualquer coisa, sem
compreender o qu.
- Tu s a nica coisa que me interessa, Tan.
Achou dificil acreditar naquilo e, no entanto, a me tinha
sacrificado tudo por ela, at se sujeitara a aceitar os presentes de  Arthur por caridade, pois assim tinha sempre qualquer coisa mais para a  filha. Tana sentiu-se 
envergonhada ao lembrar-se daquilo, e isso  recordava-lhe o quo grata devia estar. Abraou fortemente a  me, lembrando-se do passado.
- Eu adoro-a, me. Sinto-me grata por tudo o que fez
por mim.
- No quero gratido. Quero ver-te feliz, querida. E se
este homem  bom para ti, ento... ainda bem. Mas se ele
est a mentir-te, a ti ou a ele mesmo, vai despedaar-te o  corao. No quero que isso te acontea... nunca...         
- diferente daquilo que aconteceu consigo. - Tana         
tinha a certeza disso, mas Jean no.         
- Como  que sabes? Como podes ter a certeza disso?        
- Porque tenho. J o conheo o suficiente.          
- Ao fim de dois meses? No sejas tola. No sabes nada mais do que  eu, h vinte e quatro anos Nessa altura
o Arthur no me mentia. Mentia a ele mesmo.  isso
que queres, dezassete anos de noites solitrias, Tan? No faas  isso contigo.
- No farei. Tenho o meu trabalho.
-Isso no substitui nada. - Mas no caso dela sim, 
substitua tudo. - Promete-me que irs pensar no que te disse.
- Prometo. - Sorriu, e as duas mulheres abraaram-se, desejando as  boas noites uma  outra.
Tana ficou comovida com a preocupao da me, mas tinha a  certeza de que ela estava errada quanto a Drew. Adormeceu com um  sorriso, a pensar nele e nas filhas. 
Imaginou
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o que estaria a fazer com elas. Sabia o nome do hotel dele em  Washington, mas no queria importun-los.
No dia seguinte, o jantar de Aco de Graas na casa dos  Durning foi previsivelmente montono para todos, mas Jean sentiu-se  grata por Tana ali estar. Arthur parecia 
um tanto distante e adormeceu  duas vezes na cadeira; a criada deu-lhe um ligeiro toque e Jean acabou  por ajud-lo a ir para cima: Ann chegou com os seus trs  
pirralhos, que estavam ainda pior do que antes. Falou em casar com um  armador grego. Tana tentou ouvi-la, mas era impossvel. A nica  bno do dia foi Billy ter 
ido para a Florida com amigos, em  vez de estar l.
Por volta das cinco horas, Tana comeou a olhar regularmente para o  relgio. Tinha prometido a Drew que estaria no Carlyle por volta das  nove e no telefonaram 
um ao outro durante todo o dia. De sbito,  sentiu-se desejosa de se encontrar com ele, de olh-lo nos olhos,  tocar-lhe no rosto, sentir-lhe as mos, tirar-lhe 
a roupa enquanto  tirava a sua. Dissimulou um sorriso quando subiu para arrumar as malas e  a me entrou nessa altura. Os olhos encontraram-se no enorme espelho 
colocado por cima da cmoda e Jean foi a primeira a falar.
- Vais ter com ele, no vais?
Podia ter-lhe mentido, mas j tinha trinta anos; o que
ganharia com isso?
- Sim. - Virou-se para ficar de frente com a me.
Vou.
 - Tu assustas-me.
- Preocupa-se de mais com tudo. Isto no  uma edio da sua  vida, me.  a minha vida. H uma diferena. - Nem sempre   tanto quanto o desejamos.
- Desta vez, est errada.
- Espero que esteja, para teu bem. - Mas pareceu desgostosa, quando Tana  finalmente chamou um txi e foi para Nova Iorque, s oito  horas.
No conseguia tirar da cabea as palavras da me quando chegou  ao hotel, sentia-se furiosa com ela. tinha descarregado sobre ela todas  as suas ms experincias, 
todas as suas desiluses, toda a sua  dor? Que direito tinha
262
de o fazer? Era como um cobertor de cimento que tinha de se levar para  todo o lado para provar que se fora amado; pois bem, ela no queria  ser assim to amada. 
J no precisava disso.
Agora, queria que a deixassem em paz para conduzir a sua
prpria vida.
O Carlyle era um belo hotel, com degraus forrados a alcatifa espessa que  se dirigiam ao cho de mrmore do vestbulo, tapetes persas,  relgios antigos, bonitos 
quadros nas
paredes e cavalheiros ao balco, com fraques. Tudo parecia
de outro mundo, e Tana sorriu. Esta no era a vida da me, 
mas sim a sua. Agora, tinha a certeza disso. Deu o nome de
Drew e subiu at ao quarto. Ainda no tinha chegado, mas
todos o conheciam muito bem. O quarto era to sumptuoso
quanto o vestbulo prometera ser, com uma vista completa        
de Central Park, as luzes dos prdios a tremeluzir como
estrelas, mais peas antigas, desta vez guarnecidas em seda escura,  cortinados de cetim e uma garrafa de champanhe, 
 espera num balde de gelo: um presente da direco. Tenha uma  boa estada foram as ltimas palavras do paquete e
Tana sentou-se no bonito sof, a pensar se devia encher a
banheira para tomar um banho ou esperar. Ainda no tinha        
certeza se ele ia trazer as midas, mas achou que sim. No as  queria chocar, estando despida, quando chegassem. Mas,         
uma hora depois, eles ainda no tinham chegado; j passava          
das dez quando ele finalmente lhe telefonou.         
- Tana?        
- No,  a Sophia Loren.         
Ele deu uma gargalhada.         
- Estou desiludido. Gosto mais da Tana Roberts do que dela.
- Agora sei que s louco, Drew.
- Sou-o. Por ti.
- Onde ests?
Houve uma breve pausa.
-Em Washington. AJulie est com uma constipao        terrvel  e parece-nos que a Elizabeth deve estar com gripe. Achei melhor esperar  aqui e talvez no as leve 
comigo. Sigo amanh para a, Tan.  No te importas?
- Claro. - Ela compreendeu, mas tambm reparou no
263
ns que surgira pelo meio. Parece-nos que a Elizabeth... E no  ficou muito satisfeita com isso. - O quarto  fabuloso.
- No so uma maravilha? Foram simpticos contigo?
- Claro que sim. - Olhou em volta. - Mas no tem graa nenhuma sem  o senhor, Mister Lands. No te esqueas disso.
- Estarei a amanh. Juro. 
- A que horas?
Pensou um minuto.
- Tomo o pequeno-almoo com as midas. vejo como
se sentem. a sero dez horas. Podia apanhar o avio do  meio-dia. Estarei no hotel por volta das duas, sem falta. Isso queria  dizer que metade do dia estava perdido 
e apeteceu-lhe dizer qualquer  coisa sobre isso, mas mudou de ideias.
- Est bem. - Mas no pareceu satisfeita e, quando
desligou o telefone, teve de voltar a afastar as palavras da me.  Tomou um banho quente, viu televiso, pediu uma 
chvena de chocolate quente e ficou a pensar no que ele estava a  fazer em Washington; depois, sentiu-se arrependida por lhe ter dito o  que sentia. No era por 
sua culpa que as filhas estavam doentes. Era  certamente um aborrecimento para elas, mas ningum era culpado.  Levantou o telefone e pediu para ligarem para o hotel 
onde ele estava em  Washinton, mas ele no se encontrava l. Deixou o recado de que  lhe tinha telefonado, viu o ltimo programa e adormeceu com a  televiso ainda 
ligada. Acordou s nove horas do dia seguinte e  saiu, para descobrir que estava um dia absolutamente fabuloso. Deu um  longo passeio a p pela Quinta Avenida, foi 
ao Bloomingdale's, onde  perdeu um bocado de tempo e comprou algumas coisas para si prpria,  um bonito polover de caxemira azul para ele e presentes para as  midas: 
uma boneca para Julie e uma blusa para Elizabeth. Depois  regressou ao Carlyle para esperar por ele, mas desta vez via um recado.  As duas midas estavam muito doentes. 
chegarei na sexta  noite, o  que no aconteceu. Julie estava com trinta e nove graus de febre.  Tana passou a noite sozinha, no Carlyle. No sbado, foi ao Museu 
e,  s cinco da tarde, ele finalmente chegou, a tempo
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de fazer amor com ela, encomendar o jantar para o quarto, pedir-lhe  desculpas durante toda a noite e tomarem o avio de regresso a So  Francisco, no dia seguinte. 
Tinha sido um grande fim-de-semana para  eles, em Nova Iorque.
- Lembra-me de fazer isto contigo outra vez - disse-lhe ela, um tanto  sarcasticamente, quando terminavam de jantar no avio.
 Ests zangada comigo, Tan? - Parecia infeliz desde que chegara a  Nova Iorque, cheio de remorsos em relao a la e preocupado  com as filhas; falou de mais, muito 
depressa e no pareceu o mesmo  durante dias. 
- No, estou mais desapontada do que furiosa. Como est  tua  ex- mulher, a propsito?
- Bem. - No pareceu querer falar dela e ficou surpreendido por Tana  lhe ter perguntado. No parecia ser um assunto apropriado para eles,  mas ela sentia-se perseguida 
pelas palavras da me. - Porque  perguntaste isso?
- Curiosidade apenas. - Comeu uma colherada da sobremesa, parecendo  estranhamente fria. - Ainda ests apaixonado por ela?
- Claro que no. Isso  ridculo. H muitos anos que j  no estou apaixonado por ela. - Pareceu ter ficado completamente  aborrecido, e Tana ficou satisfeita. A 
me estava enganada. Como  sempre. - Talvez no te tenhas apercebido... - Hesitou, parecendo ter  empalidecido. - Acontece que estou apaixonado por ti. - Olhou para 
Tana  durante bastante tempo, e ela analisou-lhe o rosto com ateno.  Por fim acabou por sorrir, mas no lhe respondeu. Beijou-o nos  lbios, pousou o garfo e acabou 
por fechar os olhos para dormir.  No havia nada que lhe quisesse dizer, e ele sentia-se estranhamente  desconfortvel. Fora um fim-de-semana mau para ambos.

CAPTULO 15
O ms de Dezembro voou, com uma srie de casos menores sobre a  secretria de Tana e algumas festas onde fora
com Drew. Parecia no pensar em mais nada seno em voar
at l para passar a noite e, por vezes, aparecia apenas para
jantar com ela. Os dois partilhavam deliciosos momentos
de ternura, noites calmas em casa e uma espcie de intimidade
que Tana nunca antes conhecera. Agora compreendia como
vivera to s, durante tanto tempo. Tinha havido aquela  sua        
louca relao com Yael McBee e, desde ento, apenas  relacionamentos ocasionais que surgiam e desapareciam, sem
significar muito para ela. Mas tudo sobre Drew Lands        
era diferente. Era to sensvel, to intenso, to atencioso  com os mais pequenos pormenores que significavam muito para ela.
Sentia-se cercada, protegida e viva, e passavam a maior parte do tempo a  rir-se. Quando chegaram as frias, ele ficou de novo excitado com a  ideia de voltar a 
ver as filhas:         
iam sair de Washington para passar o Natal com o pai.         
      Por isso, ele teve de cancelar a viagem para  esquiar com ela em Sugar Bowl.
- Podes c vir passar algum tempo connosco, Tan:           
Ela sorriu-lhe; sabia como era louco pelas filhas.
      - Vou tentar. - Em breve ia ter um caso  importante, mas tinha a certeza que no seria levado a tribunal  to cedo.
Acho que posso.
- Faz o que puderes. Podias vir no dia vinte e seis 
e podamos passar alguns dias em Malibu. - Ele ia alugar
uma casa de fim-de-semana, mas Tana no se surpreendeu
tanto com isso como com a data que ele mencionara...         .
Compreendeu, ento, que ele queria passar o Natal sozinho        
com as filhas. - Vens, Tan? - Parecia um garoto.
Ela abraou-o com fora e deu uma gargalhada.          
      - Est bem, est bem, eu vou. O que   que achas
que as midas gostaro de receber?        
- A ti. - Trocaram um sorriso e ele voltou a fazer amor com ela.
Drew passou a semana a preparar tudo para eles.         
266
Tana tentou pr o trabalho em ordem na sua secretria,  para        
poder tirar alguns dias de frias, e precisava ainda de fazer
muitas compras. Comprou uma camisa de camura para
Drew e uma pasta muito cara que ele tinha visto e gostado,         
a gua-de-colnia que ele usava e uma gravata maluca que        '
sabia que ele iria adorar. Para cada uma das midas, comprou uma  boneca na F. A. O. Schwartz, alguns artigos de papelaria, alguns  travesses, um fato de treino 
para Elizabeth        
muito parecido com um que Tana tivera, e um coelho de        
pele verdadeira para a mais pequena. Embrulhou todos os        
presentes e colocou-os na mala que levaria consigo para        
L. A. No se tinha preocupado com uma rvore nesse ano;         
no tivera realmente tempo e, de qualquer modo, no tinha        
ningum para a ver. Passou a noite de Natal com Harry, Averil e os  filhos e foi relaxante estar ali com eles. Harry nunca        
tivera to bom aspecto, e Averil parecia feliz ao ver o pequeno  Harrison a correr de um lado para o outro,  espera do
Pai Natal. Descascaram cenouras para a rena, espalharam        
biscoitos de chocolate, encheram um enorme copo de leite e, 
por fim, conseguiram met-lo na cama. A irm j estava  a        
dormir e, quando ele finlmente adormeceu tambm, Averil         entrou em bicos de ps para os ver, com um sorriso terno,         
enquanto Harry a seguia com os olhos e Tana olhava para
ele. Sentiu-se bem s de o ver assim, feliz e animado. A vida
dele estava a correr bem, embora no fosse aquilo certamente        
que ele esperara. Harry olhou para Tana e sorriu e foi como
se ambos tivessem compreendido.         
- Engraado, no , Tan, as voltas que a vida d...         
-  verdade. - Sorriu para ele. J se conheciam h doze        
anos; quase metade das suas vidas. Era incrvel.         
- Pensei que estarias casada da a dois anos, quando te        
conheci pela primeira vez.
- E eu pensei que acabarias como um degenerado incorrigvel...  no... - Parecia pensativa e divertida. - Um
playboy bbedo...
Ele riu da ideia.
- Confundiste-me com o meu velhote.
-Nem por isso. - Ainda sentia qualquer coisa por
Harrison. Harry tinha suspeitado disso uma vez, mas nunca
tivera a certeza, e o pai nunca lhe dissera nada. Nem Tan.
267
Ento Harry olhou para ela de uma forma esquisita. Nunca tinha  esperado passar o Natal com ela nesse ano, em especial depois das  informaes que ela dera sobre 
Drew
      uma ou duas vezes. Tinha a sensao  estranha de que era srio para ela, mais do que ela lhe dizia.
- Onde est o teu amigo, Tan? Julguei que ias para  Sugar Bowl. - No incio, ficou lvida, mas percebeu imediatamente  a quem ele se referia; Harry sorriu. - Vamos, 
no venhas para mim com  essa merda de a quem te referes?, Conheo-te demasiado bem.
Ela riu-se.
- Est bem, est bem. Ele est em Los Angeles com          as  filhas. Cancelmos a ida para Sugar Bowl, porque as filhas
iam ter com ele. Vou para l no dia vinte e seis. - Harry achou  aquilo estranho, mas no lhe disse nada.
- Ele significa muito para ti, no ?
Ela anuiu, cautelosamente, mas no olhou para ele.
- Sim. se  que isso vale de alguma coisa.
- Vale o qu, Tan?
 Ela suspirou e encostou-se  cadeira.
- S Deus sabe.
Harry continuou a remoer qualquer coisa e, por fim teve de  perguntar.
       - Porque  que no ests l  hoje?
- No quis intrometer-me. - Mas isso no era  verdade. Ele no a tinha convidado.
- Tenho a certeza de que no s uma intrusa para ele; conheces as  filhas?
Ela abanou a cabea.
- Vou conhec-las depois de amanh.
- Ests com medo? - perguntou Harry com um sorriso.
Ela riu nervosa.
- Raios, sim! Tu no estarias? Elas so a coisa mais portante na  vida dele. 
- Espero que tu tambm sejas.
-Julgo que sim.
Ento, Harry franziu a testa.
- Ele no  casado, pois no, Tan?
268
-J te tinha dito que o processo de divrcio est a correr.
- Ento porque  que no passou o Natal contigo?
- Como raio hei-de eu saber? - Comeava a ficar aborrecida com tanta  persistncia e perguntou a si prpria onde estaria Averil.
- No lhe perguntaste?
- No. Senti-me perfeitamente confortvel assim. respondeu-lhe,  carrancuda. - At agora. 
- Esse  que  o teu problema, Tan, ests to habituada a  estar sozinha que nem sequer te ocorre fazer as coisas de um modo  diferente. Devias estar a passar o 
Natal com ele. A no ser que. 
- A no ser o qu? - Agora estava furiosa. No era problema  dele se ela passava ou no o Natal com Drew, e ela respeitava a  vontade de ele querer ficar sozinho 
com as filhas.
- A no ser que ele esteja a passar o Natal com a mulher.
- Por amor de Deus. que disparate to grande. s o filho da me  mais cnico e desconfiado que eu conheo... E eu que pensei que  era a m da fita. - Olhou furiosa 
para Harry, mas havia mais qualquer  coisa escondida nos olhos dela, como se ele lhe tivesse tocado num ponto  fraco.
- Talvez no sejas suficientemente m.
Ela levantou-se e no lhe respondeu. Procurou a carteira e, quando  Averil finalmente regresso, achou que ambos estavam tensos, mas  no quis intrometer-se. As 
vezes ficavam
assim. J estava habituada, pois eles tinham uma relao  especial e, por vezes, discutiam como co e gato, mas sem nunca se  magoarem um ao outro.
- O que  que vocs os dois andaram a fazer? A bater outra vez um  no outro?
- Estou a pensar nisso - respondeu Tana, olhando irritada para ela.
- Talvez lhe fizesse bem.
Ento, os trs desataram a rir.
- O Harry tem estado a fazer um papel. de parvo, como sempre.
- At parece que estive a exibir-me - comentou ele.
269
- Fizeste isso outra vez, querido? - perguntou Ave com um sorriso.
Tana voltou a meter-se com ele.
- Sabes que s o maior chato do mundo? Tens direito a uma  taa.
Ele fez-lhe uma vnia da cadeira e Tana foi buscar o casaco.
- No tens de ir embora, Tan. - Lamentava senpre v-la retirar-se,  mesmo quando discordavam. Ainda existia um elo especial entre eles. Eram  quase como gmeos.
- Tenho de ir organizar as coisas. Trouxe para casa um monte de  trabalho.
- Para fazeres no dia de Natal? - perguntou horrorizado, e ela  sorriu.
- Tenho de faz-lo nalguma altura.
- Porque no vens antes para c? - Iam receber alguns amigos, o  scio e uma dzia de outros, mas ela negou com a cabea. No  se importava de passar o dia sozinha, 
ou
pelo menos foi o que respondeu.
- s esquisita, Tan. - Mas beijou-a na face e os seus olhos  encheram-se do carinho que sentia por ela. - Diverte-te em Los Angeles.  - Empurrou a cadeira de rodas 
para a porta e olhou para ela, pensativo.  - E Tan. tem cuidado contigo. Talvez eu esteja errado. mas no faz  mal ter um pouco de cuidado. 
- Eu sei. - A voz soou de novo suave e ela beijou os dois e saiu.
Ao conduzir para casa, deu consigo a pensar no que Harry lhe tinha dito.  Sabia que ele no podia ter razo. Drew no estava a passar o  Natal com a mulher. mas 
fosse como fosse, ela devia estar a pass- lo  com ele. Tentou dizer a si mesma que isso no tinha importncia,  mas tinha. Subitamente isso f-la recordar todos 
os anos de  solido de queJean se lamentara. Sempre  espera de Arthur,  sentada junto ao telefone esperando que ele lhe ligasse. Nunca  conseguiam passar juntos 
os feriados mais importantes quando Marie era  viva e, mesmo depois, desculpava-se sempre, com os clubes, os amigos. e  l estava a pobre da Jean com lgrimas nos 
olhos, a suster a  respirao.  espera dele.
270
Tentou afastar os pensamentos. Com Drew, no seria assim. No  seria. Ela no deixaria que fosse. Mas, na tarde seguinte, quando  estava a trabalhar, as perguntas 
continuaram a surgir-lhe. Drew  telefonara-lhe uma vez, mas fora uma chamada muito breve.
- Tenho de ir para junto das midas - dissera apressadamente e,  depois, desligara.
No dia seguinte, quando aterrou em Los Angeles, ele estava  sua  espera no aeroporto e abraou-a de tal maneira que ela mal conseguiu  respirar.
- Meu Deus. espera. Pra. - Mas ele apertou-a ainda mais e ambos se  riram e beijaram durante todo o percurso at ao parque de  estacionamento enquanto ele transportava 
as malas e pacotes.
Ela ficou extasiada por voltar a v-lo. Afinal de contas, passara um  feriado solitrio sem ele e, secretamente, tinha desejado que fosse  diferente e animado, nesse 
ano. Nem sequer o tinha admitido a si  prpria, mas percebeu que assim era. E assim foi, pois era  maravilhoso ir para a cidade com ele. Tinha deixado as midas 
em casa  com uma ama que conhecia, para que a pudesse ir buscar sozinho e passar  alguns minutos sossegado com ela.
antes que elas dem connosco em doidos - disse, olhando para ela.
- Como esto as midas?
- Maravilhosas. Podia jurar que cresceram o dobro nestas ltimas  quatro semanas. Espera at as conheceres, Tan.
E ficou encantada com elas, quando as conheceu. Elizabeth era  encantadora, j crescidinha e muito parecida com Drew; e Julie era  uma bolinha carinhosa que quase 
imediatamente saltou para o colo de  Tana. Adoraram os presentes que lhes tinha comprado e no criaram  qualquer resistncia, embora Tana tivesse notado que Elizabeth 
a  examinara mais de uma vez. Mas Drew tratou do assunto notavelmente bem.  Acabou com todos aqueles abraos e mimos. Era como se fossem apenas  amigos, a passarem 
juntos uma tarde agradvel. Era bvio que ele  conhecia bem Tana, mas seria impossvel adivinhar a relao que  partilhavam, pela forma como ele se comportava com 
ela. E Tana ficou a  pensar se ele agiria sempre assim perto das filhas.
271
      - O que  que tu fazes? - Elizabeth estava de  novo a
examin-la e Julie olhava para ambas; Tana sorriu,  afastando
      uma madeixa de cabelo muito louro. Elizabeth  invejava-lho.
- Sou advogada como o teu pai. Na verdade, foi  assim
que nos conhecemos.
         - A minha me tambm  - acrescentou Elizabeth  rapidamente. -  assistente do secretrio-geral da  Organizao dos Estados Americanos em Washington e talvez 
no
prximo ano consiga um cargo melhor.
- No quero que ela faa isso - afirmou Julie. - Quero que ela  volte a viver aqui. Com o pap. - Fez beicinho.
Elizabeth acrescentou rapidamente: 
- Ele podia vir connosco para onde quer que a me fosse mandada.  S depende do lugar. - Tana sentiu qualquer
coisa estranha no estmago e olhou para ele, mas Drew estava a fazer  outra coisa, e Elizabeth continuou. - A mam
talvez at queira voltar para c, se no lhe oferecerem o lugar  certo. Pelo menos, foi o que ela disse.
      - Isso  muito interessante. - Tana notou que  sentia
a boca seca e desejou que Drew voltasse a controlar a  conversa, mas ele no disse nada. - Gostas de viver em  Washington?
- Muito. - Elizabeth era bastante educada e Julie
voltou a saltar para o colo de Tana, que lhe sorriu.
      - s muito bonita. Quase to bonita quanto  a nossa me.
- Obrigada! - Decididamente, no era fcil  conversar
com elas e era raro Tana encontrar-se numa posio como
aquela, excepto com os filhos de Harry, mas tinha de esforar-se, por  Drew. - O que vamos fazer esta tarde?         quase sentiu falta de ar  quando fez a pergunta, 
ansiosa
por desvi-las do tpico da quase ex-mulher de Drew.
- A mam vai fazer umas compras no Rodeo Drive: 
Julie sorriu para ela e Tana quase se engasgou.
- Ai sim? - Os olhos viraram-se abismados para
Drew e, depois, de novo para elas. - Que bom. Vejamos, que
      tal um cinema? J viram o Sounder? -  Sentia-se como se
estivesse a correr montanha acima o mais que pudesse,  sem
chegar a stio algum... Rodeo Drive... Isso significava que 
tinha vindo para Los Angeles com as filhas... E porque no
tinha ele querido que ela viesse na vspera? Teria ele passado
272
o Natal com ela, afinal de contas? A hora seguinte pareceu decorrer  devagar enquanto Tana conversava com elas mas, por fim, correram l  para fora para brincar, 
e Tna virou-se finalmente para ele. Os olhos  disseram muito mais do que a boca. - Deduzo que a tua mulher est em  Los Angeles - disse em tom spero e, no seu 
ntimo, algo  adormeceu.
- No me olhes assim. - A voz soou suave, enquanto os olhos a  evitavam.
- Porque no? - Levantou-se e aproximou-se dele. Passaste o Natal com  ela, Drew? - J no conseguia evit-la, pois estava mesmo   sua frente. E ela j tinha deduzido 
que sim. Quando ele levantou os  olhos para a encarar, ela percebeu imediatamente que tinha razo e  que as midas ti nham sido um pretexto. - Porque me mentiste?
- Eu no te menti. Nunca pensei. Oh, por amor de Deus. - Olhou para  ela, quase com maldade. Ela encurralara-o. - No planeei as coisas  dessa maneira, mas as midas 
nunca passaram o Natal connosco  separados, Tan. Isto tudo  muito duro para elas. 
- Ai sim? - A voz e o olhar pareceram duros, para esconder a dor que  sentia por dentro. a dor que a mentira lhe provocara. - E quando  tencionas deix-las habituarem-se 
a isso? 
- Raios partam. Achas que gosto de ver as minhas filhas a sofrer com  isto?
- Elas parecem-me bem.
- Claro que sim. Isso  porque a Eileen e eu somos civilizados.   o mnimo que podemos fazer por elas. No  por culpa delas que  as coisas no resultaram entre 
ns. Olhou pesarosamente para Tana,  e ela teve de lutar contra a vontade de se sentar e chorar, no por  ele ou pelas midas, mas por ela prpria.
- Tens a certeza de que no  possvel ainda tentares salvar o  casamento com a Eileen?
- No sejas ridcula.
- Onde  que ela dormiu?
Ele pareceu ter apanhado um choque elctrico.
- Isso no  pergunta que se faa e tu sabes disso muito  bem.
273
      - Meu Deus... - Voltou a sentar-se, incapaz de  acreditar nele. - Tu dormiste com ela.
      - Eu no dormi com ela.
      - Dormiste, sim. - Agora j gritava e ele comeou a
      andar de um lado para o outro como um gato nervoso, mas
      acabou por se virar para ela.
      - Dormi no sof.
      - Ests a mentir-me. No ests?
      - Raios te partam, Tana. No me acuses disso! No 
      to fcil como pensas. Fomos casados quase vinte anos, com
      um raio... No posso virar as costas a tudo de um dia para o outro e  nunca no que envolve as midas. - Olhou tristemente para ela e depois  aproximou-se devagar 
do lugar onde
      estava sentada. - Por favor... - Viam-se lgrimas
nos olhos dele. - Eu amo-te, Tan... S preciso de  um pouco
de tempo para resolver isto... - Ela desviou-se e atravessou
a sala, mantendo-se de costas para ele.
       -J conheo a histria. - Ento,  deu meia volta
para olh-lo de frente e tambm se viam  lgrimas nos olhos
      dela. - A minha me passou dezassete anos a  ouvir disparates
      como esse, Drew.
      - No estou a dizer disparates, Tan. S preciso de tempo. Isto   muito dificil para todos ns.
      - Est bem. - Pegou na carteira e no casaco que
estavam numa cadeira. - Ento, telefona-me quando  tiveres
recuperado de tudo. Acho que vou gostar mais de ti, nessa
      altura. - Mas, antes de chegar  porta, ele  agarrou-a por um brao.
      - No me faas isso. Por favor...
      - Porque no? A Eileen est aqui na cidade.  s
telefonares-lhe. Ela far-te- companhia esta noite.  - Sorriu
      sardnica, para esconder a mgoa. - Podes  dormir
no sof... com ela, se quiseres. - Abriu  completamente a
porta e Drew pareceu que ia chorar.
      - Eu amo-te, Tan. - Mas, quando ouviu as  palavras,
      Tana teve vontade de se sentar e desatar a chorar.
Subitamente, virou-se, e toda a sua energia pareceu  ter-se evaporado quando olhou para ele.
      - No me faas isso, Drew. No   justo. Tu no
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s livre. No tens o direito de. - Mas tinha aberto a porta do  corao o suficiente para ele entrar. Sem dizer uma palavra, ele  abraou-a e beijou-a com fora, 
e ela sentiu que tudo dentro de si  se derretia. - Isso no resolve nada - disse Tana quando se  afastou.
- No. - Parecia mais calmo. - Mas o tempo sim. D-me s essa  oportunidade. Juro-te que no te arrependers. - Depois, disse as  palavras que mais a assustavam. 
Quero casar-me contigo um dia, Tan. -  Quis mand-lo parar, quis recuar o filme para o momento antes de  dizer aquelas palavras, mas j no importava, pois as midas 
entraram a correr, rindo e gritando, prontas para brincarem com ele;  Drew olhou para Tana por cima das cabeas delas e disse baixinho: -  Por favor, fica.
Ela hesitou. Sabia que devia regressar e queria faz-lo. No  pertencia ali. Ele tinha acabado de passar a noite com a mulher com quem  estava casado e com as suas 
duas filhas. Onde encaixava Tana no meio de  tudo aquilo? No entanto quando olhou para ele, no quis ir-se embora.  Quis fazer parte daquilo, ser sua, pertencer-lhe 
a ele e s  midas, mesmo que nunca se casassem. De qualquer modo, ela realmente  no queria isso. S queria estar com ele, como tinham estado  dsde que o conhecera 
pela primeira vez; e, lentamente, pousou a  carteira e o casaco, olhou para ele, e Drew sorriu-lhe. Sentiu como se  as suas entranhas amolecessem. Julie
abraou-se  sua cintura, enquanto Elizabeth lhe perguntava: -  Para onde vais, Tana? - Elizabeth sentiu-se curiosa e parecia fascinada  com tudo o que Tana fazia 
ou dizia. - A nenhum stio. - Sorriu para a  bonita adolescente - Agora, o que  que vocs, meninas, gostariam  de fazer?
As duas raparigas desataram a rir, brincaram, e Drew correu atrs  delas por toda a sala. Tana nunca o tinha visto feliz como agora. Mais  tarde, foram ao cinema 
e comeram pipocas; depois, ele levou-as ao La  Brea jantar pitzas, nessa noite. Quando finalmente chegaram a casa, os  quatro estavam prontos para cair na cama. 
Julia adormeceu nos braos  de Drew e Elizabeth conseguiu chegar  cama, antes de adormecer  tambm. Tana e Drew
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      sentaram-se diante da lareira da sala, a  conversar baixinho, enquanto ele afagava suavemente o cabelo que tanto  amava.
- Estou feliz por teres ficado, querida. No queria  que fosses embora. 
- Eu tambm estou satisfeita por ter ficado. - Sorriu-lhe,  sentindo-se vulnervel e jovem, o que no fazia sentido numa  mulher da sua idade, pelo menos para ela. 
Imaginou que agora j devia  ser mais madura do que isso e menos sensvel. Mas, era mais  sensvel com ele do que alguma vez fora com algum homem. - Promete  que 
no volta a acontecer. - A voz desvaneceu-se e ele olhou para ela  com um sorriso terno.
- Prometo, querida.

CAPTULO 16
A Primavera que Tana e Drew partilharam foi to idilica que mais  pareceu um conto de fadas. Drew voava para So Francisco cerca de  trs vezes por semana e ela 
ia a L. A. todos os fins-de-semana.  Assistiram a festas, passearam de barco na baa e reuniram-se com os  respectivos amigos. Ela at o apresentou a Harry e a Ave, 
e os dois  homens entenderam-se muito bem. E Harry aprovou-o, quando convidou Tana  para comemorarem, na semana seguinte.
- Sabes, mida, acho que finalmente fizeste qualquer coisa por ti. -  Ela fez-lhe uma careta e ele riu-se. - A srio. Olha para os tipos  com quem andaste. Lembras-te 
do Yael McBee?
- Harry! - Atirou-lhe o guardanapo no restaurante e ambos desataram a  rir. - Como podes comparar o Drew com ele? Alm do mais, eu tinha  vinte e cinco anos. Agora, 
tenho quase trinta e um.
- Isso no  desculpa. s muito mais inteligente do que  antes.
- O raio  que sou. Tu prprio o disseste. 
- Esquece o que eu disse, sua parva. V l, ser que vais
dar-me alguma paz de esprito e casar com o tipo?
- No - respondeu ela muito depressa; e Harry, a olhar para ela, viu  algo que nunca tinha visto antes. H anos que procurava ver aquilo e,  subitamente, ali estava. 
Viu-o nitidamente quanto os grandes olhos  verdes: uma espcie de olhar vulnervel e envergonhado que ela  nunca antes tivera. - Santo Deus, isso  srio, no , 
Tan?  Tu vais casar-te com ele, no vais.
- Ele no me pediu - respondeu num tom to srio que ele no  se conteve.
- Meu Deus, vais! Espera at eu contar  Ave! 
- Harry, acalma-te. - Tocou-lhe no brao. - Ele ainda nem sequer  est divorciado. - Mas isso no a preocupava. Sabia que ele estava  a tratar do assunto. Todas 
as semanas
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lhe contava os encontros que tinha com o advogado e as suas conversas  com Eileen, para apressar as coisas. Ia para o
Leste ver as filhas na semana da Pscoa e, provavelmente, ela  assinaria os papis de comum acordo, se estes ficassem prontos a  tempo.
- Ele est a tratar do assunto, no est? - Harry pareceu  momentaneamente preocupado, mas tinha de admitir que gostava dele. Era  impossvel no gostar de Drew 
Lands. Era uma pessoa serena e  inteligente e via-se logo que estava louco por Tan.
- Claro que est.
- Ento tem calma. Estars casada daqui a seis meses e, nove meses  depois disso, ters um beb nos braos. Podes ter a certeza. -  Pareceu entusiasmado, e Tana 
encostou- se para trs e desatou a  rir.
- Ena, tu tens c uma imaginao, linslow. Em primeiro lugar,  ele ainda no me pediu em casamento, pelo menos no a srio. E,  em segundo lugar, fez uma vasectomia. 
- Ento ter de a desfazer.  Grande coisa. Conheo muitos tipos que a fizeram. - Mas ficava um  tanto nervoso s de pensar naquilo.
- S sabes pensar nisso? Que as pessoas engravidem? - No - sorriu  inocentemente -, s a minha mulher. Ela riu e ambos terminaram a  refeio e regressaram aos 
respectivos escritrios. Em breve  Tana teria um caso grande, talvez o maior da sua carreira. Havia trs  rus, envolvidos numa srie de assassnios dos mais  horrveis 
cometidos naquele estado durante os ltimos anos; e  havia trs advogados de defesa, dois de acusao e ela, que  estava encarregue do caso pelo Ministrio Pblico. 
A imprensa iria  dar grande
cobertura e ela tinha de conhecer bem todo aquele processo; razo por  que no iria para Leste com Drew, quando ele fosse ver as filhas,  durante a Pscoa. Provavelmente, 
seria
bom ela no ir. Drew iria estar nervoso por ter de entregar os  papis para assinar e ela teria o julgamento na mente.
Fazia mais sentido ficar em casa a preparar-se do que sentar-se em  quartos de hotis,  espera dele.
Ele foi passar o fim-de- semana com ela a So Francisco antes de  partir; e, na sua ltima noite, passaram horas
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deitados no tapete diante da lareira, a conversar, a pensar em voz alta,  a dizer quase tudo o que lhes vinha  cabea, e Tana compreendeu  mais uma vez o quanto 
estava a apaixonar-se por ele.
- Algum dia pensars em casamento, Tan? - Olhou pensativamente para  ela, e Tana sorriu  luz das chamas. Parecia to frgil sob  aquela luz suave, que os seus delicados 
traos mais pareciam ter sido  talhados em plido mrmore cor de pssego, com os olhos a  danarem como esmeraldas.
- Nunca pensei nisso antes. - Tocou-lhe nos lbios com a ponta dos  dedos, e ele beijou-lhe as mos e, depois, a boca.
- Achas que serias feliz comigo, Tan?
- O senhor est a pedir-me em casamento? - Ele pareceu atrapalhado e  ela sorriu-lhe. - No tens de casar comigo, como sabes, sou feliz  assim.
- s, no s? - Olhou para ela de uma forma estranha, a Tana  concordou com a cabea.
- Tu, no?
- No, totalmente. - O cabelo parecia ainda mais prateado, os olhos  cor de topzio brilhantes, e ela nunca mais queria amar outro homem,  seno ele. - Quero mais 
do que
to, Tan. Quero-te sempre ao meu lado. 
- Eu tambm. - sussurrou e ele tomou-a nos brao e fez amor com  ela, carinhoso como nunca, diante da lareira. Depois, ficou deitado  durante muito tempo, a olhar 
para ela. Ento, falou finalmente, com a  boca aninhada nos cabelos dela e as mos ainda a afagarem o corpo que  ele tanto amava.
- Casas-te comigo quando eu estiver livre?
- Sim - respondeu quase sem respirar. Nunca o tinha dito a ningum,  mas agora queria e, subitamente, percebeu o que as pessoas sentiam  quando prometiam. para o 
bem e para o mal. at que a morte os separe.  Nunca mais queria viver sem ele e, quando o levou ao aeroporto no dia  seguinte, ainda estava um tanto dominada pelos 
seus sentimentos.  Olhou-o, examinadora. - Queres mesmo o que disseste onttem  noite,  Drew?
- Como podes tu fazer-me essa pergunta? - indagou, 
279
horrorizado; mas, de imediato, esmagou-a de encontro ao
seu peito, enquanto permaneciam no terminal. - Claro
que sim.
Sorriu, envergonhada, mais parecendo a filha dele com
treze anos do que uma delegada do Ministrio Pblico.
- Ento, penso que isso significa que estamos noivos, 
hein?
Subitamente, ele desatou a rir e sentiu-se feliz como um
garoto, quando olhou para ela.
- Realmente significa. Terei de ver que espcie de anel
consigo arranjar em Washington.
- No te incomodes com isso. Volta apenas so e salvo. - Iam ser  dez dias interminveis  espera dele. E a nica coisa que iria  ajudar era o seu importante caso 
jurdico.
Ele telefonava-lhe diariamente duas ou trs vezes, durante os  primeiros dias, e contava-lhe tudo o que tinha feito
desde que se levantara at se deitar mas, quando as coisas
comearam a ficar feias com Eileen, ele passou a telefonar-lhe uma  vez ao dia e Tana percebeu como ele estava nervoso. Nessa altura, j  se tinha iniciado a seleco 
do jri, e
ela estava totalmente envolvida nisso; e, quando ele regressou
a Los Angeles, ela percebeu que no falavam um com o outro
h mais de dois dias. Tinha ficado l mais tempo do
que previsto, mas fora por uma causa justa>>, dissera-lhe, e ela  concordara; nessa altura, mal conseguia raciocinar bem.
Andava demasiado preocupada com o jri que estava a ser
seleccionado, com a tctica que a defesa ia utilizar, com as
provas que tinham acabado de surgir e com o juiz que
fora nomeado. Tinha muito em que pensar. Drew tambm 
tinha de ir defender um caso em tribunal. Aquilo era uma ocasio rara  para ele, o que o manteve afastado dela durante
uma semana; quando finalmente se encontraram, quase se sentiram  estranhos de novo. Brincou com ela por causa
disso, perguntando-lhe se se tinha enamorado por mais algum
e fez, apaixonadamente, amor com ela, durante toda a noite.
- Quero que passes o dia no tribunal com os olhos
vermelhos, para que todos fiquem a pensar no que raio
se ter passado ontem  noite. - E conseguiu o seu desejo.
Estava meio a dormir e no conseguia tirar Drew da cabea, 
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sentia fome dele. Durante todo o dia de julgamento sentiu-se sozinha,  mas o caso era demasiado importante para deitar a perder e teve de  trabalhar rdua e constantemente.
O julgamento continuou at fins de Maio e, finalmente, na primeira  semana de Junho, foi lido o veredicto. Saiu tal como ela queria, e a  imprensa elogiou-a muito, 
como sempre. Ao longo dos anos, ela conseguira  criar uma reputao de rgida, dura, conservadora, impiedosa em  tribunal e brilhante nos casos que julgava. Eram 
crticas boas e,  muitas vezes, faziam Harry sorrir, quando as lia.
- Nunca reconheceria aqui a liberal que conheci e amei, Tan - comentou  ele bem-disposto.
- Algum dia temos de crescer, no temos? Este ano, fao trinta e  um anos.
- Isso no  desculpa para seres to dura como s.
- Eu no sou dura, Harry, sou boa no que fao. - E tinha razo,  mas ele tambm sabia disso. - Aqueles tipos mataram nove mulheres e  uma criana. No se pode deixar 
escapar este tipo de pessoas. Toda  a nossa sociedade desmoronar-se-ia. Algum tem de fazer o que eu  fao.
- Ainda bem que s tu e no eu, Tan. - Afagou-lhe a mo. -  Ficaria a noite acordado, preocupado com o que me pudessem fazer. -  Detestava ter de dizer aquilo e 
por vezes preocupava-se por ela, mas  isso no parecia afect-la em nada. - A propsito, como est  o Drew?
- Bem. Na prxima semana, vai a Nova Iorque em trabalho e traz as  midas com ele.
- Quando  que se casam?
- Calma. - Sorriu. - Nem sequer falmos disso, desde que comecei este  caso. Na verdade, mal falei com ele. E quando contou a Drew o sucesso  que teve, antes de 
este ser publicado nos jornais, ele pareceu  esquisito. - Que bom.
- Bem, no te animes muito. Talvez seja mau para o futuro.
Deu uma gargalhada.
- Est bem, est bem, desculpa. Estava a pensar noutra coisa.
- Em qu?
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         - Nada de importante. - Mas ficou assim at partir e
ao telefone parecia pior.
      Quando regressou a Los Angeles, nunca lhe  telefonou.
Tana perguntou a si prpria se havia algo de  errado, ou se
deveria ir at l para lhe fazer uma surpresa e colocar tudo
de novo no caminho certo. Tudo do que precisavam era de
um pouco de tempo sozinhos para arrumarem as ideias, pois
         ambos tinham trabalhado muito e ela conhecia bem os sintomas. Uma  noite j tarde, olhou para o relgio tentando decidir se devia  apanhar o ltimo avio, 
mas acabou por lhe
telefonar. Podia sempre ir no dia seguinte, e eles tinham
muito para conversar, depois dos seus dois meses de trabalho exaustivo.  Discou o nmero que sabia de memria, ouviu tocar trs vezes e  sorriu quando atenderam, 
mas por
pouco tempo. Foi uma mulher quem atendeu.
- Est l?
Tana sentiu o corao parar e deixou-se ficar ali sentada 
a olhar para a noite; depois, desligou apressadamente.
O corao batia com fora, e ela sentiu-se tonta, esquisita,  desorientada e estranha. No conseguia acreditar no que
tinha ouvido. Devia ter discado o nmero errado, disse
      consigo mas, antes de poder recompor-se para  tentar de
novo, o telefone tocou e ela ouviu a voz de Drew e  compreendeu de imediato. Ele devia ter percebido que ela tinha tentado  ligar e agora estava em pnico. Tana 
sentiu como se
a sua vida tivesse chegado ao fim.
- Quem era ela? - perguntou, quase histrica, e
ele tambm pareceu nervoso.
- A quem te referes?
         - A mulher que atendeu o telefone. - Tentou recompor-se, mas a voz  estava totalmente descontrolada.
- No sei do que ests a falar. 
- Drew!.. Responde-me... Por favor... - Estava
a chorar, meio a gritar com ele.
- Temos de conversar.
- Meu Deus... Raios te partam, o que  que me fizeste?
- No sejas to melodramtica, por amor de Deus!
Ela interrompeu-o com um grito agudo.
- Melodramtica? Telefono-te s onze horas da noite,
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uma mulher atende o teu telefone e dizes que sou melodramtica? Como  reagirias tu, se fosse um homem a atender o telefone quando me  ligas?
- Pra com isso, Tan. Foi a Eileen.
- Obviamente. - Percebeu tudo de imediato.
- E onde esto as midas? - Nem sequer sabia porque perguntava  aquilo.
- Em Malibu.
- Em Malibu? Queres dizer que ests sozinho com ela?
- Tnhamos de conversar. - A voz dele soou, subitamente, apagada.
- Sozinhos? A esta hora? Que raio significa isso? Ela assinou?
- Sim, no. Olha, tenho de conversar contigo. 
- Oh, agora tens de conversar comigo. - Estava a ser cruel com ele e  comeavam os dois a parecer histricos. Que raio se passa a? -  Houve um silncio interminvel, 
que ele no conseguiu  quebrar.
Tana desligou e chorou toda a noite, e ele foi a So Francisco, no  dia seguinte. Era sbado e encontrou-a em casa, como sabia de  antemo. Utilizou a prpria chave 
e entrou; encontrou-a a chorar  baixinho na varanda, olhando para a
baa. Ela nem sequer se virou, quando o ouviu entrar.
- Porque te deste ao trabalho de vir? - disse-lhe, de costas.
Ele ajoelhou-se ao seu lado e tocou-lhe no pescoo com as pontas dos  dedos.
- Porque te amo, Tan.
- No, no me amas. - Abanou a cabea. - Tu ama-la. Sempre a  amaste.
- Isso no  verdade. - Mas sabiam que era; sabiam-no os trs.  - A verdade  que amo as duas.  horrvel dizer isto, mas   a verdade. No sei como deixar de a 
amar e, ao mesmo tempo, estar  apaixonado por ti.
- Que nojo. - Continuou a olhar para a baa, julgando-o, e ele  prendeu-lhe o cabelo para a obrigar a olhar para si; quando o fez, viu  lgrimas no rosto dela e 
isso comoveu-o.
- No consigo evitar o que sinto. E no sei o que fazer
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com tudo o que est a acontecer. A Elizabeth quase chumbou. Est  muito preocupada connosco, com a Eileen e comigo. A Julie tem pesadelos.  A Eileen deixou o emprego, 
recusou o novo cargo que lhe ofereceram e  voltou para casa, com as midas. 
- Esto a viver contigo? - Parecia que ele lhe espetara um ferro no  corao. Drew anuiu. J no queria mentir-lhe mais. - Quando  aconteceu tudo isto?
- Falmos muito disso em Washington, na semana da Pscoa. Mas  no quis aborrecer-te, quando estavas com tanto trabalho, Tan. - Ela  teve vontade de lhe bater pelo 
que acabara de dizer. Como  que ele  no podia dizer-lhe uma coisa dessas? - E nada era certo. Fez tudo  sem me consultar e apareceu na semana passada. E, agora, 
o que queres  que eu faa? Que corra com elas?
- Sim. Nunca devias t-las recebido outra vez.
- Ela  minha mulher e elas so minhas filhas. - Parecia prestes a  chorar, mas Tana levantou-se.
- Ento, acho que isso resolve o problema, no ? Dirigiu-se  lentamente at  porta e olhou para ele. - Adeus, Drew.
- No vou sair assim daqui. Eu estou apaixonado por ti. 
- Ento, livra-te da tua mulher. To simples como isso.
- No, no , caramba! - J gritava. Tana recusou  compreender aquilo por que ele estava a passar. - No fazes ideia  como . O que sinto. a culpa. a agonia. - Comeou 
a chorar, e Tana  sentiu-se mal a olhar para ele. Virou-se de costas e teve de lutar  contra a comoo da sua prpria voz.
- Por favor, sai. 
- No saio. - Puxou-a para os braos, e ela tentou afast-lo de  si, mas ele no o permitiu; subitamente, mes sem querer, ela sucumbiu  e voltaram a fazer amor, 
chorando, implorando, gritando,  amaldioando-se mutuamente e ao destino e, quando terminaram,  deitaram-se nos bros um do outro e ela olhou para ele.
- O que vamos fazer?
- No sei. D-me tempo.
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Ela suspirou.
- Jurei que nunca faria uma coisa destas. - Mas no conseguia  suportar a ideia de perd-lo, nem ele a dor de desistir dela. 
Choraram e abraaram-se um ao outro durante os dois dias seguintes e,  quando ele regressou a Los Angeles, nada ficou resolvido, excepto que  ambos sabiam que ainda 
nada tinha terminado. Ela concordou em dar-lhe  mais tempo e ele prometeu-lhe que acharia a soluo; durante os  seis meses seguintes, enlouqueceram-se um ao outro 
com promessas e  ameaas, ultimatos e histeria. Tana ligou e desligou na cara de  Eileen um milho de vezes. Drew implorou-lhe que no se  precipitasse. At as crianas 
notaram o estado em que ele estava,  e Tana comeou a evitar todos, em especial Harry e Averil. No  suportava as perguntas que via no olhar dele, a doura da mulher, 
os  filhos que s lhe faziam recordar s raparigas de Drew: Era uma  situao intolervel para todos e at Eileen se apercebeu  disso, mas afirmou que no voltaria 
a sair de l. Teria de esperar  que ele solucionasse tudo, pois ela no ia para parte alguma; Tana  sentiu como se estivesse a ficar louca. Como era de esperar, 
passou  sozinha o aniversrio, o 4 de Julho, o Dia do Trabalho e o Dia de  Aco de Graas. 
- O que esperas de mim, Tana? Queres que as abandone?
- Talvez queira. Talvez seja isso, exactamente, o que espero de ti.  Porque tenho de ser eu a ficar sempre sozinha? 
Tambm  meu problema. - Mas eu tenho filhas. 
- Vai-te foder.
No sentia realmente o que dizia at passar o Natal sozinha. Ele  prometera-lhe aparecer, tanto nessa altura como na noite de fim de ano,  e ela ficou sentada  
espera dele toda a
noite, mas em vo. Colocou um vestido de noite e ficou assim at  s nove da manh do dia de Ano Novo; depois, lentamente e sem  hesitar, tirou-o e deitou-o no lixo. 
Tinha-o comprado s para ele. No  dia seguinte, mandou mudar a fechadura e empacotou tudo o que ele l  deixara ao longo de ano e meio e mandou que lhe entregassem 
numa caixa  no
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identificada. Depois disso, enviou-lhe um telegrama que dizia: Adeus.  No voltes nunca mais. E deitou-se, lavada
em lgrimas. Tinha o corao destroado. Ele voou para  l, 
      assim que comeou a receber os recados, o  telegrama e o pacote. Sentiu-se aterrorizado que ela, desta vez, pudesse  estar a reagir a srio e, quando tentou 
abrir a porta com a sua  chave, percebeu que assim era. Foi directamente ao escritrio e  insistiu em v-la. Quando conseguiu, os olhos dela estavam frios e  mais 
verdes do que nunca.
      - No tenho mais nada para te dizer, Drew. - Uma
parte dela tinha sucumbido. Ele matara-a com as  promessas
que nunca cumpriria, as mentiras que dizia a ambos e principalmente a si  prprio. Perguntava agora a si prpria como  que a me  conseguira suportar aquilo durante 
tantos anos sem se matar. Era a pior  tortura por que Tana passava e
nunca mais queria voltar a passar pelo mesmo, por ningum. E muito  menos por ele: 
- Tana, por favor...
- Adeus. - Saiu do escritrio e desceu para o vestbulo,  desaparecendo numa sala de conferncias; pouco depois
      deixou o edificio, mas s foi para casa horas  mais tarde.
      Quando chegou a casa, ele ainda l estava  sua espera, 
na rua,  chuva. Abrandou o carro, mas, quando o  viu, acelerou de novo. Passou a noite num motel da Lombard e, na  manh seguinte, ao regressar, ele estava a dormir 
dentro do carro.  Quando, instintivamente, ouviu os passos
dela, acordou e saiu para conversar com ela.
- Se no me deixares em paz, eu chamo a Polcia.
Soou dura e ameaadora, olhou furiosa para os olhos
dele, mas o que ele no viu foi como ela se sentia por dentro; 
o tempo que soluou quando ele se foi embora, o desespero
que sentiu s de pensar que nunca mais voltaria a
v-lo. Chegou mesmo a pensar em atirar-se da ponte, mas algo a  impediu assim que pensou nisso e nem sequer sabia o qu.
Ento, como que por milagre, Harry pressentiu que
ela no ia bem quando lhe telefonou repetidas vezes e ningum
respondeu. Ela pensou que era Drew e deixou-se ficar no
cho da sala a soluar e a pensar nas vezes em que 
tinham feito amor ali e ele se declarara. Subitamente, algum 
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bateu  porta e ela ouviu a voz de Harry. Quando abriu, parecia uma  desgraada, ali de p, com o rosto lavado em lgrimas e os  ps descalos, a blusa coberta de 
coto do tapete, o pulver  todo amarrotado.
- Meu Deus, o que foi que te aconteceu? - Parecia que tinha estado a  beber durante uma semana, ou que levara uma tareia, ou que algo de  terrivel lhe acontecera. 
S a lti ma coisa era verdade. - Tana? -  Ela desfez-se em lgrimas quando olhou para ele; e Harry abraou-a  enquanto ela se debruava toda sobre a cadeira de 
rodas; quando  conseguiu lev-la para o sof, ela contou-lhe tudo.
- Acabou tudo. Nunca mais voltarei a v-lo. 
-  melhor assim - disse Harry, carrancudo. - No podes viver  assim. Andaste com m cara nestes ltimos seis meses. No   justo para ti.
- Eu sei. Mas se talvez eu tivesse esperado. acho que no acabaria.  Sentiu-se fraca e enervada e, subitamente, perdeu o controlo e Harry  teve de lhe gritar.
- No! Pra com isso! Ele nunca h-de largar a mulher, se  no o fez at agora. Ela voltou para ele h sete meses  atrs, raios. Tan, e ainda l est. Se ele realmente 
quisesse  acabar com tudo, j teria encontrado a porta por esta altura.
No te enganes a ti prpria.
- H ano e meio que me engano.
-  o que acontece s vezes. - Tentou parecer filosfico, mas  apetecia-lhe matar o filho da me que fizera aquilo a
Tana. - Tens de te erguer e seguir a tua vida.
- Oh, sim, claro. - Comeou de novo a chorar, sem se lembrar com quem  estava a falar. - Falar  muito fcil. Olhou insistente e  duramente para ela. 
 - Lembras-te de quando me arrastaste com unhas e dentes de volta   vida e, depois, da mesma forma para o
curso de Direito? Lembras-te de mim? Bom, no me venhas com essas  merdas, Tan. Se eu consegui, tu tambm consegues. Hs-de conseguir  ultrapassar isso.
- Nunca amei ningum como o amei a ele - disse ela a choramingar  terrivelmente.
Harry sofria por v-la assim, com aqueles enormes olhos verdes cheios  de lgrimas. No parecia ter mais de doze anos
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e ele gostaria de a fazer sentir-se melhor, mas no podia fazer  desaparecer a mulher de Drew, por mais que tivesse gostado de fazer isso  por ela. Tudo por Tan, 
a sua melhor e
      mais querida amiga.
- H-de aparecer mais algum. Melhor do que  ele.
- No quero mais ningum. No quero ningum. E Harry temeu  isso, mais do que qualquer outra coisa.
No ano que se seguiu, ela conseguiu provar isso mesmo.
Recusou ver quem quer que fosse, excepto os colegas de trabalho. No  saiu nem se encontrou com ningum e, quando
chegou o Natal, at recusou ver Harry e Averil. Ficou sozinha, quando  fez trinta e dois anos, passou as noites sozinha e
      teria comido sozinha o peru do Dia de  Aco de Graas, 
se se tivesse dado ao trabalho de comprar um, o que  no foi
o caso. Trabalhou fora de horas, o dobro do tempo, as horas
sagradas e todas as horas, sentada  secretria at s  dez
ou onze da noite, encarregando-se de mais casos do que nunca
e, durante literalmente um ano, no se divertiu mesmo 
nada. Raramente se riu, no telefonou a ningum, no saiu 
com ningum e levou semanas a responder aos telefonemas
      de Harry.
- Parabns. - Conseguiu, finalmente, falar com ela  
em Fevereiro. Tana chorara por Drew Lands durante mais de um ano e,  inadvertidamente, soubera atravs de amigos
que ele e Eileen ainda estavam juntos e tinham acabado de
comprar uma bela casa em Beverly Hills. - Est bem, parvalhona. -  Harry estava farto de correr atrs dela. - Porque  que j  no respondes aos meus telefonemas?
- Estive muito ocupada nas ltimas semanas. No
ls os jornais? Estou  espera que saia o veredicto.
      - Estou-me nas tintas para o veredicto, caso  estejas
interessada em saber, e isso no justifica os  ltimos treze 
meses. Tu j nem me telefonas. Sou sempre eu a ligar-te.
 por causa do meu hlito, dos meus ps ou do meu Q. I.
Ela desatou a rir. Harry no mudava. 
- Por tudo o que disseste.
- Grande idiota. Vais passar a vida a lamentar-te?
O tipo no merece isso, Tan. E um ano inteiro  ridculo!
- No teve nada a ver com isso. - Mas no era
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verdade. Tivera tudo a ver com Drew Lands e com o facto de ele no  deixar a mulher.
- Isso tambm  novidade. Tu no costumavas mentir-me.
- Est bem, est bem. Tem sido mais fcil no ver  ningum.
- Porqu? Tu devias comemorar! Podias ter feito o que a tua me  fez e ficar a durante quinze anos. Pelo contrrio, foste  suficientemente inteligente para saltares 
fora. Ento, o que  que  perdeste, Tan? A tua virgindade? Dezoito meses? E depois? H mulheres  que perdem dez anos com homens casados. Perdem o corao, a  sanidade, 
o tempo, a vida. Se queres saber a minha opinio, tiveste a  sorte de saltares fora.
 - Sim. - Algures no seu ntimo, ela sabia que ele tinha
razo, mas isso ainda no melhorava nada. Talvez nunca
melhorasse. Ou sentia saudades dele, ou revolta. No era a  indiferena que gostaria de ter sentido e acabou por admiti-lo a  Harry, quando aceitou almoar com ele.
-Isso leva tempo, Tan. E precisas de ajuda. Tens de
sair com outros. Enche a cabea de outras coisas e no apenas  dele. No podes ficar sempre a trabalhar. - Sorriu-lhe
suavemente, pois amava-a muito e sabia que a amaria sempre. No era o  que sentia pela mulher. Ela agora era como         uma irm para ele.  Lembrou-se da grande 
paixo que sentira
por ela durante anos e fez-lhe lembrar isso. - E eu sobrevivi. 
- Isso no foi a mesma coisa. Merda, o Drew tinha-me
pedido em casamento. Foi o nico homem com quem eu
quis casar. Sabes disso?
- Sim, eu sei. - Conhecia-a melhor do que ningum. Por isso, ele  no presta. Ns j sabemos disso. E tu s uma
mulher linda. Mas hs-de querer casar outra vez. H-de  aparecer
algum.
- Era s o que me faltava! - exclamou, parecendo revoltada com a  ideia. - J estou muito velha. Os romances
de adolescentes j no fazem o meu gnero. Obrigada.
 - ptimo, ento encontra um velho qualquer que te ache gira, mas  no fiques por a sentada a ver a vida passar.
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      - No vejo exactamente a vida a passar Harry.  Olhou, sria, para ele. - Tenho o meu trabalho.
      - Isso no chega. Bolas, s uma chata! - Olhou para
      ela, abanando a cabea e convidou-a para uma festa que iam dar na  semana seguinte, mas ela acabou por no aparecer.
      Harry teve de fazer uma verdadeira campanha para conseguir tir-la da  sua concha. Era como se tivesse sido violada de novo. Ento, para  piorar ainda mais 
as coisas, perdeu um caso importante e ficou deprimida  por causa disso.
      - Est bem, sim. Ento, no s infalvel. Faz uma pausa,  por amor de Deus. Sai desse calvrio. Sei que  semana
      de Pscoa e j basta um crucificado. No tens mais nada que  fazer a no ser atormentares-te? Porque no vens passar um
fim-de-semana connosco, em Tahoe? - Tinham acabado  de
       alugar uma casa e Harry adorava ir para l  com os filhos.         De qualquer modo, no podemos ficar l muito  mais tempo: 
- Porque no? - Olhou para ele, enquanto Harry  pagava a conta, e ele sorriu-lhe. Ela tinha-lhe dado que fazer
      durante os ltimos meses, mas comeava a  recompor-se.
      - No posso levar a Averil por mais tempo. Est grvida outra  vez, sabes? - Por um minuto, Tana pareceu
mesmo estupefacta, e ele riu-se dela, corando depois.  - Afinal
j tinha acontecido antes... Quero dizer, no  nada assim
      to notvel... - Mas ambos sabiam que era.  Subitamente
      Tana sorriu-lhe. Era como se a vida tivesse voltado ao normal;  subitamente, Drew Lands desapareceu, e ela teve
vontade de gritar e cantar. Era como se tivesse tido  uma dor
de dentes durante mais de um ano e descobrisse, miraculosamente, que o  dente j no estava l.
- Bem, raios me partam. Vocs nunca mais param?
      - No. E depois deste, tentaremos o quarto.  Desta
vez quero outra rapariga, mas a Averil quer um rapaz.  Tana        brincou com ele e deu-lhe um abrao forte, quando
sairam do restaurante.
- Vou ser outra vez tia.
- Essa  a forma mais fcil, deixa-me dizer-te.
No  justo, Tan.
- Serve-me lindamente.
De uma coisa estava certa: no queria ter filhos, qualquer
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      que fosse o homem que entrasse na sua vida.  No tinha
tempo para isso e, de qualquer modo, j era muito  velha.
Tomara essa deciso h muito tempo; o seu filho era a lei, o
direito. E tinha os filhos de Harry para mimar, quando queria que  algum pequeno se sentasse ao seu colo. Ambos
eram adorveis e sentiu-se feliz por eles, por haver um terceiro a  caminho. Averil tivera sempre uma vida fcil e Harry fora sempre  muito vaidoso de si mesmo e, 
certamente, tinha posses para sustentar  todos os que quisesse ter. S a me  que no concordou,  quando Tana Lhe deu a notcia.
- Isso parece-me francamente impensvel.
Nos ltimos tempos, a me opunha-se sempre a tudo: 
bebs, viagens, empregos novos, casas novas. Era como se
quisesse viver o resto da vida cheia de cautela e achasse que todos  deviam fazer o mesmo. Era um sinal de velhice que Tana
      reconheceu, mas a me parecia muito nova para  tal. Envelhecera rapidamente, desde que se casara com Arthur. Nada
correra muito bem para ela e, quando conseguira o que  quisera durante tanto tempo, no era o mesmo que antigamente. Arthur  estava doente e a ficar velho.
Tana sentiu-se feliz por Harry e Ave; quando o beb nasceu no dia  25de Novembro, Averil conseguiu realizar o seu
desejo. Deram-lhe o nome do seu bisav, Andrew Harrison, 
Tana sorriu ao v-lo nos braos da me e sentiu as lgrimas  a encherem-lhe os olhos. No reagira assim com os outros, mas havia  algo muito doce e comovente na 
inocncia
      do beb: a sua carne rosada, os enormes olhos  redondos, os dedos minsculos to graciosamente dobrados. Tana  nunca
vira uma tal perfeio, e tudo aquilo era to  pequenino! Ela
e Harry olharam-se e trocaram um sorriso, pensando at onde tinham  chegado. Ele estava bastante vaidoso, com uma
mo a apertar fortemente a da mulher, e a afagar suavemente
o filho com a outra.
Averil foi para casa no dia a seguir ao nascimento de Andrew e foi ela  prpria que fez o jantar de Aco de Graas, 
como sempre, praticamente recusando qualquer ajuda, enquanto Tana olhava  para ela, admirada com tudo o que fazia na perfeio.
- Isto faz-nos sentir um tanto entorpecidas, no ?
- perguntou Tana.
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Averil estava a dar de mamar, sentada  janela, a olhar
      para a baa; Tana olhou para ela, e Harry  sorriu.
      - Tu tambm podias fazer o mesmo, Tan, se quisesses.
      - No contes com isso. Mal consigo cozer um ovo, 
      quanto mais ter um filho e, dois dias depois, cozinhar um
      peru para a minha famlia, como se no tivesse mais nada
que fazer durante toda a semana.  melhor  agarrares-te a
ela, Harry, e no a engravidares outra vez. - Sorriu-lhe-e
percebeu que eles nunca tinham sido to felizes. Averil irradiava  felicidade e ele tambm.
- Farei o que puder. A propsito, vens ao baptizado?
      A Ave quer que seja no dia de Natal, se  estiveres c.
-Onde mais poderei estar? - Deu uma gargalhada.
- Como  que eu hei-de saber? Talvez vs a Nova Iorque. Tinha  pensado levar os midos a Gstaad para verem o
      meu pai, mas ele disse-meque vai para Tnger  com alguns
      amigos. Assim, j no vale a pena.
      - Deixas-me comovida. - Desatou a rir.
H anos que no via Harrison, mas Harry  disse-lhe que ele 
estava bem. Parecia o tipo de homem que seria belo e saudvel para  toda a vida. Causou-lhe uma certa admirao saber
      que ele j tinha sessenta e poucos anos,  sessenta e trs mais exactamente, lembrou-lhe Harry, embora no  parecesse
mais de metade dessa idade, segundo o filho. Era  estranho
      recordar o quanto Harry o tinha odiado e agora  j no. 
Fora Tana quem mudara tudo, e Harry nunca se esqueceu  disso.
      Quis que ela fosse de novo a madrinha e ela  sentiu-se comovida.
- No tens mais amigas? Os teus filhos vo ficar  totalmente fartos de mim quando crescerem.
- Azar o deles. O Jack Hawthorne  o padrinho do
Andrew. Pelo menos, vocs os dois vo finalmente conhecer-se. Ele  acha que o tens evitado.
      Em todos os anos de sociedade com ele, os dois  nunca se
haviam conhecido. Mas Tana no tinha motivos para  conhec-lo, embora agora se sentisse curiosa. Quando se encontraram  na Igreja de Santa Maria, na Union Street, 
no 
Natal, ele era quase exactamente como o imaginara.
louro, bonito; mais parecia um jogador de futebol, 
292
tipicamente americano, numa partida universitria e, contudo, 
tambm parecia ser inteligente. Era alto e de ombros largos
e tinha umas mos enormes, que pegaram na criana com
      uma suavidade tal que a deixou abismada. Mais  tarde, ele
estava l fora a conversar com Harry e ela  sorriu-lhe.
- Sabes fazer isso muitssimo bem, Jack.
- Obrigado. Estou um pouco enferrujado, mas ainda
 consigo com um pouco de jeito.
- Tens filhos? - Era uma conversa casual, fora da igreja. A outra coisa  de que podiam conversar era sobre Direito, 
      ou sobre o seu amigo comum, mas era mais  fcil e agradvel falarem do novo afilhado que partilhavam.
- Tenho uma. Com dez anos.
- Isso parece incrvel.
      De certa forma, dez anos parecia muito tempo...  Claro, 
Elizabeth fizera treze, mas Drew era muito mais velho  do
      que aquele homem. Ou, pelo menos, assim parecia.  Tana
sabia que Jack tinha trinta e muitos anos, mas um  aspecto de
 garoto. Mais tarde, na festa em casa de Averil e Harry, ele
contou histrias e anedotas engraadas e todos se riram a
      maior parte do dia, incluindo Tana. Ela sorriu  para Harry
quando o encontrou na cozinha a preparar uma  bebida.
      - No admira que gostes tanto dele.  uma  boa pessoa.
      - O Jack? - Harry no pareceu surpreendido. Alm de
Tana e Averil, Jack era o seu melhor amigo, e as  coisas tinham-lhes corrido bem, nos ltimos anos. Abriram um  escritrio confortvel e trabalhavam da mesma maneira, 
no
com o ritmo estonteante de Tana, mas algo um pouco mais razovel. Os  dois homens davam-se lindamente. - Ele  bastante inteligente, mas  muito calmo.
-Eu reparei nisso. - No incio, parecera-lhe muito
desprendido, quase indiferente ao que estava a passar-se, 
mas Tana reparara logo que ele se encontrava muito mais
atento do que parecia.
       Por fim, quando o dia terminou, ele  ofereceu-lhe boleia
para casa e ela aceitou, agradecida. Tinha deixado o  seu carro junto  igreja da cidade.
- Bem, finalmente conheci a famosa delegada do Ministrio          Pblico. A imprensa gosta mesmo de escrever sobre ti, 
      no gosta?
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      Ela sentiu-se atrapalhada com o que ele lhe  disse, mas
      Jack no pareceu preocupado.
- S quando no tem mais nada de interesse.
Ele sorriu-lhe. Gostou da modstia dela. Tambm gostou das pernas  longas e bem modeladas, a sobressarem por
baixo da saia de veludo preto que trazia vestida. Comprara
aquele fato no I. Magnin, para o dia do baptizado.
      - O Harry est muito orgulhoso de ti, como  sabes. At
       parece que j te conheo. Ele est sempre a falar de ti.
- Sou to m como ele diz. No tenho filhos.  Por isso
todos tm de ouvir histrias sobre o Harry e os anos que
passmos na universidade.
- Vocs os dois devem ter feito das boas, nessa altura: 
Sorriu e ela deu uma gargalhada.
      - Mais ou menos. Seja como for,  divertamo-nos bastante
a maior parte do tempo. - Sorriu com as  recordaes.         Devo estar a ficar velha, toda esta  nostalgia...
      -  da poca do ano.
      - , no ? O Natal tem sempre esse efeito em mim.
      - Em mim, tambm.
Perguntou a si prpria onde estaria a filha  dele.
- s de Nova Iorque, no s? - Ela anuiu. Isso tambm  parecia ficar a anos-luz.
- E tu?
- Eu sou do Midwest. De Detroit, para ser exacto.
 um lugar encantador. - Sorriu e ambos voltaram a dar
uma gargalhada.
Era fcil estar com ele, e o convite que ele lhe fez 
para tomar uma bebida pareceu-lhe inofensivo. Mas tudo parecia
      to vazio, e ir a um bar na noite de Natal  era to deprimente
que ela acabou por convid-lo para ir a sua casa,  pois a oferta 
fazia-o muito agradvel. Tanto assim era que se tornava
incuo e nem sequer o reconheceu logo quando, na semana
seguinte, se cruzou com ele na Cmara. Era um daqueles
homens altos, louros e bonitos que podiam ser quase
qualquer um, desde um colega de escola a marido ou rmo,
at namorado de algum; subitamente, ela percebeu 
que no era e corou de vergonha.
- Desculpa, Jack... Estava distrada... 
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      - Tens todo o direito de estar. - Sorriu-lhe e  ela sentiu-se divertida por ele ter ficado to impressionado com  o
      seu trabalho.
      Harry devia ter-lhe mentido outra vez. Sabia que ele exagerava muito em  relao a ela, aos violadores que repelia nas celas, aos golpes de  judo que conhecia, 
aos casos que resolvia sozinha sem a ajuda de  detectives. Nada daquilo era verdade, claro. Mas Harry adorava contar  histrias, em especial histrias de guerra 
sobre ela.
      ... Porque  que mentes tanto? - perguntara mais de
      uma vez, mas ele no sentira quaisquer remorsos.
      - Seja como for, parte disso  verdade.
      - Uma ova  que . Na semana passada, cruzei-me com
      um dos teus amigos, que pensava que eu tinha sido apunhalada por um  traficante de cocana na cela. Por amor de
      Deus, Harry, acaba com isso! 
      Lembrou-se daquilo naquele momento e presumiu que
      ele voltara a fazer das suas. Sorriu para Jack.
      - Na verdade, as coisas agora esto bastante calmas.
      E convosco?
      - No est mal. Temos alguns casos bons. O Harry e a
      Ave foram para Tahoe passar algumas semanas. Por isso, tenho de andar  com tudo para a frente sozinho.
      - Mas que grande trabalhador ele . - Ambos deram
       uma gargalhada, e ele olhou para ela hesitante. H uma semana que  andava morto por lhe telefonar, mas no se atrevera.
      - Por acaso tens tempo para almoar?
      Por acaso at tinha. Ele ficou animadssimo quando ela
      disse que sim e ambos foram ao Bijou, um pequeno restaurante francs  de Polk, que tinha mais fama do que outra coisa, mas era agradvel  conversar com o amigo 
de Harry durante uma hora ou pouco mais. H  vrios anos que ouvia
      falar dele e, graas ao seu trabalho rduo e  agitao  por causa de Drew Lands, nunca se tinham encontrado.
      -  ridculo, sabes. O Harry j nos devia ter apresentado h  muitos anos.
      Jack sorriu.
      - Acho que ele tentou. - No deu a entender que sabia
      tudo sobre Drew, mas Tana agora podia falar do caso.
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- Passei um mau bocado durante algum tempo. Sorriu.
- E agora? - Olhou para ela com o mesmo olhar gentil do baptizado.
-J voltei a ser eu prpria.
- Ainda bem.
- Na verdade, foi o Harry quem me salvou a vida, desta vez. - Sei que  andou um tempo preocupado contigo.          Ela suspirou.         - Fiz uma  autntica figura 
de parva... Julgo que todos         fazemos, nalguma  altura da nossa vida.         - Eu com certeza fiz. - Sorriu para ela. -  Engravidei a amiga da minha irm 
mais nova, em Detroit, h dez  anos, quando fui passar as frias a casa. No sei o que me deu,  excepto que devo ter enlouquecido ou algo do gnero. Ela era        uma 
bonita ruivinha... de vinte e um anos... E bang, quando dei por mim  estava a casar-me. Ela detestava tudo isto aqui, e passava a vida a  chorar. A pobre da pequena 
Barb teve c licas nos primeiros seis  meses de vida e, um ano depois, Kate resolveu regressar e tudo acabou.  Agora tenho uma ex -mulher e uma filha em Detroit 
e no sei mais  delas do que sabia nessa altura. Foi a coisa mais louca que alguma vez  fiz, e no penso voltar a cometer a mesma asneira! - Parecia  extremamente 
decidido ao dizer as palavras, e foi fcil perceber que  estava a ser sincero. - E tambm nunca mais bebi rum puro desde  ento. - Sorriu pesarosamente, e Tana desatou 
a rir. - Pelo menos,  tens qualquer coisa que o demonstre.         Era mais do que ela tinha,  embora no tivesse querido um filho de Drew, mesmo que ele no  tivesse 
feito a vasecotomia. - Alguma vez vs a tua filha?         - Vem  uma vez por ano passar um ms comigo. Suspirou, sorrindo lentamente.  -  dificil construir uma        relao 
baseada nisso! - Sempre  achara que no era justo para ela, mas que mais podia ele fazer?  Agora, no podia ignor-la. - Somos dois desconhecidos um para o  outro. 
um esquisito que lhe envia todos os anos postais de  parabns, a leva para jogos de basebol quando est c. No  sei o
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que mais posso fazer com ela. A Ave tomou muito bem conta
dela durante o dia, no ano passado. E eles emprestaram-me
a casa de Tahoe, por uma semana. Ela adorou aquilo. Sorriu para Tana. -  E eu tambm.  esquisito fazer amizade com uma criana de dez  anos.
- Estou certa que sim. A relao. o homem com
quem eu me envolvi tinha duas filhas, e isso foi estranho para mim.  No tenho filhos meus e no foi como com os filhos do Harry.  Subitamente, ali estavam duas 
pessoas crescidinhas a olhar para mim. Foi  uma sensao terrivelmente
esquisita.
- Ficaste amiga delas? - perguntou, intrigado, e Tana
ficou surpreendida com a facilidade com que podia conversar com ele.
- Nem por isso. No houve tempo. Elas viveram no
Leste - lembrou-se do resto -, durante algum tempo.
-  claro que conseguiste manter a tua vida mais simples do que todos  ns. - Ento, riu baixinho. -Julgo que
no bebes rum.
Ela tambm se riu.
- Normalmente, no, mas consegui fazer um monte razovel de danos  na minha pessoa, noutros aspectos. S no
tenho filhos para o demonstrarem.
- Lamentas isso?
- No. - Tinham sido precisos trinta e trs anos e
meio para o afirmar com sinceridade. - H coisas nesta vida que  no me esto destinadas, e os filhos so uma delas.
Madrinha  mais o meu estilo.
- Provavelmente eu tambm devia ter ficado por a, 
para bem da Barb. Pelo menos, a me voltou a casar-se e
por isso, ela tem um verdadeiro pai com quem se relacionar
nos onze meses que no estou junto dela.
- Isso no te incomoda? - Perguntou a si prpria se ele
se sentiria possessivo em relao  filha. Drew era-o  bastante
com as suas, em especial com Elizabeth.
      Jack abanou a cabea.
- Mal conheo a mida.  horrvel dizer  isto, mas 
verdade. Todos os anos tenho de a conhecer de novo. Vai-se
embora e, quando regressa, cresceu mais um ano e tudo volta
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ao princpio.  uma espcie de aventura sem frutos, mas talvez  isso a afecte nalguma coisa. No sei.  tudo o que lhe devo. E  suspeito que, daqui a alguns anos, 
ela ir mandar-me para o inferno  porque tem um namorado em Detroit e no vem para c, nesse  ano.
- Talvez o traga com ela. - Ambos se riram.
- Deus me livre. Era s o que me faltava. Penso como tu: h coisas  nesta vida que no quero que caiam sobre mim. malria. febre  tifide. casamento. filhos. - Ela 
achou graa  sinceridade  dele; no era certamente uma viso muito popular ou algo que se  pudesse admitir a maior parte das vezes, mas ele sentia que podia ser 
sincero com ela e ela com ele.
- Concordo contigo. Realmente penso que  impossvel fazer bem  seja o que for e dispensar a ateno suficiente a relaes  como essa.
- Isso parece nobre, minha amiga, mas ambos sabemos que nada tem a ver  com o resto. Tenho um medo atroz. Tudo o que me faltava agora era outra  Kate de Detroit, 
a chorar toda a noite, porque no tem amigos aqui.  ou alguma mulher totalmente dependente, sem nada para fazer durante todo  o dia a no ser aborrecer-me  noite, 
ou decidir, ao fim de dois  anos de casamento, que metade do negcio que Harry e eu  construmos  dela. Ele e euj vemos muito disso e no quero  contribuir para 
tal. - Sorriu-lhe. - E de que tens tu medo, minha  querida? Das frieiras, do parto? desistir da carreira? Da  competio de um homem? Era surpreendentemente astuto, 
e ela  sorriu-lhe agradecida.
- Em cheio. Tudo o que disseste. Talvez tenha medo
de estragar tudo o que constru, de me magoar. No sei. Julgo que  h uns anos atrs eu tinha dvidas sobre o casamento, embora  nessa altura no me tivesse apercebido. 
Era o que a minha me  queria para mim e quis sempre responder-lhe: Mas, espera. ainda no.  tenho de fazer isto primeiro.  como ser-se voluntrio para nos  cortarem 
a cabea. Nunca  o momento certo.
Ele riu, e ela lembrou-se da proposta de Drew, naquela noite diante da  lareira, mas depois tentou afastar o pensamento com um esgar de dor. A  maior parte das vezes 
as
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lembranas dele j no a magoavam muito, mas algumas ainda o  faziam. E sobretudo essa, talvez por achar que ele tinha brincado  consigo. Sentira o desejo de lhe 
abrir uma excepo e aceitara o  pedido de casamento, mas ele regressara para Eileen. 
- Ningum merece esse olhar to triste, Tana.
- Recordaes muito velhas - retorquiu ela a sorrir.
- Esquece-as, ento. Elas j no iro magoar-te mais. Havia  algo de fcil e prtico naquele homem, e Tana comeou a sair  com ele, quase sem pensar previamente. 
Um cinema, um jantar mais cedo,  um passeio a p pela Union Street, um jogo de futebol. Ele chegava e  desaparecia, tornando-se seu amigo, e foi ainda mais notvel 
quando,  finalmente, se deitaram juntos, nos finais dessa Primavera. Nessa  altura, j se conheciam h cinco meses, e no era uma  relao terra-a-terra, mas sim 
confortvel. Ele era uma pessoa  de trato fcil, inteligente e tinha uma compreenso maravilhosa  por tudo o que ela fazia, um grande respeito pelo seu trabalho; 
tinham  at o mesmo melhor amigo e, quando a filha chegou no Vero, at  isso foi agradvel. Era uma criana amorosa de onze anos, com  enormes olhos e cabelo ruivo, 
como um cachorrinho irish setter.  Levaram-na algumas vezes a Stinson Beach e fizeram piqueniques com ela.  Tana no tinha muito tempo livre - nessa altura, estava 
a julgar um  caso importante -, mas tudo era muito agradvel; foram a casa de  Harry, onde este no tirou os olhos de cima deles, curioso por saber  se a relao 
era sria. Mas Averil no achou que era e,  normalmente, ela tinha razo. No havia fogo nem paixo, nem  sequer intensidade, mas tambm no havia dor. Era confortvel, 
inteligente, s vezes divertida e extremamente satisfatria na  cama. E, ao fim de um ano a sair com ele, Tana podia muito bem  imaginar-se a sair com ele para o 
resto da vida. Era uma daquelas  relaes que se viam entre duas pessoas que nunca se casaram, nem  nunca o quiseram fazer, para grande desgosto de todos os seus 
amigos que  j tinham entrado e sado de tribunais de divrcio durante  anos. Viam-se pessoas assim a comerem nos restaurantes ao sbado   noite, a irem de frias, 
a frequentarem festas de Natal e galas e a  gozarem da companhia uns dos
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outros e, mais cedo ou mais tarde, acabarem na cama; no dia seguinte, o  outro ia para a sua prpria casa, para encontrar as toalhas  exactamente como as queria, 
a cama ainda por desfazer, o bule de caf  perfeitamente pronto para as suas necessidades. Assim, tudo era to  perfeito para ambos, mas davam com Harry em doido 
e isso tambm os  divertia.
- Quero dizer, olhem para vocs os dois. Tm um ar to  complacente que at me apetece chorar. - Os trs estavam a  almoar e nem Tana nem Jack ficaram aborrecidos.
Ela olhou para Jack e sorriu.
- Empresta-lhe o leno, querido.
- N, ele que se sirva da manga da camisa.  o que faz
      sempre.
- Vocs no sabem ser minimamente decentes? O  que
se passa convosco?
      Trocaram um olhar matreiro.
- Somos apenas decadentes, julgo.
      - No querem ter filhos?
- Nunca ouviste falar em controlo de natalidade? Jack  olhou para ele, e Harry ficou com ar de quem queria
gritar; Tana deu uma gargalhada.
- Desiste, filho. Desta vez, no vais vencer-nos. Somos
      felizes assim.
-J saem juntos h um ano. Que raio significa  isso para
vocs?
- Que temos uma grande capacidade de resistncia. Eu
j sei que ele se torna homicida se algum no o deixar ver
      o canal de desporto aos domingos, e ele detesta  msica clssica.
-  s isso? Como podem ser to  insensveis?
- Nasce naturalmente. - Sorriu docemente para o amigo, e Jack sorriu  para Tana.
- Abre os olhos, Harry, tu ests a mais, ultrapassado, 
um bota de elstico.
Porm, quando, seis meses mais tarde, Tana fez trinta 
e cinco anos, acabaram por surpreender Harry.
- Vocs vo-se casar? - Harry nem queria acreditar
nas palavras de Jack, quando este lhe disse que estavam a preparar uma  csa. Jack achou-lhe graa.
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- Raios, no! No conheces a tua amiga Tan se pensas que algum dia  haver alguma hiptese disso. Estamos a pensar em viver  juntos.
Harry comeou a andar de um lado para o outro na cadeira de rodas,  com os olhos fixos em Jack.
- Essa  a coisa mais horrvel que j ouvi. No vou permitir  que lhe faas isso.
- A ideia foi dela e, alm do mais, tu e a Ave fizeram o mesmo. - A  filha tinha acabado de regressar a casa, e fora complicado passar um  ms a ir constantemente 
de sua casa at  de Tana. - A casa  dela  muito pequena para os dois e a minha tambm. E eu gostava  muito de viver em Marin.
A Tana tambm diz o mesmo.
Harry ficou triste. Queria um final feliz, arroz, ptalas de rosa,  bebs e nenhum deles cooperava.
- Sabes como  dificil investir na compra de uma casa, quando no  se  casado?
- Claro que sim e ela tambm sabe disso.  por essa ra zo que,  provavelmente, alugaremos uma.
E foi exactamente o que fizeram. Encontraram a casa que queriam, com uma  vista espectacular, em Tiburon. Tinha
 quatro quartos e era bastante mais barata, comparada com o possvel  preo de venda, e oferecia a ambos um escritrio, um quarto para  os dois e outro para quando 
Barb viesse de Detroit ou tivessem  convidados. Tinha um solrio, uma varanda, uma casa de banho com  janela para a rua, e nenhum dles podia ficar mais satisfeito. 
Harry  e Averil foram v-la com os filhos, e tiveram de admitir que era  bonita mas, mesmo assim, no era o que Harry desejara; Tana retorquiu  apenas com uma gargalhada. 
Mas, pior do que isso, Jack partilhava de  todas as ideias dela. No tencionava voltar a casar com quem quer que  fosse. Tinha trinta e oito anos e o seu pequeno 
deslize de Detroit doze  anos antes sara-lhe caro.
Nesse ano, Jack e Tana fizeram o jantar de Natal, e foi uma noite  bonita, com a baa l em baixo e a cidade a tremeluzir   distncia.
- Parece um sonho, no achas, querida? - segredou-lhe Jack, depois de  todos terem regressado s respectivas casas.
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Tinham exactamente a vida que mais se ajustava a eles, e ela acabou  at por desistir do seu apartamento na cidade. Durante uns tempos,  conservou-o como segurana 
mas, por fim, deixou-o. Sentia-se   vontade com Jack e este cuidava bem dela. Nesse ano, quando ela teve  apendicite, tirou duas semanas de folga, s para cuidar 
dela. Quando  Tana fez trinta e seis anos, ofereceu- lhe uma festa no Trader Vic's,  para oitenta e sete dos seus amigos mais chegados e, no ano seguinte;  surpreendeu-a 
com um cruzeiro na Grcia. Tana regressou descansada e  bronzeada, e mais feliz que nunca com a vida deles. Nunca falavam de  casamento, embora, por vezes, falassem 
em adquirir a casa onde viviam,  mas Tana nem sequer tinha a certeza de quer-lo e, secretamente, Jack  tambm temia faz-lo. Nenhum deles queria ancorar o barco 
que  navegava to bem e h tanto tempo. J viviam juntos h quase  dois anos e tudo era perfeito para eles. at Outubro, depois do  cruzeiro  Grcia. Tana ia ter 
um julgamento importante e passara  quase toda a noite acordada a rever os apontamentos e os dossiers,  acabando por adormecer  secretria, voltada para a baa, 
vista  de Tiburon. O telefone acordou-a antes de Jack lhe trazer uma chvena  de ch; olhou para ele, enquanto o atendia.
- Sim? - Parecia plida e Jack sorriu-lhe. Ficava sempre com mau  aspecto quando passava assim a noite acordada e, como se tivesse lido o  pensamento dele, olhou 
para Jack: subitamente, este viu os olhos dela a  abrirem-se muito e fixarem-se nos dele. - O qu? Ests doido?  No sou. Oh " meu Deus. Estarei a dentro de uma 
hora. - Desligou  o telefone e olhou para Jack, enquanto este pousava a chvena  intrigado.
- Passa-se alguma coisa? - No podia ser nada na casa dela, se  prometera l estar dentro de uma hora; tinha de ser um problema de  trabalho. e no era uma chamada 
para ele. - O que  que aconteceu,  Tan?
- No sei. Tenho de falar com o Frye.
- O procurador-geral?
- Sim, meu Deus. Quem raio pensas que ?
- Bem, porque  que ests to enervada? - Ainda
no compreendia. Mas nem ela. Tinha executado um trabalho
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fantstico. Nada daquilo fazia sentido. J trabalhava l h  muitos anos. 
Tinha lgrimas nos olhos, quando olhou para Jack e se levantou da  secretria, entornando o ch sobre as pastas, mas agora j nem  isso lhe interessava.
- Disse-me que estou despedida. - Comeou a chorar e sentou-se,  enquanto ele olhava para ela.
- Isso no pode ser verdade, Tan.
- Foi o que eu respondi. o Ministrio Pblico  toda a minha  vida. - E o mais triste de tudo  que ambos sabiam que era  verdade.

CAPTULO 17
Tana tomou um duche, vestiu- se e foi  pressa para a cidade, com o  rosto contrado e os olhos tristes. Era bvio que se tratava de  uma emergncia. Tana parecia 
que ia para um funeral. Jack ofereceu-se  para a acompanhar, mas Tana sabia que ele tinha os seus prprios  problemas nesse dia, para alm de, recentemente, ter 
passado  vrios dias afastado do escritrio, estando por isso tudo  sua  espera.
- Tens a certeza de que no queres que seja eu a levar-te at  l, Tan? No quero que tenhas um acidente. - Ela beijou-o  levemente nos lbios e abanou a cabea.
Era to estranho. J viviam juntos h tanto tempo, mas agora  eram quase mais amigos do que qualquer outra coisa. Ele era algum  com quem podia conversar  noite, 
partilhar os seus problemas e falar  dos seus julgamentos, enquanto decidia a estratgia a utilizar. Ele  compreendia a vida dela, as suas evasivas, sentia-se satisfeito 
com a  vida que partilhavam e exigia-lhe muito pouco, ou pelo menos assim  parecia. Harry afirmava que aquilo no era normal, e certamente  diferente do que ele 
e Averil partilhavam. Contudo, Tana percebeu a  preocupao de Jack quando ligou o motor e ele ficou a v-la  partir. jack ainda no conseguia compreender o que 
lhe tinha  acontecido, mas ela tambm no. Meia hora mais tarde, ainda  entorpecida, Tana entrou no Ministrio Pblico e, sem sequer bater   porta, entrou no gabinete 
do procurador-geral. No conseguiu  evitar mais as lgrimas, e estas rolaram pela face abaixo quando  olhou para ele.
- Que raio fiz eu para merecer isto? - Estava lvida e ele sentiu  imediatamente remorsos por aquilo que tinha feito. Tinha achado que  seria muito mais divertido 
dar-lhe a notcia  queima-roupa, mas  nunca imaginara que ela ficaria com o corao to desfeito.  At lamentou muito ter de a perder agora. Mas, de qualquer modo, 
ele  j h muito que o lamentava.
- s boa de mais no trabalho, Tan. Pra de chorar e senta-te. -  Sorriu-lhe e ela sentiu-se ainda mais confusa.
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- Ento, vais despedir-me? - Ainda estava de p, a olhar para  ele.
- Eu no disse isso. Eu disse que te foi retirado um trabalho. - Tana  sentou-se de rompante.
- Bem, e que raio significa isso? - Abriu a carteira, procurou um  leno e assoou-se. No se envergonhava do que estava a sentir.  Adorava o trabalho desde o primeiro 
dia. J l trabalhava h  doze anos. Teria preferido desistir de tudo; menos daquilo. Ento, o  procurador-geral sentiu pena dela e contornou a secretria para lhe 
colocar um brao sobre os ombros.
- Vamos, Tan, no fiques assim. Tambm vamos sentir a tua falta,  sabes? - As lgrimas voltaram a escapar-lhe e ele sorriu. At ele  tinha os olhos cheios de lgrimas. 
Em breve ela sairia, se o  aceitasse. E j tinha sofrido o suficiente. Ele sentou-se e olhou-a  directamente nos olhos. - Ofereceram-te um lugar de juza, querida. 
Juza Roberts, do Tribunal Municipal. O que  que achas?
- Ofereceram-me? - Olhou para ele, incapaz de absorver tudo aquilo. -  Ofereceram-me? No fui despedida?Comeou a chorar outra vez e  voltou de novo a assoar-se 
desatando a rir-se ao mesmo tempo. - No  fui. Ests abrincar comigo. 
- Quem me dera que assim fosse. - Sentiu-se feliz por ela e,  subitamente, Tana deu um pequeno grito, ao perceber o que ele lhe tinha  feito.
- Seu filho da me. Pensei que estavas a despedir-me! Ele deu uma  gargalhada.
- Peo desculpa. Achei que seria bom agitar-te um pouco a vida.
- Merda. - Olhou-o, incrdula, e voltou a assoar-se, mas sentia-se  demasiado abismada com o que ele lhe dizia para poder sequer ficar  zangada. - Meu Deus. Como 
 que tudo aconteceu? 
- Eu j suspeitava disso h muito tempo, Tan. Sabia que acabaria  por acontecer. S no sabia quando. E aposto que estars no  Supremo Tribunal daqui a um ano. s 
perfeita para isso, depois de  tudo o que fizeste aqui.
- Oh, Larry. meu Deus. ser convocada para juza. 
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      As palavras pareciam quase alm do seu  alcance. - No consigo acreditar. - Levantou os olhos para ele. -  Tenho trinta e sete anos e nunca pensei sequer nisso.
- Bem, graas a Deus que algum o fez. -  Estendeu a mo e apertou a dela, enquanto Tana sorria exultante. - Pa  rabns, Tan, mereces tudo isso. Eles querem empossar-te 
daqui a  trs semanas.
- To cedo? E o meu trabalho. Cus, tenho um caso que vai a  tribunal no dia vinte e trs. - Franziu a testa e ele deu uma  gargalhada, abanando magnanimamente a 
mo.
- Esquece isso, Tan. Porque no tiras alguns dias e te preparas para  o teu novo trabalho? Para variar, coloca tudo na secretria de outra  pessoa. Utiliza esta 
semana para arrumares tudo e depois vai preparar-te  em casa.
- O que  que eu tenho de fazer? - Ainda parecia abismada, e ele  sorriu-lhe. - Ir comprar togas? 
- No. - Riu. - Mas penso que ters de procurar uma casa. Ainda  vives em Marin? - Sabia que ela vivia com algum h dois anos, mas  no tinha a certeza se conservara 
ou no a casa da cidade. Ela  abanou a cabea. - Tens de ter uma casa na cidade, Tan.
- Porqu?
-  uma das condies para se ser juiz de So Francisco.  Podes manter a outra casa, mas a tua residncia principal tem de ser  aqui.
- Tenho mesmo de cumprir isso? - perguntou, aborrecida.
- Sim. Durante a semana, seja como for.
- Bolas. - Olhou para o ar durante um minuto, pensando em Jack.  Subitamente, toda a sua vida se tinha virado ao contrrio. - Terei de  resolver isso.
- Tens muito que resolver nas prximas semanas e, primeiro que tudo,  tens de dar a resposta. - Usou um tom de voz oficial. - Tana Roberts,  aceita o lugar de juza 
que lhe foi oferecido no Tribunal Municipal  da cidade e do Estado de So Francisco?
Olhou muito admirada para ele.
- Sim, aceito.
Ele levantou-se e sorriu- lhe, feliz com a sorte que tinha to  merecidamente cado sobre ela.
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- Boa sorte, Tan. Vamos sentir a tua falta.
      As lgrimas voltaram a aflorar-lhe aos olhos  e, ainda
abismada, dirigiu-se  sua prpria secretria  e sentou-se. Havia um milho de coisas para fazer. Esvaziar a  secretria, organizar todos os seus casos, pr a pessoa 
que iria  ficar encarregada deles ao corrente de tudo, ligar para Harry, dizer a  Jack... Jack... Olhou, de sbito, para o relgio e pegou no
telefone. A secretria respondeu que ele estava numa reunio, mas  Tana mesmo assim mandou-o chamar.
      - Ol, querida, ests bem?
- Sim. - Ela parecia sem flego ao telefone. No  sabia
por onde comear. - Nem vais acreditar no que aconteceu, 
-        jack.
      - No consegui perceber que raio se passava,  quando ligaram l para casa. O que foi, Tan?
      Ela inspirou profundamente.
- Acabaram de me oferecer um lugar de juza.
Houve um silncio total do outro lado.
- Na tua idade?
- No  incrvel? - Agora sorria, exultante. - Quero
dizer, acreditarias... Eu nunca pensei...
         - Estou feliz por ti, Tan. - Pareceu calmo, mas satisfeito;  ento, ela lembrou-se do que o procurador lhe tinha dito. Tinha de  arranjar uma casa na cidade, 
mas no lhe quis dizer isso ao  telefone.
- Obrigada, querido. Eu ainda estou abismada. O Harry
est a?
      - No, ele hoje no veio. 
      - Ultimamente, ele passa muito tempo fora, no ? H
      algum problema?
      - Penso que foi passar o fim-de-semana a Tahoe, com a
Ave e os midos. Podes ligar-lhe para l.
- Vou esperar que regresse. Quero ver a cara dele.         Mas a cara que  ela no queria ver era a de Jack, quando lhe
dissesse que tinha de sair de Marin.
      - Eu fiquei a pensar nisso, depois do teu  telefonema disse ele nessa noite, bastante triste.
Ficara obviamente aborrecido, tal como ela, mas  Tana
tambm estava animada. At chegou a telefonar  me, 
307
deixando-a estupefacta. A minha filha, umajuza? Ficara  felicssima por Tana. Talvez as coisas tivessem acabado por correr  bem e, no dia em que conhecera Jack, 
parecera-lhe uma
boa pessoa. Esperava que eles acabassem por casar, mesmo
que Tana j fosse velha para ter filhos. Mas, como juza, talvez  isso no tivesse assim tanta importncia. At Arthur ficara  feliz por ela. Jean explicara-lhe 
isso vrias vezes.
Tana olhou para Jack.
- O que  que achas de irmos viver para a cidade durante a  semana?
- No  uma grande ideia - respondeu-lhe, honestamente. - Isto  aqui  bastante confortvel para ns.
- Pensei em procurar uma casinha pequena para no
termos de preocupar-nos muito. Um apartamento, um condomnio fechado.  um estdio, ou at... Falava como se
conseguisse fingir que nada daquilo estava a acontecer, mas        
ele abanou a cabea.                 
- Ficaramos doidos, depois do espao a que nos habitumos  aqui.                 
Durante dois anos, haviam vivido como reis, com um                  
enorme quarto de casal, escritrios para cada um deles,        
uma sala de estar, uma sala de jantar, um quarto para Barb        e uma  vista maravilhosa para a baa. Um estdio daria a
sensao de uma cela, depois daquela casa.                 
- Bem, eu tenho de arranjar uma soluo, Jack, e s                  
tenho trs semanas.                  
Olhou um tanto aborrecida para ele, por no lhe facilitar        
as coisas e imaginou se o convite o teria aborrecido. Seria 
natural que assim fosse, pelo menos no princpio, mas                
no teve tempo para pensar no assunto durante as trs semanas
seguintes. Separou os processos, esvaziou a secretria e procurou  todos os condomnios disponveis, at a agente imobiliria  lhe telefonar a meio da segunda semana. 
Tinha        uma casa muito  especial em Pacific Heights, que gostaria que Tana visse.
- No  exactamente o que tinha em mente, mas, vale apena ver. -  E, quando foi, era mais do que isso. Era uma casinha de bonecas to  engraada que lhe cortou a 
respirao, uma jia pequena e  vistosa, pintada de bege, 
308
com grandes bocados cor de canela e creme. Era absolutamente  impecvel, com soalhos embutidos, lareiras de mrmore em quase  todos os quartos, armrios enormes, 
uma iluminao perfeita,  duplas portas envidraadas e vista para a baa. Tana nunca  pensaria em procurar uma coisa daquelas mas, agora que j l  estava, no conseguia 
resistir.
- De quanto  a renda? - Sabia que seria muito alta. A casa parecia  algo copiado de uma revista.
- No  para alugar - sorriu-lhe a agente. - Est   venda.
Disse-lhe o preo, e Tana ficou admirada com um valor to  razovel. Era barata e no daria cabo das suas poupanas e, por  aquele preo, seria um bom investimento 
para ela. Era irresistvel  em todos os aspectos possveis e perfeita para ela. Um quarto grande  no segundo piso, um quarto de vestir com paredes espelhadas, um 
pequeno  recanto com lareira de tijolo e, no piso inferior, uma grande e bonita  sala de estar e uma pequena cozinha de campo, que dava para um ptio  rodeado de 
rvores. No hesitou mais, entregou o sinal de entrada  e dirigiu-se ao escritrio de Jack, nervosa com o que tinha acabado  de fazer. Sabia que no era um erro 
mas, mesmo assim. era uma  deciso to independente para tomar, to solitria, to  adulta. e no lhe pedira a opinio.
- Santo Deus, quem foi que morreu? - Entrou na antessala e viu a cara  dela, enquanto Tana ria nervosa. - Assim est melhor. - Beijou-lhe o  pescoo. - Ests a treinar 
para juza? Vais aterrorizar as  pessoas e p- las a fugir de medo, com uma cara dessas. 
- Acabei de cometer uma loucura - disse, e ele sorriu. Tivera um dia  duro e ainda nem sequer eram duas horas.
- Ento, que outra novidade tens para me dar? Vem para dentro e  conta- me tudo. - Tana viu que a porta do gabinete de Harry estava  fechada e no bateu. Entrou 
directamente para o amplo e agradvel  gabinete de Jack no edifcio vitoriano que tinham comprado cinco anos  antes. Fora um bom
investimento e talvez isso o ajudasse a compreender o que ela acabara de  fazer. Ele sorriu-lhe do outro lado da secretria. - Ento, o que  foi que fizeste?
- Acho que acabei de comprar uma casa. - Parecia a garota assustada, e  ele deu uma gargalhada.
309
- Achas que compraste. E porque dizes isso? - O olhar de Jack estava  diferente e ela no percebia porqu.
- Na verdade, j assinei os papis. Oh, Jack. espero ter dado o  passo certo.
- Gostas dela?
- Estou apaixonada por ela.
Ele ficou surpreendido, pois nenhum deles quisera antes comprar uma  casa. Tinham conversado sobre isso vrias vezes. No precisavam de  nada muito permanente e 
ele ainda no mudara de ideias. Mas,  aparentemente, ela sim, e ele no entendia o porqu. Muita coisa  parecia ter mudado nos ltimos dias, em especial para ela. 
Nada  mudara para ele.
- Isso no ser um encargo muito grande para ti,
Conserv-la, preocupares-te com um telhado que mete gua e tudo  aquilo de que conversmos e no quisemos.
- No sei. Julgo. - Olhou nervosa para ele. Estava
na hora de lhe perguntar. - Tu tambm vais l estar, no vais?  - perguntou, assustada, e ele sorriu-lhe. Ela estava ao mesmo tempo  to vulnervel e meiga e, contudo, 
to incrivelmente poderosa.  Era isso que ele amava nela e sabia que sempre amaria. Era o que Harry  tambm amava nela, isso e a sua lealdade, o seu corao feroz 
e  a mente inteligente. Era uma rapariga muito carinhosa, juza ou  no. Parecia uma adolescente ali sentada, a olhar para ele.
- H l espao para mim? - perguntou a medo, e ela 
anuiu veementemente, enquanto o cabelo balanava de um lado para o  outro. Tinha-o cortado pelos ombros, apenas algumas semanas antes de  saber da notcia, e parecia 
muito elegante, num macio lenol  louro, desde a raiz s pontas.
- Claro que h. - Mas ele no sabia bem se concordava quando viu a  casa nessa noite. Achava que a casa era bonita, mas considerava-a  terrivelmente feminina aos 
seus olhos. 
 Como podes dizer uma coisa dessas? Aqui no h nada a no ser  paredes e soalhos.
- No sei.  o que me parece, talvez por saber que  tua. -  Olhou para ela com um ar muito triste. - Desculpa, Tan,  linda.  No pretendo estragar a tua alegria.
-No faz mal. Hei-de torn- la confortvel para dois.  Prometo.
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Nessa noite, levou-a a jantar fora e conversaram durante horas sobre o  novo emprego dela e a magistratura que teria de frequentar em Oakland,  durante trs semanas, 
instalada num hotel com outros  recm-nomeados. Subitamente, tudo parecia entusiasmante e novo e  h muitos anos que ela no se sentia assim.
-  como comear de novo a vida, no ? - Os olhos  danavam quando olhou para ele, e Jack sorriu-lhe.
- Acho que sim.
Depois disso, regressaram a casa, fizeram amor e nada parecia ter mudado  nas questes mais importantes. Tana passou a semana seguinte a  comprar moblias para a 
casa nova, fechou o negcio e comprou um  vestido para a cerimnia de tomada de posse. Chegou mesmo a pedir   me que viesse, mas Arthur no se encontrava muito 
bem e Jean  no quis deix-lo sozinho. No entanto, Harry estaria l com  Averil, Jack e todos os amigos e conhecidos que ela fizera ao longo dos  anos. No fim, estavam 
duzentas pessoas na cerimnia e, depois, Harry  ofereceu-lhe uma recepo no Tra der Vic's. Era a ocasio mais  festiva que ela alguma vez tivera, e riu- se quando 
beijou Jack a meio  da tarde.
-  quase como casar, no ? - Ele devolveu-lhe o riso e  trocaram um olhar que dizia que ambos compreendiam. - Melhor do que  isso, graas a Deus.
Voltaram a rir, e ele danou com ela; os dois estavam um tanto  bbedos quando regressaram a casa nessa noite; na semana seguinte,  ela iniciou a magistratura.
Ficou no hotel, no quarto que lhe fora atribudo, e planeou passar os  fins-de-semana em Tiburon com Jack, mas havia sempre qualquer coisa para  fazer na casa nova 
- um quadro que queria pendurar, candeeiros para  aplicar, um sof que tinham acabado de entregar, um jardineiro que  queria entrevistar - e, durante as duas primeiras 
semanas, ela dormiu na  cidade, quando no estava a fazer a magistratura.
- Porque  que no vens dormir comigo? - Havia uma nota de  queixume na voz dela e parecia irritada. H muitos diaes que Jack  no a via, mas nos ltimos tempos 
isso era mais do que normal. Ela  tinha muitas outras coisas para fazer.
311
Tenho muito trabalho em mos - respondeu, lacnico.
- Podes traz-lo para c, querido. Eu fao uma sopa e uma  salada e tu podes servir-te do meu escritrio. - Ele reparou no  pronome possessivo e, como tudo nessa 
altura, isso amargurou-o, mas  tinha muitas outras coisas em que pensar.
- Sabes o que  arrastar todo o teu trabalho para casa de mais  algum?
- Eu no sou mais algum. Sou eu. E tu tambm vives
aqui.
- Desde quando? - Tana ficou magoada com o tom de
voz dele e calou-se. At o Dia de Aco de Graas foi tenso,  
 na companhia de Harry, Averil e os filhos.
- Como est a casa nova, Tan? - Harry sentia-se feliz
com tudo o que lhe acontecera, mas Tana notou que ele estava com ar  cansado e abatido, e Averil tambm. Fora um
dia dificil para todos, pois at mesmo as crianas gritaram        ,  
mais do que o habitual e o afilhado de Jack e Tana chorou a 
maior parte do tempo. Ela suspirou quando, por fim, regressaram   cidade, e Jack sentiu-se visivelmente  vontade
no silncio do carro.         
- No te sentes feliz por no teres filhos? - Olhou para
ela, enquanto falava, e Tana sorriu.
- S em dias como este mas, quando eles esto todos        
muito bem vestidos e arranjados, ou a dormir profundamente, e vemos o  Harry a olhar para a Ave... s vezes penso que        
deve ser bom viver assim. - Ento, ela suspirou e        
olhou para ele. - No entanto, acho que no seria capaz        
de suportar aquilo.         
- Ficarias linda no banco dos juzes, com uma fila de
filhos - disse com sarcasmo, e ela deu uma gargalhada.         nos
ltimos tempos, ele tinha sido muito duro com ela, e Tana        no  reparou que ele a levava para a cidade e no para Tibury.
olhou-o, surpreendida.         
- No vamos para casa, querido?        
- Claro... Julguei que querias ir para a tua casa...         
- No me importo... Eu... - Inspirou profundamente.
Teria de lhe perguntar algum dia. - Ests zangado comigo        
por ter comprado a casa, no ests?        
312
Ele encolheu os ombros e continuou a conduzir, com os
olhos postos nos outros carros.
- Acho que era algo que tinhas de fazer. Mas nunca
pensei que farias uma coisa dessas.
- Tudo o que fiz foi comprar uma casa pequena porque
tinha de ter uma na cidade.
- Nunca pensei que quisesses comprar alguma coisa, 
Tan.
      - Que diferena faz eu comprar ou alugar?  Assim,  um
bom investimento. J tnhamos falado em fazer  ma coisa
dessas.
- Sim e decidimos no fazer. Porque tens tu de ficar
presa a algo permanente? - Pensar naquilo quase lhe causava  urticria. Estava satisfeito com a casa alugada em Tiburon. - Tu  nunca pensaste assim.
- As coisas por vezes mudam. Na altura, isto fez sentido e eu  apaixonei-me por ela.
- Eu sei disso. Talvez seja isso o que me aborrece.  to
a tua casa e no nossa.
      - Terias preferido comprar uma comigo? - Mas  conhecia-o demasiado bem, e ele abanou a cabea.
- S iria complicar-nos a vida. Tu sabes disso.
- No podes manter tudo sempre to simples. E quanto
mais o tempo avana, mais eu penso que tommos as decises  certas. Somos as pessoas mais desembaraadas que conheo. - E  tinham-no feito propositadamente. Nada 
era
permanente, gravado na pedra. Toda a vida deles podia ficar
livre numa questo de horas, ou assim o pensavam; pelo
menos, fora o que tinham dito a si prprios h dois anos.
- Raios, eu tive um apartamento na cidade! - continuou Tana. - O que   que tinha de especial? - Contudo, 
no era a casa mas sim o emprego, como comeou a suspeitar.  Incomodava-o o burburinho e a imprensa; tinha-o tolerado por ela ser  apenas uma delegada do Ministrio 
Pblico
mas, subitamente, ela era juza... meritssima... a juza  Roberts. Ela j tinha reparado no olhar dele, quando algum lhe  dizia aquelas palavras. - Sabes, no 
 justo que descarregues  sobre mim, Jack. No posso fazer nada. Aconteceu-me algo de  maravilhoso e agora temos de aprender a viver com isso. Tambm podia  ter 
acontecido contigo, como sabes.
313
- Acho que eu teria encarado tudo de um modo diferente.
- Como? - Ela sentiu-se imediatamente magoada com as palavras dele.
- Na verdade. - Olhou-a, acusador; a fria entre eles juntava-se  finalmente s palavras, como uma sinfonia com coro, mas era um  alvio deitar tudo para fora. - 
Acho que teria recusado.  uma  coisa muito pomposa para se fazer.
- Pomposa? Que coisa mais horrvel para se dizer. Achas-me pomposa  por aceitar o lugar que me ofereceram?
- Depende de como o encaras - respondeu, enigmaticamente.
- Ento?
Pararam num semforo, ele olhou para ela e depois desviou o  olhar.
- Olha. Esquece. No gosto das mudanas que isto causou entre  ns. No gosto que vivas na cidade, no gosto do raio da tua  casa e, alis, detesto-a.
- Ento, vais castigar-me, no  assim? Meu Deus, tento tudo  por tudo para encarar as coisas cuidadosamente. D-me uma  oportunidade. Deixa-me solucionar tudo. 
Tambm  uma grande  oportunidade para mim, como sabes!
- Ningum o diria, olhando para ti. Pareces muito feliz. 
- Bem, eu estou feliz. - Foi sincera com ele. - 
maravilhoso, lisonjeiro e interessante, e eu divirto-me com a minha  carreira.  muito excitante para mim, mas tambm assustador e  novo, e no sei bem como lidar 
com o facto, pois no quero que  isso te magoe. 
- Esquece isso. 
- O que queres dizer com esquece isso? Eu amo-te, Jack. No quero que  isto nos destrua.
- Ento, no ir destruir- nos. - Encolheu os ombros e  continuou a conduzir.
Nenhum dos dois ficara convencido, e ele manteve-se
desagradvel durante algumas semanas. Ela garantiu-lhe que passaria a  noite em Tiburon sempre que lhe fosse possvel; adulava-o  constantemente, mas ele continuava 
zangado com Tana, e o Natal que  passaram na casa dela foi soturno. deixou claro que odiava tudo na casa  e saiu s oito horas no
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dia seguinte, afirmando que tinha coisas para fazer. Tornou-lhe a vida  dificil nos meses seguintes mas, apesar de tudo, ela gostava do emprego.  A nica coisa de 
que no gostava era das longas horas que l  passava. Por vezes, ficava no seu gabinete at  meia-noite, mas  tinha muito que aprender, muitas leis para ler e relacionar 
com cada  caso. Tanta coisa dependia dela que se tornou cega a quase tudo o resto,  de tal modo que no viu como Harry estava doente e nunca percebeu  quo raramente 
ia trabalhar. S nos finais de Abril  que Jack  se voltou para ela e gritou: 
- Andas cega! Ele est a morrer, por amor de Deus. J est  assim h seis meses, Tan. J no queres saber de ningum  mais? - As palavras dele deixaram-na boquiaberta 
e ela olhou horrorizada  para Jack.
- Isso no  verdade. Ele no pode estar. - Mas, subitamente, o  rosto plido, o olhar vago, tudo aquilo comeava a fazer sentido.  Porque  que ele no lhe dissera? 
Porqu? Olhou, acusadora,  para Jack. - Porque no me disseste nada?
- No terias escutado. Hoje em dia, passas a vida to ocupada com  a importncia da tua pessoa que j nem vs o que se passa   tua volta. - Eram acusaes amargas, 
palavras furiosas e, sem  dizer nada, saiu de Tiburon nessa noite e conduziu at  sua  prpria casa, ligou para Harry e, antes mesmo de conseguir dizer  qualquer 
coisa, comeou a chorar.
- O que se passa, Tan? - Parecia cansado e ela sentiu como se o seu  corao fosse rebentar.
- Eu no. Eu. Meu Deus, Harry. - Todas as presses dos ltimos  meses comearam, subitamente, a amontoar-se nela, incluindo a  fria de Jack e o que ele lhe dissera 
nessa noite, quanto a Harry  estar doente.
No conseguia acreditar que aquilo estivesse a acontecer, mas, quando  o viu no dia seguinte ao almoo, ele olhou cal mamente para ela e  disse- lhe que era verdade. 
Tana mal conseguiu respirar, como se tivesse  sido apunhalada, e olhou para ele.
- Mas isso no pode ser verdade. no  justo. Ficou ali a  chorar que nem uma criana, incapaz de o
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confortar, desolada, ela prpria a sofrer tanto que no podia  ajudar ningum; ele empurrou a cadeira de rodas at onde ela  estava sentada e abraou-a. Tambm havia 
lgrimas nos seus  olhos, mas estava estranhamente calmo. J sabia h quase um ano e  fora avisado disso h muito tempo: as suas feridas podiam  encurtar-lhe a vida 
e era o que estava a acontecer. Sofria de  hidronefrose, o que estava a devor-lo gradualmente, enquanto  avanava para uma insuficincia renal. Os mdicos tinham 
tentado tudo, mas o seu organismo comeara lentamente a deixar de  reagir. Olhou para ele, com terror nos olhos.
- No sei viver sem ti - pronunciou Tana.
- Claro que sabes. - Estava mais preocupado com Averil e os midos.  Sabia que Tana iria sobreviver. Ela tinha-o salvo. Nunca havia de  desistir. - Quero que me 
faas um favor. Quero que olhes pela Ave. O  futuro dos midos j est garantido, e ela tem tudo o que  ir precisar, mas no  como tu, Tn. Dependeu sempre muito 
de mim.
Tana olhou para ele. 
- O teu pai j sabe? Ele abanou a cabea.
- Ningum sabe, excepto o Jack e a Ave, e agora tu. - Ficara  aborrecido por Jack lhe ter contado, mas agora queria que ela lhe  fizesse uma promessa. - Prometes 
que irs olhar por ela?
- Claro que sim.
Era hediondo que ele falasse como se estivesse a planear partir de  viagem. Olhou para ele e vinte anos de amor passaram diante dos seus  olhos. o baile onde se 
conheceram. os anos em Harvard e na Universidade  de Boston. a vinda para o Oeste. o Vietname. o hospital. o curso de  Direito. o apartamento que haviam partilhado. 
a noite em que nascera o  primeiro filho. Era incrvel, impossvel. A vida dele ainda no  tinha terminado, no podia. Precisava demasiado dele. Lembrou-se,  ento, 
das vrias infeces na garganta e percebeu de  imediato onde tudo aquilo iria terminar; estava a morrer. Comeou de  novo a chorar e ele voltou a abra-la; ento, 
ela olhou para  ele e soluou.
- Porqu?. No  justo - insistiu ela.
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- Muito pouca coisa na vida o .
Harry dirigiu-lhe um sorriso frio. No se importava tanto consigo  prprio como com a mulher e os filhos. H muitos meses que andava  bastante preocupado com eles 
e tentava ensinar a Averil como governar  tudo sozinha, mas sem
qualquer xito. Ela estava totalmente descontrolada e recusava-se a  aprender fosse o que fosse, como se assim conseguisse evitar que aquilo  acontecesse; mas nada 
evitaria. Ele estava cada vez mais fraco e sabia  disso. Agora, j s ia ao escritrio uma ou duas vezes por  semana; era por essa razo
      que nunca l estava, quando ela, de tempos a  tempos, ia ver Jack. Tana referiu-se a isso.
      - Ele est a comear a odiar-me.
      Parecia to fria que o assustou. Nunca a tinha visto assim. Eram  tempos difceis para todos. Ainda no conseguia
acreditar que ia morrer, mas sabia que ia. Era como se  o enchimento de uma boneca de pano estivesse a escapar. Sentia-se como  se comeasse a desaparecer lentamente, 
at um dia deixar de  existir. Apenas isso. Eles iriam acordar e ele j l no  estaria. Calmamente. No com os gemidos, os empurres e os gritos  com que se vem 
ao mundo, mas com uma
lgrima, um suspiro e uma expirao de ar de quem est a
passar para a vida seguinte, se  que tal coisa existia. J nem  sequer sabia e nem tinha a certeza se lhe interessava. Estava demasiado  preocupado com as pessoas 
que deixava para trs: o seu scio, a  sua mulher, os seus filhos, os seus amigos.
Todos parecia dependerem dele e isso era cansativo. Mas, 
em certos aspectos, tambm o ajudara a manter-se vivo, tal
como agora, com Tana. Sentiu que tinha algo para partilhar
com ela, antes de partir. Algo importante para ela. Queria
      que ela mudasse a vida, antes que fosse tarde de  mais. E disse o mesmo a Jack, mas ele no lhe deu ouvidos.
- Ele no te odeia, Tan. Olha, o emprego   ameaador
para ele. Alm disso, tem andado preocupado comigo.
- Pelo menos podia ter-me dito qualquer coisa.
- Obriguei-o a jurar que no te diria nada. No podes
culp-lo disso. E, quanto ao resto, tu agora s uma mulher
importante, Tan. O teu trabalho  mais importante do que o
      dele.  assim que esto as coisas.   dificil para vocs os dois, e ele ter de se ajustar a isso.
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- Diz-lhe isso.
- J disse.
- Ele castiga-me pelo que aconteceu. Odeia a minha casa. J no   o mesmo homem.
- Sim, . - E demasiado, para o gosto de Harry. Jack ainda acreditava  nas mesmas coisas ridculas: manter-se desprendido, uma ausncia  total de compromisso ou 
permanncia. Era uma vida vazia, e Harry  dissera-lho mesmo vezes sem conta, mas Jack apenas encolhera os ombros.  Gostava da sua maneira de viver, ou pelo menos 
gostara at surgir o  novo emprego de Tana. Isso fora um tremendo obstculo e no o  escondeu de Harry. - Talvez tenha cimes de ti. No   agradvel, mas  possvel 
e, afinal, ele  humano.
- Ento, quando  que ele vai crescer? Ou terei de demitir-me? -  Era um alvio poder conversar de coisas normais, como se o pesadelo  no estivesse a acontecer, 
como se ela pudesse interromp-lo,  falando de outras coisas com ele. Como nos velhos tempos. Tinham sido  to unidos. As lgrimas encheram- lhe os olhos, quando 
pensou  nisso...
- Claro que no tens de demitir-te. D-lhe apenas tempo. -  Ento, olhou para Tana, com algo mais em mente.
- Quero dizer-te uma coisa, Tan. Duas coisas. - Olho para ela to  intensamente que foi como se todo o seu corpo estivesse em chamas. Ela  sentiu a fora das suas 
palavras atravessar-lhe a alma. - No sei  o que o amanh ir trazer, se estarei aqui. se. Tenho duas coisas  para te dizer e  tudo o que tenho para te deixar, 
minha amiga. Ouve  bem. A primeira  agradecer-te por tudo o que fizeste por mim. Os  ltimos dezasseis anos da minha vida foram um presente teu e no  do meu mdico 
ou de mais algum, mas teu. Obrigaste-me a viver de  novo, a continuar. Se no fosses tu, nunca teria conhecido a Averil  ou tido filhos. - Tambm se viam lgrimas 
nos olhos dele e estas  rolaram lentamente pela cara abaixo. Tana sentiu-se grata por estarem a  almoar no seu gabinete. Precisavam de estar sozinhos. E isso leva-me 
 segunda coisa. Ests a enganar-te a ti prpria, Tan. No  sabes o que ests a perder e s o sabers quando l  estiveres. Ests a privar-te do casamento, do compromisso, 
do  verdadeiro amor. no emprestado, alugado,
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temporrio ou seja o que for. Sei que aquele tonto est apaixonado  por ti e tu ama-lo, mas ele quer andar  solta, no quer voltar a  cometer um erro, e esse  
o maior erro de todos. Casa-te, Tan. tem  filhos.  a nica coisa que faz sentido na vida. a nica porque  me preocupo. a nica coisa importante que deixo para trs. 
No  importa quem s ou o que fazes, at teres isso, seres isso e dares  isso. No s nada nem ningum. Ests somente meio viva.  Tana, no te enganes a ti prpria. 
por favor. 
Chorava abertamente. Tinha-a amado tanto e durante tanto tempo que  no queria que ela perdesse o que ele e Averil tinham partilhado.  Enquanto ele lhe falava, o 
pensamento dela focou-se de imediato nas  inmeras trocas de olhares que houvera entre eles, na alegria calma,  no riso que parecia no ter fim. e que agora terminaria 
em breve. Bem  l no ntimo, soube desde logo que o que ele dizia era verdade; em  certos aspectos, ela tinha-o querido para si mesma, mas noutros, tinha  medo. 
e os homens da sua vida tinham sido sempre errados para isso. Yael  McBee. Drew Lands. e agora Jack. e os que passaram sem importncia,  pelo meio. Nunca houvera 
ningum que pudesse ter estado perto. Talvez  o pai de Harry tivesse estado, mas isso j acontecera h muito  tempo. 
- Se a oportunidade alguma vez chegar, agarra-a, Tan - prosseguiu ele. -  Desiste de tudo, se for necessrio. Mas, se for o passo certo, no  ters de o fazer.
- O que propes que eu faa? Que saia para a rua com um letreiro:  Casa comigo. Vamos ter filhos? - Os dois desataram a rir por um momento,  como nos velhos tempos.
- Sim, sua parva, porque no?
- Eu amo-te, Harry - disse, desatando a chorar outra vez, e ele  abraou-a com fora.
- Eu no estarei realmente ausente, Tan. Tu sabes disso. Tu e eu  tivemos coisas a mais para alguma vez se perderem. Tal como a Ave e eu  temos, de um modo diferente. 
Eu estarei aqui, a olhar para tudo.
Os dois choravam abertamente, e ela achou que no podia viver sem  ele. Podia imaginar o que Averil sentia. Era o momento mais doloroso das  suas vidas. Durante 
os trs meses
319
seguintes, viram-no a cair lentamente e, num dia quente e soalheiro, com  o Sol bem alto no cu, ela recebeu o telefonema. Era Jack. Estava a  chorar e ela sentiu 
o corao parar. Estivera com Harry ainda na  noite anterior. Ia v-lo todos os dias, houvesse o que houvesse,   hora do almoo ou  noite, ou por vezes antes de 
o dia comear.  Nunca sabia a carga de trabalho que iria ter, mas no podia desistir  das visitas. Ele segurara-lhe na mo e sorrira-lhe, ainda na noite  anterior. 
Mal conseguira falar, mas ela dera-lhe um beijo na face.  Subitamente, lembrou-se do hospital, tanto tempo antes. Queria  ressuscit-lo de novo, obrig-lo a lutar 
pelo que tinha sido, mas  agora j no podia voltar a s-lo e era mais fcil  partir.
- Ele acabou de morrer - disse Jack, e Tana comeou a chorar. Queria  v-lo s mais uma vez. ouvi-lo a rir. ver-lhe aqueles olhos.  No conseguiu falar durante um 
minuto; depois, abanou a cabea e  respirou fundo para lutar contra os soluos.
- Como est a Ave?
- Parece estar bem.
Harrison chegara na semana anterior e ficara com eles, Tana olhou para o  relgio.
- Vou j para l. De qualquer modo, acabei de suspender uma  audincia. - Percebeu que ele ficara tenso com as suas palavras, como  se achasse que ela estava a pavonear-se 
diante de si. Mas foi o que ela  fizera. Era juza do Tribunal Municipal e tinha suspendido uma  audincia. - Onde ests?
- No escritrio. O pai dele acabou de me ligar.
- Ainda bem que ele c estava. Vais para l agora.
- No posso sair j.
Ela anuiu, percebendo que, se lhe tivesse respondido
o mesmo, ele ter-lhe-ia dito algo desagradvel sobre a importncia  que ela julgava ter. J no adiantava, e Harry no conseguira  demov-lo antes de morrer, por 
mais que tivesse tentado. Tivera tanta  coisa para dizer, tanta coisa para partilhar com aqueles que amava. Tudo  terminara to depressa! Tana atravessou Bay Bridge 
com lgrimas a  rolarem rosto abaixo mas, subitamente, foi como se o sentisse ao lado e  sorriu. Ele tinha partido, mas agora estava em todo o
lado. Com ela, com Ave, com o pai os filhos. 
320
- Ol, mido - disse, sorrindo para o ar enquanto
conduzia, e as lgrimas continuaram a correr.
Quando chegou a casa, ele j l no estava. Tinham-no
levado para o prepararem para o funeral, e Harrison estava
sentado na sala, a olhar para o vazio. Parecia ter envelhecido
subitamente; Tana percebeu que ele agora estava com quase
setenta anos. Com o desgosto espelhado no seu rosto ainda
bonito, parecia mais velho do que era. Ela no disse nada; 
      aproximou-se dele e os dois abraaram-se com  fora. Depois disso Averil saiu do quarto, com um simples vestido  preto, o cabelo louro apanhado e o anel de 
casamento, na mo  esquerda. Harry oferecera-lhe algumas coisas bonitas, mas ela
      no colocara nenhuma delas: apenas o desgosto, o orgulho e o seu  amor, enquanto se mantinha rodeada pela vida, pela
casa e pelos filhos que os dois haviam partilhado.  Estava extraordinariamente bonita ali de p e, de uma forma estranha,  
Tana invejou-a. Ela e Harry tinham partilhado algo que
poucas pessoas haviam tido, e valera a pena. Subitamente e
      pela primeira vez na sua vida, sentiu um vazio  enorme. Lamentou no ter casado com ele h muito tempo, ou com
mais algum... Ter-se casado... ter tido filhos...  Sentiu nela
um vazio doloroso que se recusava a ser preenchido. Durante todo o  funeral, no cemitrio onde o deixaram e, depois, 
quando ficou novamente sozinha, sentiu algo que nunca
conseguiria explicar a ningum; e, quando tentou diz-lo a
Jack, ele abanou a cabea e olhou para ela.
- No enlouqueas agora, Tan, s porque o Harry
morreu. - Dissera-lhe que, subitamente, sentia que a sua
vida tinha sido um desperdcio por no ter casado e tido filhos. -  Fiz as duas coisas e, acredita, no mudou nada. No
te enganes, pois nem todos tm o que eles tiveram. Na verdade, nunca  conheci ningum que tivesse, a no ser eles.
E se te casasses  espera disso, ficarias desiludida, porque
no estaria l.
- Como  que sabes? Talvez estivesse. - Ficou desapontada com a  resposta dele.
- Acredita no que digo.
- No podes saber. Tu engravidaste uma garota de vinte e um anos e  s casaste porque foste obrigado.  diferente
de fazermos uma escolha inteligente na nossa idade.
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- Ests a tentar pressionar- me, Tan? - Subitamente olhou-a, furioso,  e todos os seus bonitos traos de homem louro pareceram cados e  cansados. A perda de Harry 
tambm tinha sido dura para ele. - No  me faas isso agora. No  o melhor momento.
- Estou apenas a dizer-te o que sinto.
- Sentes-te na merda, porque o teu melhor amigo acabou de morrer. Mas  no te armes em romntica por causa disso ou do segredo da vida de  casada e com filhos. Acredita 
em mim, pois no  assim.
- Como raio  que sabes? No podes decidir por ningum,  seno por ti. No tentes avaliar as coisas por mim, caramba, Jack!  - Tudo o que sentia comeava, de repente, 
a vir  tona: - s  demasiado medroso para dares seja o que for a algum. Foges sempre  que algum se aproxima demasiado. E sabes que mais? Estou farta de  que me 
acuses o tempo todo por ter sido nomeada juza no ano passado!  
-  isso que achas que fao?
Era um alvio para ambos poderem gritar um pouco, mas havia uma certa  verdade nas palavras dela, as quais atingiram o alvo to duramente  que ele saiu porta fora, 
e ela no o viu durante trs semanas. Foi  o perodo mais longo que se mantiveram voluntariamente afastados  desde que se tinham conhecido, mas nenhum deles telefonou 
ao outro.  No soube nada dele, at a filha chegar  cidade para a sua  visita anual. Tana convidou-a a ficar com ela na cidade. Barb ficou  entusiasmada com a ideia 
e quando, no dia seguinte, chegou sozinha   pequena casa, Tana ficou abismada com as mudanas que se tinham  efectuado nela. Acabara de fazer quinze anos e, subitamente, 
parecia uma  mulher, com linhas longas e esbeltas, uma bela cintura e enormes olhos  azuis, bem como uma montanha de cabelos ruivos.
- Ests ptima, Barb.
- Obrigada, tu tambm ests.
Tana ficou com ela durante cinco dias e at a levou para
o tribunal. S perto do fim-de-semana  que finalmente falaram de  Jack e de como as coisas tinham mudado entre eles.
- Ele agora passa a vida a gritar comigo. - Barbara 
j o tinha notado e no se sentia bem perto dele. - A minha
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me diz que ele foi sempre assim, mas isso no acontecia
quando estavas l, Tan.
- Penso que ele anda muito nervoso.
Tentou desculp-lo por Barb, para que ela no pensasse
que a culpa era sua, mas, na realidade, de vrios motivos: 
Tana, Harry, presses do trabalho. Nada parecia correr bem
a Jack e, quando Tana tentou jantar com ele depois de Barbara regressar  a Detroit, acabou por haver ainda mais brigas.
Discutiram sobre o que Averil devia fazer com a casa. Ele
 achou que ela devia vend-la e mudar-se para a cidade, e Tana  discordou.
      - Aquela casa significa muito para ela. Eles  viveram ali
durante anos. 
- Ela precisa de uma mudana, Tan. No podemos
agarrar-nos ao passado.
- Por que raio temes to desesperadamente agarrar-te a
alguma coisa?  quase como se temesses preocupar-te com
isso.
Ultimamente, notava cada vez mais isso nele. Jack quisera sempre ser  livre e descomprometido, sem nunca se prender. Era de admirar que a  relao deles tivesse 
durado tanto
      tempo, mas certamente no se encontrava na  melhor forma
agora e, no fim do Vero, o destino pregou-lhes  mais uma
partida. Tal como um ano antes lhe fora comunicado, quando lhe  ofereceram o lugar de juza no Tribunal Municipal, 
surgiu uma vaga e ela foi convidada para o Tribunal Distrital. Quase  no teve coragem de dizer a Jack, mas no quis
que ele viesse a saber atravs de outros. A ranger os dentes, 
ligou para ele uma noite. Ela estava na sua pequena e acolhedora casa, a  ler alguns livros de Direito que trouxera consigo a fim de verificar  alguns estatutos 
do cdigo penal; susteve a respirao, quando  ele atendeu o telefone.
- Ol, Tan. O que  que h?
Parecia mais calmo do que nos ltimos meses, e ela
odiou ter de estragar a sua boa disposio, o que sabia que
iria acontecer. E teve razo. Parecia que algum lhe tinha dado um  soco no estmago quando ela lhe disse que a tinham
nomeado juza do Tribunal Distrital.
- Que bom. Quando? - Parecia que ela tinha acabado
de lhe colocar uma cobra junto aos ps.
- Daqui a duas semanas. Vens  minha tomada de posse, ou preferes  no estar l?
- Que raio de coisa para dizeres. Deduzo que preferias
      que eu no fosse. - Era to sensvel  que no se lhe podia dizer nada.
- Eu no disse isso. Mas sei o quanto te aborrece o  meu
trabalho.
- O que  que te faz pensar assim?
- Por favor, Jack... No vamos comear outra vez...
Sentia-se demasiado cansada, depois de um dia exaustivo.
Tudo parecia mais duro, triste e dificil agora que Harry j
no existia. E, com a relao com Jack presa por um fio,  no
era certamente o perodo mais feliz da sua vida. - Espero
que venhas.
- Isso significa que no te verei at l?
      - Claro que no. Podes ver-me sempre que  queiras.
- Que tal amanh  noite? - Foi quase como se  ele estivesse a provoc-la.
      - ptimo. Em tua casa ou na minha? - Deu uma  gargalhada, mas ele no se riu.
- A tua causa-me claustrofobia. Eu apanho-te   porta
da Cmara, s seis horas.
         - Sim, senhor. - Deu um tom de reverncia  voz; 
      mas ele no se riu.
Quando se encontraram no dia seguinte, a  disposio
deles no era das melhores. Ambos sentiam terrivelmente 
a falta de Harry, e a nica diferena era que Tana falava  disso,
mas Jack no. Aceitara outro advogado como scio e parecia 
gostar do homem. Falava muito daquilo e do sucesso que
o scio tivera, bem como do dinheiro que iriam ganhar.
Era bvio que ainda se sentia incomodado por causa do trabalho
de Tana e, na manh seguinte, foi um alvio quando ele
a deixou  porta da Cmara. Nesse fim-de-semana, ia
a Pebble Beach jogar golfe com um grupo de amigos e
no a convidou. Tana sentiu-se aliviada quando subiu as escadas da  Cmara, suspirando. Ele j no lhe facilitava a vida e, de vez  em quando, ela lembrava-se do 
que Harry lhe tinha dito antes de morrer.  Mas no valia a pena pensar em algo permanente com Jack. Ele no  era esse tipo de homem, e
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ela no quis enganar-se mais. No era esse gnero de rapariga.  Fora provavelmente por esse motivo que os dois se haviam dado to  bem, durante tanto tempo. No 
que as coisas ainda funcionassem assim.  O atrito entre eles era quase superior ao que ela podia suportar. Na  verdade, ficou satisfeita ao descobrir que ele ia 
estar em Chicago, em  viagem de negcios, quando ela tomasse posse.
Desta vez, a cerimnia foi curta e simples, presidida pelo juiz  presidente do Tribunal Distrital. Havia cerca de meia dzia de outros  juzes, o seu velho amigo 
procurador, que lhe disse alegremente eu  bem te avisei, bem como umas quantas pessoas suas amigas, excepto  Averil, que estava na Europa com Harrison e os midos. 
Nesse ano,  decidira passar o Inverno em Londres, s para se afastar durante um  tempo, e matriculara os filhos numa escola de l. Harrison  convencera-a a isso 
e pareceu feliz, quando partiu com os netos. Pouco  antes, tinha havido um momento solitrio de dor entre ele e Tana.  Harrison tapara o rosto com as mos e desatara 
a chorar,  perguntando-se se Harry teria sabido o quanto ele o amara, mas ela  garantira-lhe que sim. Olhar pela nora e pelos netos ajudava-o agora a  mitigar a 
sua dor  a sua sensao de culpa. Contudo, Tana  estranhou a ausncia deles na sa tomada de posse e foi estranho  olhar em volta e no ver jack.
Tana j se encontrara com o desembargador que a empossou uma ou duas  vezes ao longo dos anos. Era um homem com cabelos negros e abundantes,  olhos escuros e um 
aspecto que teria assustado qualquer um, quando se  destacou de todos na sua toga escura; mas tambm se ria com  facilidade e era uma pessoa fogosa e surpreendentemente 
meiga. Era  famoso por algumas decises muito controversas que tomara, as quais  tinham sido reproduzidas na imprensa, em especial no New York Times, no  Washington 
Post, assim como no Chronicle. Tana lera muito sobre ele e  calculara o quanto devia ser cruel, mas ficou intrigada ao v-lo  agora menos leo e mais cordeiro, ou 
pelo menos assim o demonstrou na  sua tomada de posse. Conversaram um bocado sobre os seus tempos no  Tribunal Distrital e Tana sabia que ele tambm dirigira o maior 
escritrio de advogados da cidade, antes de
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ser nomeado juiz. Tivera uma carreira interessante, embora ela  suspeitasse que ele no tinha mais de quarenta e oito ou quarenta e  nove anos. Durante muito tempo, 
fora uma espcie de  menino-prodgio e ela achou-o simptico, quando
ele lhe apertou a mo e voltou a felicit-la, antes de se  retirar.
- Estou abismado - disse o seu velho amigo procurador com um sorriso. -   a primeira vez que vejo o Russell Carver numa tomada de posse.  Ests a tornar-te muito 
importante, minha amiga.
- Provavelmente, veio pagar as suas multas de estacio namento e  algum o recrutou. - Ambos deram uma gargalhada. Na verdade, ele era  um amigo ntimo do juiz presidente 
e oferecera os seus  servios.
-Devias t-lo visto quando foi juiz presidente aqui, Tan. Bolas,  meteu um dos nossos delegados na cadeia por desrespeito em tribunal,  durante trs semanas, e eu 
no consegui tirar o desgraado de  l! 
Tana deu uma gargalhada, s de imaginar aquilo.
- Acho que tenho sorte por nunca me ter acontecido o
mesmo.
- Nunca o apanhaste como juiz?
- S duas vezes. J est no Tribunal da Relao h bas  tante tempo.
- Acho que sim. Mas no  muito velho, se bem me lembro. Quarenta  e nove, cinquenta, cinquenta e um... qualquer coisa assim. 
- Quem? - perguntou o juiz presidente quando se aproximou deles e  cumprimentou de novo Tana. 
Foi um dia agradvel para ela e, subitamente, sentia-se feliz por  Jack no estar l. Fora mais fcil assim, pois no ti vera  de suster a respirao ou pedir-lhe 
desculpas.
- Estvamos a falar do desembargador Carver.
- O Russ? Ele tem quarenta e nove anos. Frequentou Stanford comigo. -  Ojuiz presidente sorriu. - Embora tenha de admitir que estava uns anos  atrs. - Na realidad 
ele era caloiro quando o juiz presidente se  formara, mas as famlias eram amigas. -  um tipo fantstico e  bastante 
inteligente.
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- Tem de ser - afirmou Tana, com admirao. Havia outra  possibilidade a encarar. O Tribunal da Relao. Que ideia. Talvez  da a uma ou duas dcadas. Entretanto, 
iria gostar de ali estar. O  Tribunal Distrital era o que lhe interessava naquele momento. Dali a  pouco, iriam mand-la presidir ajulgamentos criminais, uma vez 
que  era especialista nessa matria. - Foi simptico da parte dele vir  hoje  minha tomada de posse. - Sorriu para todos.
-  uma boa pessoa. - Todos diziam o mesmo dele, e Tana enviou-lhe um  pequeno bilhete, agradecendo-lhe por ter transformado a cerimnia num  acontecimento ainda 
mais espectacular. No dia seguinte, ele telefonou-lhe e parecia alegre:  
-  muito educada. H pelo menos vinte anos que no me  engraxavam dessa maneira.
Ela riu envergonhada e agradeceu-lhe o telefonema.
- Foi uma atitude muito simptica. Como ter o papa perto. quando se   ordenado padre.
- Meu Deus. Mas que ideia! Foi isso que fez na semana passada? Retiro  tudo o que disse. 
Ambos se riram e conversaram durante algum tempo. Ela convidou-o a  entrar no tribunal sempre que passasse por ali. Havia uma atmosfera  confortvel no ambiente 
de que agora fazia parte; juzes e  desembargadores, todos a trabalharem juntos. Era como se tivesse chegado  finalmente ao monte Olimpo e, em muitos aspectos, era 
muito mais  fcil do que julgar casos de violadores e assassinos, construir um  caso e defend-lo, apesar de tambm ter gostado disso. Ali, ela  tinha de manter 
a mente mais limpa, um olhar objectivo e nunca tivera de  estudar tanto as leis como agora. Duas semanas mais tarde, encontrava-se  no seu gabinete, mergulhada no 
meio de pilhas de livros, quando o  desembargador Carver aceitou o seu convite e apareceu por l.
- Foi a isto que eu a condenei? - Parou  entrada da porta e  sorriu.
A secretria h muito que j tinha ido para casa e ela estava  concentrada a olhar para os seis livros abertos ao mesmo tempo, a  comparar estatutos e precedentes, 
quando ele entrou.
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- Que bela surpresa - disse ela com um sorriso. Levantou-se rapidamente  e indicou-lhe uma ampla e confortvel
      cadeira de cabedal. - Sente-se, por favor. - Ele  sentou-se, sob o olhar dela. Era bonito, mas de uma forma discreta,  viril e um tanto intelectual. No tinha 
as mesmas caractersticas  de futebolista de Jack. As suas feies eram mais discretas e  muito mais poderosas, tal como ele prprio. - Quer beber alguma  coisa? 
- Ela tinha um pequeno bar escondido para ocasies como  aquela.
- No, obrigado. Tenho muito trabalho para fazer  em
      casa esta noite.
- Tambm? Como consegue fazer tudo?
- No consigo. s vezes, apetece-me sentar e desatar a
chorar, mas isso acaba por passar. Em que  que est a trabalhar  agora?
Ela descreveu-lhe o caso o mais sucintamente possvel e
ele anuiu pensativo.
- Deve ser interessante. Talvez acabe por cair no meu
colo.
Ela deu uma gargalhada.
- Isso no  l um grande voto de confiana, se acha
      que eles iro recorrer da minha  deciso.
      - No, no - explicou ele rapidamente -,  s que estar  num ambiente novo e seja qual for a sua deciso, se eles
no gostarem, recorrem. Talvez tentem at  invert-la. Tenha 
o cuidado de no lhes deixar espao de manobra. - Foi um 
bom conselho e ficaram a conversar mais algum tempo.
Ele tinha uns olhos to escuros e amveis que lhe davam
um ar quase sensual, contrastante com a sua seriedade. Havia muitos  contrastes naquele homem, e ela sentiu-se intrigada com ele. Carver  acabou por acompanh-la 
 rua e ajudou-a a carregar a pilha de  livros at ao carro; ento, pareceu
hesitar.
- Ser que consigo convenc-la a ir comer um hamburger
a qualquer lado?
Ela sorriu-lhe. Simpatizara com ele. Nunca tinha conhecido ningum  assim.
- Talvez, se prometer deixar-me em casa a tempo
de poder trabalhar um bocado.
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Escolheram o Bill's Place, na Clement. O ambiente era
simples e descontrado, com muitos adolescentes, e ningum
podia suspeitar quem eles eram ou qual a importncia dos
seus empregos. Conversaram sobre casos com que tinham
sofrido anos antes e compararam Stanford e Boalt; Tana acabou por  desatar a rir.
- Est bem, est bem, eu cedo. A sua faculdade  melhor do que  a minha.
- Eu no disse isso. - Riu. - Disse que tnhamos uma
melhor equipa de futebol.
      - Bom, pelo menos no tenho culpa disso. -  No tive
nada a ver com o assunto.
- No sei porqu, mas tambm achei que no tinha.
Era relaxante estar com ele. Tinham interesses comuns; 
      amigos comuns e, com isso o tempo voou. Ele  levou-a a casa e estava prestes a arrancar quando ela o convidou  para
tomar uma bebida. Ele ficou surpreendido com a beleza  da
pequena casa e como ela a decorara to bem. Era um verdadeiro  refgio, que fazia qualquer um estender-se por algum
tempo diante da lareira: 
- Sou feliz aqui.
E era, sempre que ficava sozinha. S quando Jack l estava   que se tornava desconfortvel. Mas, em especial agora, 
com Russ ali, era perfeita. Russ acendeu-lhe a lareira e ela
serviu-lhe um copo de vinho tinto. Conversaram durante algum tempo sobre  os familiares e as respectivas vidas. Ela ficou a saber que ele perdera  a mulher dez anos 
antes e que tinha duas filhas jcasadas.
- Pelo menos ainda no sou av. - Russell Carver sorriu-lhe. - A  Beth est a tirar o curso de Arquitectura em
Yale, e o marido estuda Direito. E a Lee  estilista em Nova
Iorque. Na verdade, ela  muito boa nisso e eu tenho muito
orgulho nelas... Mas netos... - Quase gemeu, e ela sorriu-lhe. - Ainda  no estou preparado para isso.
- Algum dia pensou em voltar a casar? - Sentiu-se curiosa acerca dele.  Era um homem interessante.
- No. Penso que nunca me apareceu ningum assim
to importante. - Olhou em redor e, depois, de novo para
      ela. - Sabe como , acomodmo-nos ao nosso  prprio estilo de vida.  dificil mudar tudo isso por  algum.
329
Ela sorriu.
- Suponho que sim. Eu nunca tentei, realmente. Suponho que no sou  muito corajosa. - Por vezes. e lamentava-o. Se Jack lhe tivesse torcido  o brao antes de tudo 
comear a ruir... Olhou para Russ e sorriu.  - Antigamente, o
casamento assustava-me bastante.
- E com razo. , acima de tudo, uma operao incrivelmente  delicada. Mas, quando resulta bem,  maravilhoso. Os olhos brilharam  e foi fcil adivinhar que tinha 
sido feliz
      com a mulher. - S tenho boas  recordaes. - Isso tambm lhe tornara mais difcil pensar  em voltar a casar. - E as
minhas filhas so fabulosas. Ter de as conhecer  um dia.
- Gostaria muito.
Conversaram mais alguns minutos, ele terminou o vinho
e depois saiu. Ela subiu para o seu recanto, com os livros
que ele ajudara a trazer para casa, e trabalhou at muito tarde. No  dia seguinte, desatou a rir quando um paquete do
tribunal apareceu com um sobrescrito na mo. Escrevera-lhe
uma carta muito elogiosa, bastante idntica  que ela lhe enviara.  Tana telefonou-lhe. Tiveram uma conversa muito
mais fcil do que aquela que ela teve com Jack nessa noite.
      Estava de novo com uma disposio hostil e  discutiram por
causa dos planos para o fim-de-semana, de tal modo que  ela
no quis falar mais no assunto e, pacificamente, passou o sbado  sozinha em casa, a rever fotografias antigas, quando a
campainha tocou. Ali estava Russell Carver, a olhar para ela, 
com um ramo de rosas na mo.
- Sei que  uma coisa bastante rude e peo desculpa,  antecipadamente. - Estava muito elegante, em casaco de
tweed e camisola de gola alta, e ela sorriu-lhe, encantada: 
- Nunca ouvi dizer que levar um ramo de rosas a algum fosse rude.  
- Isso serve para compensar o facto de aparecer sem 
avisar, o que  rude, mas estava a pensar em si e no tinha 
o seu nmero de telefone. Julgo que no est na lista e, por  
isso, arrisquei... - Sorriu-lhe, envergonhado, e ela convidou-o a  entrar.
- No tinha absolutamente nada para fazer e fiquei feliz 
por ter aparecido.
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- Estou admirado por encontr-la aqui. Julguei que tinha  sado.
Tana ofereceu-lhe um copo de vinho, e os dois sentaram-se no  sof.
- Na verdade tinha alguns planos, mas cancelei-os.
As coisas andavam impossveis com Jack e ela no sabia o que fazer  em relao a isso. Mais cedo ou mais tarde, teriam de chegar a um  acordo ou acabar com tudo, 
mas no queria pensar nisso agora e, de  qualquer modo, ele estava longe.
- Ainda bem - disse Russ Carver. - Gostaria de ir ao Butterfield  comigo?
- A casa de leiles?
Ficou intrigada; meia hora mais tarde andavam no meio de antiguidades e  peas orientais, conversando sobre diversas coisas. Ele tinha uma  forma de estar que a 
deixava descontrada, e os dois pensavam da  mesma maneira em relao a quase tudo. Ela at tentou  explicar-lhe como era a sua me.
-Julgo que esse  o grande motivo por que eu nunca quis casar.  Pensava constantemente nela ali sentada,  espera que ele lhe  telefonasse. - Odiava aquela recordao, 
mesmo agora.
- Ento, ainda tem mais motivos para querer casar e ter
segurana.
- Mas soube que, nessa altura, ele enganava a mulher. Nunca quis ser  nenhuma das duas. a minha me. ou a mulher a quem ele enganava.
- Deve ter sido difcil para si, Tana.
Ele sabia compreender muitas coisas. Nessa tarde, falou-lhe de Harry  quando deram um passeio pela Union Street. Falou-lhe da amizade que  tinham partilhado, dos 
anos de escola, do perodo no hospital e da  solido que sentia sem ele agora. As lgrimas afloraram-lhe aos  olhos enquanto falava dele, mas tambm havia algo de 
meigo no seu  rosto.
- Ele deve ter sido um homem fantstico. - A voz dele comoveu-a como  uma carcia e ela sorriu-lhe.
- Foi mais do que isso. Foi o meu melhor amigo. Foi notvel. At  mesmo quando morreu, deu qualquer coisa a
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todos, um pedao de si prprio. uma parte dele. Olhou de novo para  Russ. - Gostava que o tivesse conhecido. 
- Eu tambm. - Ento, olhou-a meigamente. - Estava apaixonada por  ele?
Ela abanou a cabea e depois sorriu.
- Ele teve uma paixoneta por mim, quando ramos garotos. Mas a Averil  foi perfeita para ele.
- E para si, Tana? - Russell olhou-a, curioso. Quem foi perfeito para  si? Quem existiu na sua vida? Quem foi o amor da sua vida? - Eram  perguntas estranhas, mas 
pressentia que houvera algum. Era  impossvel que uma rapariga como ela fosse livre. Havia ali um  mistrio qualquer e ele no conseguia descobrir a resposta.
- Ningum. - Sorriu-lhe. - Alguns tiros certeiros, alguns fracassos.  Principalmente, pessoas erradas. No tenho tido muito tempo para  isso.
Ele anuiu.
- Paga-se caro para se chegar onde chegou. Por vezes, pode ser muito  solitrio. - Imaginou se seria por ela, mas ela pareceu-lhe feliz.  Existiria algum agora 
na vida dela? Perguntou-lho.
- Tenho sado com uma pessoa nos ltimos anos. Na verdade,   mais do que isso, julgo. Vivemos juntos durante algum tempo e ainda nos  encontramos. - Fez um sorriso 
forado e olhou fixamente para os olhos  de Russ. - Mas as coisas j no so como eram. Paga-se caro,  para utilizar as suas palavras. Nada foi o mesmo desde que 
fui nomeada  juza, no ano passado. e quando o Harry morreu. tudo piorou ainda  mais entre ns.
-  uma relao sria? - Parecia preocupado e intrigado.  
- Foi, durante muito tempo, mas agora vai de mal a pior. Penso que ainda  estamos juntos por lealdade.
- Ento, ainda esto juntos? - Examinou-lhe cuidadosamente o rosto  e ela anuiu.
Ela e Jack nunca tinham falado realmente em acabar com tudo. Pelo menos  at agora, embora nenhum deles soubesse o que o futuro lhes  reservava.
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- Por enquanto, sim. Serviu-nos aos dois durante muito tempo.  Tnhamos a mesma filosofia de vida. Nada de casamento e nada de  filhos. Desde que ambos concordssemos 
com isso, tudo corria s  mil maravilhas.
- E agora?
Os enormes olhos escuros examinaram os dela, e ela olhou-o, subitamente  ansiosa pelo seu toque, as suas mos, os seus lbios. Era o homem  mais atraente que j 
vira, mas tinha de se conter. Ainda pertencia a  Jack. no pertencia? J no tinha tanta certeza.
- No sei. As coisas mudaram para mim desde que o Harry morreu.  Algumas coisas que ele disse fizeram-me pensar na minha prpria vida.  Quero dizer,  s isto?  
s o que existe? Continuo a partir  daqui, com o meu trabalho. com ou sem Jack. - Russ percebeu a quem ela  se referia. E  tudo? Talvez eu queira mais do futuro 
do que isso.  Antes no pensava assim, mas subitamente penso. Ou, pelo menos, penso  nisso de vez em quando.
-Julgo que est no caminho certo. - Parecia inteligente e sensato e,  em certos aspectos, lembrou-lhe Harrison.
Ela sorriu-lhe.
- Isso  o que o Harry teria dito. - E, depois, suspirou. - Quem  sabe, talvez nem sequer tenha importncia. De repente, tudo acaba e  ento quem se importa se j 
no existirmos. 
- Importa ainda mais, Tana. Eu tambm me senti assim quando a minha  mulher morreu, h dez anos.  dificil ajus tarmo-nos a algo como  isso. Obriga-nos a compreender 
que temos de encarar um dia a nossa  prpria mortalidade. Tudo conta, cada ano, cada dia, cada  relao, se estamos a desperdiar a vida, ou se somos  infelizes. 
Um dia, acordamos e chegou o momento de pagarmos a conta.  Assim, no entre tanto,  melhor sermos felizes. - Calou-se um momento  e         depois olhou para ela. 
-  feliz?
- Feliz? - Hesitou durante um grande bocado e olhou ento para ele. -  No trabalho, sou.
- E no resto?
-Nem por isso, neste preciso momento. Estamos a atravessar um perodo  dificil.
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- Ento, ser que estou a intrometer-me? - Queria saber tudo e,  por vezes, era dificil responder-lhe.
Ela abanou a cabea e olhou para os olhos castanhos que
         comeava a conhecer to bem.
      - No, no est.
- Ainda se encontra com o seu amigo... o tal com
quem viveu durante algum tempo? - Sorriu-lhe, com um
      ar terrivelmente sofisticado e adulto. Ela  sentiu-se quase uma criana ao lado dele.
      - Sim, ainda me encontro com ele de vez em quando.         Quis  perguntar-lhe o porqu da pergunta, mas no se atreveu.
Ento, ele levou-a a sua casa e mostrou-lha. Era de  cortar a respirao. Nada nele sugeria aquela riqueza. Era um
homem simples, fcil, discretamente bem vestido mas, 
quando se via onde morava, compreendia-se quem ele era.
Era uma casa da Broadway, no ltimo quarteiro antes de
      Presidio, com pequenos jardins cuidadosamente  tratados
uma entrada em mrmore esverdeado e  branco-brilhante, 
colunas altas em mrmore, uma cmoda estilo Lus XV com
tampo em mrmore e uma salva de prata para a correspon        dncia  que chegava, espelhos dourados, soalhos de parquet e
      cortinados de cetim a varrerem o cho. O  andar principal 
era composto por uma srie de requintados sales  de recepo. O segundo piso era mais confortvel, com um  enorme
quarto de casal, uma bonita biblioteca com painis de madeira nas  paredes, um recanto acolhedor com lareira em
mrmore e, no andar superior, os quartos das crianas,
que j no eram utilizados.
      - J no faz muito sentido para mim; mas  j aqui estou 
h tanto tempo e detesto mudar...
Ela riu-se e sentou-se. 
- Acho que vou deitar a minha casa abaixo, depois
de ter visto esta. - Mas tambm se sentiu feliz ali. Era outra
vida, outro mundo. Ele no precisava daquilo e ela tambm  no.
De repente, Tana lembrou-se de ter ouvido falar da fortuna  considervel que ele possua e de saber que dirigira 
um lucrativo escritrio de advogados alguns anos antes. O
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homem tinha-se sado bem na vida e no tinha nada que temer dela,  pois Tana no queria nada dele, materialmente. Ele mostrou-lhe com  orglho todas as assoalhadas, 
a sala de bilhar e o ginsio em  baixo, incluindo as espingardas que tinha para a caa aos patos. Era  um homem completo e com muitos interesses. Quando voltaram 
para cima,  virou-se para ela e pegou-lhe na mo, com um ligeiro e cuidadoso  sorriso.
- Sinto-me atrado por ti, Tana. Gostava de te ver mais vezes, mas  no quero complicar-te a vida, neste momento. Dizes-me quando  estiveres livre?
Ela anuiu, espantada com tudo o que tinha visto e ouvido. Pouco depois,  ele levou-a para casa e ela ficou sentada, a
olhar para a lareira na sua sala de estar. Era tal e qual o tipo de  homem sobre quem se l nos livros, ou se v nas revistas.  Subitamente, ali estava ele, no limiar 
da sua vda, a dizer-lhe que  se sentia atrado por ela, a trazer-lhe rosas, a passear com ela por  Butterfield. No sabia o que pensar dele, mas de uma coisa tinha 
a  certeza: tambm se sentia muito atra da por ele.
Este facto dificultou ainda mais as coisas com Jack, nas semanas  seguintes. Tentou passar vrias noites em Tiburon, quase por  sentimento de culpa, e s conseguia 
pensar em
Russ, em especial quando faziam amr. Comeava a ficar to  rabugenta quanto Jack o fora com ela e, por volta do Dia de Aco  de Graas, encontrava-se completamente 
descontrolada. Russ tinha ido  visitar a sua filha Lee e convidara-a para ir com ele, mas isso teria  sido desonesto da parte dela. Tinha de resolver a situao 
com  Jack mas, quando os feriados chegaram, sentia-se nervosa sempre que  pensava nele. Tudo o que queria era estar com Russ, ansiava pelas  conversas calmas, pelos 
longos passeios a p por Presidio, pelas idas  s lojas de antiguidades e galerias de arte, pelos almoos  prolongados em pequenos cafs e restaurantes. Ele trouxera 
algo para  a vida dela que nunca antes existira e pelo qual ela agora ansiava e,  sempre que surgia um problema, era para Russ que ela ligava e no  para Jack. Este 
s lhe gritava. Ainda achava que tinha de a castigar  e agora j se tornava cansativo. Ela no se sentia suficientemente  culpada para suportar aquilo por mais tempo.
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- Porque  que continuas com ele? - perguntou-lhe
Russ, um dia.
- No sei. - Tana olhou desolada para Russ,  hora do
almoo, antes de o tribunal fechar para frias.
      - Talvez porque, na tua mente, ele est  ligado ao teu
      amigo. - Era uma ideia nova para ela, mas achou-a possvel. - Ama-lo,  Tan?
      - No  isso...  que j estamos juntos h tanto  tempo.
      - Isso no  desculpa. Por aquilo que dizes, no s  feliz
com ele.
      - Eu sei. Esse  o lado mais louco. Talvez  seja por achar
que estou segura.
-Porqu? - s vezes, ele era demasiado insistente, 
mas fazia-lhe bem.
- O Jack e eu sempre quisemos as mesmas coisas... Nada de compromissos,  nada de casamento, nada de filhos...
-  disso que agora tens medo?
Respirou fundo e olhou para ele.
- Sim... acho que sim...
- Tana - estendeu o brao e pegou-lhe na mo -, tens
medo de mim? - Lentamente, Tana abanou a cabea e, ento, Russ  disse o que ela mais temia e desejava. Desejava
      desde que o conhecera, desde a primeira vez que  olhara
os olhos dele. - Quero casar contigo. Sabes disso?  abanou a cabea, depois parou e anuiu e ambos desataram
a rir, ela com os olhos cheios de lgrimas.
- No sei o que dizer.
- No tens de dizer nada. Apenas quero que as coisas
fiquem claras para ti. E agora tens de resolver a outra situao,  para teres paz de esprito, qualquer que seja a deciso que  tomares.
- As tuas filhas no iro opor-se? 
- A vida  minha e no delas, no ? Alm disso, 
so fantsticas. No h motivo para se oporem  minha
felicidade. - Tana anuiu com a cabea. Parecia que estava a
viver um sonho.
- Ests a falar a srio?
- Nunca falei to a srio na minha vida. - Os olhos de ambos  encontraram-se e assim ficaram. - Eu amo-te
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muito. - Ainda nem sequer a tinha beijado e ela sentiu-se derretida por  ele.
Quando saram do restaurante, ele puxou-a suavemente para si e  beijou-a nos lbios; ela sentiu-se derreter, enquanto ele a  abraava.
- Amo-te, Russ. - Subitamente, foi to fcil dizer as palavras. -  Amo- te tanto. - Olhou para ele e havia lgrimas nos seus olhos; ele  sorriu- lhe.
- Eu tambm te amo. Agora, vai resolver a tua vida, como uma menina  bonita.
- Talvez leve algum tempo. - Caminharam lentamente em direco   Cmara. Ela tinha de regressar ao trabalho.
- Est bem. Que tal dois dias? - Os dois riram. - Podamos ir  passar as frias ao Mxico.
Ela encolheu-se. J tinha prometido a Jack que iria esquiar com ele.  Mas, agora, tinha de fazer alguma coisa.
- D-me at ao dia um de Janeiro e prometo que terei tudo  resolvido.
- Ento, talvez v para o Mxico sozinho. - Franziu a testa, e  ela olhou preocupada para ele. - Ests preocupada com qu,  boneca?
- Que te apaixones por mais algum.
- Ento, despacha-te. - Deu uma gargalhada e voltou a beij-la,  antes de ela regressar ao tribunal.
Durante toda a tarde, Tana manteve-se sentada com uma expresso  estranha nos olhos e um ligeiro sorriso nos lbios. No conseguiu  concentrar-se em nada e, quando 
viu Jack nessa noite sentiu que o ar lhe  faltava sempre que olhava para ele. Ele quis saber se ela tinha todo o  equipamento de esqui. O apartamento j estava alugado 
e eles iam com  amigos; ento, a meio do sero, ela levantou-se e olhou para  ele.
- O que se passa, Tan?
- Nada. Tudo. - Fechou os olhos. - Tenho de ir. - Agora? - perguntou  furioso. - De novo  cidade? - No. - Sentou-se e desatou a  chorar. Por onde  que devia comear? 
O que  que podia dizer?  Ele tinha-a afastado finalmente, com os ressentimentos pelo trabalho e  sucesso dela, a sua amargura, a sua falta de vontade de se comprometer. 
Ela agora queria algo que ele no tinha para lhe
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dar e sabia que estava a dar o passo certo, mas era difcil.
      Olhou-o com ar infeliz, certa do que estava  agora a fazer.
Quase conseguia sentir Russ sentado de um lado e Harry  do
outro, a incit-la a continuar. - No posso. - Olhou para
Jack e este para ela.
- No podes o qu? - Sentiu-se confuso. Ela no fazia
sentido e isso era pouco vulgar nela.
- No posso continuar assim.
- Porque no?
- Porque no  bom para nenhum de ns. Passaste o
      ano furioso comigo e eu tenho-me sentido muito  mal...
Levantou-se e atravessou a sala, olhando para objectos  familiares. Aquela casa fora parte dela durante dois anos e
agora parecia-lhe a de um estranho. - Quero mais do que
      isto, Jack.
      - Meu Deus! - Ele sentou-se, frioso. - O qu, por
exemplo?
- Algo permanente, como o que o Harry e a Averil
tiveram.
- Eu j te disse que nunca encontrars nada assim. Isso
      foi com eles. E tu no s parecida com a  Averil, Tan.
         - No  desculpa para desistir. Ainda  quero algum
      para o resto da minha vida que seja meu, que  deseje tomar-me perante Deus... e que se torne o homem do resto da minha  vida...
      Olhou-a, horrorizado.
- Queres que me case contigo? Julguei que  tnhamos
concordado... - Olhou-a aterrorizado, mas ela abanou a
cabea e voltou a sentar-se.
- Descansa. Concordmos e no  isso que quero de ti.
Quero acabar, Jack. Acho que chegou o momento.
Ele ficou calado durante um longo momento; nam 
concordava mas, de qualquer modo, sentia-se magoado.
E isso estragava-lhe todos os planos para as frias.
-  por isso que acredito no que fao pois, mais
cedo ou mais tarde, tudo chega ao fim - declarou ele. - Assim
tudo  mais fcil. Eu fao a minha mala e tu fazes a tua.
Despedimo-nos um do outro, sofremos durante algum
tempo mas, pelo menos, nunca mentimos e no arrastamos
connosco um rebanho de filhos.
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- Eu nem sequer tenho a certeza se isso seria terrvel. Pelo menos,  saberamos que valor dvamos um ao outro. Pareceu triste como se  tivesse perdido algum querido, 
e perdera. Tinha gostado dele durante  tanto tempo.
- Ns gostvamos muito um do outro, Tan. E foi bom. - Havia  lgrimas nos olhos dele. Aproximou-se dela e sentou-se. - Se eu  achasse certo, teria casado contigo.
- No seria certo para ti.
- De qualquer modo, nunca serias feliz casada, Tan.
- Porque no? - No queria que lhe dissesse aquilo. No, agora.  No com Russ a querer casar com ela. Era como sentir uma  maldio sobre si. - Porque dizes uma 
coisa dessas?
- Porque no s desse tipo. s demasiado forte. Sabia que era  mais forte do que ele. Mas s recentemente compreendera isso, em  especial desde que conhecera Russ. 
Ele era to diferente de Jack.  To mais forte do que todos os que conhecera antes. Mais forte do que  ela prpria. Finalmente.
- De qualquer modo, no precisas de casar - continuou Jack com um  sorriso amargo -, pois ests casada com a lei. Essa  uma  relao amorosa a tempo inteiro para 
ti.
- No se pode ter as duas coisas?
- Alguns podem. Tu no.
- Magoei-te assim tanto, Jack?
Olhou com pesar para ele. Jack sorriu, levantou-se, abriu uma garrafa de  vinho e ofereceu-lhe um copo. Tana sentiu que nunca chegara a conhecer  aquele homem. Tudo 
era to amargo, to oco. Nada nele era  profundo, e ela ficou a pensar como  que conseguira ficar com ele  tanto tempo, mas fora conveniente. Nunca quisera nada 
profundo durante  aqueles anos. Quisera ser to livre quanto ele. S que agora  crescera e, por mais que o desafio que Russ lhe oferecia a  aterrorizasse, ela queria-o, 
queria-o mais do que tudo o que quisera na  vida. Olhou fixamente para os olhos de Jack e sorriu-lhe, enquanto ele  fazia um brinde.
-  tua, Tan. Boa sorte.
Ela bebeu e, um momento depois, pousou o copo e olhou para ele.
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- Agora, vou-me embora.
- Sim. Telefona-me um dia destes. - Voltou-lhe as costas e ela sentiu  uma dor aguda a atravess-la. Queria abra-lo, mas j era  muito tarde. Para ambos. Tocou-lhe 
nas costas.
- Adeus.
Quando regressou a casa o mais depressa que pde, tomou um banho e  lavou o cabelo, como se estivesse a lavar os dissabores e lgrimas.  Tinha trinta e oito anos 
e ia comear tudo de novo, mas de uma forma  que nunca antes fizera e com um homem diferente dos que conhecera.  Pensou em ligar-lhe nessa noite, mas ainda tinha 
a mente ocupada com  Jack. Subitamente, sentiu receio de dizer a Russ que estava livre.  No lhe disse nada at ao almoo do dia em que ele partiu para  o Mxico; 
olhou para ele e sorriu-lhe, misteriosamente.
- Ests a rir-te de qu, carinha tonta?
- Da vida, acho.
- E isso diverte-te?
- s vezes. Eu. Hum. - Ele riu-se dela e Tana corou bastante. -  Merda. No tornes as coisas ainda mais duras para mim. Ele pegou-lhe  numa mo e sorriu. - O que 
 que ests a tentar dizer? - Nunca  a vira com a lngua to presa. Ela respirou fundo. - Resolvi tudo  esta semana. - Com o Jack? - perguntou ele, admirado, enquanto 
ela  anua com um sorriso envergonhado. - To cedo? - No conseguia  continuar assim. - Ele ficou muito aborrecido? - Russ parecia  preocupado. Ela anuiu, ficando 
triste por momentos. - Sim, mas no o  admitiu. Gosta de manter tudo fcil        e livre. - Ento, sorriu  abertamente. - Diz que eu nunca serei feliz casada. - 
Que bom. - Russ  sorriu e no demonstrou qualquer preocupao. Quando mudares,  certifica-te de que deitas a casa abaixo.  um velho costume entre  alguns homens.
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Acredita, no significa nada. Eu corro os meus prprios riscos,  obrigado. - Russ sorriu-lhe, extasiado. 
- Ainda queres casar comigo? - Tana no conseguia acreditar no que  estava a acontecer-lhe e, por um minuto. apenas um minuto. teve a  tentao de correr de volta 
 sua antiga vida, mas j no  era aquilo que queria. Queria isto. e a ele. queria tanto o casamento  como a carreira, por mais assustador que fosse. Era um risco 
que tinha  de correr. Agora, sentia-se pronta para isso. Levara muito, muito tempo  mas chegara l e sentia-se orgulhosa por isso.
- O que  que achas? Claro que sim - garantiu ele de imediato, e os  seus olhos sorriam-lhe.
- Tens a certeza?
- Tu tens? Isso  o mais importante.
- Talvez devssemos pensar nisso durante algum tempo. - Sentiu-se  subitamente muito nervosa com a ideia de ele se rir dela.
- Quanto tempo? Seis meses? Um ano? Dez anos?
- Talvez mais perto dos cinco. - Ela tambm se ria; olhou para ele. -  No queres filhos, queres? - Ainda no tinha ido to longe.  J era muito velha para isso, 
mas ele apenas abanou a cabea e  sorriu-lhe.
- Tu preocupas-te com tudo, no ? No, no quero ter  filhos. No prximo ms fao cinquenta anos e, alm disso,  j tenho duas. E no, no farei uma vasectomia, 
obrigado, mas  farei tudo o que quiseres para garantir que no te engravido. Est  bem assim? Queres que assine com sangue?
- Sim. - Ambos deram uma gargalhada.
Russ pagou a conta, e saram. Ele abraou-a como nenhum homem o  fizera antes, puxando-lhe o corao atravs da alma, e ela  nunca se sentiu to feliz. Russ olhou 
para o relgio e empurrou-a  para dentro do carro.
- O que  que ests a fazer? - perguntou ela.
- Temos um avio para apanhar.
- Temos? Mas eu no posso. Eu no. 
- O teu tribunal no fechou para frias?
- Sim; mas. 
- O teu passaporte est em ordem?
- Eu. Sim. Penso que est. 
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- Verificarei quando chegarmos a tua casa. Tu vens comigo. Podemos  planear o casamento l. Ligarei s midas. O que achas de  Fevereiro. digamos, daqui a seis semanas?... 
No Dia de So Valentim?   suficientemente banal para ti, Tan?
Ele estava doido e ela. doida por ele. Nessa noite, apanharam o avio  para o Mxico e passaram uma abenoada semana a tomar banhos de  sol e, finalmente, a fazer 
amor. Ele esperara at ela resolver tudo  para sempre com Jack. Quando regressaram, ele ofereceu-lhe um anel de  noivado e comunicaram a todos os amigos. Jack telefonou-lhe, 
quando leu  a notcia nos jornais, e o que disse deixou-a estupefacta.
- Ento foi essa a razo de tudo? Porque no me disseste que te  sentias atrada por outro? Um desembargador, ainda por cima. Deve ser  uma grande promoo para 
ti.
- Isso  maldade. 
- Diz isso a outro. Pensando bem - riu, amargamente -, diz isso ao  juiz.
- Sabes, estiveste to ocupado a tentares no te envolver com  ningum para toda a tua vida que j no distingues o teu rabo  de um buraco no cho. 
- Pelo menos, sei quando estou a enganar algum, Tan. 
- Eu no te enganei.
- Ento, o que estavas tu a fazer, a foder com ele  hora do  almoo? No conta antes das seis horas?
Tana desligou-lhe o telefone, lamentando que tivessem de terminar assim.  Tambm escreveu a Barbara, explicando-lhe que o seu casamento com  Russ era precipitado, 
mas que ele era um homem amoroso e, quando ela  viesse ver o pai no ano seguinte, a porta da sua casa estaria aberta  para ela como sempre. Mas tambm havia muitas 
outras coisas para  fazer. Escreveu a Averil, em Londres, e a me quase teve um ataque  cardaco, quando lhe telefonou. - Est sentada?
- Tana, aconteceu-te alguma coisa! - A me parecia
prestes a chorar. Tinha apenas sessenta anos mas, mentalmente, tinha o  dobro, e Arthur j estava senil aos setenta e quatro, o que era  dificil para ela.
-  algo de bom, me. Algo por que esperava h
muito, muito mesmo.
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Jean olhou para a parede do fundo, segurando o telefone.
- No fao ideia do que seja.
- Caso-me daqui a trs semanas.
- Tu o qu? Com quem? Com esse homem com quem tens vivido estes  ltimos anos? - Nunca gostara muito dele, mas j era tempo de  tomarem uma posio decente no mundo, 
em especial, sendo Tana uma  juza. Mas ia receber um choque.
- No. Com outra pessoa. Um desembargador do Tribunal da  Relao. Chama-se Russell Carver, me. - Contou-lhe o resto e  Jean chorou, sorriu, riu e voltou a chorar
mais.
- Oh, querida. Esperei tanto tempo por isto! 
- Eu tambm. - Tana tambm ria e chorava ao mesmo tempo. - E valeu  a pena ter esperado, me. Espere at o ver. A me vem ao  casamento? Casamo-nos no dia catorze 
de Fevereiro.
- Dia de So Valentim. Oh, minha querida. A data ainda embaraava  Tana, mas parecia divertido, tanto para ela como para Russ. - No o  perderia por nada deste mundo. 
Penso que o Arthur no estar  suficientemente bem para ir e, por isso, no vou poder ficar muito  tempo.
Tinha de organizar milhares de coisas, antes de partir, e mal podia  esperar para desligar o telefone. Ann acabara de se casar pela quinta  vez e, quem queria saber 
disso agora? Tana ia casar! E com um  desembargador do Tribunal da Relao! Ela dissera-lhe que ele  tambm era bonito. Jean andou de um lado para o outro, durante 
toda a  tarde, completamente fora de si. No dia seguinte, teve de ir   cidade, ao Saks. Precisava de um vestido. No. talvez um fato. No  conseguia acreditar que, 
finalmente, acontecera. Nessa noite, rezou  baixinho.

CAPTULO 18
O casamento foi lindo. Celebrou-se na casa de Russ, com um piano e dois  violinos a tocarem uma delicada pea de Brahms, enquanto Tana descia  lentamente as escadas, 
num vestido simples em crepe-da-china  branco-sujo. Levava o cabelo louro solto, coberto por um chapu de  aba larga, um pequeno vu e sapatos brancos. Estavam l 
cerca de  cem pessoas, e Jean ficou a um canto, a chorar copiosamente durante  quase todo o dia. Comprara um bonito fato bege de Givenchy e estava  to orgulhosa 
que fazia chorar Tana, sempre que olhava para ela.
- Feliz, meu amor? - perguntou Russ, olhando-a, apaixonado. Parecia  impossvel que ela tivesse tido a sorte de encontrar um homem como  ele e nunca imaginara vir 
a ter o que partilhava com ele. Era como se  tivesse nascido para ser dele e deu consigo a pensar em Harry, quando  percorreu a nave da igreja. Estou bem, parvalho? 
Fiz tudo certo?  Sorriu, atravs das lgrimas.
Fizeste tudo certo! Sabia que Harry teria ficado doido com Russ, e o  sentimento seria recproco. Sentiu Harry muito perto de si, ali.  Harrison e Averil enviaram-lhe 
um telegrama de felicitaes. As  filhas de Russ tambm l estavam. As duas eram raparigas esbeltas,  atraentes e agradveis, de cujos maridos Tana gostou. Eram 
um grupo  fcil de se gostar e fizeram tudo para a acolher bem. Lee foi  particularmente calorosa no copo-d'gua da sua madrasta; as duas  tinham uma diferena de 
apenas doze anos.
- Graas a Deus, ele teve o bom senso de esperar que ns  crescssemos para se casar de novo - disse Lee, rindo. - Por um lado,  a casa agora est muito mais silenciosa; 
e por outro, no tens de  nos aturar. Ele ficou sozinho durante muito tempo. A Beth e eu estamos  muito gratas por teres casado com ele. Detesto imagin-lo sozinho 
nesta casa. Lee era um tanto cmica e estava maravilhosamente vestida  com uma das suas prprias criaes. Era doida por Russ e louca  pelo marido; Beth idolatrava 
toda a sua famlia. Era o
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grupo ideal e, quando Jean olhou para eles, sentiu-se subitamente grata  por Tana no ter sido suficientemente tonta para ficar caidinha por  Billy, quando ela tentara 
que isso acontecesse. Como Tana fora sensata  em esperar que aquele homem extraordinrio aparecesse na sua vida. E  que vida! A casa era o lugar mais bonito que 
ela j vira, e Tana  sentia-se totalmente  vontade com o mordomo e a governanta que ele  j tinha h anos. Voou de sala em sala, falando com os amigos,  que, na 
brincadeira, a tratavam por Meritssima, e algum at  citou um poema cmico sobre um desembargador e uma juza.
Foi uma tarde maravilhosa, e passaram a lua-de-mel no Mxico,  regressando por La Jolla e Los Angeles. Tana tirara um ms de  frias e, quando regressou, sorria 
para si prpria sempre que  dizia o seu novo nome. Juza Carver. Tana Carver. Tana Roberts  Carver. Tinha adicionado o nome dele a tudo, sem nada dos disparates 
da  emancipao da mulher. Esperara por ele trinta e oito anos, quase  trinta e nove, e resistira ao casamento durante quase quatro dcadas;  se dera aquele passo 
agora, ia gozar de todos os beneficios. Chegava a  casa todas as noites, descansada e feliz por v-lo. De tal forma que  ele, uma noite, brincou com Tana por causa 
disso.
- Quando  que vais comear a portar-te como uma        
verdadeira esposa e ralhar-me um pouco?        
- Acho que me esqueci. - Ele sorriu-lhe e voltaram a        
conversar sobre a sua casa. Tinha pensado em alug-la. Era        
to bonita que ela no a queria vender e, no entanto sabia que  nunca mais voltaria a viver ali. - Talvez acabe por vend-la. 
- E se eu ta alugar para quando a Beth e o John vierem c?
- Seria maravilhoso. - Sorriu-lhe. - Vejamos... podes ficar com ela por  dois beijos e... uma viagem ao Mxico...         
Ele deu uma gargalhada, e acabaram por ficar com a        
casa e alug-la; Tana nunca se sentiu to feliz na vida. E num  daqueles momentos em que tudo parecia estar sob
control quando um dia chocou        
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com algum. Tinha sado a correr do tribunal, a fim de se  encontrar com Russ ao almoo e, subitamente, deu consigo a olhar para  a cara de Drew Lands. Caiu-lhe 
o corao aos ps.  Conversram amigavelmente durante um ou dois minutos. Era incrvel  perceber a dor que ele, um dia, lhe tinha causado. Quando olhou para  ele, 
mal conseguiu record-la. Era ainda mais espantoso perceber que  Julie e Elizabeth tinham dezoito e vinte e dois anos,  respectivamente.
- Santo Deus, j foi assim h tanto tempo? - perguntou ela.
- S pode ter sido, Tan. - A voz soou suave e, subitamente, ela  sentiu-se aborrecida. Percebeu que ele estava a imaginar coisas que  j no eram apropriadas. - 
A Eileen e eu divorcimo-nos h  seis anos. - Com que atrevimento lhe dizia ele aquilo. Com que  atrevimento se divorciara, depois de ter feito Tan sofrer tanto! 
-  pena - retorquiu Tana com frieza; estava a perder o interesse  pelo que ele lhe dizia. No queria chegar atrasada ao encontro com  Russ. Sabia que ele estava 
a trabalhar num caso importante.
- Ena. Ser que. Talvez pudssemos encontrar-nos um dia destes. Eu  agora vivo em So Francisco. 
Ela sorriu-lhe.
- Gostava de te ver um dia destes. Mas, neste momento, o meu marido anda  muito ocupado com um caso importante. - Sorriu-lhe quase malevolamente e  acenou-lhe, murmurando 
algumas palavras que mal se perceberam e  desapareceu.
Russ ainda conseguiu ver a vitria no olhar dela, quando se  encontraram para almoar no Hayes Street Grill. Era um dos lugares  favoritos de ambos, e ela encontrava-se 
muitas vezes com ele ali, para o  beijar numa mesa de canto e comer com agrado o almoo, enquanto as  pessoas lhe sorriam.
- Porque ests tu to satisfeita? - Ele conhecia-a muito bem.
- Nada. - Mas no escondia nada dele e, de qualquer modo, nunca o  conseguiria. - Dei de caras com o Drew Lands, pela primeira vez em quase  sete anos. Que grande 
malvado. Acho que sempre o foi, o merdas! 
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- Ena, ena, o que foi que ele fez para merecer tantos
eptetos?
- Era o homem casado de quem te falei...
- Ah! - Russ pareceu divertido com o fogo no olhar        
de Tana. Sabia que no corria qualquer risco de a perder
para ningum, no por se sentir seguro de si, mas porque
sabia o tipo de amor que partilhavam. Era uma daquelas
coisas raras, muito raras da vida, e ele estava profundamente grato por  isso. Nunca tivera um amor assim por
ningum.
- E queres saber uma coisa? Acabou por divorciar-se da
mulher.
- Era de prever. - Russ sorriu. - E agora queria levar-te a sair de  novo. Certo?
Ele deu uma gargalhada.
- Respondi-lhe que gostaramos muito de o ver um dia
destes e depois desapareci.
-s uma bruxinha. Mas amo-te, de qualquer modo.         
Como correu hoje o tribunal?
- No foi mau. Em breve, vou ter um caso interessante. Vai causar  muita confuso, mas levantar algumas
questes muito intrigantes. Como vai o teu caso monstruoso?
Ele sorriu-lhe.
- Finalmente, estou a conseguir met-lo de volta najaula. E recebi  uma chamada da Lee.
- Como est ela?        
- Bem. - Olhou para a mulher e ela para ele. Havia        
qualquer coisa de estranho no ar.
- Russ, o que se passa? - perguntou, preocupada com
ele. Estava estranho.
- Aconteceu. Finalmente pregaram-me a partida. Vou
ser av. - Parecia simultaneamente feliz e preocupado, e
Tana riu.
- Oh, no! Como  que ela pde fazer-te uma coisa
dessas?
- Foi exactamente o que eu lhe disse! - E, depois, voltou a sorrir para  Tana. - Podes imaginar isso?
- Com alguma dificuldade. Teremos de comprar-te
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uma longa cabeleira postia para condizer melhor. Quando  que ela  tem o beb?
- Em Janeiro. Parece que no dia dos meus anos. Ou no Ano Novo, uma coisa  assim.
Como j se calculava, o beb nasceu no dia de Ano Novo, e Russ e  Tana decidiram que seria engraado voarem para Nova Iorque e  visit-la. Queria ver a sua primeira 
neta, outra menina, como as suas  duas filhas. Russ reservou uma suite no Sherry Netherland, e partiram.  Lee estava alegre mente refastelada no melhor quarto da 
maternidade, e a  filha era doce e rosada; Russell fez os rudos apropriados quando  brincou com a neta e, ao regressarem ao hotel, fez apaixonadamente amor  com 
a mulher.
- Pelo menos, ainda no estou totalmente gag. Qual  a  sensao de fazeres amor com um av, meu amor?
-  ainda melhor do que antes.
No entanto, havia algo de estranho nos olhos dela, quando olhou para  ele, e ele percebeu logo. Ficou muito silencioso e puxou-a para junto de  si, os seus corpos 
nus a tocarem-se. Por vezes, quando alguma coisa a  preocupava muito, ela enterrava-a bem l no ntimo e ele viu-a  fazer isso, naquele momento.
- O que h de errado, querida? - perguntou-lhe ao ouvido, e ela  virou-se para ele, muito admirada.
- O que te faz pensar que existe qualquer coisa de errado?
- Conheo-te muito bem. No consegues enganar um velho como eu.  Pelo menos, quem te ame tanto quanto eu
te amo.
Tentou negar durante muito tempo e depois, para grande
espanto dele, no aguentou mais e desatou a chorar nos seus  braos. Ver Lee e o beb tinha provocado qualquer coisa nela que a  enchia de uma dor muito intensa. 
um vazio. umvazio mais terrvel do  que qualquer outro que ela conhecera.
Ele sentou-se e olhou para ela, admirado com as suas emoes, mas  Tana estava ainda mais abismada do que ele. Nunca imaginara vir a  sentir-se assim.
- Queres ter um filho, Tan?
- No sei. Nunca me senti assim. E j tenho quase
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quarenta anos. J sou velha para isso. - Mas, subitamente, desejava  aquilo mais do que qualquer outra coisa e sentiu-se de novo perseguida  pelas palavras de Harry.
- Porque no pensas nisso e voltamos a conversar? Durante o ms  seguinte, a imagem de Lee e da filha perseguiram-na. Quando regressaram  a casa, comeou a ver mulheres 
grvidas por todo o lado e bebs  em carrinhos por
todos os cantos das ruas; era como se todos tivessem um beb, menos  ela. e havia uma inveja e uma solido tais que ela no sabia como  descrever. Russ viu-lhe isso 
no rosto, mas no voltou a  mencion-lo at ao aniversrio de casamento. Ento, ela foi  dura, o que era raro nela. Foi quase como se doesse de mais falar  daquilo.
- Disseste que j eras muito velho para isso. E eu tambm.
- No, se isso  importante para ti. Talvez me tenha parecido uma  certa loucura no incio, mas consigo sobreviver a ela. Outros homens  fizeram segundas famlias 
na minha idade. Na verdade, at mais  velhos. muito mais
velhos. 
Sorriu. Ele prprio ficara surpreendido com a comoo que  sentira ao ver o beb de Lee nos braos dela e, depois, nos seus  prprios. No se importaria mesmo nada. 
E o filho de Tana  significaria o mundo para si. Mas ela estava cada vez mais sensvel a  isso, at que finalmente ele deixou de tocar no assunto.
Em Maro, foram de novo ao Mxico e passaram umasfrias  fabulosas. Nadaram, pescaram e deitaram-se na praia. Dessa vez, Tana bem  fez o papel de turista, embora 
no se sentisse bem, quando  regressaram.
- Acho que tens trabalhado de mais. - Passara trs semanas engripada  e ele acabou por insistir que fosse vista por
um mdico.
- No tenho tempo para isso.
Estava to cansada e aborrecida e constantemente doente, que acabou  por ir, recebendo o choque da sua vida. Era o
que ela quisera to desesperadamente, mas agora, de sbito, ali  estava. E isso aterrorizou-a. No tinha tempo para isso. Tinha um  emprego importante. Ficaria ridcula. 
Nunca
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quisera aquilo. Russ iria ficar aborrecido com ela. Sentiu-se to  abalada que s foi para casa s sete horas da noite. Assim que a  viu, Russ percebeu que alguma 
coisa acontecera. Contudo, deixou-a  descontrair-se um pouco, arranjou-lhe uma bebida, abriu uma garrafa de  Chteau Latour para acompanhar o jantar; ela no bebeu 
uma gota e  ainda estava tensa quando subiram para o quarto nessa noite; tinha um  olhar estranho. Ele estava cada vez mais preocupado com ela e, assim que  ela 
se sentou, Russ puxou uma cadeira para junto dela.
- Est bem, agora diz-me o que foi que te aconteceu hoje. Ou perdeste  o emprego, ou morreu o teu melhor amigo.
Ela sorriu, envergonhada e visivelmente relaxada, quando ele lhe pegou  na mo.
- Conheces-me bem de mais.
- Ento, faz-me o favor de me inclures nas tuas  confidncias.
- No posso. - J tinha decidido. No ia t-lo. Russ,  porm, no ia continuar a fazer papel de parvo. A voz tornou-se  ameaadora, apareceu a famosa ruga na testa, 
e os joelhos dela teriam  tremido, se no o conhecesse to bem. Pelo contrrio, ela  desatou a rir.
- Sabes, ficas assustador quando me olhas assim. Ele riu, exasperado com  ela.
- A  que est a questo. Agora, fala comigo, caramba. Que  raio se passa contigo?
Olhou para ele durante bastante tempo, baixou os olhos e, depois  ergueu-os de novo.
- No vais acreditar nisto, querido.
- Queres o divrcio.
- No, claro que no. - Sorriu-lhe. De certa forma, ele tornava  sempre as coisas mais fceis. Tinha passado o dia nervosa e ele agora  fazia-a rir.
- Tens um amante?
- Erraste outra vez.
- Foste demitida do cargo.
- Pior do que isso. - Comeava de novo a ficar sria porque, na  sua mente, o que acontecera significava a mesma
350
coisa. Como poderia ela continuar a trabalhar assim? Ento, 
subitamente, as lgrimas afloraram-lhe aos olhos e ela olhou
para ele. - Estou grvida, Russ... 
Por um momento, tudo  volta deles parou; de repente, 
ele puxou-a para os seus braos e desatou a rir, agindo como
se aquilo fosse um caso para ser celebrado e no um suicdio.
- Oh, querida... estou to feliz! - Russ sorriu, absolutamente  radiante, e ela olhou para ele.
- Ests? Pensei que no querias filhos. - Sentia-se abismada. -  Concordmos...
      - Esquece. O nosso beb vai ser to  lindo... Uma menina que seja parecida contigo... - Nunca se sentira  to satisfeito e abraou-a com fora, enquanto ela 
franzia a  testa, 
infeliz. Tinha querido aquilo mas, agora que  acontecera, no
      conseguia imagin-lo.
- Mas isso vai estragar tudo... - Parecia estar  prestes a
chorar e ele sentiu-se ansioso por confort-la.
- O qu, por exemplo.
- O meu trabalho. Como poderei ser juza com um beb ao peito?
Ele riu da imagem.
- S prtica. Trabalhas at  vspera do nascimento e
depois tiras seis meses. Arranjamos uma boa ama e tu voltas
para o trabalho.
-  assim to fcil? - Olhou-o boquiaberta.
- Pode ser to fcil quanto queiras, meu amor. Mas no
 motivo para no teres uma carreira e uma famlia. Talvez
seja um pouco complicado no incio, mas pode ser feito com
um pouco de imaginao. - Sorriu-lhe, comeando a desenhar-se  nos olhos dela um longo e lento sorriso. Havia a
possibilidade de ele ter razo quanto a isso, mas se tinha... se ele  tinha... era o que ela mais queria na vida e queria as duas coisas.  Durante anos, pensara 
que s podia ter uma delas...
Mas queria mais do que apenas o trabalho... queria Russ...
queria o filho... queria tudo... e, subitamente, o vazio que
sentira durante meses, aquela dor, o vazio terrvel, desapareceu de  novo... - Sinto-me orgulhoso de ti, querida. - Ela olhou para ele, e as  lgrimas comearam 
a rolar lentamente, 
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quando lhe sorriu. - Tudo h-de correr bem, vais ver. E vais ficar  com um aspecto maravilhoso.
- Ah! - Ela deu uma gargalhada. - J aumentei trs quilos.
- Onde? - A brincar e a fazer-lhe ccegas, comeou a  procur-los, e Tana deixou-se ficar nos seus braos, dando  gargalhadas.

CAPTULO 19
A juza caminhou pesadamente at ao banco e sentou-se
com cuidado, bateu duas vezes com o martelo e continuou
com o calendrio da manh. s dez horas, o seu oficial de
diligncias levou-lhe uma chvena de ch e, quando se levantou  para o intervalo do meio-dia, mal conseguiu fazer de
novo o percurso at ao seu gabinete. Nessa altura, o bebj
tinha exactamente nove dias de atraso. Ela tencionara parar
de trabalhar duas semanas antes, mas tinha tudo to bem organizado em  casa que decidiu trabalhar at mesmo ao fim.
Nessa noite, o marido foi busc-la  Cmara, abriu-lhe a
porta e sorriu-lhe.
- Como correu o teu dia?
Via-se facilmente o orgulho nos olhos dele, e ela devolveu-lhe o  sorriso. Haviam tido uns tempos maravilhosos, 
mesmo nesses ltimos dias. Ela gostou da oportunidade
de passar os ltimos dias sozinha com ele, embora tivesse de
      admitir que se sentia cada vez mais  desconfortvel. Por volta das quatro da tarde, os tornozelos pareciam  postes de luz e tinha dificuldade em ficar sentada 
muito tempo, mas  no tinha mais nada para fazer.
Ela suspirou.
      - Bem, o veredicto est para sair. Talvez eu  desista no
fim desta semana, quer o beb nasa quer no.  O que achas?
Russ sorriu-lhe, enquanto a levava para casa no novo
Jaguar que acabara de comprar.
      - Acho que  uma ptima ideia, Tan. Sabes  que podes
ficar sem fazer nada, durante dois dias.
- Muito engraado.
Porm, no chegou a ter tempo para isso. As guas rebentaram  s oito horas dessa noite, e ela voltou-se para
Russ, aterrorizada. Sabia que ia acontecer por fim; era agora, 
         e sentiu uma enorme vontade de fugir, mas no sabia para
onde. O seu corpo segui-la-ia para todo o lado. Russ percebeu de  imediato o que ela sentia e tentou confort-la.
- Tudo vai correr bem.
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- Como  que sabes? - perguntou-lhe. - E se eu precisar de uma  cesariana? J tenho cem anos, por amor de Deus! - Na verdade, tinha  quarenta anos e quatro meses. 
Olhou para Russell e desatou a chorar.  Sentia-se aterrorizada, e as contraces comearam quase ao  mesmo tempo que as guas rebentaram.
- Queres deitar-te aqui um bocado, Tan, ou queres ir para a  maternidade?
- Quero ficar aqui.
Ele chamou o mdico, trouxe- lhe um copo de ginger ale, ligou a  televiso aos ps da cama e sorriu para consigo. Ia ser uma longa  noite para eles e esperava que 
tudo corresse bem. Tinha a certeza que ia  correr e sentia-se particularmente excitado. Ela insistira em fazerem  juntos a ginstica pr-parto e, embora no tivesse 
presenciado  o nascimento das suas duas filhas anos antes, ia estar com Tana no  nascimento do filho deles. Tinha-lhe prometido isso e mal conseguia  esperar. Cinco 
meses antes, ela fizera uma amniocentese, mas optaram por  no querer saber o sexo da criana. Russ sentia uma  excitao crescente pelos dois. Por volta da meia-noite, 
Tana  j tinha dormido um pouco e estava de novo calma. Sorriu-lhe e ele  controlou as contraces pelo relgio. s duas da manh,  voltou a ligar para o mdico 
e, desta vez, disseram-lhes para irem  para a maternidade. Tirou a mala dela do armrio da entrada, onde  j se encontrava h trs semanas, ajudou-a a entrar no 
carro e  a sair  porta do hospital, e dirigiu-se com ela l para dentro.  Agora, Tana mal podia andar, e as contraces tiravam-lhe toda a  concentrao, mas aquilo 
no era nada em comparao com  as dores que teve assim que entrou em trabalho de parto, trs horas  depois. Torcia-se de dores na cama da sala de partos, agarrada 
ao  brao de Russ, quando ele prprio comeava a entrar em  pnico. Nunca pensara que seria assim, ela sofria muito e por volta  das oito horas, o beb ainda no 
tinha nascido. O Sol j se  levantara e ela ali estava, com um aspecto horrvel, o cabelo  hmido, os olhos muito dilatados, a olhar para Russ como se ele  pudesse 
fazer alguma coisa. Tudo o que podia fazer era respirar com ela,  pegar-lhe na mo e dizer-lhe o quanto estava orgulhoso; ento,  subitamente, s nove
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horas, todos comearam a correr  sua volta. Empurraram-na para a  sala de partos, levantaram-lhe as pernas, e ela
chorava quando tinha contraces. Foi a pior dor que sentiu
em toda a sua vida, como se estivesse a afogar-se; o mdico
surgiu de repente, Russell desatou a chorar e Tana percebeu
que j no aguentava mais. Queria morrer... morrer... mo...
- J vejo a cabea... Oh, meu Deus... querida... est
      aqui...
E, subitamente, surgiu um rostinho rosado. Russell  chorava; Tana olhou para ele e fez fora, o que obrigou o beb  a
sair do seu ventre. O mdico segurou no beb, enquanto este  comeava a chorar. Cortaram-lhe o cordo umbilical e
ataram-no, limparam rapidamente a criana, fizeram uma
suco nasal, envolveram-no num cobertor quente e entregaram-no a  Russ.
- O seu filho, Russ... - O mdico sorriu para os dois.
Tinham trabalhado tanto, durante tanto tempo, e Tana olhava agora  vitoriosa para ele.
      - Foste fantstico, querido. - A voz dela  soou rouca, e
o rosto estava abatido.
      Ele beijou-a carinhosamente.
- Eu  que fui fantstico?
      Estava profundamente impressionado com o que ela  acabara de fazer. Era o maior milagre que ele jamais vira.
E, aos quarenta anos, ela conseguira tudo. Tudo o que  sempre quisera... tudo... Os olhos dela encheram-se de lgrimas,  quando tentou tocar-lhe. Russ colocou suavemente 
o
beb nos braos dela; da mesma forma como um dia o tinha
colocado no seu ventre.
- Oh; ele  to lindo...
- No. - Russell sorriu-lhe atravs das lgrimas. - Tu
 que s, Tan. s a mulher mais linda do mundo. E, quando olhou  para o filho, disse: - Mas ele tambm 
muito bonito. - Harrison linslow Carver. J h muito tinham  chegado a um acordo quanto ao nome. Viera ao mundo abenoado pelo  nome, pela vida e pelo amor.
Pouco antes do meio-dia; empurraram-na de novo para
      o quarto. Ela sabia que no voltaria a querer  passar por
      aquilo novamente, mas sentia-se feliz por t-lo feito uma
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vez. Russell ficou ali at ela adormecer; o beb repousava na  caminha que puseram para ele ao lado de Tana. Ela abriu os olhos uma  vez, tentando reagir  injeco 
que lhe deram para as  dores.
- Amo-te tanto, Russ. 
Ele anuiu, sorrindo de novo, pois o seu corao seria para sempre  dela, depois daquela noite.
- Chiu. agora dorme. Eu tambm te amo.

CAPTULO 20
Quando o pequeno Harry fez seis meses, Tana olhou desesperada para o seu  calendrio. Tinha de regressar ao trabalho na semana seguinte.  Prometera que regressaria 
e sabia que estava quase na hora, mas ele era  to doce e ela adorava passar a tarde com ele. Os dois deram grandes  passeios e ela ria-se, quando ele sorria. At 
chegaram a ir ao  escritrio de Russ, uma vez por outra. Era uma vida folgada que ela  nunca antes conhecera, mas detestava ter de desistir; contudo, ainda  no 
estava preparada para desistir da carreira.
Assim que regressou ao trabalho, sentiu-se satisfeita por no ter  desistido para sempre. Era bom estar de volta. Os casos, os veredictos,  os jris, as decises, 
a rotina. Era incrvel como os dias  agora corriam depressa e como estava ansiosa por regressar a casa   noite, para Harry e Russ. s vezes, encontrava Russ j 
em casa com  o filho, a gatinhar pelo tapete e a brincar com ele. Harry encantava-os  aos dois e, para eles, era como se fosse a primeira criana a nascer  no mundo. 
Lee meteu- se com eles por causa disso, quando os veio visitar  com Francesca, a sua filhinha; j estava  espera de outro.
- E tu, Tan?
- Na minha idade, o Harry  um milagre suficiente. No vamos  abusar da sorte, obrigada. - Apesar de a gravidez ter corrido sem  problemas, o parto tinha sido mais 
doloroso do que ela imaginara.  Contudo, com o tempo, at isso deixou de parecer to. terrvel  como fora. Os dois estavam muito felizes com o beb. - Se eu tivesse 
a tua idade, talvez, Lee, e mesmo assim. no se pode ter tudo: uma  carreira e dez filhos. - No que isso assustasse Lee. Ela ainda tinha  o seu trabalho e, mesmo 
agora, com o segundo a caminho, planeava  trabalhar at ao ltimo dia e regressar depois. Acabara de receber  o Prmio Coty e no ia desistir disso. No via porque 
teria de  faz-lo. Podia fazer as duas coisas, porque no?
- Como foi o teu dia, querido?
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Atirou a pasta para cima de uma cadeira e dobrou-se para beijar Russ,  enquanto este puxava o beb para os seus braos e ela olhava para  o relgio. Ainda lhe dava 
de mamar trs vezes ao dia, de manh,   tardinha e  noite, e imaginou quando seria a ltima vez que  o faria. Gostava da aproximao que isso criava entre ela 
e a  criana, bem como dos momentos silenciosos no quarto dele s  trs da manh, quando s ela e Harry estavam acordados.  Sentia-se responsvel pelo seu bem-estar 
e isso tambm a  satisfazia, alm de que havia outros benefcios. Tinham-lhe dito  que dificilmente engravidaria de novo, enquanto lhe desse de mamar.
-Julgas que me importava de o fazer at ele ter doze anos? -  perguntou um dia a Russ, e ele respondeu com uma gargalhada. Tinham uma  vida to boa, os dois. Valera 
a pena ter esperado tanto tempo. Pelo  menos, era o que ela dizia agora. Tinha acabado de fazer quarenta e um  anos e ele tinha cinquenta e dois.
- Pareces cansada, Tan. - Russell olhou cuidadosamente para ela. -  Talvez o dar de mamar seja de mais para ti, agora que j regressaste  ao trabalho.
Ela lutou contra a ideia, mas o corpo estava do lado dele, pois,  lentamente, nas semanas seguintes, o leite comeou a secar. Era como  se o seu corpo j no quisesse 
dar mais de mamar a Harry. Quando  foi ao mdico para fazer um exame de rotina, ele pesou-a, apalpou-a,  verificou-lhe os seios e depois afirmou que queria fazer-lhe 
algumas  anlises ao sangue.
- Passa-se alguma coisa? - Olhou para o relgio. s duas horas,  tinha de estar de volta ao tribunal.
- Quero apenas verificar uma coisa. Telefonar-lhe-ei esta tarde. - No  geral, ele achara-a bem, e ela no tinha tempo para se preocupar com  isso.
Tana regressou a correr  Cmara e quando, s cinco horas, o  escrivo lhe fez um sinal, j se esquecera de que estava   espera do telefonema do mdico.
- Ele disse que tinha de falar consigo.
- Obrigada.
Pegou no telefone, anotando algumas coisas enquanto o escutava;  subitamente, parou. No podia ser verdade. Ele
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devia estar enganado. Ela tinha dado de mamar at uma semana antes.  Se. Sentou-se de rompante numa cadeira, agradeceu-lhe e desligou. Merda.  Estava outra vez grvida.
Harry era maravilhoso, mas no queria mais nenhum. Era velha de mais  para isso. tinha a sua carreira. Desta vez, tinha de se desfazer do  beb. era impossvel. 
no sabia o que fazer. Tinha uma  opo, claro, mas o que iria dizer a Russ? Dizer-lhe que tinha  abortado de um filho dele? No podia fazer isso. Passou a noite 
em  claro, sem responder s perguntas dele. Desta vez, no lhe podia  dizer. Tudo estava mal. ela j era muito velha. a sua carreira  significava muito. mas Lee 
ia continuar a carreira, mesmo depois do  segundo filho. Ou seria que isso no significava nada? Devia  demitir-se? Os filhos acabariam por significar mais para 
ela? Sentiu-se  dividida em dez mil pedaos e quando acordou estava com olheiras.  Russ olhou para ela ao pequeno-almoo e, no princpio, no lhe  disse nada. Mas, 
ento, pouco antes de sair, voltou-se para ela.
- Hoje ests ocupada ao almoo, Tan?
- No. que eu saiba, no. - Mas no queria almoar com ele.  Precisava de pensar. - Tenho alguns assuntos que gostaria de ver fora da  minha secretria. - Evitou 
os olhos dele.
- Tu tens de comer. Eu levo-te algumas sandes.
- Est bem.
Sentiu-se uma traidora por no lhe dizer nada quando foi trabalhar.  Teve dzias de pequenos assuntos a entrar e sair
do tribunal e, s onze horas, levantou os olhos para ver umhomem de  olhar diablico, de cabelos frisados e grisalhos a despontarem na  cabea como molas a saltar. 
Tinha colocado uma bomba diante de um  consulado estrangeiro e o assunto tivera de ir a tribunal. Tana  comeou a rever todas as moes e, subitamente, olhou para 
o  nome dele e levantou os olhos, com um sorriso nos lbios. Por uma  razo que nin gum podia compreender no tribunal, teve de se  retirar. O nome do homem era 
Yael MeBee, o amante radical de olhar  diablico que ela tivera no ltimo ano da faculdade em Boalt. O  rapaz que fora para a cadeia por ter colocado uma bomba na 
casa do  presidente da Cmara. No processo
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dele, viu que fora preso duas vezes, desde essa altura. Como a vida era  estranha. H tanto tempo. Isso trouxe Harry imediatamente  sua  mente. e a casinha engraada 
que tinham partilhado. e Averil,  ento to jovem. e a selvagem comunidade hippie que ela visitara  com Yael. Olhou para ele
atravs da sala. Tinha envelhecido. Estava agora com quarenta e seis  anos. Um homem. E ainda a lutar pelas suas causas, de uma forma  indisciplinada. Tinham chegado 
longe, todos eles. este homem e as suas  ideias selvagens. Os seus documentos diziam que era um terrorista. Um  terrorista. E ela era juza. Um caminho interminvel. 
e Harry  desaparecera, bem como todas as suas brilhantes ideias um tanto  ofuscadas, algumas esquecidas, muitas completamente apagadas. Sharon.  Harry. e novas vidas 
no lugar deles. o seu filho, o pequeno Harry, a  quem dera o nome do amigo, e agora este novo beb que trazia no  ventre. Era es pantoso como a vida correra, at 
onde tinham  conseguido chegar, todos eles. Levantou os olhos e viu o marido, ali em  p a olhar para ela, e sorriu-lhe; dispensou o assunto de Yael McBee  do seu 
tribunal, pediu um intervalo para almoo e dirigiu-se com ele  ao seu gabinete.
- Quem era aquele? - Russ pareceu divertido. A juventude de Tana tinha  sido certamente muito mais animada do que a dele e ela comeou a rir,  sentando-se.
- Chama-se Yael McBee, se  que isso significa alguma coisa para ti.  Conheci-o, quando andava em Boalt. - Um amigo teu? - Olhou,  sardonicamente, para ela e
Tana sorriu.
 - Acredites ou no, sim.
- Fizeste um longo percurso desde ento, meu amor. - Era o que eu  estava a pensar. - Ento, ela lembrou-se de outra coisa. Olhou para  ele, hesitante, sem saber 
como ele iria reagir. - Tenho uma coisa para  te dizer.
Ele sorriu-lhe carinhosamente.
- Ests otra vez grvida.
Ela olhou para ele e Russ desatou a rir.
- Como  que sabes? O mdico tambm ligou para ti?
- No. Sou mais inteligente do que isso. Calculei o tempo  noite  e deduzi que acabarias por me dizer. Claro, a
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esta hora j pensaste que a tua carreira chegou ao fim, que teremos  de desistir da casa, que eu irei perder o meu emprego, ou os dois  iremos. - Ela desatou a rir 
e os olhos encheram-se de lgrimas quando  o viu sorrir. - Acertei?
- Em cheio.
- E j te passou pela cabea que, se podes ser juza com m  filho, tambm o podes ser com dois? E uma boa juza.
- Foi o que tinha acabado de me ocorrer, quando entraste.
- Ena ena. - Inclinou-se para lhe dar um beijo e trocaram um olhar que  s a eles pertencia. - Quem diria. Deu-lhe outro beijo cheio de  ternura.
O escrivo entrou, mas saiu apressado, a sorrir para ela, enquanto  Tana agradecia silenciosamente s suas estrelinhas pelo caminho que  seguira, o homem que encontrara. 
as decises que tomara. desde uma  carreira sem nenhum homem ou filho, at tudo o que tinha agora: o  homem, a carreira e o seu filho. Reunira tudo como um ramo 
de flores  silvestres e agora tinha as mos cheias, o corao cheio.  Acabara por fechar o crculo.

Fim
